terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Magarefe

Dei por mim a invejar o homem do talho. Se fosse eu a entrar no café coberto de sangue alheio tinham chamado logo a polícia.

Curtas

Navego ao sabor de ti
Para me perder mar adentro

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vulva de Judas

As mulheres são mais falsas que Judas! A frase, proferida com voz rouca e arrastada fez-me levantar o olhar da minha taça de tinto e dirigi-lo para o canto de onde surgiu. Não acha? Perguntou-me o homem. Era bastante gordo, vestia umas calças puídas de terylene e uma camisa aos quadrados tão justa que receei que, se um daqueles botões saltasse, certamente cegaria alguém ou mataria o papagaio que, colocado à entrada do estabelecimento, nos divertia gritando impropérios aos transeuntes. O cinto estava geometricamente apertado no meio da sua enorme barriga dando-lhe uma aparência algo grotesca. A cara, inchada e vermelha, indiciava um longo historial de consumo de álcool e o seu segundo queixo ondulava hipnoticamente conforme falava. Merda, pensei, quem me mandou olhar? Ainda é jovem, se calhar ainda não percebeu isso, disse o homem perante o meu silencioso encolher de ombros, aposto que se lhe perguntasse daqui a uns anos teria outra opinião. Ficou a olhar para mim e eu senti-me na obrigação de dizer alguma coisa. Não tenho a certeza que o Judas tenha sido assim tão falso, disse-lhe. O que é que me interessa o Judas? Eu estou a falar de mulheres, rapaz, de mulheres, exclamou o homem assumindo que eu não tinha percebido a sua mensagem. Pronto, vamos lá a isto, pensei enquanto dava o último golo que restava na taça. Mais uma para mim e outra aqui para o nosso amigo. O homem bebeu de uma vez o restante na sua taça para que o taberneiro lha pudesse encher novamente. Pachorrento, o taberneiro repetiu o acto com a minha taça e, arrastando os pés pela serradura, voltou novamente para detrás do balcão. Muito obrigado, rapaz. Hipólito, Hipólito Álvares, disse enquanto o seu enorme corpo dava um quarto de volta na cadeira para que pudesse esticar o braço direito, palma aberta, na minha direcção. Não sei se terá sido deliberado ou não, mas foi uma forma de me obrigar a levantar-me do meu sítio e ir para a mesa dele. Peguei na minha taça e aproximei-me. Gregório, disse-lhe enquanto apertava a sua mão sapuda e oleosa, fazendo um esforço para que a minha expressão não denunciasse o extremo desagrado que aquele acto me estava a provocar. Sentei-me. Então o senhor Gregório confia nas mulheres, perguntou-me em tom jocoso, é isso? Suponho que as haja de confiança e outras nem por isso, disse-lhe, eu só estava a defender que o Judas talvez esteja a ser algo injustiçado nesta questão da falsidade, continuei tentando mais uma vez desviar o assunto. Outra vez o Judas? Já lhe disse que não me interessa o Judas! O tom do rosto do homem tornou-se ligeiramente mais avermelhado. O que eu lhe estou a dizer é para não confiar numa mulher. Pois, eu sei, desculpei-me, mas não acha que é injusto? Não acha que o facto de ter sido escolhido para fazer o trabalho sujo de Deus devia ter sido recompensado com algo mais que ficar conhecido para o resto dos tempos como o maior filho da puta da história? Ao ponto de ser usado como metáfora para a falsidade? Pois, não sei, respondeu desinteressadamente o homem, o que eu sei é que mais vale não acreditar em nada do que uma mulher diz. Pois, continuei, coitado do Judas…

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A lesma

A lesma passeava pelos pés doridos do Sr. Malaquias enquanto ele, depois de despir as calças e se colocar mais à vontade, desentorpecia as costas, de pés no chão, mas deitado na cama. Depois de se esticar o mais que conseguia, com um suspiro, descontraiu de uma vez todos os músculos e deixou-se ficar a desfrutar o relaxamento, olhando distraidamente para o casulo que uma larva, provavelmente de traça, tinha construído no tecto do quarto.

Deitou-se de lado, atravessado na cama, mesmo a tempo de ainda ver desaparecer a parte traseira da centopeia que deslizou para debaixo da sua almofada. Suspirou outra vez quando a aranha que vivia no canto por cima da sua cabeceira começou a descer pelo seu fio de seda. Que inveja, disse à aranha, não percebo porque é que os budistas ou os taoistas ou lá quem quer que seja que acredita naquela parvoíce que diz que reencarnamos segundo o nosso karma e que ser humano é já quase o fim da linha. Não percebo porque é que se há-de achar tão bom ser-se humano, continuou, até parece que sermos inteligentes contribui para a nossa felicidade. Tenho a certeza que és muito mais feliz que eu, continuou o Sr. Malaquias dirigindo-se à aranha que entretanto tinha já atingido a mesa de cabeceira e parado, como se realmente estivesse a ouvi-lo, não era muito melhor poder descer do cimo de um prédio por um fio produzido pelo nosso corpo? Talvez fosse estranho ao princípio, ter algo tipo um cabo de aço a sair-me do cu, mas nada é perfeito, não é? E acabamos por nos habituar a tudo, não é? Não contribuiria muito mais para a minha felicidade do que ser inteligente? Ou poder voar, poder subir paredes, dar saltos gigantescos, não ter praticamente preocupações na vida… Sim, era muito melhor que ser inteligente! Invejo-vos a todos. A todos! Enquanto proferia a última frase alternou o olhar entre a aranha, as moscas que pairavam no ar, terminando na barata que subia a parede oposta, ao lado do poster do homem aranha que tinha há mais de quarenta anos. Suspirou outra vez, sem sequer se aperceber que a lesma lhe subia pela perna.

Fechou os olhos e imaginou-se um híbrido homem/louva-a-deus gigante a destruir uma cidade sem piedade. Não era por ser mau, disse a si próprio, era apenas porque seria desprovido de qualquer coisa minimamente próxima de ética ou compaixão. Porque seria totalmente livre de fazer o que os meus instintos me dissessem para fazer. Não mataria as pessoas por ser um assassino impiedoso. Mataria movido pelos instintos mais básicos, por fome, por medo e acharia normal. Depois de se tranquilizar que a sua fantasia não o transformava num monstro sanguinário que se satisfazia com o sofrimento dos mais fracos, continuou a ver o filme na sua cabeça. Prédios ruíam com um simples piparote, as pessoas eram como pipocas entre as suas mandíbulas. Crocantes. Deliciosas… Totalmente absorto, o Sr. Malaquias nem sequer sentiu a lesma quando ela já deslizava pela sua coxa. Depois, quando estivesse satisfeito, com um gigantesco salto, voaria através das nuvens, sentindo o vento da liberdade nas antenas. Olhou, melancólico, para o poster. Porque é que não existem mesmo aranhas radioactivas capazes de nos dar parte dos seus poderes? Perguntou a todos os presentes. Ou insectos, ou até mesmo celenterados, moluscos! Fechou os olhos e voltou a deixar-se embrenhar pela fantasia sem se aperceber que a lesma tinha já entrado para dentro da sua roupa interior, perigosamente perto da sua genitália. De olhos fechados e com um ténue sorriso nos lábios, o Sr. Malaquias voava dentro da sua cabeça enquanto a lesma, estrategicamente, se posicionava naquele pequeno espaço entre o escroto e o esfíncter anal.

De repente, uma dor aguda fá-lo esbugalhar os olhos e dar um salto da cama. Atónito, enquanto afagava com a mão a região afectada, sentiu que algo estranho se passava no interior do seu corpo. Assustado, sentiu que os seus ossos começavam a perder a rigidez. Sentiu-se a ficar mais pequeno e, olhando para baixo, aterrorizado, verificou que as suas pernas perdiam a sustentação. Causou-lhe particular estranheza que o fenómeno, em vez de o fazer cair, provocou apenas um desabar do seu corpo sobre si mesmo. Gritou enquanto o seu corpo despencava até se transformar em algo disforme. Chorou no momento em que a sua cabeça se afundava na massa que era agora o seu organismo. Demorou algum tempo até se conseguir começar a habituar à sua vida como a lesma humana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Bananas V

01-02-2005

Ninguém soube mais nada do Sousa. Provavelmente devido a uma produção anormalmente elevada de testosterona, semana que o Sousa não fosse pelo menos três vezes ao Olympia não era uma boa semana para ele. Parece anedota, mas já o tratavam pelo nome e até estavam a pensar implementar bilhetes semanais. Toda a gente assumiu que se tinha perdido no submundo do sexo e certamente, se ainda estivesse entre nós, estaria cheio dessas bichezas que agora tanto falam (as doenças venérdicas ou lá o que é…). Pois é verdade. Adivinhem quem me bateu ontem à porta para me oferecer a última edição da Despertai!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bananas IV

01-02-2005

O que eu me divertia com o Silva! Era sempre a alma da festa! Sempre o mais teso de todos, provavelmente o recorde do mundo de copos cravados numa noite! Não pensem mal do Silva, para ele, cravar copos era uma arte! O segredo do seu sucesso era que não era um parasita, sempre que tinha dinheiro pagava também com alegria e boa disposição. Fui almoçar com ele ontem e, apesar de nos termos rido com fartura, algo parecia estranho. Só percebi quando veio a conta e ele fez questão de pagar só a parte dele, afinal só eu é que tinha bebido vinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bananas III

01-02-2005

O Pereira? Aquele cheio de papel, que quando tínhamos Simcas 1000 todos podres e afins já tinha grandes máquinas e cuja casa fazia inveja a muitas discotecas? Sim, lembro-me. Esse gajo dá-me pena, assim que saiu da escola entrou numa espiral descendente de psicoses e as últimas notícias que tenho dele é que meteu na cabeça que toda a gente se queria aproveitar da sua abundância e acabou por ir viver para um retiro para doidos ricos. Mas parece que o seu problema social está melhor, pelo menos mantém já uma relação de amizade bastante estável com uma das oliveiras do jardim.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Bananas II

01-02-2005

Lembram-se do Fernandes? Aquele atrofiado que nunca tinha posto um cigarro na boca? Sim, aquele, que, com a sua característica arrogância, se esforçava por fazer os fumadores mais fracos de espírito sentir-se estúpidos e inferiores. Pois, esse mesmo! Vi-o ontem a arrumar carros no Restelo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Bananas I

01-02-2005

Há que tempos eu nem sequer me lembrava do Marques! Sempre fomos muito amigos. Apesar da sua personalidade divertida fazer dele um óptimo e frequente companheiro de galhofa, sempre denotei uma certa mania das grandezas; à qual nunca dei muita importância. Pois é, parece que o negócio de bolas de golfe está a ir de vento em popa e ele agora já não conhece ninguém!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um dia escrevi isto

31-01-2005

- “Agasalha-te, deve estar frio”, disse ela num tom maternal que me fez ranger os dentes; respondi com uma onomatopeia e saí para a manhã bucólica de Outono. “Merda! Está um frio de rachar” murmurei enquanto a brisa gélida me lambia a face, “estou a ver que vai ser mais um daqueles dias!”. Meti-me no carro e segui até casa do X; ele já estava à porta, com o seu característico sorriso matinal de quem acorda com a melhor das disposições, eufórico com a vida. Como aquele sorriso me irrita! Todas as manhãs me apetece carregar a fundo no acelerador e deixar aquele sorriso envolto em fumo de escape e simplesmente fugir dele; mas não, ele não tem culpa de ser tão feliz, de achar perfeita a sua vidinha inútil.
- “Bom dia”, disse, como ser fosse uma verdade inegável;
- “Não sei o que é que ele tem de bom. Estamos aqui quando podíamos estar na cama, e ainda por cima está um frio insuportável!”;
- “Sabes, isto pode parecer idiota, mas eu gosto deste frio, faz-nos sentir vivos!”;
- “Tens razão!”;
- “O quê? Concordas?!”,
- “Sim, realmente parece idiota!”.
O resto da viagem até ao emprego decorreu em absoluto silêncio.
- “Almoçamos?”
- “Whatever!”
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- “Não sei porque é que suporto essa tua constante boa disposição! Se soubesses como me irrita...”,
- “Eu sei que te irrita, e, se queres mesmo saber, isso até me dá um certo gozo! Mas queres saber porque é que me suportas? É pela mesma razão que eu te suporto. Tu precisas de mim para não dares um tiro na cabeça, da mesma forma que eu preciso de ti para me manteres em contacto com a realidade. Ser um bom optimista não é tentar acreditar que o mundo é perfeito, mas sim ver a realidade de um ponto de vista positivo e construtivo. É engraçado, o meu optimismo irrita-te enquanto o teu pessimismo me diverte! Não achas que serias muito mais feliz se fosses mais como eu?”
- “E como é que propões que eu faça isso? Como é que eu posso pensar que existe um lado positivo no facto da ementa de hoje ser execrável, quando só de olhar para ela me apetece vomitar?”
- “Se calhar o segredo passa por reduzir o número de coisas que odeias e que te irritam.”
- “Não achas que é um bocado estúpido achar que uma pessoa pode controlar isso? Como é que eu faço para gostar de uma coisa de que não gosto?”
- “Bom, suponho que terás razão nisso, mas um bom começo seria não deixares as coisas que não gostas afectarem-te tanto. Obriga-te a, em vez de praguejar, tirar o melhor partido da situação. Em que é que o pessimismo te ajuda a resolver os problemas?”
- “Ajuda-me a estar preparado para o pior! Poupa-me desilusões”
- “E rouba-te a alegria!”
- “Qual alegria?”
- “A alegria de viver, de poder contemplar a beleza que nos rodeia, de amar!”
- “Vamos pedir que já estou a ficar enjoado!”
Pedi o que me pareceu mais suportável e ele pediu o mesmo.
- “Pergunto-me o que é que te terá feito ficar assim.”
- “O mundo não é um lugar belo, está cheio de humilhação e sofrimento. O ser humano não é humano, é o mais selvagem dos animais!”
- “Mas em que é que a tua postura ajuda? Quando passas por uma pessoa com fome e não tens nada para lhe dar, o que é que achas que ajuda mais a pessoa? Ofereceres um sorriso e umas palavras de conforto e esperança ou sentares-te ao lado dele ajudando-o a praguejar e maldizer o seu fado?”
- “Sabes, acho que a irritação que me provocas é no fundo inveja. A verdade é que eu admiro a tua visão da vida, e se pudesse ser como tu num estalar de dedos, não pensava duas vezes. Mas não consigo. Será patológico? Devo procurar ajuda profissional?”
- “Eu sou da opinião de que temos todas as capacidades necessárias de fazer a nossa auto psicanálise. Temos é que conseguir racionalizar as coisas e encarar e admitir para nós próprios os nossos defeitos, resistindo ao impulso natural da negação.”
- “Nunca vou conseguir!”
- “Às vezes acho que tu gostas de ser assim, que curtes a depressão. Tinhas razão, a comida foi uma desilusão! Amanhã será melhor!”
Contei até dez.
- “Querem vir jantar a nossa casa? É Sexta-feira, podemos ver um filme.”
- “Por mim tudo bem, vou falar com ela.”

Não sei se foi a conversa do almoço, mas curiosamente passei a tarde quase sem me irritar, se calhar já estou a ficar habituado à incompetência.
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- “Abres a porta? Devem ser eles.”
- “Tenho alternativa?”
Abri a porta e lá estava o sorriso aberto. No entanto desta vez transmitiu-me uma inexplicável sensação de calor. Deve ser do vinho que bebi enquanto fazia o jantar.
- “Boas! Entrem e ponham-se à vontade.”
Seguiu-se o habitual, e tratando-se do X, excessivamente caloroso, ritual de cumprimentos.
- “O jantar vai ser bacalhau pessimista!”
- “E estará bom?”
- “Dificilmente! Mas desde quando é que isso é um problema para ti?”
- “Não é. A comida é a parte menos importante do jantar. É preciso ajuda para alguma coisa”
- “Podem ir começando a pôr a mesa. A comida está quase pronta.”
Eles cumpriram e atacámos o bacalhau. Estava bom.
- “Então? Há novidades? Como é que vão as coisas?” Perguntou Y
- “A mesma merda de sempre!” Respondi antes que a W pudesse dizer algo.
- “Porque é que tens sempre que tentar estragar o ambiente?” Perguntou ela.
- “Não estava a tentar nada, simplesmente respondi honestamente.”
- “Pronto, pronto. Foi só uma daquelas perguntas standard. Não é preciso estarem já a chatear-se.”
- “É que esta atitude perante a vida começa a afectar-me os nervos. Está sempre tudo mal. Qual é o meu papel no meio disto? Se não sirvo para o fazer feliz, o que é que eu estou aqui a fazer?”
- “Sombra!”
“Eu estou a falar a sério! Isto está a esgotar-me as forças. Não quero tornar-me maníaco - depressiva! Como é que eu lido com esta merda?”
“Que tal calada?”
Ainda recebi um olhar fulminante antes de ela se ir fechar no quarto.
“Não estava a contar o tempo, mas parece-me que foi um novo recorde!”
“Isto diverte-te? Como tu não está feliz, tens que estragar a noite das outras pessoas?”
“Parece-me que, desta vez, até fui eu a ter a atitude mais cool.”
“Pois, tu só és cool quando estás a gozar com a estabilidade emocional das pessoas. Não vês que ela gosta de ti e quer ser feliz ao teu lado? Porque é que tu não deixas que os teus amigos te ajudem? Vou falar com ela.”

“É impressionante como vocês conseguem manter esta amizade há tanto tempo.”
“É mais uma relação amizade/ódio!”

“Deixa lá, não fiques assim”, confortou X.
“E fico como? Já não aguento as merdas dele!”
“Ele está a passar uma fase difícil. Eu acho que ele, no fundo, está revoltado por estar a ser obrigado a crescer, a ter responsabilidades e já não poder fazer o que lhe dá na cabeça.”
“Mas não é justo que gostar dele tenha um preço tão alto! Já tenho dúvidas que eu significo alguma coisa para ele”
“Eu acho que, de certa forma, ele te culpa, porque foste tu que fizeste tudo acontecer, foi ter-te conhecido que o fez avançar no seguimento normal da vida, casar, constituir família, e isso mostra o que significas para ele; e não acho que esteja arrependido, é só um problema de adaptação. Tenho a certeza que, com a tua ajuda, ele vai ultrapassar esta fase.”
“Mas eu não sei como agir. Acho que não cumpri as expectativas dele.”
“Porque é que não experimentas psicologia inversa? Quando ele está para desatinar, tu levas a coisa na boa e reages com extrema boa disposição, brinca com ele; mesmo que não resulte sempre evitas que a coisa descambe. Pensando nisso, acho que no fundo é como eu tenho conseguido ser amigo dele, embora o faça mais para o chatear.”

Forças malignas

Numa postura de combate às forças malignas ocultas, do efeito das quais a Tertúlia dos Néscios não haveria de estar isenta, vou voltar a publicar os textos que as referidas forças fizeram desaparecer. Mesmo aqueles que se tivesse escrito agora talvez não publicasse.
Assim, se alguém sentir aquela estranha sensação de dejá-vu, não precisa de ir logo a correr para a psicoterapia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Elasticidade/Independência

- Vi ontem uma cena impressionante na televisão. Um gajo que tem um espectáculo num bar em Ibiza que consiste em fazer uma auto-felação.

- Se eu conseguisse fazer isso não aturava metade das merdas que aturo…

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ensaio sobre uma merda qualquer

Ah, que maravilha! Este sol maravilhoso, este mar azul infinito. Plenitude… Isto é que é vida!

O homem que estava deitado na espreguiçadeira ergueu-se repentinamente. Foi como se o seu cérebro de repente tivesse começado a funcionar.

Mas… Onde é que eu estou? O que é que se passa?

Parecendo ter saído da selva por trás, uma jovem e bela rapariga, vestindo apenas uma saia de longas folhas, apareceu com um coco verde, do qual saía um par de vistosas palhinhas. A sua pele tinha um bronzeado carregado e o seu cabelo era longo e negro. A rapariga aproximou-se com um passo leve, ajoelhou-se junto da espreguiçadeira e, baixando a cabeça, estendeu ambos os braços. Incrédulo, o homem pegou no que lhe era entregue e a rapariga ergueu-se.

Sabes quem eu sou? Como ou quando cheguei aqui?

A rapariga limitou-se a dizer uma frase numa língua estranha e, com uma suave vénia e um sorriso, afastou-se, desaparecendo pela vegetação. Estupefacto, o homem não teve qualquer reacção. Limitou-se a desviar lentamente o seu olhar espantado do lugar por onde a rapariga tinha desaparecido até ao objecto nas suas mãos.

Bom, vamos lá ver… Sei quem sou, chamo-me Lapricínio Ramalho, sou técnico de canalização, tenho uma mulher, três filhos, dois rapazes e uma menina linda, moro num T3 em Xabregas… Bom… Parece que, tirando o facto que não saber o que estou aqui a fazer nem como cá cheguei, não estou amnésico. A não ser… Que eu não seja o Lapricínio Ramalho… Se calhar sou rico e não canalizador, e isto de estar a relaxar numa praia paradisíaca a beber de um coco com umas palhinhas todas paneleiras é normalíssimo… Não! Isso é absurdo! Eu sei que sou o Lapricínio Ramalho. Tenho é que descobrir como vim aqui parar.

Lentamente, quase desconfiado, o homem levantou-se. Com passos cuidadosos, como se se tentasse certificar que a fina areia que os seus pés nús pisavam era, de facto, real, acercou-se do mar. Olhou para o seu reflexo na água, levemente distorcido pela suave ondulação.

Sou eu. Fico mais descansado, pelo menos reconheço o meu rosto, caso contrário é que as coisas ficariam mesmo demasiado estranhas, mas já estava preparado para tudo. Deve ser impressão minha, mas pareço um bocado mais novo do que eu me lembrava de mim, mas pronto, sou eu. Será que isto confirma que sou o Lapricínio Ramalho? Se calhar não… Não é que eu não goste de ser o Lapricínio Ramalho, técnico de canalização, casado por amor e pai de três filhos, até gosto muito, mas… Epa, conseguia habituar-me a este clima…

Imerso nos seus pensamentos, o homem percorria a linha da costa, desfrutando nos pés a leve sensação refrescante que a água tépida proporcionava.

Acorda e controla-te, Lapricínio! Tens que descobrir alguém, civilização, um telefone para poderes ligar à tua mulher, alguma pista que te consiga fazer perceber alguma coisa. Organiza o raciocínio. O que quero saber? Onde estou? Quando cheguei? Porquê? Onde está a minha família? O que sei… Hum… Nada… Não é muito animador, mas pronto, não posso desmoralizar. E quem é que conseguia desmoralizar com uma paisagem destas?… Concentra-te, Lapricínio. Concentra-te!

Ao chegar ao fim da praia, o homem viu uma série de degraus toscos, ladeados por um corrimão artesanal feito com canas.

Civilização! Ou algo próximo disso. Menos mal. Mas não me parece que haja por aqui um telefone. Mas porque é que eu viria aqui sem a minha família?

O homem subiu os degraus e, no topo, atravessou um grupo de palmeiras jovens. Deu por si numa clareira onde, além de uma cabana de madeira, uma cadeira, uma pequena mesa com um guarda-sol feito de canas finas, estava uma rústica mesa de massagens e, ao lado, uma exótica mulher.

Deslumbrante. Simplesmente deslumbrante…

A mulher esticou o braço, dirigindo a mão aberta para a mesa de massagens e, como que telecomandado, o homem deitou-se de barriga para baixo. Após aplicar uma porção de óleo nas costas do homem, a mulher pousou o recipiente feito de casca de coco e, em silêncio, iniciou a massagem.

Porra, Lapricínio! Não podes ser assim. Ficaste tão embasbacado que se ela te tivesse dito para ladrar, tu tinhas ladrado. Controla-te, homem! Ela até te pode querer fazer mal, e tu, o que fazes? Ofereces-lhe as costas e tempo de sobra para escolher bem o sítio onde espetar a faca. Se bem que não parece nada que ela me queira fazer mal. Está a saber-me tão bem que nem me importo com a faca. Continua assim e podes espetá-la, que morro satisfeito. Claro! És tão otário, Lapricínio. Como é que não pensaste nisso antes? Só pode ser um sonho! Que fixe, é um sonho. Deixa-me é aproveitar, que já não deve faltar muito para a merda do despertador tocar. Desta vez vai ser ainda mais torturante que o normal, ter que sair da cama, mas macacos me mordam os tomates se vou deixar que isso estrague este sonho espectacular. Sim… Isso… Aí…

Como que movida por um sexto sentido, a mulher terminou a massagem no momento em que o homem parecia prestes a adormecer. A paragem despertou-o. Levantou a cabeça devagar, desentorpecendo o pescoço e olhou para a mulher. Esta sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente para a frente. Com uma expressão de deleite, o homem manteve o olhar na mulher enquanto esta se afastava.

Que silhueta… Que sonho maravilhoso. É, de certeza, o melhor sonho que já tive. Excepto talvez aquele em que conseguia voar, ou aquele em que conseguia ficar invisível, ou talvez também aquele… Mexe-te, otário! Um sonho destes e tu estás a desperdiçá-lo a divagar? Levanta-te, explora, aproveita!

O homem levantou-se e, enquanto decidia que direcção tomar, ouviu o toque de um telefone. Era a tradicional e inconfundível campainha de um telefone. Seguindo pelo caminho que o levava na direcção do som, foi-se embrenhando cada vez mais selva adentro, sempre seguindo o toque do telefone que, apesar da tortuosidade do percurso, cada vez parecia mais próximo.

Um telefone, no meio da selva, este sonho está a descair um bocado para o surreal. Também já gostei mais dele, se em vez de estar a deambular pela selva estivesse a ter um happy ending com a massagista seria tão melhor.

O homem continuou a seguir o som até se deparar com um estranho arbusto que lhe cortava o caminho. O toque do telefone parecia provir de detrás da peculiar vegetação.

O caminho cortado por um arbusto de ramos negros e bagas verde fluorescente? Será que isto tem algum significado subliminar? Não canses a cabeça a procurar significados ocultos em tudo, Lapricínio, é só um sonho marado. E o telefone no meio da selva a tocar por trás? Não deve ter voice mail activado, senão aquela menina simpática com quem gosto tanto de falar já tinha atendido a pedir para deixarem recado. Acho que posso esgueirar-me por entre estes dois ramos. Estas bagas são muito curiosas, até me apetecia comer uma.

O homem aproximou a pinça formada pelo indicador e o polegar da mão direita da brilhante baga mas, no instante em que lhe tocou, esta explodiu libertando uma pequena nuvem de gás verde fluorescente.

Olha. Giro. Isto afinal são pequenas bolhas de gás. Se isto está a sair do meu inconsciente, deve ter alguma significado, mas qual? Bom, vamos lá atender a merda do telefone que já me está a irritar, e para isso chega-me a vida real.

O movimento nos ramos do arbusto provocado pela passagem do homem fez rebentar quase todas as bagas cujo conteúdo deixou no ar um cheiro singular mas agradável, como uma extraordinária especiaria desconhecida. Ao chegar ao outro lado do arbusto deparou-se com uma pequena mesa redonda cuja única perna assentava no chão no que parecia tentar imitar a pata de uma ave, sobre a qual tocava incessantemente o procurado telefone. Era um enorme aparelho de aspecto muito antigo, branco com detalhes em dourado, sem qualquer fio visível. O homem, agastado pelo contínuo soar do telefone, atendeu prontamente.

- Tá lá? Quem é que fala?

- Filho, consegues ouvir-me, meu amor?

- Almerinda? És tu, querida?

- Não me deixes, por favor.

- Ninguém vai deixar ninguém, tem calma contigo. Onde é que estás?

- Eu não sei o que fazer sem ti. Volta para mim, tens que voltar para mim.

- Claro que volto! Podes começar por dizer-me onde estás. Isso ajudava.

- Não vou desistir de ti, ouviste? Não vou desistir!

- Estás parva, mulher? Já te disse que não há razão para essa angústia. Só tens que me dizer onde estás. Tás-me a ouvir?

- Se soubesses quanto eu te amo não me fazias isto. Se soubesses, voltavas para mim agora, neste instante.

- Mas tu estás a ouvir-me ou não? Eu estou a tentar voltar para ti, mais ou menos, mas este sonho está cada vez mais estúpido. Tou? Almerinda? Tou?

A voz do outro lado da linha transformou-se num lamento baixo e incompreensível. O homem continuou a tentar comunicar até concluír que não estava a ser ouvido pela outra pessoa. Frustrado, atirou o telefone de volta para o descanso.

Calma, Lapricínio, é só a porra de um sonho. Não era a Almerinda, era só uma manifestação do teu inconsciente. E por favor, não te ponhas agora a tentar interpretar, tens muito tempo para isso quando acordares. E agora? Estou no meio da selva sem saber o que fazer. Se calhar mais valia acordar. Que som é este agora? Tambores? Parece-me demasiado ritmado para não ser, mas claro que podem sempre ser coqueiros inteligentes ou algo do género.

Com alguma dificuldade em perceber a direcção de onde provinha o batuque, o homem tentou seguir uma linha recta, atravessando o mato que parecia afastar-se para lhe dar passagem. Algumas centenas de metros mais à frente, o homem encontra-se na orla de uma enorme clareira onde pôde vislumbrar a origem do som. Era uma tribo de indígenas, vistosamente decorados com plumas e pinturas berrantes. Mais de uma centena de homens dispostos em três fileiras, formando um semi-círculo, marcavam uma rápida e ribombante cadência com os seus tambores, ao ritmo da qual um velho, magríssimo, que aparentava ter mais que cem anos, dançava freneticamente.

O raio do velho mexe-se bem. Deve ter tomado uma daquelas mistelas para contactar com os deuses ou isso. Parece uma marionete.

A medo, o homem aproximou-se devagar e o seu sangue gelou quando, ao dar o passo que o colocava a uns vinte metros do grupo, em perfeita sincronia, todos os tambores se calaram e todos os olhares se dirigiram para ele.

Pronto, já te fodeste, Lapricínio. Nunca soubeste estar quieto no teu canto. Assim que o primeiro pegar numa lança, tu não vais assumir que isto é só um sonho e corres como se não houvesse amanhã, até porque pode não haver mesmo. Nunca morrer, mesmo que seja em sonhos, sempre foi o teu lema. Prepara-te…

O velho baixou-se lentamente e, com ambas as mãos, pegou numa taça de madeira que repousava aos seus pés. Elevou-se com a mesma lentidão e, esticando os braços, ofereceu-a ao homem. Com passos inseguros, o homem aproximou-se do velho e tentou evitar um esgar ao aproximar-se e inalar os vapores emanados pelo líquido verde e viscoso no interior da taça. Com um movimento brusco, o velho encostou a taça ao peito do homem, praticamente obrigando-o a aceitá-la. Ainda desconfiado, o homem elevou lentamente as mãos e permitiu que o velho nelas depositasse a sua oferenda. Baixou os olhos e fitou a beberagem de aspecto nada apetitoso.

Será que eles acham que eu sou um deus, como se vê às vezes nos filmes? Isso é que era… Mas podiam oferendar-me qualquer coisa mais apelativa.

O velho colocou as suas esqueléticas e enrugadas mãos à volta das do homem e dirigiu a taça que nelas repousava na direcção da boca deste. Movido por pouco mais que temor, com uma careta, o homem deu um trago na estranha bebida.

- Onde estou? O que é que aconteceu?

- Filho! Finalmente acordaste, meu amor!! Não saí do teu lado. Eu sabia que não me ias abandonar, Gervásio.

- Mas, mas… Quem és tu??

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uno

Não há nada mais em sintonia com a natureza e o universo que a lei do menor esforço.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Frontalidade

- Então, pronto, está combinado. Podes convidar os amigos que quiseres.

- Pois… Sabes… Não tenho assim muitos amigos…

- Não?? Porquê?

- Eu acho que está relacionado com a minha forma de ser. Tenho uma tendência para ser sincero que não consigo evitar.

- Mas… Isso é óptimo!

- Pode parecer, mas não é, de todo. As pessoas não apreciam realmente a sinceridade. Tenho-me apercebido que as pessoas preferem viver num mundinho próprio onde são perfeitas. E, embora toda a gente apregoe que valoriza muito a frontalidade, a verdade é que a grande maioria das pessoas abomina quem lhes mostre um defeito seu. Não só praticamente ninguém está preparado para admitir que tem defeitos, como toda a gente assume sempre que alguém que os aponte é um inimigo e só quer fazer-lhes mal.

- Se calhar tens razão…

- Pois. Comecei a perceber que afastava as pessoas, mas custa-me tanto não dizer o que penso. Vou aguentando, vou aguentando, mas, mais tarde ou mais cedo, sai-me tudo e pronto, lá se vai mais um relacionamento. E parece não haver grande relação entre a reacção e o tempo de relacionamento. Mesmo que já me conheçam há vários anos, há sempre a tendência para achar que, se lhes aponto algo feio, é para os prejudicar e rebaixar. E é particularmente triste porque, se eu me disponho a apontar alguma coisa é porque tenho consideração pela pessoa. É na perspectiva de que é normalíssimo ter defeitos e facetas sombrias na nossa personalidade e nunca tentando transmitir que, por isso, são piores que a pessoa do lado. Além do mais, as pessoas mudam, evoluem. Como é que podemos evoluir e atenuar um defeito se não admitirmos que o temos?

- Compreendo… Se calhar não estás a conhecer as pessoas certas, pessoas que dêem valor a isso.

- Deve haver tão poucas, que as probabilidades de as conhecer são ínfimas.

- Ah, eu não, eu aprecio mesmo muito a sinceridade e a frontalidade, é até das qualidades que mais valorizo numa pessoa.

- A sério?

- A sério.

- Mesmo?

- Mesmo!

- Ufa… Ainda bem. Estava aqui num esforço titânico para não te dizer que acho que esse corte de cabelo te fica horrivelmente. E essa camisola… Epa, por favor. Não tinhas nada mais feio no armário?

- Hum… Pois… Olha, recebi agora uma sms a dizer que a festa foi adiada. Eu depois digo-te a nova data. E… lembrei-me agora tenho um compromisso importantíssimo, tenho que ir andando.

- OK, tudo bem. Até à próxima, então.

- Sim, pois, até à próxima…

- Então não te esqueças de me dizer quando é a festa, afinal. OK?

- Claro, claro, fica descansado.