quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bananas X

01-02-2005

Ontem encontrei o Antunes. Já não o via há anos! Dizer que está na mesma levaria a pensar que mantém o espírito jovem, mas a verdade é que ele já tinha era o espírito velho antes! O Antunes é daqueles gajos que deve ter nascido já com 20 anos, (desconfiem sempre de um gajo que atravessa a faculdade sem apanhar uma borracheira!) o curioso é que naquela altura, a super-responsabilidade dele era mais motivo de chacota do que outra coisa, mas ele lá se manteve firme nas suas convicções e ontem já não consegui gozar com ele como outrora; surpreendentemente algumas dessas convicções faziam agora sentido! Consegui controlar o susto inicial e até fiquei contente por me aperceber que cresci, afinal, se ele se conseguir manter assim, só quando eu tiver uns 90 anos é que não vou conseguir evitar levá-lo a sério!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bananas IX

01-02-2005

Coitado do Magalhães! O que é que ele viu naquela gaja? Ela era uma verdadeira cabra para ele e, mesmo após vários anos, ele continuava a responder com incrível placidez. Nunca o vi dar um murro na mesa, nem sequer levantar a voz. Quem é que o imaginava capaz daquelas atrocidades?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Bananas VIII

01-02-2005

Tenho falado é com o Guedes, gajo muito porreiro, boémio como sempre, dá gosto ver um gajo chegar aos 35 e manter assim a jovialidade. Estar com ele é sempre passar um bom bocado, somos contagiados pelo desprendimento que ele tem das coisas materiais, e, segundo me contou com entusiasmo, parece que é desta que vai mesmo sair de casa da mãe!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Bananas VII

01-02-2005

Ganda maluco, o Almeida! O que ele comia de gajas! Verdadeiro passarão! Estava lá tudo, o jogo de cintura, o sorriso assimétrico, o profissional franzir de sobrancelha. Era um espectáculo vê-lo trabalhar! Cámones então era mato, e além do mais, dava aulas de psicologia feminina a muito chotôr! Pois, casou, vem uma menina, outra menina, lá decidiram tentar uma última vez e vêm gémeos! Duas meninas! Há gajos com azar! Pois é verdade que os há, a mulher, muito abalada com a situação toda, numa atitude de desespero decidiu fugir com um possante mancebo cabo-verdiano, trabalhador temporário da obra em frente, deixando-o com as quatro piquenas. Mas sabem como é o Almeida, ele conhece as mulheres e está certo que ela volta quando lhe passar a depressão pós parto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Bananas VI

01-02-2005

O Barbosa era daqueles gajos a quem se tirava logo a pinta. Gostava que as pessoas soubessem que ele não acreditava em qualquer tipo de relacionamento inter-classes mais íntimo do que o que se tem com um empregado de restaurante pouco falador. Estava convicto que havia níveis de importância entre os seres humanos e sempre que uma situação o obrigava a trocar algumas palavras com um “inferior”, fazia-o com uma desconcertante expressão de repulsa. Tive sentimentos contraditórios quando o encontrei ontem à noite a dormir debaixo de cartões na estação do Rossio. Ignorou-me quando tentei abordá-lo. Parece que, apesar de tudo, não mudou de opinião...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mitos




Não sou de alarmismos nem de acreditar em mitos urbanos. Não acho que haja assim tantos ucranianos a roubar crianças de automóveis parados em semáforos. Não conheci ainda ninguém que tivesse acordado sem rins numa banheira cheia de gelo depois de entrar numa loja chinesa e continuo a usar desodorizantes com propriedades antitranspirantes e champôs com Sodium Lauryl Sulfate.
Comecei, no entanto, depois deste acontecimento a temer os gangs de guarda-chuvas que, com o seu ar inofensivo, se deitam pelas nossas estradas para, quando passarmos por cima deles, saltarem de forma vil e maliciosa e entalarem-se por detrás das rodas dos nossos (muito pouco) estimados veículos. Não é tão mau como perder um filho ou um rim, suponho, mas não é fixe andar uma semana a dizer para nós próprios que o barulho na roda é certamente algo fabricado pela nossa imaginação, e que se assim não for, será sem dúvida algo sem importância, que não coloca nenhum risco, que o arranjo não nos vai nada custar várias noites de copos...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ergástulo

- Só os fracos de espírito conseguirão a felicidade. Só os verdadeiramente néscios encontrarão satisfação. A Terra não quis nada disto. Olhai e vede que nada na nossa evolução nos fez ser mais felizes. Não aceiteis o ergástulo da inteligência. Abri os olhos para a realidade e aceitai a bênção da lobotomia.

Parei a meio do passo que estava a dar ao longo do passeio da avenida, a duvidar dos meus ouvidos. Ouvi mal, de certeza, o homem não pode estar a oferecer lobotomias em nome da felicidade, pensei.

Era uma hora movimentada e o facto de eu ter parado abruptamente causou alguma confusão no intenso trânsito pedonal. Com alguma dificuldade, avancei perpendicularmente ao sentido do fluxo de pedestres que por ali passava e acerquei-me do pregador, ao qual mais ninguém prestava atenção.

Quando me aproximei do homem surpreendi-me com a sua parca idade. Esperava um velho, já algo tresloucado pelas amarguras da vida, mas não, certamente o homem não tinha mais que quarenta anos. Estava de pé sobre um tosco caixote de madeira, penteadíssimo, vestido a rigor, fato preto, gravata, flor na lapela e lenço a despontar do bolso. Assim que percebeu que alguém estava de facto a tentar compreender aquilo que pretendia transmitir, um novo ímpeto surgiu na sua entoação quando começou a falar directamente para mim.

- Vejo o brilho da sagacidade nos teus olhos, irmão. Aquele brilho que me garante que nunca na vida conseguirás sentir a plenitude. Porque te resignas a isso? Porquê, irmão? Há uma alternativa. A felicidade está ao teu alcance se abraçares a ignorância!

Realmente, os atrasados mentais costumam ter um sorriso genuíno permanentemente estampado no rosto, pensei, é um sorriso de quem não percebe nada de nada, mas não deixa de ser genuíno. Não tenho dúvidas que terão uma imensamente maior probabilidade e até capacidade de ser mais felizes que eu. Enquanto ponderava sobre isto, a única minha expressão visível limitou-se a um inclinar da cabeça para o lado, mas que foi suficiente para o homem perceber que eu estava realmente a pensar sobre o assunto.

Motivado por alguém estar realmente a dar algum crédito ao que apregoava, o homem desceu do seu caixote e veio ter comigo.

- Leio claramente os teus olhos, irmão. Vejo que almejas algo mais, que almejas uma plenitude e satisfação que te são negadas pela consciência da podridão humana. Pois eu, através de um processo simples e indolor, consigo proporcionar-te tudo o que desejas.

Tive o impulso de lhe responder imediatamente que não, obrigado, e virar as costas, mas a verdade é que fiquei extremamente curioso sobre o que o caricato homem oferecia.

- Como é que isso funciona?

- Meu irmão, garanto-te que, apesar de ser impressionante e algo assustador, o processo é seguro e indolor. Consiste na inserção de uma sonda pelo canto interior do olho até a uma região específica do cérebro, onde se fará uma pequena lesão. O resultado é tão garantido que nem sequer há a hipótese de te arrependeres porque ficarás demasiado imbecil para te colocares esse tipo de questões. Serás feliz, irmão, serás feliz. Nunca mais te questionarás se vale a pena continuares a levantar-te da cama de manhã. Nunca mais te entristecerás com a crueldade natural do ser humano, nem com a sua falsidade, nem com a sua mesquinhez. Nunca mais ponderarás sobre nenhuma das questões que te consomem e te roubam a alegria, irmão, que te roubam o sorriso. Uma nova vida. Uma vida feliz! É o que te espera, meu irmão!!

- Quero duas, se faz favor.