quinta-feira, 18 de março de 2010

Curtas

Deverá o cego não querer saber

Que a razão do seu não ver

Reside só na questão do doer ou não doer?

Mais fácil será não ver para não doer

E o surdo será que quer ouvir

Que a sua surdez se deve ao não querer ouvir

As palavras que sabe serem as tais da boca dos demais?

E aqueles que sabem do que falo não o vão entender

Que para compreender é preciso deixar que a razão faça parte desta equação.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Bananas XII

Porra! Foda-se!!! Quase que não dá para acreditar! Se eu não tivesse ouvido a história em primeira mão, directamente do Faustino, não acreditava mesmo. Pois é. A puta não só conseguiu dar-lhe a volta, como conseguiu fodê-lo completamente! Quando ele me disse que a tinha conhecido num bar de strip, eu fiquei logo de pé atrás. Mas ela só fazia aquilo até arranjar alguma coisa mais séria, dizia ele. Alguma coisa mais séria… O caralho! O que ela queria era arranjar um tanso como o Faustino. A vaca da rameira tinha o plano todo delineado e o pobre do Faustino foi cair mesmo em cheio na armadilha. Deve ter-se sentido especial. Foda-se, deve ter-se sentido o maior, uma gaja de um bar de alterne a demonstrar um interesse por ele que, ao contrário daquele demonstrado por todas as suas demais colegas, parecia mesmo, mesmo genuíno. Uma gaja por quem já tinham passado milhões de gajos diz ao Faustino que ele é especial. Na cabeça do Faustino, que lhe interessava que fosse ou não genuíno? Ia passar um bom bocado, um tempo a dar umas quecas de borla, qual poderia ser o prejuízo? Pois… O fodido é que a suína da brasileira lhe furou os preservativos todos. Pois é… Agora tem que pagar uma pensão a um filho que viu quatro vezes na vida e que não sabe muito bem quem ele é. É uma merda…

segunda-feira, 8 de março de 2010

Bananas XI

Parte-me o coração a história do Vitorino. É um facto que a ex-namorada dele é uma cabra. É um facto que estava melhor sozinho que com ela. Agora… Não sei se é um facto que está melhor com a ucraniana…

Pronto, ela até é bastante bem-feita. Engraçada. Muito loura, tem um porte que consegue impressionar. Mas… por favor. Casar logo assim depois de a conhecer há um mês? Não digo que não estivessem apaixonados e não sei quê, mas, casar logo assim? E ter logo um filho assim??

O que eu sei é que, a cada dia que ele chegava do trabalho havia mais um membro da família a morar com eles. Um membro desempregado da família, claro, e o Vitorino lá continuava a querer ser o homem perfeito, sempre na sua boa onda, que temos que ser uns para os outros. Pois, a verdade é que agora, entre pais, tios, irmãos, primos, cunhados e outros parentes mais ou menos remotos, moram mais de vinte ucranianos na casa do Vitorino e ele é o único que leva dinheiro para casa.

Divorciar-se? Ela ameaça que leva o miúdo para a Ucrânia, ou para a Croácia, ou para o raio do filho da puta de país de onde eles vêm e que ele nunca mais o vê. É que… O miúdo é a única coisa que ele tem. É o miúdo que lhe proporciona a única mísera lufada de ar fresco que ele consegue obter naquela casa. E agora? O que é que o coitado do Vitorino vai fazer? Que lhe resta senão aguentar? Uma criança precisa de uma mãe…

segunda-feira, 1 de março de 2010

Historieta

21-03-2005

Já era quase noite e ainda não tinha conseguido escrever nada, a história até tinha fluido bem ao início, mas chegou a um impasse e encalhou. Nem tinha bem a certeza se gostava do que já tinha escrito, mas tinha saído naturalmente, e o que interessava não era ele gostar, mas sim o editor gostar, e agarrava-se sempre a este pensamento para conter o impulso de rasgar tudo; afinal, se assim não fosse nunca teria publicado nada, já que nada do que escreveu lhe agradou realmente quando releu tudo no fim, mas a verdade é que os seus livros vendiam e isto proporcionava-lhe uma vida confortável. Em todo o caso, sentia que esta história seria diferente, não conseguia perceber porquê mas, apesar de simples, sentia-a especial, com potencial. Além do mais, não era uma história qualquer, dizia-lhe algo mais que as outras visto o personagem principal ser também um escritor, não propriamente ele, mas naturalmente, e apesar de se esforçar para contrariar isso, havia muito dele no personagem. Tinha sempre uma grande dificuldade em dar nomes aos seus personagens, mas assim que começou a escrever a história, o nome Stark Lone surgiu-lhe na mente e, embora uma voz dentro de si dissesse que não era prestigiante para a sua língua materna usar um nome estrangeiro, agradou-lhe a sonoridade e ficou feliz por não ter que pensar mais nisso.
Não vale a pena insistir, pensou. Pousou a caneta, vestiu o casaco e saiu para jantar, pelo caminho pensou que a dificuldade com que se estava a deparar talvez se devesse à luta constante que travava contra o instinto de aproximar Lone de si próprio, talvez ajudasse se colocasse mais de si no seu personagem, mas rapidamente decidiu não o fazer, isso implicava abrir um pouco do livro fechado que era a sua vida e iria fazê-lo sentir-se tão vulnerável que só o próprio pensamento disso lhe provocou um arrepio. Não, Lone, além de ter a mesma profissão, não teria mais em comum com o escritor do que qualquer outra das personagens que nasceram na sua caneta. Dando esta questão como encerrada, deu por si já sentado no restaurante. Comeu, e foi já durante o cigarro que acompanhava o café que lhe surgiu uma ideia; Lone podia suspeitar de que só existia numa história. Melhor! Lone pode fazer a personagem da história que está a escrever aperceber-se de que existe apenas num livro e isso o levar a questionar se não será também ele apenas uma personagem numa história de ficção. Este pensamento fez o escritor estremecer. Não seria a vida dele também apenas um livro? E se este momento, este cigarro, este sentimento existirem apenas porque alguém os escreveu? Tanto quanto sabia, ele e Lone podiam afinal ser o mesmo. Com este fluxo de pensamentos, embora tivesse consciência de quão absurdo parecia, não conseguiu evitar a sensação de que mergulhava mais fundo na verdade do que alguma vez antes. Sentiu uma tontura e pediu um brandy; bebeu-o de um trago, acendeu mais um cigarro e saiu para a noite deixando uma nota na mesa.

Apesar de ter ajudado a recuperar as forças, aquele brandy não ajudou a reduzir a torrente de pensamentos que lhe rodopiava na mente, e embora argumentasse consigo próprio que nenhum deles fazia sentido, cada vez se sentia mais convencido que era apenas um elo na cadeia e não existia fora da sua realidade, da sua história. Questionou também se quem estava a escrever a sua história não seria também apenas uma personagem de uma história maior. Onde é que isto acaba? A palavra “acaba” ecoou no seu crânio. Todos os livros têm um fim. O que acontece quando o livro acabar? Se eu for apenas uma personagem de um livro que está a escrever um livro, será que se eu acabar o livro que estou a escrever, o livro em que existo acabará também? E o que acontece aos personagens quando um livro acaba? Não é que o escritor fosse um verdadeiro amante da vida, mas a ideia de deixar de existir provocou-lhe uma contida sensação de pânico. No entanto um pensamento acalmou-o automaticamente, se não acabasse o seu livro, certamente o seu autor também não acabaria o seu. É isso, disse para si próprio, basta não acabar o meu livro! Caminhou um pouco mais pelas ruas já quase desertas tentando digerir a situação, fez ainda mais algumas tentativas para se convencer que tudo não passava de um delírio seu, mas com muito pouco sucesso.

Decidiu então deixar a história de Stark Lone de parte, talvez a acabasse quando fosse mais velho. Com esta decisão conseguiu dormir um pesado sono sem sonhos. Ao contrário do que era habitual, o escritor acordou com uma óptima disposição, mas assim que abriu os olhos, sem qualquer controlo da sua parte, a história de Lone começou a desenrolar-se na sua mente. Enquanto no dia anterior não tinha conseguido escrever nada, no primeiro minuto desta manhã já sabia como a história continuava. Pensou que o melhor era mesmo escrever, senão esquecer-se-ia, e além do mais era só mais algum desenvolvimento, isso não o obrigava a acabar o livro. Preparou algo que se assemelhava com um pequeno-almoço e sentou-se a comer com uma mão e a escrever com a outra. Escreveu como nunca e já a tarde ia avançada quando o seu estômago se manifestou com um sonoro ronco. Só neste momento se apercebeu do que estava a fazer, era impossível saber ao certo, mas o livro já iria certamente a mais de meio. Praguejou e insultou-se pela sua estupidez, mas a história continuava na sua cabeça e tinha que fazer uma esforço para se impedir de a escrever. Atirou a caneta para longe e levantou-se abruptamente. Decidindo render-se aos protestos do estômago, saiu para comer e comprar cigarros. Depois de um farto lanche decidiu aproveitar a última luz do dia dando um longo passeio, tendo bastante sucesso na tentativa de afastar Lone da sua mente. Quando regressou ao seu apartamento era já bastante tarde, olhou para a secretária estremeceu ao ver a caneta novamente colocada em cima! Foi a mulher-a-dias, só pode, pensou e sentou-se em frente à televisão a comer a sanduíche que tinha trazido, acompanhada de uma cerveja. Terminada a refeição, deixou-se ficar no sofá a ver um documentário sobre moluscos até que se deixou dormir.

Estavam os primeiros raios de sol a entrar pela janela quando o escritor acordou de um sonho surreal, ainda meio a dormir sentou-se à secretária e começou inconscientemente a escrever até que o vício o obrigou a pegar num cigarro e foi aí que acordou realmente, sem qualquer noção do que tinha escrito tentou lembrar-se do sonho, tudo estava muito ténue na sua mente, mas lembrava-se que tinha sonhado com Lone, era exactamente como o imaginava, assim que visualizou Lone, a memória do sonho aclarou-se. Lembrava-se de ele lhe ter dito que era inútil resistir, o seu propósito seria cumprido independentemente da sua vontade e só tinha a ganhar se aceitasse o seu destino. Tinha a sensação de que a conversa tinha sido muito mais longa, mas não conseguia lembrar-se de mais nada. Reviu a sua situação num derradeiro esforço para a racionalizar. Que ideia mais estúpida, pensou, devo estar a ficar doido, os personagens não existem, não sentem, logo eu não posso ser um personagem. Por momentos ocorreu-lhe que devia procurar ajuda profissional, mas rapidamente pôs esta ideia de parte lembrando-se da sua nada simpática opinião sobre psicólogos e psiquiatras, e a verdade é que por muito que a sua razão lhe dissesse que estava a entrar num estado de demência, continuava convicto que estava mais são mentalmente do que alguma vez estivera. Os personagens não sentem! Disse alto, mas as suas palavras transbordavam insegurança. Apercebendo-se que estava a ficar bastante irritado com todos estes pensamentos respirou fundo, fez um esforço para limpar a mente e leu o que tinha escrito. Extraordinário! O escritor deparava-se com um sentimento completamente novo para ele. Estava realmente agradado com o que tinha escrito até então. Sentiu que, pela primeira vez, tinha conseguido criar algo bom. Era a primeira vez que estava plenamente satisfeito com o seu trabalho, e a sensação era fantástica! Ainda inebriado, releu tudo outra vez talvez para se certificar, talvez para acariciar o seu ego mais um pouco, mas a verdade é que continuou a achar que estava estranhamente perfeito, não havia nenhuma frase que achasse que deveria ser alterada, estava perfeito! A palavra persistiu na sua cabeça. Está a ficar perfeito, disse alto, deliciando-se em cada letra. Sentia que podia acabar o livro, lembrou-se das palavras de Lone, lembrou-se dos seus temores e, decidindo não se precipitar, saiu para clarear as ideias, afinal ainda não tinha comido nada.

Enquanto caminhava tentou organizar as ideias, e passado o orgulho inicial de estar perante uma verdadeira obra-prima, começou a desconfiar da situação. Porque é que normalmente considerava todas as suas obras mero lixo, tendo até uma certa tendência para desprezar os seus leitores, e com esta era diferente? Compreendia que seria possível escrever algo que não considerasse lixo, mas escrever algo que considerasse realmente bom era para ele um conceito estranho. Mais estranho era achar que seria uma obra-prima. Deduziu que teria que haver uma relação entre o livro e a sua nova perspectiva. Automaticamente o seu pensamento voltou à teoria, que futilmente se esforçava por considerar demente, de que era apenas um personagem. Isto explicava a qualidade deste seu trabalho, bastava o seu autor escrever que ele tinha escrito algo que lhe agradava para isso ser a realidade para si. Além do mais, este livro estava a ser criado de uma forma quase irreal, não tinha feito qualquer esforço para o escrever, tudo tinha saído naturalmente, demasiado naturalmente. Curiosamente, desta vez a ideia não lhe causou medo, sentiu até uma certa segurança pelo facto de estar ciente da sua condição. Se realmente apenas existia numa história, mais valia estar ao corrente disso! Assim conseguiu afastar os seus medos e pensou que afinal, acabar ou não o livro não seria uma decisão sua, aliás nada seria feito por decisão sua, a sua vontade estava sujeita à vontade do seu autor. Resignado com a sua situação sentiu até uma sensação de calma, não era responsável por si, não valia a pena gastar energia com decisões, a sua vida era regida por uma entidade superior e a ele bastava-lhe vivê-la, representar o papel que lhe tinha sido atribuído. Não questionou mais a sua sanidade mental nem a veracidade da sua situação e sentiu-se iluminado, sentiu que tinha descoberto muito mais do que todas as outras personagens com quem partilhava a sua história. Sentado no banco de um jardim, observou os outros com uma superioridade paternal, coitados, pensou, todos certos de que existem realmente…

Convicto de que não dependia de si, não se preocupou mais com o livro, não faria nenhum esforço para o acabar, nem para não o acabar, deixaria isso ao critério do seu autor e sentiu-se mais livre do que nunca. Caminhou mais um pouco sem destino, sem a certeza de onde se encontrava ao certo, até que viu um restaurante de aspecto pouco asseado que lhe confirmou que não fazia a mínima ideia de onde estava, mas a visão fez o seu estômago suplicar e acabou por entrar. Comeu demoradamente, durante a refeição nem se apercebeu que os seus pensamentos tinham vagueado bem longe do seu livro, pensou que se sentia muito mais à vontade naquela espelunca do que nos restaurantes caros que costumava frequentar, pensou na sua infância, questionou-se porque nunca tinha saído do país, pensou que já tinham passado meses desde a última vez de tinha lido um livro, pensou em mil outras coisas deixando a sua mente vaguear livremente. Depois de acabar o café e o cigarro, bebeu o resto de vinho no copo de um trago. Deixou uma boa gorjeta e apanhou um táxi para casa, apercebendo-se pelo preço, que estava muito mais longe do que alguma vez tivera deambulado nos seus habituais passeios pela cidade. Assim que entrou em casa descalçou os sapatos, pegou no primeiro livro da sua pilha “a ler” e leu durante horas, parando de vez em quando para saborear a paz interior que sentia.

Lone estava sentado numa mesa no canto do bar sujo e cheio de fumo e viram-se assim que o escritor entrou, Lone acenou e o escritor aproximou-se puxando uma cadeira. Se vieste dizer-me que não vale a pena resistir, estás a gastar o teu tempo, já passei essa fase. Disparou o escritor. Como deves calcular, eu sei que já passaste essa fase, e é exactamente por isso que aqui estou. Vim dizer-te que o autor está muito satisfeito contigo, considerou-te o melhor até agora. Respondeu calmamente Lone enquanto desviava os olhos do copo para fitar o escritor. Devo ficar radiante? Perguntou sarcasticamente o escritor, mas sem conseguir evitar de se sentir algo especial. Podes sentir o que quiseres, mas há mais, vais ter um privilégio único até agora, ele quer que o conheças.
- Ele quer que eu o conheça…
- Sim, serás o primeiro, e quem sabe, o último.
- Mas tu conhece-lo não é?
- Eu não sou como tu, eu sou apenas um instrumento, uma extensão dele. Este encontro serviu apenas para não seres apanhado de surpresa.
- E o que me vai acontecer depois?
- Vais ter que guardar as tuas questões para ele.
- Mas onde, e quando, e como?

Assim que a última palavra se dissipou, um raio de sol atingiu-lhe o rosto fazendo-o contrair-se num esgar. Tinha adormecido no sofá outra vez e o seu corpo ressentia-se de duas noites mal dormidas. Enquanto ganhava coragem para se levantar, reconstituiu várias vezes o diálogo com Lone com receio de se esquecer, como habitualmente acontecia com os seus sonhos e deu por si questionando-se como se podia preparar para tal encontro. Sem conseguir encontrar uma resposta, sentiu-se um fantoche, o que despoletou um sentimento latente de revolta. Estou a ficar doido, pensou enquanto o diálogo com Lone ressoava no fundo da sua mente, completamente doido! Estou a viver uma fantasia e estou a deixar-me ir. Não! Não vou deixar isto afectar-me, se é a loucura a chegar, pelo menos vai ter luta! Vou acabar o meu livro e pôr esta história imbecil para trás das costas! Nunca mais quero sequer pensar no nome Stark Lone. Foi aqui que reparou que já estava a gritar bastante alto. Sem pensar mais, sentou-se à secretária e escreveu, escreveu como nunca, sentia que era a caneta que comandava a sua mão e não o contrário. Perdeu a noção do tempo enquanto os dias passavam e as páginas se amontoavam.

A casa era imponente, um verdadeiro palácio! As portas enormes, as mais altas já vira, abriram-se como se não tivessem peso e quando entrou e pisou o chão de mármore sentiu que o seu próprio corpo ficava leve, tão leve que parecia flutuar. Deu por si numa monstruosa biblioteca sem saber se tinha aberto a porta ou passado através dela. Uma sala comprida até perder de vista, ao longo de cujas paredes, estantes até ao tecto armazenavam mais livros do que alguma vez tinha visto juntos, pareciam estar ali todos os livros do mundo. Ao fundo da sala vislumbrava uma luz ténue da qual se foi aproximando. Ao passar pelas estantes a sua mente enchia-se de tantas vozes que era impossível compreender qualquer uma delas, à medida que avançava, uma das vozes começou a destacar-se até que conseguiu perceber a palavra Bem-vindo. Levantou o olhar e lá estava Lone, trazia uma expressão de genuíno contentamento. É hoje o grande dia! Exclamou. Afinal pouca gente tem a oportunidade de conhecer o seu criador. Um gesto de Lone encaminhou-o através das portas duplas que davam acesso a uma sala que, embora o fizesse sentir-se minúsculo, proporcionava uma inundante paz de espírito. Senta-te e descontrai, sugeriu Lone, ao que o escritor correspondeu, sentando-se numa das convidativas poltronas. Enquanto se afundava, sentiu que o seu corpo se dissipava, sentiu-se etéreo. Fechando os olhos por um momento deu por si sentado perante uma paisagem verdejante. Era certamente o sítio mais belo que jamais vira e transbordava calma e plenitude. Ouvia o gorgolejar de um ribeiro ao longe, e ao voltar o olhar na direcção do som reparou que não estava sozinho. Era ele, o seu autor! Embora, ao contrário do que estava à espera, o seu autor se apresentasse como uma pessoa bastante vulgar, sentia nele uma familiaridade tal, que era como se estivesse a olhar para si próprio; como se nunca o tendo visto antes, o tivesse conhecido toda a vida.
- Estou muito orgulhoso de ti, superaste todas as minhas expectativas! Chegaste mais longe do que qualquer outro antes.
- Obrigado, acho eu, fico muito satisfeito, mas e agora?
- Agora já cumpriste o teu propósito, o livro acabou.
- Vou portanto morrer, deixar de existir.
- Pelo contrário, tornar-te-ás imortal! Deixarás de existir como te conheces, mas tornar-te-ás um conceito, viverás para sempre!
- É um conceito complicado, existir para sempre quando na realidade não se existe?
- E o que é a realidade? Não estás aqui a falar comigo? Não tens a consciência, as memórias, o passado que te dei? A realidade é relativa, tu existes na realidade que criei para ti, tão real como qualquer outra. Mas nem mesmo a realidade é imutável, e a tua está prestes a mudar.

Não sabia como as palavras do seu autor faziam sentido para si, mas a verdade é que parecia que estava a ouvir verdades absolutas, logicamente correctas. Sabia que não podia fugir ao seu destino, mas a verdade é que nem sequer lhe ocorreu querer fazê-lo, sentia-se finalmente realizado pela primeira vez na sua existência. Todas as questões e dúvidas que tinha anteriormente desvaneciam-se e a sensação de dever cumprido preencheu-o.
Estou pronto! Exclamou decididamente. O autor esticou a mão, o escritor esticou a sua. Passaram ainda vários dias até a mulher-a-dias encontrar o corpo sem vida do escritor jazendo sobre a sua obra-prima.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bananas X

01-02-2005

Ontem encontrei o Antunes. Já não o via há anos! Dizer que está na mesma levaria a pensar que mantém o espírito jovem, mas a verdade é que ele já tinha era o espírito velho antes! O Antunes é daqueles gajos que deve ter nascido já com 20 anos, (desconfiem sempre de um gajo que atravessa a faculdade sem apanhar uma borracheira!) o curioso é que naquela altura, a super-responsabilidade dele era mais motivo de chacota do que outra coisa, mas ele lá se manteve firme nas suas convicções e ontem já não consegui gozar com ele como outrora; surpreendentemente algumas dessas convicções faziam agora sentido! Consegui controlar o susto inicial e até fiquei contente por me aperceber que cresci, afinal, se ele se conseguir manter assim, só quando eu tiver uns 90 anos é que não vou conseguir evitar levá-lo a sério!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bananas IX

01-02-2005

Coitado do Magalhães! O que é que ele viu naquela gaja? Ela era uma verdadeira cabra para ele e, mesmo após vários anos, ele continuava a responder com incrível placidez. Nunca o vi dar um murro na mesa, nem sequer levantar a voz. Quem é que o imaginava capaz daquelas atrocidades?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Bananas VIII

01-02-2005

Tenho falado é com o Guedes, gajo muito porreiro, boémio como sempre, dá gosto ver um gajo chegar aos 35 e manter assim a jovialidade. Estar com ele é sempre passar um bom bocado, somos contagiados pelo desprendimento que ele tem das coisas materiais, e, segundo me contou com entusiasmo, parece que é desta que vai mesmo sair de casa da mãe!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Bananas VII

01-02-2005

Ganda maluco, o Almeida! O que ele comia de gajas! Verdadeiro passarão! Estava lá tudo, o jogo de cintura, o sorriso assimétrico, o profissional franzir de sobrancelha. Era um espectáculo vê-lo trabalhar! Cámones então era mato, e além do mais, dava aulas de psicologia feminina a muito chotôr! Pois, casou, vem uma menina, outra menina, lá decidiram tentar uma última vez e vêm gémeos! Duas meninas! Há gajos com azar! Pois é verdade que os há, a mulher, muito abalada com a situação toda, numa atitude de desespero decidiu fugir com um possante mancebo cabo-verdiano, trabalhador temporário da obra em frente, deixando-o com as quatro piquenas. Mas sabem como é o Almeida, ele conhece as mulheres e está certo que ela volta quando lhe passar a depressão pós parto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Bananas VI

01-02-2005

O Barbosa era daqueles gajos a quem se tirava logo a pinta. Gostava que as pessoas soubessem que ele não acreditava em qualquer tipo de relacionamento inter-classes mais íntimo do que o que se tem com um empregado de restaurante pouco falador. Estava convicto que havia níveis de importância entre os seres humanos e sempre que uma situação o obrigava a trocar algumas palavras com um “inferior”, fazia-o com uma desconcertante expressão de repulsa. Tive sentimentos contraditórios quando o encontrei ontem à noite a dormir debaixo de cartões na estação do Rossio. Ignorou-me quando tentei abordá-lo. Parece que, apesar de tudo, não mudou de opinião...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mitos




Não sou de alarmismos nem de acreditar em mitos urbanos. Não acho que haja assim tantos ucranianos a roubar crianças de automóveis parados em semáforos. Não conheci ainda ninguém que tivesse acordado sem rins numa banheira cheia de gelo depois de entrar numa loja chinesa e continuo a usar desodorizantes com propriedades antitranspirantes e champôs com Sodium Lauryl Sulfate.
Comecei, no entanto, depois deste acontecimento a temer os gangs de guarda-chuvas que, com o seu ar inofensivo, se deitam pelas nossas estradas para, quando passarmos por cima deles, saltarem de forma vil e maliciosa e entalarem-se por detrás das rodas dos nossos (muito pouco) estimados veículos. Não é tão mau como perder um filho ou um rim, suponho, mas não é fixe andar uma semana a dizer para nós próprios que o barulho na roda é certamente algo fabricado pela nossa imaginação, e que se assim não for, será sem dúvida algo sem importância, que não coloca nenhum risco, que o arranjo não nos vai nada custar várias noites de copos...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ergástulo

- Só os fracos de espírito conseguirão a felicidade. Só os verdadeiramente néscios encontrarão satisfação. A Terra não quis nada disto. Olhai e vede que nada na nossa evolução nos fez ser mais felizes. Não aceiteis o ergástulo da inteligência. Abri os olhos para a realidade e aceitai a bênção da lobotomia.

Parei a meio do passo que estava a dar ao longo do passeio da avenida, a duvidar dos meus ouvidos. Ouvi mal, de certeza, o homem não pode estar a oferecer lobotomias em nome da felicidade, pensei.

Era uma hora movimentada e o facto de eu ter parado abruptamente causou alguma confusão no intenso trânsito pedonal. Com alguma dificuldade, avancei perpendicularmente ao sentido do fluxo de pedestres que por ali passava e acerquei-me do pregador, ao qual mais ninguém prestava atenção.

Quando me aproximei do homem surpreendi-me com a sua parca idade. Esperava um velho, já algo tresloucado pelas amarguras da vida, mas não, certamente o homem não tinha mais que quarenta anos. Estava de pé sobre um tosco caixote de madeira, penteadíssimo, vestido a rigor, fato preto, gravata, flor na lapela e lenço a despontar do bolso. Assim que percebeu que alguém estava de facto a tentar compreender aquilo que pretendia transmitir, um novo ímpeto surgiu na sua entoação quando começou a falar directamente para mim.

- Vejo o brilho da sagacidade nos teus olhos, irmão. Aquele brilho que me garante que nunca na vida conseguirás sentir a plenitude. Porque te resignas a isso? Porquê, irmão? Há uma alternativa. A felicidade está ao teu alcance se abraçares a ignorância!

Realmente, os atrasados mentais costumam ter um sorriso genuíno permanentemente estampado no rosto, pensei, é um sorriso de quem não percebe nada de nada, mas não deixa de ser genuíno. Não tenho dúvidas que terão uma imensamente maior probabilidade e até capacidade de ser mais felizes que eu. Enquanto ponderava sobre isto, a única minha expressão visível limitou-se a um inclinar da cabeça para o lado, mas que foi suficiente para o homem perceber que eu estava realmente a pensar sobre o assunto.

Motivado por alguém estar realmente a dar algum crédito ao que apregoava, o homem desceu do seu caixote e veio ter comigo.

- Leio claramente os teus olhos, irmão. Vejo que almejas algo mais, que almejas uma plenitude e satisfação que te são negadas pela consciência da podridão humana. Pois eu, através de um processo simples e indolor, consigo proporcionar-te tudo o que desejas.

Tive o impulso de lhe responder imediatamente que não, obrigado, e virar as costas, mas a verdade é que fiquei extremamente curioso sobre o que o caricato homem oferecia.

- Como é que isso funciona?

- Meu irmão, garanto-te que, apesar de ser impressionante e algo assustador, o processo é seguro e indolor. Consiste na inserção de uma sonda pelo canto interior do olho até a uma região específica do cérebro, onde se fará uma pequena lesão. O resultado é tão garantido que nem sequer há a hipótese de te arrependeres porque ficarás demasiado imbecil para te colocares esse tipo de questões. Serás feliz, irmão, serás feliz. Nunca mais te questionarás se vale a pena continuares a levantar-te da cama de manhã. Nunca mais te entristecerás com a crueldade natural do ser humano, nem com a sua falsidade, nem com a sua mesquinhez. Nunca mais ponderarás sobre nenhuma das questões que te consomem e te roubam a alegria, irmão, que te roubam o sorriso. Uma nova vida. Uma vida feliz! É o que te espera, meu irmão!!

- Quero duas, se faz favor.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Magarefe

Dei por mim a invejar o homem do talho. Se fosse eu a entrar no café coberto de sangue alheio tinham chamado logo a polícia.

Curtas

Navego ao sabor de ti
Para me perder mar adentro

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vulva de Judas

As mulheres são mais falsas que Judas! A frase, proferida com voz rouca e arrastada fez-me levantar o olhar da minha taça de tinto e dirigi-lo para o canto de onde surgiu. Não acha? Perguntou-me o homem. Era bastante gordo, vestia umas calças puídas de terylene e uma camisa aos quadrados tão justa que receei que, se um daqueles botões saltasse, certamente cegaria alguém ou mataria o papagaio que, colocado à entrada do estabelecimento, nos divertia gritando impropérios aos transeuntes. O cinto estava geometricamente apertado no meio da sua enorme barriga dando-lhe uma aparência algo grotesca. A cara, inchada e vermelha, indiciava um longo historial de consumo de álcool e o seu segundo queixo ondulava hipnoticamente conforme falava. Merda, pensei, quem me mandou olhar? Ainda é jovem, se calhar ainda não percebeu isso, disse o homem perante o meu silencioso encolher de ombros, aposto que se lhe perguntasse daqui a uns anos teria outra opinião. Ficou a olhar para mim e eu senti-me na obrigação de dizer alguma coisa. Não tenho a certeza que o Judas tenha sido assim tão falso, disse-lhe. O que é que me interessa o Judas? Eu estou a falar de mulheres, rapaz, de mulheres, exclamou o homem assumindo que eu não tinha percebido a sua mensagem. Pronto, vamos lá a isto, pensei enquanto dava o último golo que restava na taça. Mais uma para mim e outra aqui para o nosso amigo. O homem bebeu de uma vez o restante na sua taça para que o taberneiro lha pudesse encher novamente. Pachorrento, o taberneiro repetiu o acto com a minha taça e, arrastando os pés pela serradura, voltou novamente para detrás do balcão. Muito obrigado, rapaz. Hipólito, Hipólito Álvares, disse enquanto o seu enorme corpo dava um quarto de volta na cadeira para que pudesse esticar o braço direito, palma aberta, na minha direcção. Não sei se terá sido deliberado ou não, mas foi uma forma de me obrigar a levantar-me do meu sítio e ir para a mesa dele. Peguei na minha taça e aproximei-me. Gregório, disse-lhe enquanto apertava a sua mão sapuda e oleosa, fazendo um esforço para que a minha expressão não denunciasse o extremo desagrado que aquele acto me estava a provocar. Sentei-me. Então o senhor Gregório confia nas mulheres, perguntou-me em tom jocoso, é isso? Suponho que as haja de confiança e outras nem por isso, disse-lhe, eu só estava a defender que o Judas talvez esteja a ser algo injustiçado nesta questão da falsidade, continuei tentando mais uma vez desviar o assunto. Outra vez o Judas? Já lhe disse que não me interessa o Judas! O tom do rosto do homem tornou-se ligeiramente mais avermelhado. O que eu lhe estou a dizer é para não confiar numa mulher. Pois, eu sei, desculpei-me, mas não acha que é injusto? Não acha que o facto de ter sido escolhido para fazer o trabalho sujo de Deus devia ter sido recompensado com algo mais que ficar conhecido para o resto dos tempos como o maior filho da puta da história? Ao ponto de ser usado como metáfora para a falsidade? Pois, não sei, respondeu desinteressadamente o homem, o que eu sei é que mais vale não acreditar em nada do que uma mulher diz. Pois, continuei, coitado do Judas…

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A lesma

A lesma passeava pelos pés doridos do Sr. Malaquias enquanto ele, depois de despir as calças e se colocar mais à vontade, desentorpecia as costas, de pés no chão, mas deitado na cama. Depois de se esticar o mais que conseguia, com um suspiro, descontraiu de uma vez todos os músculos e deixou-se ficar a desfrutar o relaxamento, olhando distraidamente para o casulo que uma larva, provavelmente de traça, tinha construído no tecto do quarto.

Deitou-se de lado, atravessado na cama, mesmo a tempo de ainda ver desaparecer a parte traseira da centopeia que deslizou para debaixo da sua almofada. Suspirou outra vez quando a aranha que vivia no canto por cima da sua cabeceira começou a descer pelo seu fio de seda. Que inveja, disse à aranha, não percebo porque é que os budistas ou os taoistas ou lá quem quer que seja que acredita naquela parvoíce que diz que reencarnamos segundo o nosso karma e que ser humano é já quase o fim da linha. Não percebo porque é que se há-de achar tão bom ser-se humano, continuou, até parece que sermos inteligentes contribui para a nossa felicidade. Tenho a certeza que és muito mais feliz que eu, continuou o Sr. Malaquias dirigindo-se à aranha que entretanto tinha já atingido a mesa de cabeceira e parado, como se realmente estivesse a ouvi-lo, não era muito melhor poder descer do cimo de um prédio por um fio produzido pelo nosso corpo? Talvez fosse estranho ao princípio, ter algo tipo um cabo de aço a sair-me do cu, mas nada é perfeito, não é? E acabamos por nos habituar a tudo, não é? Não contribuiria muito mais para a minha felicidade do que ser inteligente? Ou poder voar, poder subir paredes, dar saltos gigantescos, não ter praticamente preocupações na vida… Sim, era muito melhor que ser inteligente! Invejo-vos a todos. A todos! Enquanto proferia a última frase alternou o olhar entre a aranha, as moscas que pairavam no ar, terminando na barata que subia a parede oposta, ao lado do poster do homem aranha que tinha há mais de quarenta anos. Suspirou outra vez, sem sequer se aperceber que a lesma lhe subia pela perna.

Fechou os olhos e imaginou-se um híbrido homem/louva-a-deus gigante a destruir uma cidade sem piedade. Não era por ser mau, disse a si próprio, era apenas porque seria desprovido de qualquer coisa minimamente próxima de ética ou compaixão. Porque seria totalmente livre de fazer o que os meus instintos me dissessem para fazer. Não mataria as pessoas por ser um assassino impiedoso. Mataria movido pelos instintos mais básicos, por fome, por medo e acharia normal. Depois de se tranquilizar que a sua fantasia não o transformava num monstro sanguinário que se satisfazia com o sofrimento dos mais fracos, continuou a ver o filme na sua cabeça. Prédios ruíam com um simples piparote, as pessoas eram como pipocas entre as suas mandíbulas. Crocantes. Deliciosas… Totalmente absorto, o Sr. Malaquias nem sequer sentiu a lesma quando ela já deslizava pela sua coxa. Depois, quando estivesse satisfeito, com um gigantesco salto, voaria através das nuvens, sentindo o vento da liberdade nas antenas. Olhou, melancólico, para o poster. Porque é que não existem mesmo aranhas radioactivas capazes de nos dar parte dos seus poderes? Perguntou a todos os presentes. Ou insectos, ou até mesmo celenterados, moluscos! Fechou os olhos e voltou a deixar-se embrenhar pela fantasia sem se aperceber que a lesma tinha já entrado para dentro da sua roupa interior, perigosamente perto da sua genitália. De olhos fechados e com um ténue sorriso nos lábios, o Sr. Malaquias voava dentro da sua cabeça enquanto a lesma, estrategicamente, se posicionava naquele pequeno espaço entre o escroto e o esfíncter anal.

De repente, uma dor aguda fá-lo esbugalhar os olhos e dar um salto da cama. Atónito, enquanto afagava com a mão a região afectada, sentiu que algo estranho se passava no interior do seu corpo. Assustado, sentiu que os seus ossos começavam a perder a rigidez. Sentiu-se a ficar mais pequeno e, olhando para baixo, aterrorizado, verificou que as suas pernas perdiam a sustentação. Causou-lhe particular estranheza que o fenómeno, em vez de o fazer cair, provocou apenas um desabar do seu corpo sobre si mesmo. Gritou enquanto o seu corpo despencava até se transformar em algo disforme. Chorou no momento em que a sua cabeça se afundava na massa que era agora o seu organismo. Demorou algum tempo até se conseguir começar a habituar à sua vida como a lesma humana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Bananas V

01-02-2005

Ninguém soube mais nada do Sousa. Provavelmente devido a uma produção anormalmente elevada de testosterona, semana que o Sousa não fosse pelo menos três vezes ao Olympia não era uma boa semana para ele. Parece anedota, mas já o tratavam pelo nome e até estavam a pensar implementar bilhetes semanais. Toda a gente assumiu que se tinha perdido no submundo do sexo e certamente, se ainda estivesse entre nós, estaria cheio dessas bichezas que agora tanto falam (as doenças venérdicas ou lá o que é…). Pois é verdade. Adivinhem quem me bateu ontem à porta para me oferecer a última edição da Despertai!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bananas IV

01-02-2005

O que eu me divertia com o Silva! Era sempre a alma da festa! Sempre o mais teso de todos, provavelmente o recorde do mundo de copos cravados numa noite! Não pensem mal do Silva, para ele, cravar copos era uma arte! O segredo do seu sucesso era que não era um parasita, sempre que tinha dinheiro pagava também com alegria e boa disposição. Fui almoçar com ele ontem e, apesar de nos termos rido com fartura, algo parecia estranho. Só percebi quando veio a conta e ele fez questão de pagar só a parte dele, afinal só eu é que tinha bebido vinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bananas III

01-02-2005

O Pereira? Aquele cheio de papel, que quando tínhamos Simcas 1000 todos podres e afins já tinha grandes máquinas e cuja casa fazia inveja a muitas discotecas? Sim, lembro-me. Esse gajo dá-me pena, assim que saiu da escola entrou numa espiral descendente de psicoses e as últimas notícias que tenho dele é que meteu na cabeça que toda a gente se queria aproveitar da sua abundância e acabou por ir viver para um retiro para doidos ricos. Mas parece que o seu problema social está melhor, pelo menos mantém já uma relação de amizade bastante estável com uma das oliveiras do jardim.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Bananas II

01-02-2005

Lembram-se do Fernandes? Aquele atrofiado que nunca tinha posto um cigarro na boca? Sim, aquele, que, com a sua característica arrogância, se esforçava por fazer os fumadores mais fracos de espírito sentir-se estúpidos e inferiores. Pois, esse mesmo! Vi-o ontem a arrumar carros no Restelo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Bananas I

01-02-2005

Há que tempos eu nem sequer me lembrava do Marques! Sempre fomos muito amigos. Apesar da sua personalidade divertida fazer dele um óptimo e frequente companheiro de galhofa, sempre denotei uma certa mania das grandezas; à qual nunca dei muita importância. Pois é, parece que o negócio de bolas de golfe está a ir de vento em popa e ele agora já não conhece ninguém!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um dia escrevi isto

31-01-2005

- “Agasalha-te, deve estar frio”, disse ela num tom maternal que me fez ranger os dentes; respondi com uma onomatopeia e saí para a manhã bucólica de Outono. “Merda! Está um frio de rachar” murmurei enquanto a brisa gélida me lambia a face, “estou a ver que vai ser mais um daqueles dias!”. Meti-me no carro e segui até casa do X; ele já estava à porta, com o seu característico sorriso matinal de quem acorda com a melhor das disposições, eufórico com a vida. Como aquele sorriso me irrita! Todas as manhãs me apetece carregar a fundo no acelerador e deixar aquele sorriso envolto em fumo de escape e simplesmente fugir dele; mas não, ele não tem culpa de ser tão feliz, de achar perfeita a sua vidinha inútil.
- “Bom dia”, disse, como ser fosse uma verdade inegável;
- “Não sei o que é que ele tem de bom. Estamos aqui quando podíamos estar na cama, e ainda por cima está um frio insuportável!”;
- “Sabes, isto pode parecer idiota, mas eu gosto deste frio, faz-nos sentir vivos!”;
- “Tens razão!”;
- “O quê? Concordas?!”,
- “Sim, realmente parece idiota!”.
O resto da viagem até ao emprego decorreu em absoluto silêncio.
- “Almoçamos?”
- “Whatever!”
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- “Não sei porque é que suporto essa tua constante boa disposição! Se soubesses como me irrita...”,
- “Eu sei que te irrita, e, se queres mesmo saber, isso até me dá um certo gozo! Mas queres saber porque é que me suportas? É pela mesma razão que eu te suporto. Tu precisas de mim para não dares um tiro na cabeça, da mesma forma que eu preciso de ti para me manteres em contacto com a realidade. Ser um bom optimista não é tentar acreditar que o mundo é perfeito, mas sim ver a realidade de um ponto de vista positivo e construtivo. É engraçado, o meu optimismo irrita-te enquanto o teu pessimismo me diverte! Não achas que serias muito mais feliz se fosses mais como eu?”
- “E como é que propões que eu faça isso? Como é que eu posso pensar que existe um lado positivo no facto da ementa de hoje ser execrável, quando só de olhar para ela me apetece vomitar?”
- “Se calhar o segredo passa por reduzir o número de coisas que odeias e que te irritam.”
- “Não achas que é um bocado estúpido achar que uma pessoa pode controlar isso? Como é que eu faço para gostar de uma coisa de que não gosto?”
- “Bom, suponho que terás razão nisso, mas um bom começo seria não deixares as coisas que não gostas afectarem-te tanto. Obriga-te a, em vez de praguejar, tirar o melhor partido da situação. Em que é que o pessimismo te ajuda a resolver os problemas?”
- “Ajuda-me a estar preparado para o pior! Poupa-me desilusões”
- “E rouba-te a alegria!”
- “Qual alegria?”
- “A alegria de viver, de poder contemplar a beleza que nos rodeia, de amar!”
- “Vamos pedir que já estou a ficar enjoado!”
Pedi o que me pareceu mais suportável e ele pediu o mesmo.
- “Pergunto-me o que é que te terá feito ficar assim.”
- “O mundo não é um lugar belo, está cheio de humilhação e sofrimento. O ser humano não é humano, é o mais selvagem dos animais!”
- “Mas em que é que a tua postura ajuda? Quando passas por uma pessoa com fome e não tens nada para lhe dar, o que é que achas que ajuda mais a pessoa? Ofereceres um sorriso e umas palavras de conforto e esperança ou sentares-te ao lado dele ajudando-o a praguejar e maldizer o seu fado?”
- “Sabes, acho que a irritação que me provocas é no fundo inveja. A verdade é que eu admiro a tua visão da vida, e se pudesse ser como tu num estalar de dedos, não pensava duas vezes. Mas não consigo. Será patológico? Devo procurar ajuda profissional?”
- “Eu sou da opinião de que temos todas as capacidades necessárias de fazer a nossa auto psicanálise. Temos é que conseguir racionalizar as coisas e encarar e admitir para nós próprios os nossos defeitos, resistindo ao impulso natural da negação.”
- “Nunca vou conseguir!”
- “Às vezes acho que tu gostas de ser assim, que curtes a depressão. Tinhas razão, a comida foi uma desilusão! Amanhã será melhor!”
Contei até dez.
- “Querem vir jantar a nossa casa? É Sexta-feira, podemos ver um filme.”
- “Por mim tudo bem, vou falar com ela.”

Não sei se foi a conversa do almoço, mas curiosamente passei a tarde quase sem me irritar, se calhar já estou a ficar habituado à incompetência.
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- “Abres a porta? Devem ser eles.”
- “Tenho alternativa?”
Abri a porta e lá estava o sorriso aberto. No entanto desta vez transmitiu-me uma inexplicável sensação de calor. Deve ser do vinho que bebi enquanto fazia o jantar.
- “Boas! Entrem e ponham-se à vontade.”
Seguiu-se o habitual, e tratando-se do X, excessivamente caloroso, ritual de cumprimentos.
- “O jantar vai ser bacalhau pessimista!”
- “E estará bom?”
- “Dificilmente! Mas desde quando é que isso é um problema para ti?”
- “Não é. A comida é a parte menos importante do jantar. É preciso ajuda para alguma coisa”
- “Podem ir começando a pôr a mesa. A comida está quase pronta.”
Eles cumpriram e atacámos o bacalhau. Estava bom.
- “Então? Há novidades? Como é que vão as coisas?” Perguntou Y
- “A mesma merda de sempre!” Respondi antes que a W pudesse dizer algo.
- “Porque é que tens sempre que tentar estragar o ambiente?” Perguntou ela.
- “Não estava a tentar nada, simplesmente respondi honestamente.”
- “Pronto, pronto. Foi só uma daquelas perguntas standard. Não é preciso estarem já a chatear-se.”
- “É que esta atitude perante a vida começa a afectar-me os nervos. Está sempre tudo mal. Qual é o meu papel no meio disto? Se não sirvo para o fazer feliz, o que é que eu estou aqui a fazer?”
- “Sombra!”
“Eu estou a falar a sério! Isto está a esgotar-me as forças. Não quero tornar-me maníaco - depressiva! Como é que eu lido com esta merda?”
“Que tal calada?”
Ainda recebi um olhar fulminante antes de ela se ir fechar no quarto.
“Não estava a contar o tempo, mas parece-me que foi um novo recorde!”
“Isto diverte-te? Como tu não está feliz, tens que estragar a noite das outras pessoas?”
“Parece-me que, desta vez, até fui eu a ter a atitude mais cool.”
“Pois, tu só és cool quando estás a gozar com a estabilidade emocional das pessoas. Não vês que ela gosta de ti e quer ser feliz ao teu lado? Porque é que tu não deixas que os teus amigos te ajudem? Vou falar com ela.”

“É impressionante como vocês conseguem manter esta amizade há tanto tempo.”
“É mais uma relação amizade/ódio!”

“Deixa lá, não fiques assim”, confortou X.
“E fico como? Já não aguento as merdas dele!”
“Ele está a passar uma fase difícil. Eu acho que ele, no fundo, está revoltado por estar a ser obrigado a crescer, a ter responsabilidades e já não poder fazer o que lhe dá na cabeça.”
“Mas não é justo que gostar dele tenha um preço tão alto! Já tenho dúvidas que eu significo alguma coisa para ele”
“Eu acho que, de certa forma, ele te culpa, porque foste tu que fizeste tudo acontecer, foi ter-te conhecido que o fez avançar no seguimento normal da vida, casar, constituir família, e isso mostra o que significas para ele; e não acho que esteja arrependido, é só um problema de adaptação. Tenho a certeza que, com a tua ajuda, ele vai ultrapassar esta fase.”
“Mas eu não sei como agir. Acho que não cumpri as expectativas dele.”
“Porque é que não experimentas psicologia inversa? Quando ele está para desatinar, tu levas a coisa na boa e reages com extrema boa disposição, brinca com ele; mesmo que não resulte sempre evitas que a coisa descambe. Pensando nisso, acho que no fundo é como eu tenho conseguido ser amigo dele, embora o faça mais para o chatear.”

Forças malignas

Numa postura de combate às forças malignas ocultas, do efeito das quais a Tertúlia dos Néscios não haveria de estar isenta, vou voltar a publicar os textos que as referidas forças fizeram desaparecer. Mesmo aqueles que se tivesse escrito agora talvez não publicasse.
Assim, se alguém sentir aquela estranha sensação de dejá-vu, não precisa de ir logo a correr para a psicoterapia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Elasticidade/Independência

- Vi ontem uma cena impressionante na televisão. Um gajo que tem um espectáculo num bar em Ibiza que consiste em fazer uma auto-felação.

- Se eu conseguisse fazer isso não aturava metade das merdas que aturo…

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ensaio sobre uma merda qualquer

Ah, que maravilha! Este sol maravilhoso, este mar azul infinito. Plenitude… Isto é que é vida!

O homem que estava deitado na espreguiçadeira ergueu-se repentinamente. Foi como se o seu cérebro de repente tivesse começado a funcionar.

Mas… Onde é que eu estou? O que é que se passa?

Parecendo ter saído da selva por trás, uma jovem e bela rapariga, vestindo apenas uma saia de longas folhas, apareceu com um coco verde, do qual saía um par de vistosas palhinhas. A sua pele tinha um bronzeado carregado e o seu cabelo era longo e negro. A rapariga aproximou-se com um passo leve, ajoelhou-se junto da espreguiçadeira e, baixando a cabeça, estendeu ambos os braços. Incrédulo, o homem pegou no que lhe era entregue e a rapariga ergueu-se.

Sabes quem eu sou? Como ou quando cheguei aqui?

A rapariga limitou-se a dizer uma frase numa língua estranha e, com uma suave vénia e um sorriso, afastou-se, desaparecendo pela vegetação. Estupefacto, o homem não teve qualquer reacção. Limitou-se a desviar lentamente o seu olhar espantado do lugar por onde a rapariga tinha desaparecido até ao objecto nas suas mãos.

Bom, vamos lá ver… Sei quem sou, chamo-me Lapricínio Ramalho, sou técnico de canalização, tenho uma mulher, três filhos, dois rapazes e uma menina linda, moro num T3 em Xabregas… Bom… Parece que, tirando o facto que não saber o que estou aqui a fazer nem como cá cheguei, não estou amnésico. A não ser… Que eu não seja o Lapricínio Ramalho… Se calhar sou rico e não canalizador, e isto de estar a relaxar numa praia paradisíaca a beber de um coco com umas palhinhas todas paneleiras é normalíssimo… Não! Isso é absurdo! Eu sei que sou o Lapricínio Ramalho. Tenho é que descobrir como vim aqui parar.

Lentamente, quase desconfiado, o homem levantou-se. Com passos cuidadosos, como se se tentasse certificar que a fina areia que os seus pés nús pisavam era, de facto, real, acercou-se do mar. Olhou para o seu reflexo na água, levemente distorcido pela suave ondulação.

Sou eu. Fico mais descansado, pelo menos reconheço o meu rosto, caso contrário é que as coisas ficariam mesmo demasiado estranhas, mas já estava preparado para tudo. Deve ser impressão minha, mas pareço um bocado mais novo do que eu me lembrava de mim, mas pronto, sou eu. Será que isto confirma que sou o Lapricínio Ramalho? Se calhar não… Não é que eu não goste de ser o Lapricínio Ramalho, técnico de canalização, casado por amor e pai de três filhos, até gosto muito, mas… Epa, conseguia habituar-me a este clima…

Imerso nos seus pensamentos, o homem percorria a linha da costa, desfrutando nos pés a leve sensação refrescante que a água tépida proporcionava.

Acorda e controla-te, Lapricínio! Tens que descobrir alguém, civilização, um telefone para poderes ligar à tua mulher, alguma pista que te consiga fazer perceber alguma coisa. Organiza o raciocínio. O que quero saber? Onde estou? Quando cheguei? Porquê? Onde está a minha família? O que sei… Hum… Nada… Não é muito animador, mas pronto, não posso desmoralizar. E quem é que conseguia desmoralizar com uma paisagem destas?… Concentra-te, Lapricínio. Concentra-te!

Ao chegar ao fim da praia, o homem viu uma série de degraus toscos, ladeados por um corrimão artesanal feito com canas.

Civilização! Ou algo próximo disso. Menos mal. Mas não me parece que haja por aqui um telefone. Mas porque é que eu viria aqui sem a minha família?

O homem subiu os degraus e, no topo, atravessou um grupo de palmeiras jovens. Deu por si numa clareira onde, além de uma cabana de madeira, uma cadeira, uma pequena mesa com um guarda-sol feito de canas finas, estava uma rústica mesa de massagens e, ao lado, uma exótica mulher.

Deslumbrante. Simplesmente deslumbrante…

A mulher esticou o braço, dirigindo a mão aberta para a mesa de massagens e, como que telecomandado, o homem deitou-se de barriga para baixo. Após aplicar uma porção de óleo nas costas do homem, a mulher pousou o recipiente feito de casca de coco e, em silêncio, iniciou a massagem.

Porra, Lapricínio! Não podes ser assim. Ficaste tão embasbacado que se ela te tivesse dito para ladrar, tu tinhas ladrado. Controla-te, homem! Ela até te pode querer fazer mal, e tu, o que fazes? Ofereces-lhe as costas e tempo de sobra para escolher bem o sítio onde espetar a faca. Se bem que não parece nada que ela me queira fazer mal. Está a saber-me tão bem que nem me importo com a faca. Continua assim e podes espetá-la, que morro satisfeito. Claro! És tão otário, Lapricínio. Como é que não pensaste nisso antes? Só pode ser um sonho! Que fixe, é um sonho. Deixa-me é aproveitar, que já não deve faltar muito para a merda do despertador tocar. Desta vez vai ser ainda mais torturante que o normal, ter que sair da cama, mas macacos me mordam os tomates se vou deixar que isso estrague este sonho espectacular. Sim… Isso… Aí…

Como que movida por um sexto sentido, a mulher terminou a massagem no momento em que o homem parecia prestes a adormecer. A paragem despertou-o. Levantou a cabeça devagar, desentorpecendo o pescoço e olhou para a mulher. Esta sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente para a frente. Com uma expressão de deleite, o homem manteve o olhar na mulher enquanto esta se afastava.

Que silhueta… Que sonho maravilhoso. É, de certeza, o melhor sonho que já tive. Excepto talvez aquele em que conseguia voar, ou aquele em que conseguia ficar invisível, ou talvez também aquele… Mexe-te, otário! Um sonho destes e tu estás a desperdiçá-lo a divagar? Levanta-te, explora, aproveita!

O homem levantou-se e, enquanto decidia que direcção tomar, ouviu o toque de um telefone. Era a tradicional e inconfundível campainha de um telefone. Seguindo pelo caminho que o levava na direcção do som, foi-se embrenhando cada vez mais selva adentro, sempre seguindo o toque do telefone que, apesar da tortuosidade do percurso, cada vez parecia mais próximo.

Um telefone, no meio da selva, este sonho está a descair um bocado para o surreal. Também já gostei mais dele, se em vez de estar a deambular pela selva estivesse a ter um happy ending com a massagista seria tão melhor.

O homem continuou a seguir o som até se deparar com um estranho arbusto que lhe cortava o caminho. O toque do telefone parecia provir de detrás da peculiar vegetação.

O caminho cortado por um arbusto de ramos negros e bagas verde fluorescente? Será que isto tem algum significado subliminar? Não canses a cabeça a procurar significados ocultos em tudo, Lapricínio, é só um sonho marado. E o telefone no meio da selva a tocar por trás? Não deve ter voice mail activado, senão aquela menina simpática com quem gosto tanto de falar já tinha atendido a pedir para deixarem recado. Acho que posso esgueirar-me por entre estes dois ramos. Estas bagas são muito curiosas, até me apetecia comer uma.

O homem aproximou a pinça formada pelo indicador e o polegar da mão direita da brilhante baga mas, no instante em que lhe tocou, esta explodiu libertando uma pequena nuvem de gás verde fluorescente.

Olha. Giro. Isto afinal são pequenas bolhas de gás. Se isto está a sair do meu inconsciente, deve ter alguma significado, mas qual? Bom, vamos lá atender a merda do telefone que já me está a irritar, e para isso chega-me a vida real.

O movimento nos ramos do arbusto provocado pela passagem do homem fez rebentar quase todas as bagas cujo conteúdo deixou no ar um cheiro singular mas agradável, como uma extraordinária especiaria desconhecida. Ao chegar ao outro lado do arbusto deparou-se com uma pequena mesa redonda cuja única perna assentava no chão no que parecia tentar imitar a pata de uma ave, sobre a qual tocava incessantemente o procurado telefone. Era um enorme aparelho de aspecto muito antigo, branco com detalhes em dourado, sem qualquer fio visível. O homem, agastado pelo contínuo soar do telefone, atendeu prontamente.

- Tá lá? Quem é que fala?

- Filho, consegues ouvir-me, meu amor?

- Almerinda? És tu, querida?

- Não me deixes, por favor.

- Ninguém vai deixar ninguém, tem calma contigo. Onde é que estás?

- Eu não sei o que fazer sem ti. Volta para mim, tens que voltar para mim.

- Claro que volto! Podes começar por dizer-me onde estás. Isso ajudava.

- Não vou desistir de ti, ouviste? Não vou desistir!

- Estás parva, mulher? Já te disse que não há razão para essa angústia. Só tens que me dizer onde estás. Tás-me a ouvir?

- Se soubesses quanto eu te amo não me fazias isto. Se soubesses, voltavas para mim agora, neste instante.

- Mas tu estás a ouvir-me ou não? Eu estou a tentar voltar para ti, mais ou menos, mas este sonho está cada vez mais estúpido. Tou? Almerinda? Tou?

A voz do outro lado da linha transformou-se num lamento baixo e incompreensível. O homem continuou a tentar comunicar até concluír que não estava a ser ouvido pela outra pessoa. Frustrado, atirou o telefone de volta para o descanso.

Calma, Lapricínio, é só a porra de um sonho. Não era a Almerinda, era só uma manifestação do teu inconsciente. E por favor, não te ponhas agora a tentar interpretar, tens muito tempo para isso quando acordares. E agora? Estou no meio da selva sem saber o que fazer. Se calhar mais valia acordar. Que som é este agora? Tambores? Parece-me demasiado ritmado para não ser, mas claro que podem sempre ser coqueiros inteligentes ou algo do género.

Com alguma dificuldade em perceber a direcção de onde provinha o batuque, o homem tentou seguir uma linha recta, atravessando o mato que parecia afastar-se para lhe dar passagem. Algumas centenas de metros mais à frente, o homem encontra-se na orla de uma enorme clareira onde pôde vislumbrar a origem do som. Era uma tribo de indígenas, vistosamente decorados com plumas e pinturas berrantes. Mais de uma centena de homens dispostos em três fileiras, formando um semi-círculo, marcavam uma rápida e ribombante cadência com os seus tambores, ao ritmo da qual um velho, magríssimo, que aparentava ter mais que cem anos, dançava freneticamente.

O raio do velho mexe-se bem. Deve ter tomado uma daquelas mistelas para contactar com os deuses ou isso. Parece uma marionete.

A medo, o homem aproximou-se devagar e o seu sangue gelou quando, ao dar o passo que o colocava a uns vinte metros do grupo, em perfeita sincronia, todos os tambores se calaram e todos os olhares se dirigiram para ele.

Pronto, já te fodeste, Lapricínio. Nunca soubeste estar quieto no teu canto. Assim que o primeiro pegar numa lança, tu não vais assumir que isto é só um sonho e corres como se não houvesse amanhã, até porque pode não haver mesmo. Nunca morrer, mesmo que seja em sonhos, sempre foi o teu lema. Prepara-te…

O velho baixou-se lentamente e, com ambas as mãos, pegou numa taça de madeira que repousava aos seus pés. Elevou-se com a mesma lentidão e, esticando os braços, ofereceu-a ao homem. Com passos inseguros, o homem aproximou-se do velho e tentou evitar um esgar ao aproximar-se e inalar os vapores emanados pelo líquido verde e viscoso no interior da taça. Com um movimento brusco, o velho encostou a taça ao peito do homem, praticamente obrigando-o a aceitá-la. Ainda desconfiado, o homem elevou lentamente as mãos e permitiu que o velho nelas depositasse a sua oferenda. Baixou os olhos e fitou a beberagem de aspecto nada apetitoso.

Será que eles acham que eu sou um deus, como se vê às vezes nos filmes? Isso é que era… Mas podiam oferendar-me qualquer coisa mais apelativa.

O velho colocou as suas esqueléticas e enrugadas mãos à volta das do homem e dirigiu a taça que nelas repousava na direcção da boca deste. Movido por pouco mais que temor, com uma careta, o homem deu um trago na estranha bebida.

- Onde estou? O que é que aconteceu?

- Filho! Finalmente acordaste, meu amor!! Não saí do teu lado. Eu sabia que não me ias abandonar, Gervásio.

- Mas, mas… Quem és tu??

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uno

Não há nada mais em sintonia com a natureza e o universo que a lei do menor esforço.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Frontalidade

- Então, pronto, está combinado. Podes convidar os amigos que quiseres.

- Pois… Sabes… Não tenho assim muitos amigos…

- Não?? Porquê?

- Eu acho que está relacionado com a minha forma de ser. Tenho uma tendência para ser sincero que não consigo evitar.

- Mas… Isso é óptimo!

- Pode parecer, mas não é, de todo. As pessoas não apreciam realmente a sinceridade. Tenho-me apercebido que as pessoas preferem viver num mundinho próprio onde são perfeitas. E, embora toda a gente apregoe que valoriza muito a frontalidade, a verdade é que a grande maioria das pessoas abomina quem lhes mostre um defeito seu. Não só praticamente ninguém está preparado para admitir que tem defeitos, como toda a gente assume sempre que alguém que os aponte é um inimigo e só quer fazer-lhes mal.

- Se calhar tens razão…

- Pois. Comecei a perceber que afastava as pessoas, mas custa-me tanto não dizer o que penso. Vou aguentando, vou aguentando, mas, mais tarde ou mais cedo, sai-me tudo e pronto, lá se vai mais um relacionamento. E parece não haver grande relação entre a reacção e o tempo de relacionamento. Mesmo que já me conheçam há vários anos, há sempre a tendência para achar que, se lhes aponto algo feio, é para os prejudicar e rebaixar. E é particularmente triste porque, se eu me disponho a apontar alguma coisa é porque tenho consideração pela pessoa. É na perspectiva de que é normalíssimo ter defeitos e facetas sombrias na nossa personalidade e nunca tentando transmitir que, por isso, são piores que a pessoa do lado. Além do mais, as pessoas mudam, evoluem. Como é que podemos evoluir e atenuar um defeito se não admitirmos que o temos?

- Compreendo… Se calhar não estás a conhecer as pessoas certas, pessoas que dêem valor a isso.

- Deve haver tão poucas, que as probabilidades de as conhecer são ínfimas.

- Ah, eu não, eu aprecio mesmo muito a sinceridade e a frontalidade, é até das qualidades que mais valorizo numa pessoa.

- A sério?

- A sério.

- Mesmo?

- Mesmo!

- Ufa… Ainda bem. Estava aqui num esforço titânico para não te dizer que acho que esse corte de cabelo te fica horrivelmente. E essa camisola… Epa, por favor. Não tinhas nada mais feio no armário?

- Hum… Pois… Olha, recebi agora uma sms a dizer que a festa foi adiada. Eu depois digo-te a nova data. E… lembrei-me agora tenho um compromisso importantíssimo, tenho que ir andando.

- OK, tudo bem. Até à próxima, então.

- Sim, pois, até à próxima…

- Então não te esqueças de me dizer quando é a festa, afinal. OK?

- Claro, claro, fica descansado.