quarta-feira, 4 de abril de 2007

Angústia

Estava num recanto de um prédio. Acanhadamente tentava interpelar as pessoas que, com total indiferença, passavam sem sequer desviar o olhar. Ao passar por ela, ouvi um desfalecido “O senhor pode ajudar-me, por favor?”. Se calhar mais por falta de hábito de andar pelo centro da cidade, onde os mendigos - nem todos merecedores de ajuda - abundam, do que por solicitude, parei, dei um passo atrás com um “Sim?”, pensando que a velha senhora precisava de indicações. O meu coração começou imediatamente a encolher quando ela, sem conseguir conter as lágrimas que lhe escorriam pela face, disse que lhe tinham descoberto um cancro, que estava a começar a fazer quimioterapia, que não tinha nada em casa para comer… Instintivamente despejei nas suas mãos as moedas que tinha e tive vontade de a abraçar, de lhe dizer que tudo iria correr bem, tentar aliviar um pouco da sua dor. Não sei se teria servido para alguma coisa, mas sei que não tenho robustez emocional para uma situação daquelas, pelo que, com um aceno em resposta aos agradecimentos, me afastei rapidamente, no limiar das lágrimas. Revendo agora a situação, uma senhora já com alguma idade ali naquele recanto, invisível, reaviva a angústia que senti. Percebia-se perfeitamente que era uma situação nova para ela, o seu constrangimento era notório e via-se a vergonha e o desespero nos seus olhos. Nem por um segundo duvidei da sua necessidade e o meu coração continua encolhido por não ter podido fazer mais. Num país que se diz desenvolvido, uma pessoa não devia chegar àquela idade e ter que pedir esmola.