Matias, vem a Mim!!!
Estou a ir, Senhor, estou a ir.
Matias!!! O mundo está cada vez mais imundo. Vou fazer um format a isto!!!
Um format, Senhor?
Sim!!! Vou lançar um dilúvio sobre a Terra que eliminará todos os animais. E tu vais ser o meu backup!!!
Backup, Senhor?
Sim!!! Construirás uma arca que consiga abrigar a tua família e um casal de cada espécie animal, para repopularem a Terra depois do format.
Uma arca? Um casal de cada espécie?... Senhor...
Sim!!! Uma arca e um casal de cada espécie!!!
Mas Senhor, de todas as espécies???
Sim!!! De todas as espécies!!!
Mas Senhor... incluindo os insectos? São tantos, e nem sempre é fácil distinguir os sexos.
Hum... Pronto!!! Esquece os insectos!!! Eles logo voltam a evoluir, todos sabemos que nem que quiséssemos nos conseguíamos ver livres deles.
Certo Senhor. Mas... e os seres unicelulares, as bactérias, micróbios em geral?
Micróbios?... Não me tinha lembrado desses... Quem me mandou criá-los tão pequenos?... Pronto, esquece também os micróbios, eu depois crio-os outra vez!!!
Tudo bem, Senhor. Mas... Vai ser um bocado complicado apanhar alguns. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos rinocerontes. Como é que eu vou convencer um casal de rinocerontes a entrar na arca?
Matias!!! Desafias as minhas ordens??? Farás o que for preciso!!!
Claro Senhor, claro! Mas a arca terá que ser gigantesca, vai demorar um bocado a construír. E vai ser complicado manter os leões afastados das gazelas...
Terá o tamanho que for preciso, Matias!!! É a vontade do teu deus!!!
Claro, claro. Mas Senhor, Não faria mais sentido construíres tu a arca, já que és omnipotente, e tal?
Matias!!! Estás a esgotar a minha paciência!!! Construirás a arca!!! Cumprirás tudo o que estou a mandar-te fazer!!!
Certíssimo, Senhor. Tudo bem, não é preciso exaltarmo-nos.
Agora vai, Matias!!! Cumpre a vontade do teu criador!!!
Senhor... Estou aqui com uma ideia... Se calhar é estúpida, mas... Não seria infinitamente mais fácil criares as espécies de novo depois do format? Agora, com a experiência até fazias isso em bem menos que sete dias. E a mim é capaz de ainda me demorar um bocado fazer isso tudo.
ZAP!!!!!!
...
Noé, vem a Mim!!!
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
AG8STO
"One of the signs of passing youth is the birth of a sense of fellowship with other human beings as we take our place among them."
Virginia Woolf
http://www.youtube.com/watch?v=Lraipq2FMkg
A Perfect Day Elise
P J Harvey
Virginia Woolf
http://www.youtube.com/watch?v=Lraipq2FMkg
A Perfect Day Elise
P J Harvey
quinta-feira, 12 de julho de 2007
O Caracol - Capítulo 4
Nessa noite sonhei que estava num enorme corredor estranhamente iluminado. Caminhava olhando para ambos os lados, quando noto alguém à minha frente. Acelero o passo para apanhar a pessoa, que caminhava no mesmo sentido, permitindo-me apenas ver as suas costas encurvadas. Aproximo-me e abordo-a tocando-lhe o ombro. Ao deparar-me com o seu rosto assustadoramente hediondo, os olhos esbugalhados pela ausência de pálpebras, no lugar do nariz tinha apenas dois buracos disformes e a ausência de lábios permitia ver os seus dentes afiados e caoticamente dispostos, acordei com um espasmo, como se o medo me tivesse feito saltar imediatamente de volta para a realidade.
Ao virar a cabeça e ver a esfera que tinha tirado do bolso no dia anterior e colocado em cima da mesa-de-cabeceira, lembrei-me imediatamente da louca história do Caracol. Pensei logo que o sonho teria sido originado por ela, tinha ficado com aquilo no subconsciente e não era nada de estranho que tivesse sonhado com coisas esquisitas. Ter percebido isto não conseguiu evitar que tivesse ficado com uma certa inquietude, que me esforcei por ignorar.
Estava a sair de casa quando me apercebi que ao voltar ao quarto para me vestir, instintivamente peguei na esfera e guardei-a no bolso. Achei curioso, parecia que a esfera é que tinha querido vir comigo e, mesmo não acreditando minimamente que aquilo fosse mais que uma mera esfera de aço, a verdade é que senti uma estranha sensação de segurança ao tê-la comigo.
O dia decorreu normalmente. A inquietude acabou por sucumbir, vítima da distracção, e foi só quando voltava para casa que, ao ver ao longe uma velhota vestida com cores muito berrantes, que as coisas transcenderam ligeiramente o banal. Ao aproximar-me comecei a distinguir a sua maquilhagem ridiculamente excessiva. Quase não havia parte do seu rosto que não estivesse pintada, os lábios e as maçãs do rosto estupidamente vermelhos e o branco que ia desde as suas pálpebras até às sobrancelhas, que não eram feitas de pelos, mas sim grosseiramente pintadas a lápis, fariam inveja a qualquer palhaço, achei particularmente piada ao facto de os lábios não estarem pintados até aos cantos da boca, o batom chegava apenas a três quartos do lábio, para cada lado, e o restante estava coberto pela mesma camada de base que cobria o resto do rosto, fingindo assim uma boquinha minúscula que fazia a velhota parecer uma horripilante boneca. Automaticamente lembrei-me da advertência do Caracol e, ao questionar por uma fracção de segundo a se a velhota não seria um deles, senti-me extremamente idiota por ter-me instintivamente sossegado pensando que não poderia ser porque a esfera não estava a reagir.
A tua imbecilidade é inacreditável, disse silenciosamente para mim mesmo, como é que é possível estares a deixar-te influenciar pela história parva de um louco, sim, está bem, ser louco é uma coisa dúbia e bastante relativa, mas a verdade é que sabes que a história é completamente absurda, continuei, não me vais dizer que acreditas naquilo. Não, não acredito, respondi-me, acredita que não acredito, mas um gajo não controla os pensamentos, não tive qualquer controle sobre o que pensei ao ver a velhota, automaticamente me lembrei do Caracol, quanto a isso não posso fazer nada. Mas se te lembraste é porque a história te ficou na cabeça, continuei, argumentando comigo mesmo, tu se calhar não queres acreditar, mas acho que qualquer coisa lá no nosso âmago acredita, acho que caso contrário não estaríamos sequer agora a discutir isto. Não acredito nada, a história só ficou na cabeça pela incomunidade da cena toda, só porque foi tudo muito estranho, só isso. Tudo bem, só estou curioso sobre quão cedo iremos ter esta conversa outra vez, e já agora, embora faça sentido, se considerarmos que “comunidade” também pode significar a característica daquele que é comum, não sei se “incomunidade” existe...
O resto do dia decorreu, obviamente, sem lapsos, e de noite sonhei novamente que estava no corredor da noite anterior, mas desta vez não havia monstros.
Ao virar a cabeça e ver a esfera que tinha tirado do bolso no dia anterior e colocado em cima da mesa-de-cabeceira, lembrei-me imediatamente da louca história do Caracol. Pensei logo que o sonho teria sido originado por ela, tinha ficado com aquilo no subconsciente e não era nada de estranho que tivesse sonhado com coisas esquisitas. Ter percebido isto não conseguiu evitar que tivesse ficado com uma certa inquietude, que me esforcei por ignorar.
Estava a sair de casa quando me apercebi que ao voltar ao quarto para me vestir, instintivamente peguei na esfera e guardei-a no bolso. Achei curioso, parecia que a esfera é que tinha querido vir comigo e, mesmo não acreditando minimamente que aquilo fosse mais que uma mera esfera de aço, a verdade é que senti uma estranha sensação de segurança ao tê-la comigo.
O dia decorreu normalmente. A inquietude acabou por sucumbir, vítima da distracção, e foi só quando voltava para casa que, ao ver ao longe uma velhota vestida com cores muito berrantes, que as coisas transcenderam ligeiramente o banal. Ao aproximar-me comecei a distinguir a sua maquilhagem ridiculamente excessiva. Quase não havia parte do seu rosto que não estivesse pintada, os lábios e as maçãs do rosto estupidamente vermelhos e o branco que ia desde as suas pálpebras até às sobrancelhas, que não eram feitas de pelos, mas sim grosseiramente pintadas a lápis, fariam inveja a qualquer palhaço, achei particularmente piada ao facto de os lábios não estarem pintados até aos cantos da boca, o batom chegava apenas a três quartos do lábio, para cada lado, e o restante estava coberto pela mesma camada de base que cobria o resto do rosto, fingindo assim uma boquinha minúscula que fazia a velhota parecer uma horripilante boneca. Automaticamente lembrei-me da advertência do Caracol e, ao questionar por uma fracção de segundo a se a velhota não seria um deles, senti-me extremamente idiota por ter-me instintivamente sossegado pensando que não poderia ser porque a esfera não estava a reagir.
A tua imbecilidade é inacreditável, disse silenciosamente para mim mesmo, como é que é possível estares a deixar-te influenciar pela história parva de um louco, sim, está bem, ser louco é uma coisa dúbia e bastante relativa, mas a verdade é que sabes que a história é completamente absurda, continuei, não me vais dizer que acreditas naquilo. Não, não acredito, respondi-me, acredita que não acredito, mas um gajo não controla os pensamentos, não tive qualquer controle sobre o que pensei ao ver a velhota, automaticamente me lembrei do Caracol, quanto a isso não posso fazer nada. Mas se te lembraste é porque a história te ficou na cabeça, continuei, argumentando comigo mesmo, tu se calhar não queres acreditar, mas acho que qualquer coisa lá no nosso âmago acredita, acho que caso contrário não estaríamos sequer agora a discutir isto. Não acredito nada, a história só ficou na cabeça pela incomunidade da cena toda, só porque foi tudo muito estranho, só isso. Tudo bem, só estou curioso sobre quão cedo iremos ter esta conversa outra vez, e já agora, embora faça sentido, se considerarmos que “comunidade” também pode significar a característica daquele que é comum, não sei se “incomunidade” existe...
O resto do dia decorreu, obviamente, sem lapsos, e de noite sonhei novamente que estava no corredor da noite anterior, mas desta vez não havia monstros.
quarta-feira, 11 de julho de 2007
segunda-feira, 2 de julho de 2007
O Caracol - Capítulo 3
Bom… disse eu para quebrar o silêncio, pousando a caneca e sacudindo as calças num movimento espontâneo, já se faz tarde, tenho que ir andando. Olhou para mim com estranheza, estava certamente perdido nos seus pensamentos e não estava habituado a ser interrompido. Então e o que é que vais fazer agora que sabes de tudo, perguntou o Caracol. Hum… não sei bem… vou precisar de algum tempo para pensar nisto tudo e organizar as ideias, respondi hesitante, a verdade é que não planeava fazer nada, nem sequer me tinha ocorrido alterar o que quer que fosse na minha vida por causa da mirabolante história daquela pessoa tão peculiar, excepto talvez contar prazenteiramente o acontecimento aos amigos. Fica pelo menos mais atento, disparou rispidamente o Caracol, eu sei que já tenho alguma experiência, mas também não é assim tão difícil perceber quando está para acontecer um lapso, continuou, aquele velho de boné e patins em linha era demasiado óbvio, e aquele cego, acrescentou repentinamente, foge dele a sete pés, ou àqueles que tiveres, porque certamente ninguém terá sete pés, nem sei porque se diz isto, três, vá lá, quatro, em quem nasça com defeitos físicos, mas sete pés é uma estupidez, parou por momentos perdido em pensamentos até que, apercebendo-se que, ao contrário do costume, não estava sozinho, continuou, vê-se logo que aquilo não é um cego normal, muito cuidado com o cego! Sem querer ofender, retorqui suavemente, mas se vou estar a desconfiar de cada coisa estranha que vejo na rua, passo a vida desconfiado, e eu nem sequer sou uma pessoa desconfiada, terminei com um sorriso amarelo, para aligeirar o ambiente; ainda estava com algum receio que o homem desatasse a disparatar, como costuma acontecer com algumas destas pessoas que têm formas de pensar diferentes do que é comum. Acho que já não preciso disto, continuou como se falasse sozinho enquanto tirava do bolso um objecto envolto num trapo, posso dar-ta se prometeres que tentas salvar alguém se presenciares outro lapso, é o mínimo que podes fazer para retribuir. O que é, perguntei. Encontrei-a num sítio onde eles costumam andar, reparei que reage à sua presença vibrando e aquecendo ligeiramente, muito ligeiramente, disse enquanto abria o trapo e retirava uma esfera com cerca de três centímetros de diâmetro, aparentemente daquelas dos rolamentos, que pedíamos nas oficinas quando éramos pequenos. Prometes, perguntou enquanto me estendia o objecto. Não sabia muito bem o que fazer, não fiquei muito empolgado com a ideia de fazer aquela figura e não gostava nada de fazer promessas vãs, mas lá prometi e aceitei a oferta. Para demonstrar algum interesse, perdi algum tempo a observar minuciosamente a esfera, e de facto fiquei surpreendido com a sua perfeição, não tinha qualquer mácula ou sujidade e o reflexo era perfeito, era também bastante leve. Envolvi-a num lenço e guardei-a cuidadosamente, sempre observado pelo seu anterior proprietário. Obrigado, acho, espero que me seja tão útil como foi a ti, mas há ainda uma questão que me escapa, qual é o objectivo deles, perguntei censurando-me logo de seguida, devia era estar a tentar livrar-me daquele filme e ainda estava a dar conversa. Não posso ter a certeza, respondeu, suponho que queiram ocupar a nossa realidade ou qualquer outra coisa assim maléfica, se quiseres aparece cá outro dia e discutimos isso, é sempre bom debater, e confesso que gostei muito de poder partilhar isto com alguém, já quase nem me lembrava de como era ter alguém com quem conversar. Senti alguma pena, por muito que se aprecie a solidão, há sempre momentos em que nos apetece falar com alguém que responda. Perdendo o ímpeto de me ir embora, deixei-me ficar mais um pouco. Sem saber o que dizer e não querendo continuar com a história deles, fiz um comentário inútil sobre meteorologia que saiu muito pouco natural. Não sei se foi por perceber que já só lá estava movido por pena ou se queria realmente ficar sozinho, o Caracol estendeu-se preguiçosamente no saco-cama. Está na minha hora, levanto-me sempre muito cedo, já sabes, se quiseres aparecer para conversar de vez em quando, serás bem-vindo, disse-me em jeito de despedida. Pois, retorqui algo atrapalhado, aquela do tempo tinha saído mal, foi uma futilidade estúpida, uma pessoa que nunca conversa com ninguém não estaria certamente interessada em debater o estado do tempo, também tenho que ir andando, até um dia destes então, e obrigado pelo chá, estava… diferente. Até à próxima, e cuidado, eles andam aí! Tive que me virar de imediato para disfarçar e abafar uma gargalhada, nunca tinha ouvido aquela frase dita tão a sério, e o efeito foi exactamente o oposto, não consegui evitar achar piada. Sem me virar para que não percebesse a minha boa disposição, limitei-me a acenar e afastei-me tentando reviver mentalmente e manter na memória todo aquele curioso episódio, enquanto sentia, com a ponta dos dedos, o volume da esfera no meu bolso, como que para me certificar que tinha mesmo sido real.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
O Caracol - Capítulo 2
Fez um gesto com uma mão para que me aproximasse, enquanto me estendia, com a outra, uma caneca de chá, ao qual tinha já previamente adicionado uma generosa dose do bagaço que guardava com reverência dentro do saco, que, no fundo, continha a sua casa. O xarope para a tosse, chamou-lhe. Aproximei-me e, recolhendo a caneca que me era dirigida, sentei-me no chão à sua frente, como uma criança que espera uma história. Vagarosamente levou a caneca à boca e, sorvendo ruidosamente um trago, respirou fundo com um suspiro, como se tomasse fôlego para a revelação que iria partilhar.
Sabes, começou com um ar grave, nem todas as pessoas são realmente pessoas. Não são realmente pessoas, perguntei com falso espanto, sei que muitas pessoas não são realmente humanas, mas sempre pensei que fossem todas pessoas. Pois não são, retorquiu, muitas delas já deixaram de o ser e são agora um deles, tu também serias se eu não te tivesse salvado, acrescentou arregalando os olhos. E não penses que a pessoa fica lá presa e que pode voltar, continuou, não, a pessoa perde-se para sempre, fica apenas o seu corpo, a casca. A alma, ou consciência ou aquilo que lhe quiseres chamar, que era a pessoa, morre, e de lá ninguém volta. Pois, disse eu pausadamente, isso é muito curioso, mas continuo sem saber quem é que eles são afinal. Para ser sincero, respondeu, não sei exactamente o que eles são, nem de onde vêm, se de outro planeta, de outro tempo ou até mesmo de outro plano de existência, mas posso garantir-te que existem, e são cada vez mais, exclamou. Mas como é que sabes isso, e falaste há bocado de um "lapso", de que é que estavas a falar, perguntei rapidamente. Há já muito tempo que os ando a observar, recomeçou depois de outra inspiração mais profunda, tudo começou quando, por acaso, assisti a um lapso, como eu lhe chamo, que é quando eles se reúnem para arranjar mais corpos. Pelo que já vi, continuou após uma pausa para um gole de chá, eles precisam de reunir-se em grande número para criar condições para que outros deles possam invadir os corpos dos coitados que lá estiverem que ainda não sejam deles. Eu assisti a um desses lapsos e sobrevivi, não sei como nem porquê, mas a verdade é que sobrevivi e fiquei a saber que eles existiam. Então... mas como é que foi, perguntei já com alguma curiosidade genuína. Eles vão-se juntando, ficam muito imóveis e com os olhos muito abertos; quando são suficientes algo acontece que automaticamente mata toda a gente à volta, respondeu elevando a voz, imaginas o meu pavor quando vejo toda a gente, excepto os que estavam feitos estátuas, a cair no chão ao mesmo tempo. E quando os vi todos novamente a levantar-se, perguntou retoricamente já visivelmente empolgado, claro que fiquei completamente petrificado, deixei-me estar quietinho que nem um rato, daqueles que ficam muito quietos, porque também os há bastante irrequietos, pensando bem... acho que até é a grande maioria... porque é que se dirá que se fica quieto que nem um rato... os ratos não são assim tão parados... acho que fica melhor é dizer que fiquei quieto que nem um caracol. Não consegui evitar abrir um sorriso ao ouvir a divagação, obviamente também achava que o termo se adaptava muito mais. Fiquei ali, quietinho como um caracol, disse retomando o discurso sem aparentar ter reparado no aumento da minha boa disposição, e vi-os todos levantar-se, acenar com a cabeça aos outros e saíram todos juntos. Isso é uma história e peras, respondi, à espera que continuasse. Desde aí tenho tentado salvar algumas pessoas, mas foste a primeira que consegui, todas as outras resistiram e acabaram mortas, disse com ar triste. Quem as pode censurar, se calhar não te vês ao espelho há muito tempo, pensei, mas, então e eles nunca te apanharam, foi o que da minha boca apenas se ouviu. Já tentaram, uma vez vieram atrás de mim até quase aqui, mas assim que chegaram perto da nespereira, era vê-los a correr como o diabo da cruz, exclamou com uma ponta de alegria. Também não sei ao certo porquê, mas há algo nas nespereiras que eles não suportam. Não sei se é o cheiro, ou algum químico que elas emanam, mas foi o que me salvou naquele dia e me tem mantido a salvo até hoje. Parece estúpido, não é, perguntou, a nossa única arma conhecida contra eles ser uma nespereira. Limitei-me a responder com um encolher de ombros, não achava que a questão da nespereira fosse tão mais absurda que o resto da história, achei até que se enquadrava. Absurdo mas verdade, continuou acariciando carinhosamente o tronco da nespereira, esta árvore salvou-me a vida, e desde esse dia tenho vivido aqui. Sem saber bem o que dizer, permiti-me alguns momentos de silêncio para saborear a extraordinária história do Caracol.
Sabes, começou com um ar grave, nem todas as pessoas são realmente pessoas. Não são realmente pessoas, perguntei com falso espanto, sei que muitas pessoas não são realmente humanas, mas sempre pensei que fossem todas pessoas. Pois não são, retorquiu, muitas delas já deixaram de o ser e são agora um deles, tu também serias se eu não te tivesse salvado, acrescentou arregalando os olhos. E não penses que a pessoa fica lá presa e que pode voltar, continuou, não, a pessoa perde-se para sempre, fica apenas o seu corpo, a casca. A alma, ou consciência ou aquilo que lhe quiseres chamar, que era a pessoa, morre, e de lá ninguém volta. Pois, disse eu pausadamente, isso é muito curioso, mas continuo sem saber quem é que eles são afinal. Para ser sincero, respondeu, não sei exactamente o que eles são, nem de onde vêm, se de outro planeta, de outro tempo ou até mesmo de outro plano de existência, mas posso garantir-te que existem, e são cada vez mais, exclamou. Mas como é que sabes isso, e falaste há bocado de um "lapso", de que é que estavas a falar, perguntei rapidamente. Há já muito tempo que os ando a observar, recomeçou depois de outra inspiração mais profunda, tudo começou quando, por acaso, assisti a um lapso, como eu lhe chamo, que é quando eles se reúnem para arranjar mais corpos. Pelo que já vi, continuou após uma pausa para um gole de chá, eles precisam de reunir-se em grande número para criar condições para que outros deles possam invadir os corpos dos coitados que lá estiverem que ainda não sejam deles. Eu assisti a um desses lapsos e sobrevivi, não sei como nem porquê, mas a verdade é que sobrevivi e fiquei a saber que eles existiam. Então... mas como é que foi, perguntei já com alguma curiosidade genuína. Eles vão-se juntando, ficam muito imóveis e com os olhos muito abertos; quando são suficientes algo acontece que automaticamente mata toda a gente à volta, respondeu elevando a voz, imaginas o meu pavor quando vejo toda a gente, excepto os que estavam feitos estátuas, a cair no chão ao mesmo tempo. E quando os vi todos novamente a levantar-se, perguntou retoricamente já visivelmente empolgado, claro que fiquei completamente petrificado, deixei-me estar quietinho que nem um rato, daqueles que ficam muito quietos, porque também os há bastante irrequietos, pensando bem... acho que até é a grande maioria... porque é que se dirá que se fica quieto que nem um rato... os ratos não são assim tão parados... acho que fica melhor é dizer que fiquei quieto que nem um caracol. Não consegui evitar abrir um sorriso ao ouvir a divagação, obviamente também achava que o termo se adaptava muito mais. Fiquei ali, quietinho como um caracol, disse retomando o discurso sem aparentar ter reparado no aumento da minha boa disposição, e vi-os todos levantar-se, acenar com a cabeça aos outros e saíram todos juntos. Isso é uma história e peras, respondi, à espera que continuasse. Desde aí tenho tentado salvar algumas pessoas, mas foste a primeira que consegui, todas as outras resistiram e acabaram mortas, disse com ar triste. Quem as pode censurar, se calhar não te vês ao espelho há muito tempo, pensei, mas, então e eles nunca te apanharam, foi o que da minha boca apenas se ouviu. Já tentaram, uma vez vieram atrás de mim até quase aqui, mas assim que chegaram perto da nespereira, era vê-los a correr como o diabo da cruz, exclamou com uma ponta de alegria. Também não sei ao certo porquê, mas há algo nas nespereiras que eles não suportam. Não sei se é o cheiro, ou algum químico que elas emanam, mas foi o que me salvou naquele dia e me tem mantido a salvo até hoje. Parece estúpido, não é, perguntou, a nossa única arma conhecida contra eles ser uma nespereira. Limitei-me a responder com um encolher de ombros, não achava que a questão da nespereira fosse tão mais absurda que o resto da história, achei até que se enquadrava. Absurdo mas verdade, continuou acariciando carinhosamente o tronco da nespereira, esta árvore salvou-me a vida, e desde esse dia tenho vivido aqui. Sem saber bem o que dizer, permiti-me alguns momentos de silêncio para saborear a extraordinária história do Caracol.
Chop Suey!
Wake up,
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die, Die,
Wake up,
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
In my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
Father, Father, Father, Father,
Father/ Into your hands/I/commend my spirit,
Father, into your hands,
Why have you forsaken me,
In your eyes forsaken me,
In your thoughts forsaken me,
In your heart forsaken, me oh,
Trust in my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die,
In my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die.
SYSTEM OF A DOWN
Chop Suey!
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die, Die,
Wake up,
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
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Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
In my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
Father, Father, Father, Father,
Father/ Into your hands/I/commend my spirit,
Father, into your hands,
Why have you forsaken me,
In your eyes forsaken me,
In your thoughts forsaken me,
In your heart forsaken, me oh,
Trust in my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die,
In my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die.
SYSTEM OF A DOWN
Chop Suey!
quarta-feira, 27 de junho de 2007
O Caracol - Capítulo 1
A velha ébria cambaleava pelo passeio. A cada cinco ou seis passos parava, encostava-se ao muro e dava um gole na sagres de litro que trazia envolta num saco de plástico. Creio que o saco servia para disfarçar, e quem sabe não resultaria caso ela não fosse a praguejar sonoramente com o mundo, atraindo a atenção de toda a gente.
Distraí-me a olhar para o velhote, seguramente já bem acima dos sessenta, que, com o seu boné da moda, deslizava descontraidamente na paisagem sobre um par de patins em linha e quando dei por mim estava envolto num mar de gente que se deslocava no sentido inverso. Já quase a sufocar, acelero o passo, abrindo caminho pelo magote e quando me vi livre, encostei-me ao pilar a recuperar o fôlego. Levantando lentamente os olhos do chão, comecei a ver uma bengala de cego, continuando a levantar a cabeça, senti um nó na garganta ao fixar o olhar nos olhos do cego, abertos, completamente brancos! No meio daquele vazio, pareciam olhar para mim, para dentro de mim! Enquanto o arrepio descia pela coluna vertebral já eu corria em direcção à escada como quem foge do demo. Aliviante, uma visão fez-me deixar de sentir que teria, sem querer, atravessado um qualquer portal mágico e aterrado no meio de um filme surrealista.
Era o Caracol. Foi a alcunha que lhe coloquei por andar sempre com aquele saco enorme às costas, que deveria provavelmente conter todas as suas posses materiais. Via-o todos os dias, depois do almoço, quando dava uma volta para fumar um cigarro. Sempre com a casa às costas, como eu gostava de dizer a mim próprio, e com o seu ar pensativo, que de estúpido não tinha nada! Entretinha-me a pensar o que levaria no saco, imagino que pelo menos não tivesse lá uma tesoura, dado o tamanho da barba, que já com o cabelo misturado, lhe chega a meio do peito. Tinha adquirido uma simpatia por ele, que foi consolidada na única vez que se dirigiu a mim, com extrema educação para que, encarecidamente, lhe facultasse um cigarro. O que faria ali a esta hora, pensei.
Perante o meu ar aturdido ao perceber que se dirigia a mim, limitou-se a murmurar que tínhamos que sair dali enquanto me puxava pelo braço. Perplexo, deixei-me levar e só ao fim de algum tempo é que percebi que ainda murmurava. Qualquer coisa relacionada com o facto de ter tido que me salvar. Só abrandou quando chegámos a um beco, onde finalmente me olhou fixamente nos olhos. Não podia deixar-te ali, disse, estava mesmo quase a haver um lapso. Alguém que lá estivesse que não fosse deles, já deve estar morto. Quando disse "deles" a sua voz ficou trémula e, num acto instintivo encolheu a cabeça para dentro dos ombros enquanto olhava para ambos os lados. Quem são eles, perguntei. Shhhhh, ainda não estamos seguros, eles podem ouvir-nos.
Não sabia se seria pelo meu fascínio por aqueles a quem a sociedade apelida de loucos, por terem uma forma de pensar diferente do que é comum, mas a verdade é que me sentia impelido a alinhar na história. Mais até que impelido, parecia que nem o conseguiria evitar. Sei de um sítio seguro, disse o Caracol, enquanto me pegava novamente pelo braço e me levava a passo acelerado para uma qualquer parte incerta.
Visivelmente mais tranquilo, apontou-me um monte de tijolos quando chegámos. Era um beco entre três prédios muito antigos, com uma entrada estreita e um espaço relativamente amplo onde havia uma nespereira de tamanho considerável. Sentei-me nos tijolos enquanto olhava à volta, surpreendido pelo asseio do local.
Bom, disse, trago aqui jantar, hoje já não saio. E pousando o saco no chão, sem dizer mais nenhuma palavra, ante o meu olhar intrigado, começou por retirar um toldo. Preso a duas cavilhas estrategicamente colocadas nas paredes e com outra ponta amarrada na nespereira, rapidamente o toldo se transformou numa tenda. Não é que o Caracol trazia mesmo a casa às costas, pensei sorrindo. Continuou o seu afazer, retirando também um saco-cama, um daqueles pequenos fogões de campismo e um saco mais pequeno, que continha alguns víveres e pequenos utensílios de cozinha. Estendeu o saco-cama, colocou o fogão onde, pela marca no chão era notório ser o seu sítio e, retirando um pequeno púcaro, colocou ao lume uma porção de água obtida de um garrafão habilmente escondido a um canto. Efectuou todo o processo com bastante calma, nem parecia o mesmo de há momentos atrás e, como se se tivesse esquecido que eu ali estava, sem proferir uma palavra. Limitei-me também a observá-lo até que, por fim, retirando uma saqueta de chá, quebrou o silêncio dizendo: Vou fazer-nos um chazinho para ajudar a descontrair. Aqui estamos a salvo, é como se estivéssemos invisíveis para eles. E vai dizer-me quem são eles agora, perguntei. Sim, sim, respondeu, é preciso é ter calma, conto-te tudo durante o chá, e podes tratar-me por tu. Já agora, acrescentou, queres com ou sem cheirinho? Pode ser com, respondi com um sorriso cúmplice. O seu rosto contorceu-se num esgar que interpretei como um sorriso, o primeiro e único que o vi esboçar.
Distraí-me a olhar para o velhote, seguramente já bem acima dos sessenta, que, com o seu boné da moda, deslizava descontraidamente na paisagem sobre um par de patins em linha e quando dei por mim estava envolto num mar de gente que se deslocava no sentido inverso. Já quase a sufocar, acelero o passo, abrindo caminho pelo magote e quando me vi livre, encostei-me ao pilar a recuperar o fôlego. Levantando lentamente os olhos do chão, comecei a ver uma bengala de cego, continuando a levantar a cabeça, senti um nó na garganta ao fixar o olhar nos olhos do cego, abertos, completamente brancos! No meio daquele vazio, pareciam olhar para mim, para dentro de mim! Enquanto o arrepio descia pela coluna vertebral já eu corria em direcção à escada como quem foge do demo. Aliviante, uma visão fez-me deixar de sentir que teria, sem querer, atravessado um qualquer portal mágico e aterrado no meio de um filme surrealista.
Era o Caracol. Foi a alcunha que lhe coloquei por andar sempre com aquele saco enorme às costas, que deveria provavelmente conter todas as suas posses materiais. Via-o todos os dias, depois do almoço, quando dava uma volta para fumar um cigarro. Sempre com a casa às costas, como eu gostava de dizer a mim próprio, e com o seu ar pensativo, que de estúpido não tinha nada! Entretinha-me a pensar o que levaria no saco, imagino que pelo menos não tivesse lá uma tesoura, dado o tamanho da barba, que já com o cabelo misturado, lhe chega a meio do peito. Tinha adquirido uma simpatia por ele, que foi consolidada na única vez que se dirigiu a mim, com extrema educação para que, encarecidamente, lhe facultasse um cigarro. O que faria ali a esta hora, pensei.
Perante o meu ar aturdido ao perceber que se dirigia a mim, limitou-se a murmurar que tínhamos que sair dali enquanto me puxava pelo braço. Perplexo, deixei-me levar e só ao fim de algum tempo é que percebi que ainda murmurava. Qualquer coisa relacionada com o facto de ter tido que me salvar. Só abrandou quando chegámos a um beco, onde finalmente me olhou fixamente nos olhos. Não podia deixar-te ali, disse, estava mesmo quase a haver um lapso. Alguém que lá estivesse que não fosse deles, já deve estar morto. Quando disse "deles" a sua voz ficou trémula e, num acto instintivo encolheu a cabeça para dentro dos ombros enquanto olhava para ambos os lados. Quem são eles, perguntei. Shhhhh, ainda não estamos seguros, eles podem ouvir-nos.
Não sabia se seria pelo meu fascínio por aqueles a quem a sociedade apelida de loucos, por terem uma forma de pensar diferente do que é comum, mas a verdade é que me sentia impelido a alinhar na história. Mais até que impelido, parecia que nem o conseguiria evitar. Sei de um sítio seguro, disse o Caracol, enquanto me pegava novamente pelo braço e me levava a passo acelerado para uma qualquer parte incerta.
Visivelmente mais tranquilo, apontou-me um monte de tijolos quando chegámos. Era um beco entre três prédios muito antigos, com uma entrada estreita e um espaço relativamente amplo onde havia uma nespereira de tamanho considerável. Sentei-me nos tijolos enquanto olhava à volta, surpreendido pelo asseio do local.
Bom, disse, trago aqui jantar, hoje já não saio. E pousando o saco no chão, sem dizer mais nenhuma palavra, ante o meu olhar intrigado, começou por retirar um toldo. Preso a duas cavilhas estrategicamente colocadas nas paredes e com outra ponta amarrada na nespereira, rapidamente o toldo se transformou numa tenda. Não é que o Caracol trazia mesmo a casa às costas, pensei sorrindo. Continuou o seu afazer, retirando também um saco-cama, um daqueles pequenos fogões de campismo e um saco mais pequeno, que continha alguns víveres e pequenos utensílios de cozinha. Estendeu o saco-cama, colocou o fogão onde, pela marca no chão era notório ser o seu sítio e, retirando um pequeno púcaro, colocou ao lume uma porção de água obtida de um garrafão habilmente escondido a um canto. Efectuou todo o processo com bastante calma, nem parecia o mesmo de há momentos atrás e, como se se tivesse esquecido que eu ali estava, sem proferir uma palavra. Limitei-me também a observá-lo até que, por fim, retirando uma saqueta de chá, quebrou o silêncio dizendo: Vou fazer-nos um chazinho para ajudar a descontrair. Aqui estamos a salvo, é como se estivéssemos invisíveis para eles. E vai dizer-me quem são eles agora, perguntei. Sim, sim, respondeu, é preciso é ter calma, conto-te tudo durante o chá, e podes tratar-me por tu. Já agora, acrescentou, queres com ou sem cheirinho? Pode ser com, respondi com um sorriso cúmplice. O seu rosto contorceu-se num esgar que interpretei como um sorriso, o primeiro e único que o vi esboçar.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Paleta
- Não percebo porque sentes a necessidade de me vires com essas tangas.
- Que tangas? Porque é que dizes que são tangas?
- Não é preciso levar à letra. Não quer dizer que seja mentira no seu sentido mais estrito, mas essa é a história que se contaria a qualquer um. Devo referir que é comigo que estás a falar?
- Se fosse outro nem sequer haveria história.
- Acredito. Mas já que há história, podes aproveitar para abrir a guarda e contar a história como ela é. Revelares realmente o que estás a sentir.
- Mas é o que eu estou a fazer. Não tenho culpa que não acredites.
- Não é uma questão de acreditar ou não. Volto a dizer que não estou a falar de mentira, estou a falar de genuinidade.
- Genuinidade?
- Sim. Percebe-se facilmente quando uma pessoa não está a ser genuína, e às vezes nem é preciso conhecê-la bem. Então, quando se conhece a pessoa, percebe-se facilmente quando é que ela está a “dar a paleta”, como se costuma dizer. Há pessoas que são genuínas por natureza, outras são-no apenas com aqueles com quem se sentem mesmo à vontade, mas acho que tu não o és com ninguém. E a questão é que não percebo a necessidade de “dares a paleta” comigo, sabes perfeitamente que eu não te vou julgar.
- Mas como é que sabes que não estou a ser genuíno? Se achas que nunca o fui contigo não podes saber a diferença.
- É daquelas coisas que se percebe. Percebe-se quando as pessoas tiram a máscara. Nota-se.
- Mas nota-se como?
- Bom… esquece lá isso…
- Ok, tudo bem. Vou mas é pedir mais duas.
- Que tangas? Porque é que dizes que são tangas?
- Não é preciso levar à letra. Não quer dizer que seja mentira no seu sentido mais estrito, mas essa é a história que se contaria a qualquer um. Devo referir que é comigo que estás a falar?
- Se fosse outro nem sequer haveria história.
- Acredito. Mas já que há história, podes aproveitar para abrir a guarda e contar a história como ela é. Revelares realmente o que estás a sentir.
- Mas é o que eu estou a fazer. Não tenho culpa que não acredites.
- Não é uma questão de acreditar ou não. Volto a dizer que não estou a falar de mentira, estou a falar de genuinidade.
- Genuinidade?
- Sim. Percebe-se facilmente quando uma pessoa não está a ser genuína, e às vezes nem é preciso conhecê-la bem. Então, quando se conhece a pessoa, percebe-se facilmente quando é que ela está a “dar a paleta”, como se costuma dizer. Há pessoas que são genuínas por natureza, outras são-no apenas com aqueles com quem se sentem mesmo à vontade, mas acho que tu não o és com ninguém. E a questão é que não percebo a necessidade de “dares a paleta” comigo, sabes perfeitamente que eu não te vou julgar.
- Mas como é que sabes que não estou a ser genuíno? Se achas que nunca o fui contigo não podes saber a diferença.
- É daquelas coisas que se percebe. Percebe-se quando as pessoas tiram a máscara. Nota-se.
- Mas nota-se como?
- Bom… esquece lá isso…
- Ok, tudo bem. Vou mas é pedir mais duas.
terça-feira, 19 de junho de 2007
O Livro
O zumbido era quase inaudível, mas estava lá. Bastava que parasse por apenas um segundo para imediatamente se aperceber. Já nem sequer conseguia dormir, e quem sabe até talvez viver, sem a companhia daquele zumbido.
Além dele, apenas o mar estava lá para confortar a sua solidão, solidão que amava e odiava, como se de um ser vivente se tratasse.
O mar… velho e fiel companheiro, repleto dos fantasmas de velhos marinheiros que apenas ali conheceram um lar e que, por vezes, também o visitavam.
Nunca tinha tido jeito para as pessoas, nunca tinha conseguido conversar com ninguém como o fazia com as ondas, que incansáveis insistiam em entregar-se às rochas lá em baixo. Apesar de só, sentia-se seguro ali. Mais que seguro, sentia-se pleno, estava no seu mundo, pequeno, mas seu...
O livro já me estava a chatear, portanto mandei-o para um canto e fui jogar playstation!
Além dele, apenas o mar estava lá para confortar a sua solidão, solidão que amava e odiava, como se de um ser vivente se tratasse.
O mar… velho e fiel companheiro, repleto dos fantasmas de velhos marinheiros que apenas ali conheceram um lar e que, por vezes, também o visitavam.
Nunca tinha tido jeito para as pessoas, nunca tinha conseguido conversar com ninguém como o fazia com as ondas, que incansáveis insistiam em entregar-se às rochas lá em baixo. Apesar de só, sentia-se seguro ali. Mais que seguro, sentia-se pleno, estava no seu mundo, pequeno, mas seu...
O livro já me estava a chatear, portanto mandei-o para um canto e fui jogar playstation!
terça-feira, 5 de junho de 2007
Como a mulher do 2º frente lixou a vida a toda a gente
Então não é que o raio do homem do R/C direito queria ocupar-me a arrecadação à força? Tinha que andar sempre com trancas e com problemas por causa dele. Uma vez estava eu lá dentro e ele do lado de fora a tentar arrombar a fechadura, tive que sair de lá com um pau e ameaçá-lo e mesmo assim a saga continuou. Como a casa dele era maior que as outras, não tinha direito a arrecadação, mas a sua pequena mente começou a fantasiar em ficar com a arrecadação por baixo da casa dele para abrir um buraco de uma para outra, e eu é que fui o azarado que teve que apanhar com ele.
A coisa lá mudou quando se foi embora do R/C esquerdo o polícia que veio da terra com os cinco filhos e não se adaptou à cidade, foi para lá morar um gigantesco curandeiro africano, professor Mandonga ou qualquer coisa assim, que, com o seu tamanho e o olhar esbugalhado que fixava nas pessoas, conseguiu impor respeito no prédio. Bom, respeito não era bem, era mesmo medo, mas a verdade é que o imbecil do R/C direito amansou e quase nunca mais se ouviu. A velhota do 1º frente garantia que o curandeiro lhe tinha feito algum feitiço, que lhe tinha até roubado a virilidade e, embora mais ninguém admitisse acreditar, foi suficiente para que se iniciasse o burburinho.
Claro que tudo se tornou bastante óbvio quando veio o corrupio. Se ele feitiçava ou não, não sei, mas sei que era um entrar e sair constante de clientela. O perfil ficou completo quando se tornou óbvio que espancar a mulher, uma negra espaçosa que fazia lembrar as antigas estátuas de deusas da fertilidade, era um dos hábitos que mantinha com empenho.
Mas as coisas só começaram a tornar-se mesmo surreais quando a mulher do 2º direito, aquela que poisa as mamas em cima da barriga... Coitada, estava a atravessar um período de grande dificuldade financeira e lá tinha conseguido arranjar um dinheirinho para comprar um bacalhau, para fazer pastéis para vender e conseguir começar a ter algum rendimento, o marido chega a casa, não se sabe bem como, apanha o dinheiro e, qual génio, vai comprar outro televisor. A mulher ficou tão estarrecida com tamanha cretinice e tão desolada com o desaparecer do dinheiro que tanta falta lhe fazia, que nunca mais foi a mesma... Se meteu com o africano.
Era a mulher do 2º direito que não largava o africano, por muito que a sua mulher lhe batesse, e acreditem que não era pouco. Era o africano a bater na negra porque esta não parava de o chatear. Era o africano a bater também na mulher do 2º direito porque também ela não parava de o chatear. Só o marido da mulher do 2º direito é que, apesar de com isso se estar a assumir como corno manso, teve a sagacidade de se manter à margem de toda aquela história e mesmo assim não se livrou de sentir o peso da mão do africano quando este, já cego de ira e farto de bater na mulher dele, achou que o marido também merecia uma valente chapada por não saber controlar a sua mulher. Controle este que, de forma a evitar novas chamadas de atenção, começou a ser implementado à força de vergastada. A mulher continuava a não largar a porta do africano, mas não estava preocupado com isso, dava-se por satisfeito por, pelo menos o africano não poderia alegar ser por falta de porrada.
Seria de pensar que as coisas não se podiam complicar mais, mas não era verdade. O clímax foi atingido quando o homem do 1º esquerdo, que era pianista, começou a ficar sem condições para praticar. Ainda me lembro da maravilhosa sensação que era entrar no prédio e ouvir baixinho uma tocata de Bach ou uma valsa de Strauss. Agora apenas se ouviam gritos e ruído. Já no limite da sua paciência decidiu envolver a polícia. Foi aí que as coisas se tornaram realmente complicadas. Em vez de resolverem o problema do barulho e tentarem pôr ordem naquela gente, deram ouvidos à mulher do 2º frente, divorciada, ressabiada e revoltada com a humanidade, que lhes disse que o homem do 1º direito cultivava plantas estranhas e saia frequentemente com pacotes suspeitos debaixo do braço. Ignorado as razões que os tinham levado lá, começaram então, desconfiados, a chatear o pobre do homem do 1º direito. Quando o abordaram e ele lhes disse que era biólogo, que fazia experiências com trigo e o conteúdo do pacote era farinha, reagiram como lhes tivesse dito que era produtor de droga. Lá infernizaram a vida ao homem até se ter provado em tribunal que de facto não havia nenhuma ilegalidade nas suas actividades e, despeitados, processaram-no por dois CDs piratas que tinha em casa. Passaram então a ser verbalmente ofendidos de forma eloquente pela velhota do 1º frente, revolucionária radical, cujo ódio à autoridade apenas precisava de uma desculpa para libertar a sua afiadíssima língua. Conclusão: a confusão normal manteve-se, a única diferença era que aumentava consideravelmente quando a polícia aparecia por lá, ameaçando mesmo levar toda a gente do prédio para a esquadra.
Foi aí que percebi que tinha que me mudar.
A coisa lá mudou quando se foi embora do R/C esquerdo o polícia que veio da terra com os cinco filhos e não se adaptou à cidade, foi para lá morar um gigantesco curandeiro africano, professor Mandonga ou qualquer coisa assim, que, com o seu tamanho e o olhar esbugalhado que fixava nas pessoas, conseguiu impor respeito no prédio. Bom, respeito não era bem, era mesmo medo, mas a verdade é que o imbecil do R/C direito amansou e quase nunca mais se ouviu. A velhota do 1º frente garantia que o curandeiro lhe tinha feito algum feitiço, que lhe tinha até roubado a virilidade e, embora mais ninguém admitisse acreditar, foi suficiente para que se iniciasse o burburinho.
Claro que tudo se tornou bastante óbvio quando veio o corrupio. Se ele feitiçava ou não, não sei, mas sei que era um entrar e sair constante de clientela. O perfil ficou completo quando se tornou óbvio que espancar a mulher, uma negra espaçosa que fazia lembrar as antigas estátuas de deusas da fertilidade, era um dos hábitos que mantinha com empenho.
Mas as coisas só começaram a tornar-se mesmo surreais quando a mulher do 2º direito, aquela que poisa as mamas em cima da barriga... Coitada, estava a atravessar um período de grande dificuldade financeira e lá tinha conseguido arranjar um dinheirinho para comprar um bacalhau, para fazer pastéis para vender e conseguir começar a ter algum rendimento, o marido chega a casa, não se sabe bem como, apanha o dinheiro e, qual génio, vai comprar outro televisor. A mulher ficou tão estarrecida com tamanha cretinice e tão desolada com o desaparecer do dinheiro que tanta falta lhe fazia, que nunca mais foi a mesma... Se meteu com o africano.
Era a mulher do 2º direito que não largava o africano, por muito que a sua mulher lhe batesse, e acreditem que não era pouco. Era o africano a bater na negra porque esta não parava de o chatear. Era o africano a bater também na mulher do 2º direito porque também ela não parava de o chatear. Só o marido da mulher do 2º direito é que, apesar de com isso se estar a assumir como corno manso, teve a sagacidade de se manter à margem de toda aquela história e mesmo assim não se livrou de sentir o peso da mão do africano quando este, já cego de ira e farto de bater na mulher dele, achou que o marido também merecia uma valente chapada por não saber controlar a sua mulher. Controle este que, de forma a evitar novas chamadas de atenção, começou a ser implementado à força de vergastada. A mulher continuava a não largar a porta do africano, mas não estava preocupado com isso, dava-se por satisfeito por, pelo menos o africano não poderia alegar ser por falta de porrada.
Seria de pensar que as coisas não se podiam complicar mais, mas não era verdade. O clímax foi atingido quando o homem do 1º esquerdo, que era pianista, começou a ficar sem condições para praticar. Ainda me lembro da maravilhosa sensação que era entrar no prédio e ouvir baixinho uma tocata de Bach ou uma valsa de Strauss. Agora apenas se ouviam gritos e ruído. Já no limite da sua paciência decidiu envolver a polícia. Foi aí que as coisas se tornaram realmente complicadas. Em vez de resolverem o problema do barulho e tentarem pôr ordem naquela gente, deram ouvidos à mulher do 2º frente, divorciada, ressabiada e revoltada com a humanidade, que lhes disse que o homem do 1º direito cultivava plantas estranhas e saia frequentemente com pacotes suspeitos debaixo do braço. Ignorado as razões que os tinham levado lá, começaram então, desconfiados, a chatear o pobre do homem do 1º direito. Quando o abordaram e ele lhes disse que era biólogo, que fazia experiências com trigo e o conteúdo do pacote era farinha, reagiram como lhes tivesse dito que era produtor de droga. Lá infernizaram a vida ao homem até se ter provado em tribunal que de facto não havia nenhuma ilegalidade nas suas actividades e, despeitados, processaram-no por dois CDs piratas que tinha em casa. Passaram então a ser verbalmente ofendidos de forma eloquente pela velhota do 1º frente, revolucionária radical, cujo ódio à autoridade apenas precisava de uma desculpa para libertar a sua afiadíssima língua. Conclusão: a confusão normal manteve-se, a única diferença era que aumentava consideravelmente quando a polícia aparecia por lá, ameaçando mesmo levar toda a gente do prédio para a esquadra.
Foi aí que percebi que tinha que me mudar.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Nevrostalgia
– Doutor, quero apagar todas as minhas recordações boas.
– Como??? Apagar as recordações boas??
– Sim, quero eliminar todas as minhas recordações agradáveis!
– Mas isso além de absurdo é muito perigoso. Os equipamentos para manipulação de memórias ainda não são cem por cento fiáveis, principalmente num caso em que será necessária uma extrema precisão na selecção das memórias a eliminar. Do meu conhecimento, estes processos são apenas usados em casos traumáticos graves, e nesse caso a memória do trauma é facilmente distinguível por entre as outras.
– Quer portanto dizer que é possível.
– Os riscos do que me está a pedir podem ir desde eliminarmos memórias que não queríamos, até ficar num estado vegetativo. Possivelmente até mesmo a morte!
– Estou disposto a correr qualquer risco! Não aguento mais.
– Não consigo conceber porque uma pessoa poderá querer eliminar as suas boas recordações, muito menos correndo o risco de ficar com graves danos cerebrais. Além do mais, seria um processo extremamente moroso e dispendioso.
– Não aguento mais a nostalgia, doutor; as minhas boas recordações fazem-me sofrer. Eu gosto de me divertir, gosto do momento em que me divirto; mas lembrar-me posteriormente desse momento faz-me sofrer desmesuradamente, e quanto mais feliz for a recordação, pior! E porquê? Não preciso da recordação de um momento feliz, basta-me viver o momento e depois não me lembrar mais disso. Para quê a recordação se apenas nos traz nostalgia.
– Creio que começo a compreender, mas a verdade é que é impossível prever o efeito de um processo desses. Como se comportará um cérebro humano desprovido de qualquer memória agradável? Pode entrar numa espiral depressiva, ficar até com tendências suicidas, por exemplo.
– Certo, também não é preciso serem todas as recordações agradáveis, só aquelas mesmo, mesmo boas, as que deixam saudade. Podem perfeitamente ficar aquelas menos importantes, coisas que achei piada, conversas, etc. Momentos agradáveis, mas que não tenham sido tão marcantes. Só não quero as que me fazem sofrer por querer vivê-las novamente e não poder.
– Sabe, essa ideia que ao princípio me pareceu completamente absurda, começa a fazer cada vez mais sentido. Creio até que, activando a memória e registando a sua reacção a ela, conseguimos distinguir bastante bem as que o fazem sofrer. Talvez a selecção não seja tão difícil como imaginei.
– Por favor, doutor. A minha felicidade depende disso!
– Isto de facto não é tão estúpido como parece, quem sabe não estamos a inventar um processo que se tornará corrente. Deve haver mais gente com esse desejo… Realmente… Para que é que eu quero recordações que me deixam melancólico? Se não me lembrar delas também não lhes sinto a falta… Sabe, acho que alinho consigo. Vou também submeter-me a isso!
– Como??? Apagar as recordações boas??
– Sim, quero eliminar todas as minhas recordações agradáveis!
– Mas isso além de absurdo é muito perigoso. Os equipamentos para manipulação de memórias ainda não são cem por cento fiáveis, principalmente num caso em que será necessária uma extrema precisão na selecção das memórias a eliminar. Do meu conhecimento, estes processos são apenas usados em casos traumáticos graves, e nesse caso a memória do trauma é facilmente distinguível por entre as outras.
– Quer portanto dizer que é possível.
– Os riscos do que me está a pedir podem ir desde eliminarmos memórias que não queríamos, até ficar num estado vegetativo. Possivelmente até mesmo a morte!
– Estou disposto a correr qualquer risco! Não aguento mais.
– Não consigo conceber porque uma pessoa poderá querer eliminar as suas boas recordações, muito menos correndo o risco de ficar com graves danos cerebrais. Além do mais, seria um processo extremamente moroso e dispendioso.
– Não aguento mais a nostalgia, doutor; as minhas boas recordações fazem-me sofrer. Eu gosto de me divertir, gosto do momento em que me divirto; mas lembrar-me posteriormente desse momento faz-me sofrer desmesuradamente, e quanto mais feliz for a recordação, pior! E porquê? Não preciso da recordação de um momento feliz, basta-me viver o momento e depois não me lembrar mais disso. Para quê a recordação se apenas nos traz nostalgia.
– Creio que começo a compreender, mas a verdade é que é impossível prever o efeito de um processo desses. Como se comportará um cérebro humano desprovido de qualquer memória agradável? Pode entrar numa espiral depressiva, ficar até com tendências suicidas, por exemplo.
– Certo, também não é preciso serem todas as recordações agradáveis, só aquelas mesmo, mesmo boas, as que deixam saudade. Podem perfeitamente ficar aquelas menos importantes, coisas que achei piada, conversas, etc. Momentos agradáveis, mas que não tenham sido tão marcantes. Só não quero as que me fazem sofrer por querer vivê-las novamente e não poder.
– Sabe, essa ideia que ao princípio me pareceu completamente absurda, começa a fazer cada vez mais sentido. Creio até que, activando a memória e registando a sua reacção a ela, conseguimos distinguir bastante bem as que o fazem sofrer. Talvez a selecção não seja tão difícil como imaginei.
– Por favor, doutor. A minha felicidade depende disso!
– Isto de facto não é tão estúpido como parece, quem sabe não estamos a inventar um processo que se tornará corrente. Deve haver mais gente com esse desejo… Realmente… Para que é que eu quero recordações que me deixam melancólico? Se não me lembrar delas também não lhes sinto a falta… Sabe, acho que alinho consigo. Vou também submeter-me a isso!
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Postal dos Correios
Faltavam apenas dois dias para o fim do prazo em que seria suposto a encomenda chegar. Por acaso desta vez nem estava muito ansioso, estava até mentalizado que poderia ficar retida na alfândega, demorando bastante mais tempo a chegar; estava portanto, preparado para esperar.
Dado que enquanto há vida há esperança, pensei que sorte seria se chegasse naquele dia. Iria sair tarde de casa, e assim o carteiro poderia entregar-ma pessoalmente, evitando assim a ida à estação dos correios que, como é apanágio deste nosso povo, tem um horário totalmente incompatível com quem trabalha.
O tempo passou e lá fui, lamentando a minha esperança não se ter concretizado. Quando voltei, com algum espanto, encontro o postal. A encomenda tinha chegado e o FDP do carteiro atrasou-se naquele dia! Porra, que até quando tenho sorte tenho que ter azar!!
Dado que enquanto há vida há esperança, pensei que sorte seria se chegasse naquele dia. Iria sair tarde de casa, e assim o carteiro poderia entregar-ma pessoalmente, evitando assim a ida à estação dos correios que, como é apanágio deste nosso povo, tem um horário totalmente incompatível com quem trabalha.
O tempo passou e lá fui, lamentando a minha esperança não se ter concretizado. Quando voltei, com algum espanto, encontro o postal. A encomenda tinha chegado e o FDP do carteiro atrasou-se naquele dia! Porra, que até quando tenho sorte tenho que ter azar!!
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Ascenção
Hoje nem sequer devíamos estar a trabalhar… Só me apraz apregoar sonoramente aos ventos: “Maio com meu amigo quem dera já, sempre no mês do trigo se cantará…”
Quinta-feira da Ascensão, Dia da Espiga
O mês de Maio está tradicionalmente recheado de festas solares, próprias de uma sociedade rural e pastoral, ancestralmente ligadas às tradições druídicas dos nossos ancestrais celtas. No calendário celta, Maio era o primeiro mês do ano e chamava-se Cend uin, que significava exactamente o primeiro mês, ou o primeiro tempo, daí a festa dos druídas chamada Bé-il-tin, no primeiro dia de Maio.
Em Portugal, segundo Teófilo Braga, este dia era comemorado em todo o país. Era a festa do Maio ou das Maias, consoante as regiões. Toda a festa revela um culto das flores, expressando-se através do enfeitar de crianças, ou até de espantalhos, com colares e outros adornos florais.
A Quinta-feira de Ascensão assinala, no calendário cristão, o fim do ciclo de quarenta dias iniciado com a Páscoa mas, além das cerimónias religiosas – com destaque para a missa da hora (do meio dia à uma), cujo simbolismo era muito forte e assinalado com o derramar de flores sobre os circunstantes – está também associada a um conjunto de práticas antigas, cujo significado preciso é por vezes difícil de determinar mas que se fundem em sentidos mágicos e religiosos complexos.
Nas regiões do Sul de Portugal esta data é mais conhecida por Dia da Espiga e as pessoas vão ao campo “apanhar a espiga”, o que significa arranjar um ramo composto fundamentalmente por espigas de trigo, um ramo de oliveira e vários tipos de flores. Além do trigo, podem incluir-se outros cereais e, as flores, muito variáveis, incluem sempre cores brancas e amarelas pois, tal como o ramo de oliveira e a espiga de trigo significam abundância de azeite e de pão, as flores amarelas e brancas significam ouro e prata. O ramo é guardado em casa até ao ano seguinte, às vezes junto de um pedaço de pão que se acredita conservar-se incorruptível até ser comido no próximo ano.
Nalguns sítios, pedaços deste ramo são colocados nas hortas e cearas com intenções protectoras, pois acredita-se nas suas virtudes benfazejas.
Noutras regiões há um cerimonial ligado ao leite, por exemplo oferecendo-se a ordenha desse dia ao povo.
Nas aldeias do concelho de Abrantes, como região de confluência, estes costumes, hoje em desuso, também eram muito variados mas, de uma maneira geral, a Quinta-feira de Ascensão, como culminar das festividades florais e campestres do Maio, era um dia em que não se trabalhava, em que as pessoas faziam piqueniques no campo e apanhavam a espiga, que interpretavam como um talismã propiciador de fartura.
Quinta-feira da Ascensão, Dia da Espiga
O mês de Maio está tradicionalmente recheado de festas solares, próprias de uma sociedade rural e pastoral, ancestralmente ligadas às tradições druídicas dos nossos ancestrais celtas. No calendário celta, Maio era o primeiro mês do ano e chamava-se Cend uin, que significava exactamente o primeiro mês, ou o primeiro tempo, daí a festa dos druídas chamada Bé-il-tin, no primeiro dia de Maio.
Em Portugal, segundo Teófilo Braga, este dia era comemorado em todo o país. Era a festa do Maio ou das Maias, consoante as regiões. Toda a festa revela um culto das flores, expressando-se através do enfeitar de crianças, ou até de espantalhos, com colares e outros adornos florais.
A Quinta-feira de Ascensão assinala, no calendário cristão, o fim do ciclo de quarenta dias iniciado com a Páscoa mas, além das cerimónias religiosas – com destaque para a missa da hora (do meio dia à uma), cujo simbolismo era muito forte e assinalado com o derramar de flores sobre os circunstantes – está também associada a um conjunto de práticas antigas, cujo significado preciso é por vezes difícil de determinar mas que se fundem em sentidos mágicos e religiosos complexos.
Nas regiões do Sul de Portugal esta data é mais conhecida por Dia da Espiga e as pessoas vão ao campo “apanhar a espiga”, o que significa arranjar um ramo composto fundamentalmente por espigas de trigo, um ramo de oliveira e vários tipos de flores. Além do trigo, podem incluir-se outros cereais e, as flores, muito variáveis, incluem sempre cores brancas e amarelas pois, tal como o ramo de oliveira e a espiga de trigo significam abundância de azeite e de pão, as flores amarelas e brancas significam ouro e prata. O ramo é guardado em casa até ao ano seguinte, às vezes junto de um pedaço de pão que se acredita conservar-se incorruptível até ser comido no próximo ano.
Nalguns sítios, pedaços deste ramo são colocados nas hortas e cearas com intenções protectoras, pois acredita-se nas suas virtudes benfazejas.
Noutras regiões há um cerimonial ligado ao leite, por exemplo oferecendo-se a ordenha desse dia ao povo.
Nas aldeias do concelho de Abrantes, como região de confluência, estes costumes, hoje em desuso, também eram muito variados mas, de uma maneira geral, a Quinta-feira de Ascensão, como culminar das festividades florais e campestres do Maio, era um dia em que não se trabalhava, em que as pessoas faziam piqueniques no campo e apanhavam a espiga, que interpretavam como um talismã propiciador de fartura.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Os desejados
Encontrei -os novamente.
E que falta me faziam :)
"A tentar
Pra sentir
E mudar
Pra voltar a cair
Para me levantar
Para nunca mais tentar
Mentir
Pra crescer
Para amar
Para ser
O lugar
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir "
Ornatos Violeta "Para nunca mais mentir"
Albúm - O Monstro Precisa de Amigos (1999)
E que falta me faziam :)
"A tentar
Pra sentir
E mudar
Pra voltar a cair
Para me levantar
Para nunca mais tentar
Mentir
Pra crescer
Para amar
Para ser
O lugar
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir "
Ornatos Violeta "Para nunca mais mentir"
Albúm - O Monstro Precisa de Amigos (1999)
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Psicose
O ambiente estava carregado. Os que não contemplavam os pormenores do monótono padrão formado pelas frias lajes do chão, perdiam-se nas macabras figuras desenhadas nas paredes pelo descascar da tinta junto ao tecto. O silêncio seria absoluto, não fosse o velho louco que a um canto balbuciava blasfémias e as repetidas e abafadas pancadas, a uma cadência lenta e constante, que se ouviam muito ao longe e cuja reverberação metálica se propagava pelos longos corredores. O cheiro a mofo, misturado com as emanações dos corpos era fracamente atenuado pela brisa débil, oferecida por uma decrépita e preguiçosa ventoinha que pendia no tecto, provocando ténues variações na luz.
Uma palavra começou a ganhar forma no meu cérebro, cada vez mais distinta. Era uma palavra familiar, tão familiar…
O meu nome? Sim, era o meu nome! Olhei na direcção da voz e já ninguém olhava o chão, muito menos a tinta das paredes, todos olhavam para mim, para mim! O pânico cresceu ao tomar consciência que alguém no grupo de facto me chamava. O coração disparou, como se se projectasse violentamente contra a parede interior do meu peito, numa desesperada tentativa para sair. Os músculos começaram a paralisar, um a um, e tudo ficou branco…
- Está tudo bem. Dizia uma voz suave. Amanhã tentamos outra vez, mas temos que nos esforçar mais. Está bem?
- Não!!! Respondi sem emitir qualquer som, mantendo os olhos fechados.
- Agora vamos descansar, amanhã correrá melhor.
- Não! Não. Não…
Arrastei-me pelos infindáveis corredores tentando evitar aqueles que me olhavam fixamente. Odiava-os, parecia que olhavam para dentro de mim, como os odiava...
Sentei-me na poltrona do canto e perdi-me, contemplando o desenho abstracto que as várias décadas de utilização gravaram na sua superfície. Outra vez aquela palavra familiar ecoava no fundo do meu cérebro, cada vez mais expressiva. Percebi que novamente alguém me chamava. Porque é que não me deixavam em paz? Porque não esqueciam que eu existia? Ignorei, mantive o meu olhar fixo na poltrona e desejei que a voz se extinguisse, mas isso não aconteceu, pior, tornou-se cada vez mais próxima, mais próxima. Depois de uma fracção de segundo, em que me transformei numa estátua de pânico ao sentir uma mão sobre o meu ombro, a adrenalina disparou e perdi o controle sobre o meu corpo. Sentia apenas o meu corpo a rodopiar freneticamente e as mãos a embater violentamente contra tudo o que me rodeava, até que a dolorosa picada no braço me fez desfalecer.
Gargalhadas, escuridão e gargalhadas. Tremi de medo ao sentir as gargalhadas que ribombavam pelo meu cérebro. De onde vinham? Quem estaria ali? Porque ria assim? Sentei-me encolhido e, semicerrando os olhos, perscrutei a escuridão. Um violento espasmo percorreu o meu corpo quando me pareceu vislumbrar o contorno esbatido de um rosto pálido e fantasmagórico. Cerrei os olhos, não sei por quanto tempo, horas talvez, até que consegui reunir coragem para os abrir novamente. Rapidamente me apercebi que não era um rosto, eram vários! Estava rodeado de rostos arrepiantes que com um lúgubre esgar, riam tresloucadamente. O terror aumentava, atingindo o seu fastígio quando os rostos se começaram a aproximar. Vinham de todos os lados, cada vez mais perto e quando comecei a conseguir distinguir os contornos escuros dos seus corpos escancarei a boca para gritar mas nenhum som saiu. Em vez disso uma dor lancinante invadiu-me a cabeça fazendo-me fechar os olhos em agonia. Quando os abri, comecei a focar a cor esbatida que me rodeava, com a sua matriz de círculos perfeitamente espaçados. Lentamente recuperei os sentidos enquanto o meu coração abrandava. Tacteei o chão e sorri ao sentir os montículos almofadados. Fechei novamente os olhos.
O sol que entrava pela janela, sem grades e aberta de par em par, aquecia-me a face. Uma branda brisa soprou, renovando o ar do quarto e agitando os meus cabelos desalinhados. Lentamente levantei-me e, aproximando-me da janela, inspirei profundamente o ar puro e fresco, de aroma a terra e flores. Enquanto o fazia os meus pés descalços perderam o contacto com o chão. O meu corpo elevava-se e lentamente flutuei janela fora. O tempo perdeu o sentido enquanto flutuava sobre extensas planícies coloridas, majestosos desfiladeiros, densas e verdes florestas, rios, mares…
O som metálico da fechadura fez-me imediatamente voltar a sentir o chão debaixo das minhas costas. Porque não me deixariam sossegado, com os meus pensamentos? Porque estavam tão decididos a ouvir-me? Que achariam que tinha para lhes dizer? Não desistiriam, tinha que fugir daquele sítio. Tinha a certeza que se conseguisse abrir uma janela, poderia realmente voar. Estaria mesmo demente? Sabia que as pessoas não voavam. Apesar de o fazer de maneira diferente da maioria, o meu cérebro parecia funcionar na perfeição. Mas eu tinha a certeza! O longínquo chão não me assustava, sabia que voaria para onde quisesse, para a liberdade. Tinha que encontrar uma saída. Tinha que haver uma janela sem grades!
Uma ideia brilhou na minha mente. Era simples, bastava conseguir ficar invisível! Se estivesse invisível conseguiria entrar na sala proibida sem ninguém perceber. Era brilhante! Mas será que conseguia?
A porta abriu-se. Saí em silêncio, decidido a testar a minha capacidade de me tornar completamente invisível.
Dirigi-me a um dos corredores de maior movimento, aquele que eu evitava a todo o custo e que me provocou um profundo arrepio na coluna quando me aproximei dele. A luz, irregularmente difusa, mergulhava o ambiente numa estranha soturnidade. Só a motivação do meu objectivo me permitiu continuar. Obstinado, coloquei-me a meio do corredor, respirei fundo e concentrei-me. Concentrei-me profundamente em ficar invisível e, para meu gáudio, senti que começava a acontecer. Olhei para baixo e tive ainda um vislumbre do meu corpo translúcido antes de desaparecer completamente. O júbilo transformava-se em euforia, quase impossível de conter!
Deixei-me ficar e cada pessoa que passava, impassível à minha presença, elevava um pouco mais o meu espírito. Tive a confirmação absoluta quando fui obrigado a desviar-me, para que um dos passantes não esbarrasse comigo. Vinha mesmo direito a mim, era óbvio que não me via. Estava mesmo a resultar. Sucesso, sucesso!!!
Seria muito simples. Bastava colocar-me junto da porta da sala proibida e, quando alguém saísse, eu esgueirar-me-ia para dentro antes que a porta se fechasse.
Não havia nenhuma razão para adiar mais. Reforcei a minha concentração em manter-me invisível, dirigi-me para o local seleccionado e esperei. A sala tinha muita afluência, muita gente entrava, mais tarde ou mais cedo alguém teria que sair. E eis que acontece! Com um pulo cuidadoso, para que não me ouvissem, entrei. Era enorme. De um lado, uma comprida mesa oferecia as mais variadas iguarias, a maioria das quais irreconhecíveis para mim. Do outro, os que não se deliciavam com os prazeres gastronómicos oferecidos no lado oposto, entregavam-se aos prazeres da carne em luxuriosas e animalescas orgias em que os contornos dos corpos se diluíam, parecendo apenas uma enorme e grotesca criatura. Era então isto que acontecia aqui, pensei, mas num ápice, toda a minha atenção se concentrou na parede ao fundo da sala. Uma janela! Uma janela sem grades, sem trancas! Confiante na minha invisibilidade, atravessei calmamente a sala e aproximei-me da janela. O meu coração palpitava em antecipação e quase me saiu pela boca quando, ao accionar o puxador, a janela se abriu. Fleumaticamente mas decidido, subi, tinha chegado o momento, seria livre! Abri os braços e com um pequeno impulso os meus pés deixaram para trás o frio parapeito.
Uma palavra começou a ganhar forma no meu cérebro, cada vez mais distinta. Era uma palavra familiar, tão familiar…
O meu nome? Sim, era o meu nome! Olhei na direcção da voz e já ninguém olhava o chão, muito menos a tinta das paredes, todos olhavam para mim, para mim! O pânico cresceu ao tomar consciência que alguém no grupo de facto me chamava. O coração disparou, como se se projectasse violentamente contra a parede interior do meu peito, numa desesperada tentativa para sair. Os músculos começaram a paralisar, um a um, e tudo ficou branco…
- Está tudo bem. Dizia uma voz suave. Amanhã tentamos outra vez, mas temos que nos esforçar mais. Está bem?
- Não!!! Respondi sem emitir qualquer som, mantendo os olhos fechados.
- Agora vamos descansar, amanhã correrá melhor.
- Não! Não. Não…
Arrastei-me pelos infindáveis corredores tentando evitar aqueles que me olhavam fixamente. Odiava-os, parecia que olhavam para dentro de mim, como os odiava...
Sentei-me na poltrona do canto e perdi-me, contemplando o desenho abstracto que as várias décadas de utilização gravaram na sua superfície. Outra vez aquela palavra familiar ecoava no fundo do meu cérebro, cada vez mais expressiva. Percebi que novamente alguém me chamava. Porque é que não me deixavam em paz? Porque não esqueciam que eu existia? Ignorei, mantive o meu olhar fixo na poltrona e desejei que a voz se extinguisse, mas isso não aconteceu, pior, tornou-se cada vez mais próxima, mais próxima. Depois de uma fracção de segundo, em que me transformei numa estátua de pânico ao sentir uma mão sobre o meu ombro, a adrenalina disparou e perdi o controle sobre o meu corpo. Sentia apenas o meu corpo a rodopiar freneticamente e as mãos a embater violentamente contra tudo o que me rodeava, até que a dolorosa picada no braço me fez desfalecer.
Gargalhadas, escuridão e gargalhadas. Tremi de medo ao sentir as gargalhadas que ribombavam pelo meu cérebro. De onde vinham? Quem estaria ali? Porque ria assim? Sentei-me encolhido e, semicerrando os olhos, perscrutei a escuridão. Um violento espasmo percorreu o meu corpo quando me pareceu vislumbrar o contorno esbatido de um rosto pálido e fantasmagórico. Cerrei os olhos, não sei por quanto tempo, horas talvez, até que consegui reunir coragem para os abrir novamente. Rapidamente me apercebi que não era um rosto, eram vários! Estava rodeado de rostos arrepiantes que com um lúgubre esgar, riam tresloucadamente. O terror aumentava, atingindo o seu fastígio quando os rostos se começaram a aproximar. Vinham de todos os lados, cada vez mais perto e quando comecei a conseguir distinguir os contornos escuros dos seus corpos escancarei a boca para gritar mas nenhum som saiu. Em vez disso uma dor lancinante invadiu-me a cabeça fazendo-me fechar os olhos em agonia. Quando os abri, comecei a focar a cor esbatida que me rodeava, com a sua matriz de círculos perfeitamente espaçados. Lentamente recuperei os sentidos enquanto o meu coração abrandava. Tacteei o chão e sorri ao sentir os montículos almofadados. Fechei novamente os olhos.
O sol que entrava pela janela, sem grades e aberta de par em par, aquecia-me a face. Uma branda brisa soprou, renovando o ar do quarto e agitando os meus cabelos desalinhados. Lentamente levantei-me e, aproximando-me da janela, inspirei profundamente o ar puro e fresco, de aroma a terra e flores. Enquanto o fazia os meus pés descalços perderam o contacto com o chão. O meu corpo elevava-se e lentamente flutuei janela fora. O tempo perdeu o sentido enquanto flutuava sobre extensas planícies coloridas, majestosos desfiladeiros, densas e verdes florestas, rios, mares…
O som metálico da fechadura fez-me imediatamente voltar a sentir o chão debaixo das minhas costas. Porque não me deixariam sossegado, com os meus pensamentos? Porque estavam tão decididos a ouvir-me? Que achariam que tinha para lhes dizer? Não desistiriam, tinha que fugir daquele sítio. Tinha a certeza que se conseguisse abrir uma janela, poderia realmente voar. Estaria mesmo demente? Sabia que as pessoas não voavam. Apesar de o fazer de maneira diferente da maioria, o meu cérebro parecia funcionar na perfeição. Mas eu tinha a certeza! O longínquo chão não me assustava, sabia que voaria para onde quisesse, para a liberdade. Tinha que encontrar uma saída. Tinha que haver uma janela sem grades!
Uma ideia brilhou na minha mente. Era simples, bastava conseguir ficar invisível! Se estivesse invisível conseguiria entrar na sala proibida sem ninguém perceber. Era brilhante! Mas será que conseguia?
A porta abriu-se. Saí em silêncio, decidido a testar a minha capacidade de me tornar completamente invisível.
Dirigi-me a um dos corredores de maior movimento, aquele que eu evitava a todo o custo e que me provocou um profundo arrepio na coluna quando me aproximei dele. A luz, irregularmente difusa, mergulhava o ambiente numa estranha soturnidade. Só a motivação do meu objectivo me permitiu continuar. Obstinado, coloquei-me a meio do corredor, respirei fundo e concentrei-me. Concentrei-me profundamente em ficar invisível e, para meu gáudio, senti que começava a acontecer. Olhei para baixo e tive ainda um vislumbre do meu corpo translúcido antes de desaparecer completamente. O júbilo transformava-se em euforia, quase impossível de conter!
Deixei-me ficar e cada pessoa que passava, impassível à minha presença, elevava um pouco mais o meu espírito. Tive a confirmação absoluta quando fui obrigado a desviar-me, para que um dos passantes não esbarrasse comigo. Vinha mesmo direito a mim, era óbvio que não me via. Estava mesmo a resultar. Sucesso, sucesso!!!
Seria muito simples. Bastava colocar-me junto da porta da sala proibida e, quando alguém saísse, eu esgueirar-me-ia para dentro antes que a porta se fechasse.
Não havia nenhuma razão para adiar mais. Reforcei a minha concentração em manter-me invisível, dirigi-me para o local seleccionado e esperei. A sala tinha muita afluência, muita gente entrava, mais tarde ou mais cedo alguém teria que sair. E eis que acontece! Com um pulo cuidadoso, para que não me ouvissem, entrei. Era enorme. De um lado, uma comprida mesa oferecia as mais variadas iguarias, a maioria das quais irreconhecíveis para mim. Do outro, os que não se deliciavam com os prazeres gastronómicos oferecidos no lado oposto, entregavam-se aos prazeres da carne em luxuriosas e animalescas orgias em que os contornos dos corpos se diluíam, parecendo apenas uma enorme e grotesca criatura. Era então isto que acontecia aqui, pensei, mas num ápice, toda a minha atenção se concentrou na parede ao fundo da sala. Uma janela! Uma janela sem grades, sem trancas! Confiante na minha invisibilidade, atravessei calmamente a sala e aproximei-me da janela. O meu coração palpitava em antecipação e quase me saiu pela boca quando, ao accionar o puxador, a janela se abriu. Fleumaticamente mas decidido, subi, tinha chegado o momento, seria livre! Abri os braços e com um pequeno impulso os meus pés deixaram para trás o frio parapeito.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Angústia
Estava num recanto de um prédio. Acanhadamente tentava interpelar as pessoas que, com total indiferença, passavam sem sequer desviar o olhar. Ao passar por ela, ouvi um desfalecido “O senhor pode ajudar-me, por favor?”. Se calhar mais por falta de hábito de andar pelo centro da cidade, onde os mendigos - nem todos merecedores de ajuda - abundam, do que por solicitude, parei, dei um passo atrás com um “Sim?”, pensando que a velha senhora precisava de indicações. O meu coração começou imediatamente a encolher quando ela, sem conseguir conter as lágrimas que lhe escorriam pela face, disse que lhe tinham descoberto um cancro, que estava a começar a fazer quimioterapia, que não tinha nada em casa para comer… Instintivamente despejei nas suas mãos as moedas que tinha e tive vontade de a abraçar, de lhe dizer que tudo iria correr bem, tentar aliviar um pouco da sua dor. Não sei se teria servido para alguma coisa, mas sei que não tenho robustez emocional para uma situação daquelas, pelo que, com um aceno em resposta aos agradecimentos, me afastei rapidamente, no limiar das lágrimas. Revendo agora a situação, uma senhora já com alguma idade ali naquele recanto, invisível, reaviva a angústia que senti. Percebia-se perfeitamente que era uma situação nova para ela, o seu constrangimento era notório e via-se a vergonha e o desespero nos seus olhos. Nem por um segundo duvidei da sua necessidade e o meu coração continua encolhido por não ter podido fazer mais. Num país que se diz desenvolvido, uma pessoa não devia chegar àquela idade e ter que pedir esmola.
sexta-feira, 30 de março de 2007
O ID63
“O ID63??? Não, não sei nada sobre isso!” Foi o que quase toda a gente me respondeu com a voz trémula de terror; com excepção de alguns que, desconfiadamente, apenas referiram que não pronunciavam aquela designação, enquanto continuavam apressadamente o seu caminho, visivelmente perplexos com meu interesse.
Encontrei por fim um ancião, notoriamente demente, que se dizia um conjurador de anjos e demónios. Depois de inúmeras e assustadoras advertências, no meio do seu delírio conseguiu indicar-me o covil do monstro. Indicações que segui com alguma dúvida, mas que se provaram exactas.
Aproximei-me cuidadosamente e lá estava ele, o ID63, a majestosa besta! Estudei-a, analisei-a, procurei as suas fraquezas e por fim descobri o âmago da sua fragilidade. Decidido, elaborei um plano de ataque, revi-o minuciosamente e acreditei no meu sucesso.
Reuni toda a minha coragem e, no momento certo, avancei para o perverso prodígio. Aquele que, de tão grotesco e infame, não tem nome. Aquele que apenas mereceu uma identificação numérica, e mesmo essa, capaz de induzir pavor no coração dos mais audazes.
A vil criatura percebeu a minha aproximação e virando o seu temeroso focinho na minha direcção, urrou de tal forma que não só senti as vibrações no diafragma, como consegui também sentir o calor fétido do seu hálito.
Tinha passado o ponto sem retorno, o confronto era inevitável. Avancei para o abjecto ser enquanto ele, com outro urro que pareceu fazer tremer a terra por debaixo dos meus pés, avançou para mim. Cada um de nós acelerando o seu passo, a adrenalina a tomar conta de mim, o tempo a parecer distender-se, o embate estava iminente e…
Encontrei por fim um ancião, notoriamente demente, que se dizia um conjurador de anjos e demónios. Depois de inúmeras e assustadoras advertências, no meio do seu delírio conseguiu indicar-me o covil do monstro. Indicações que segui com alguma dúvida, mas que se provaram exactas.
Aproximei-me cuidadosamente e lá estava ele, o ID63, a majestosa besta! Estudei-a, analisei-a, procurei as suas fraquezas e por fim descobri o âmago da sua fragilidade. Decidido, elaborei um plano de ataque, revi-o minuciosamente e acreditei no meu sucesso.
Reuni toda a minha coragem e, no momento certo, avancei para o perverso prodígio. Aquele que, de tão grotesco e infame, não tem nome. Aquele que apenas mereceu uma identificação numérica, e mesmo essa, capaz de induzir pavor no coração dos mais audazes.
A vil criatura percebeu a minha aproximação e virando o seu temeroso focinho na minha direcção, urrou de tal forma que não só senti as vibrações no diafragma, como consegui também sentir o calor fétido do seu hálito.
Tinha passado o ponto sem retorno, o confronto era inevitável. Avancei para o abjecto ser enquanto ele, com outro urro que pareceu fazer tremer a terra por debaixo dos meus pés, avançou para mim. Cada um de nós acelerando o seu passo, a adrenalina a tomar conta de mim, o tempo a parecer distender-se, o embate estava iminente e…
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