quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bananas X

01-02-2005

Ontem encontrei o Antunes. Já não o via há anos! Dizer que está na mesma levaria a pensar que mantém o espírito jovem, mas a verdade é que ele já tinha era o espírito velho antes! O Antunes é daqueles gajos que deve ter nascido já com 20 anos, (desconfiem sempre de um gajo que atravessa a faculdade sem apanhar uma borracheira!) o curioso é que naquela altura, a super-responsabilidade dele era mais motivo de chacota do que outra coisa, mas ele lá se manteve firme nas suas convicções e ontem já não consegui gozar com ele como outrora; surpreendentemente algumas dessas convicções faziam agora sentido! Consegui controlar o susto inicial e até fiquei contente por me aperceber que cresci, afinal, se ele se conseguir manter assim, só quando eu tiver uns 90 anos é que não vou conseguir evitar levá-lo a sério!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bananas IX

01-02-2005

Coitado do Magalhães! O que é que ele viu naquela gaja? Ela era uma verdadeira cabra para ele e, mesmo após vários anos, ele continuava a responder com incrível placidez. Nunca o vi dar um murro na mesa, nem sequer levantar a voz. Quem é que o imaginava capaz daquelas atrocidades?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Bananas VIII

01-02-2005

Tenho falado é com o Guedes, gajo muito porreiro, boémio como sempre, dá gosto ver um gajo chegar aos 35 e manter assim a jovialidade. Estar com ele é sempre passar um bom bocado, somos contagiados pelo desprendimento que ele tem das coisas materiais, e, segundo me contou com entusiasmo, parece que é desta que vai mesmo sair de casa da mãe!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Bananas VII

01-02-2005

Ganda maluco, o Almeida! O que ele comia de gajas! Verdadeiro passarão! Estava lá tudo, o jogo de cintura, o sorriso assimétrico, o profissional franzir de sobrancelha. Era um espectáculo vê-lo trabalhar! Cámones então era mato, e além do mais, dava aulas de psicologia feminina a muito chotôr! Pois, casou, vem uma menina, outra menina, lá decidiram tentar uma última vez e vêm gémeos! Duas meninas! Há gajos com azar! Pois é verdade que os há, a mulher, muito abalada com a situação toda, numa atitude de desespero decidiu fugir com um possante mancebo cabo-verdiano, trabalhador temporário da obra em frente, deixando-o com as quatro piquenas. Mas sabem como é o Almeida, ele conhece as mulheres e está certo que ela volta quando lhe passar a depressão pós parto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Bananas VI

01-02-2005

O Barbosa era daqueles gajos a quem se tirava logo a pinta. Gostava que as pessoas soubessem que ele não acreditava em qualquer tipo de relacionamento inter-classes mais íntimo do que o que se tem com um empregado de restaurante pouco falador. Estava convicto que havia níveis de importância entre os seres humanos e sempre que uma situação o obrigava a trocar algumas palavras com um “inferior”, fazia-o com uma desconcertante expressão de repulsa. Tive sentimentos contraditórios quando o encontrei ontem à noite a dormir debaixo de cartões na estação do Rossio. Ignorou-me quando tentei abordá-lo. Parece que, apesar de tudo, não mudou de opinião...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mitos




Não sou de alarmismos nem de acreditar em mitos urbanos. Não acho que haja assim tantos ucranianos a roubar crianças de automóveis parados em semáforos. Não conheci ainda ninguém que tivesse acordado sem rins numa banheira cheia de gelo depois de entrar numa loja chinesa e continuo a usar desodorizantes com propriedades antitranspirantes e champôs com Sodium Lauryl Sulfate.
Comecei, no entanto, depois deste acontecimento a temer os gangs de guarda-chuvas que, com o seu ar inofensivo, se deitam pelas nossas estradas para, quando passarmos por cima deles, saltarem de forma vil e maliciosa e entalarem-se por detrás das rodas dos nossos (muito pouco) estimados veículos. Não é tão mau como perder um filho ou um rim, suponho, mas não é fixe andar uma semana a dizer para nós próprios que o barulho na roda é certamente algo fabricado pela nossa imaginação, e que se assim não for, será sem dúvida algo sem importância, que não coloca nenhum risco, que o arranjo não nos vai nada custar várias noites de copos...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ergástulo

- Só os fracos de espírito conseguirão a felicidade. Só os verdadeiramente néscios encontrarão satisfação. A Terra não quis nada disto. Olhai e vede que nada na nossa evolução nos fez ser mais felizes. Não aceiteis o ergástulo da inteligência. Abri os olhos para a realidade e aceitai a bênção da lobotomia.

Parei a meio do passo que estava a dar ao longo do passeio da avenida, a duvidar dos meus ouvidos. Ouvi mal, de certeza, o homem não pode estar a oferecer lobotomias em nome da felicidade, pensei.

Era uma hora movimentada e o facto de eu ter parado abruptamente causou alguma confusão no intenso trânsito pedonal. Com alguma dificuldade, avancei perpendicularmente ao sentido do fluxo de pedestres que por ali passava e acerquei-me do pregador, ao qual mais ninguém prestava atenção.

Quando me aproximei do homem surpreendi-me com a sua parca idade. Esperava um velho, já algo tresloucado pelas amarguras da vida, mas não, certamente o homem não tinha mais que quarenta anos. Estava de pé sobre um tosco caixote de madeira, penteadíssimo, vestido a rigor, fato preto, gravata, flor na lapela e lenço a despontar do bolso. Assim que percebeu que alguém estava de facto a tentar compreender aquilo que pretendia transmitir, um novo ímpeto surgiu na sua entoação quando começou a falar directamente para mim.

- Vejo o brilho da sagacidade nos teus olhos, irmão. Aquele brilho que me garante que nunca na vida conseguirás sentir a plenitude. Porque te resignas a isso? Porquê, irmão? Há uma alternativa. A felicidade está ao teu alcance se abraçares a ignorância!

Realmente, os atrasados mentais costumam ter um sorriso genuíno permanentemente estampado no rosto, pensei, é um sorriso de quem não percebe nada de nada, mas não deixa de ser genuíno. Não tenho dúvidas que terão uma imensamente maior probabilidade e até capacidade de ser mais felizes que eu. Enquanto ponderava sobre isto, a única minha expressão visível limitou-se a um inclinar da cabeça para o lado, mas que foi suficiente para o homem perceber que eu estava realmente a pensar sobre o assunto.

Motivado por alguém estar realmente a dar algum crédito ao que apregoava, o homem desceu do seu caixote e veio ter comigo.

- Leio claramente os teus olhos, irmão. Vejo que almejas algo mais, que almejas uma plenitude e satisfação que te são negadas pela consciência da podridão humana. Pois eu, através de um processo simples e indolor, consigo proporcionar-te tudo o que desejas.

Tive o impulso de lhe responder imediatamente que não, obrigado, e virar as costas, mas a verdade é que fiquei extremamente curioso sobre o que o caricato homem oferecia.

- Como é que isso funciona?

- Meu irmão, garanto-te que, apesar de ser impressionante e algo assustador, o processo é seguro e indolor. Consiste na inserção de uma sonda pelo canto interior do olho até a uma região específica do cérebro, onde se fará uma pequena lesão. O resultado é tão garantido que nem sequer há a hipótese de te arrependeres porque ficarás demasiado imbecil para te colocares esse tipo de questões. Serás feliz, irmão, serás feliz. Nunca mais te questionarás se vale a pena continuares a levantar-te da cama de manhã. Nunca mais te entristecerás com a crueldade natural do ser humano, nem com a sua falsidade, nem com a sua mesquinhez. Nunca mais ponderarás sobre nenhuma das questões que te consomem e te roubam a alegria, irmão, que te roubam o sorriso. Uma nova vida. Uma vida feliz! É o que te espera, meu irmão!!

- Quero duas, se faz favor.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vulva de Judas

As mulheres são mais falsas que Judas! A frase, proferida com voz rouca e arrastada fez-me levantar o olhar da minha taça de tinto e dirigi-lo para o canto de onde surgiu. Não acha? Perguntou-me o homem. Era bastante gordo, vestia umas calças puídas de terylene e uma camisa aos quadrados tão justa que receei que, se um daqueles botões saltasse, certamente cegaria alguém ou mataria o papagaio que, colocado à entrada do estabelecimento, nos divertia gritando impropérios aos transeuntes. O cinto estava geometricamente apertado no meio da sua enorme barriga dando-lhe uma aparência algo grotesca. A cara, inchada e vermelha, indiciava um longo historial de consumo de álcool e o seu segundo queixo ondulava hipnoticamente conforme falava. Merda, pensei, quem me mandou olhar? Ainda é jovem, se calhar ainda não percebeu isso, disse o homem perante o meu silencioso encolher de ombros, aposto que se lhe perguntasse daqui a uns anos teria outra opinião. Ficou a olhar para mim e eu senti-me na obrigação de dizer alguma coisa. Não tenho a certeza que o Judas tenha sido assim tão falso, disse-lhe. O que é que me interessa o Judas? Eu estou a falar de mulheres, rapaz, de mulheres, exclamou o homem assumindo que eu não tinha percebido a sua mensagem. Pronto, vamos lá a isto, pensei enquanto dava o último golo que restava na taça. Mais uma para mim e outra aqui para o nosso amigo. O homem bebeu de uma vez o restante na sua taça para que o taberneiro lha pudesse encher novamente. Pachorrento, o taberneiro repetiu o acto com a minha taça e, arrastando os pés pela serradura, voltou novamente para detrás do balcão. Muito obrigado, rapaz. Hipólito, Hipólito Álvares, disse enquanto o seu enorme corpo dava um quarto de volta na cadeira para que pudesse esticar o braço direito, palma aberta, na minha direcção. Não sei se terá sido deliberado ou não, mas foi uma forma de me obrigar a levantar-me do meu sítio e ir para a mesa dele. Peguei na minha taça e aproximei-me. Gregório, disse-lhe enquanto apertava a sua mão sapuda e oleosa, fazendo um esforço para que a minha expressão não denunciasse o extremo desagrado que aquele acto me estava a provocar. Sentei-me. Então o senhor Gregório confia nas mulheres, perguntou-me em tom jocoso, é isso? Suponho que as haja de confiança e outras nem por isso, disse-lhe, eu só estava a defender que o Judas talvez esteja a ser algo injustiçado nesta questão da falsidade, continuei tentando mais uma vez desviar o assunto. Outra vez o Judas? Já lhe disse que não me interessa o Judas! O tom do rosto do homem tornou-se ligeiramente mais avermelhado. O que eu lhe estou a dizer é para não confiar numa mulher. Pois, eu sei, desculpei-me, mas não acha que é injusto? Não acha que o facto de ter sido escolhido para fazer o trabalho sujo de Deus devia ter sido recompensado com algo mais que ficar conhecido para o resto dos tempos como o maior filho da puta da história? Ao ponto de ser usado como metáfora para a falsidade? Pois, não sei, respondeu desinteressadamente o homem, o que eu sei é que mais vale não acreditar em nada do que uma mulher diz. Pois, continuei, coitado do Judas…

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A lesma

A lesma passeava pelos pés doridos do Sr. Malaquias enquanto ele, depois de despir as calças e se colocar mais à vontade, desentorpecia as costas, de pés no chão, mas deitado na cama. Depois de se esticar o mais que conseguia, com um suspiro, descontraiu de uma vez todos os músculos e deixou-se ficar a desfrutar o relaxamento, olhando distraidamente para o casulo que uma larva, provavelmente de traça, tinha construído no tecto do quarto.

Deitou-se de lado, atravessado na cama, mesmo a tempo de ainda ver desaparecer a parte traseira da centopeia que deslizou para debaixo da sua almofada. Suspirou outra vez quando a aranha que vivia no canto por cima da sua cabeceira começou a descer pelo seu fio de seda. Que inveja, disse à aranha, não percebo porque é que os budistas ou os taoistas ou lá quem quer que seja que acredita naquela parvoíce que diz que reencarnamos segundo o nosso karma e que ser humano é já quase o fim da linha. Não percebo porque é que se há-de achar tão bom ser-se humano, continuou, até parece que sermos inteligentes contribui para a nossa felicidade. Tenho a certeza que és muito mais feliz que eu, continuou o Sr. Malaquias dirigindo-se à aranha que entretanto tinha já atingido a mesa de cabeceira e parado, como se realmente estivesse a ouvi-lo, não era muito melhor poder descer do cimo de um prédio por um fio produzido pelo nosso corpo? Talvez fosse estranho ao princípio, ter algo tipo um cabo de aço a sair-me do cu, mas nada é perfeito, não é? E acabamos por nos habituar a tudo, não é? Não contribuiria muito mais para a minha felicidade do que ser inteligente? Ou poder voar, poder subir paredes, dar saltos gigantescos, não ter praticamente preocupações na vida… Sim, era muito melhor que ser inteligente! Invejo-vos a todos. A todos! Enquanto proferia a última frase alternou o olhar entre a aranha, as moscas que pairavam no ar, terminando na barata que subia a parede oposta, ao lado do poster do homem aranha que tinha há mais de quarenta anos. Suspirou outra vez, sem sequer se aperceber que a lesma lhe subia pela perna.

Fechou os olhos e imaginou-se um híbrido homem/louva-a-deus gigante a destruir uma cidade sem piedade. Não era por ser mau, disse a si próprio, era apenas porque seria desprovido de qualquer coisa minimamente próxima de ética ou compaixão. Porque seria totalmente livre de fazer o que os meus instintos me dissessem para fazer. Não mataria as pessoas por ser um assassino impiedoso. Mataria movido pelos instintos mais básicos, por fome, por medo e acharia normal. Depois de se tranquilizar que a sua fantasia não o transformava num monstro sanguinário que se satisfazia com o sofrimento dos mais fracos, continuou a ver o filme na sua cabeça. Prédios ruíam com um simples piparote, as pessoas eram como pipocas entre as suas mandíbulas. Crocantes. Deliciosas… Totalmente absorto, o Sr. Malaquias nem sequer sentiu a lesma quando ela já deslizava pela sua coxa. Depois, quando estivesse satisfeito, com um gigantesco salto, voaria através das nuvens, sentindo o vento da liberdade nas antenas. Olhou, melancólico, para o poster. Porque é que não existem mesmo aranhas radioactivas capazes de nos dar parte dos seus poderes? Perguntou a todos os presentes. Ou insectos, ou até mesmo celenterados, moluscos! Fechou os olhos e voltou a deixar-se embrenhar pela fantasia sem se aperceber que a lesma tinha já entrado para dentro da sua roupa interior, perigosamente perto da sua genitália. De olhos fechados e com um ténue sorriso nos lábios, o Sr. Malaquias voava dentro da sua cabeça enquanto a lesma, estrategicamente, se posicionava naquele pequeno espaço entre o escroto e o esfíncter anal.

De repente, uma dor aguda fá-lo esbugalhar os olhos e dar um salto da cama. Atónito, enquanto afagava com a mão a região afectada, sentiu que algo estranho se passava no interior do seu corpo. Assustado, sentiu que os seus ossos começavam a perder a rigidez. Sentiu-se a ficar mais pequeno e, olhando para baixo, aterrorizado, verificou que as suas pernas perdiam a sustentação. Causou-lhe particular estranheza que o fenómeno, em vez de o fazer cair, provocou apenas um desabar do seu corpo sobre si mesmo. Gritou enquanto o seu corpo despencava até se transformar em algo disforme. Chorou no momento em que a sua cabeça se afundava na massa que era agora o seu organismo. Demorou algum tempo até se conseguir começar a habituar à sua vida como a lesma humana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Bananas V

01-02-2005

Ninguém soube mais nada do Sousa. Provavelmente devido a uma produção anormalmente elevada de testosterona, semana que o Sousa não fosse pelo menos três vezes ao Olympia não era uma boa semana para ele. Parece anedota, mas já o tratavam pelo nome e até estavam a pensar implementar bilhetes semanais. Toda a gente assumiu que se tinha perdido no submundo do sexo e certamente, se ainda estivesse entre nós, estaria cheio dessas bichezas que agora tanto falam (as doenças venérdicas ou lá o que é…). Pois é verdade. Adivinhem quem me bateu ontem à porta para me oferecer a última edição da Despertai!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bananas IV

01-02-2005

O que eu me divertia com o Silva! Era sempre a alma da festa! Sempre o mais teso de todos, provavelmente o recorde do mundo de copos cravados numa noite! Não pensem mal do Silva, para ele, cravar copos era uma arte! O segredo do seu sucesso era que não era um parasita, sempre que tinha dinheiro pagava também com alegria e boa disposição. Fui almoçar com ele ontem e, apesar de nos termos rido com fartura, algo parecia estranho. Só percebi quando veio a conta e ele fez questão de pagar só a parte dele, afinal só eu é que tinha bebido vinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bananas III

01-02-2005

O Pereira? Aquele cheio de papel, que quando tínhamos Simcas 1000 todos podres e afins já tinha grandes máquinas e cuja casa fazia inveja a muitas discotecas? Sim, lembro-me. Esse gajo dá-me pena, assim que saiu da escola entrou numa espiral descendente de psicoses e as últimas notícias que tenho dele é que meteu na cabeça que toda a gente se queria aproveitar da sua abundância e acabou por ir viver para um retiro para doidos ricos. Mas parece que o seu problema social está melhor, pelo menos mantém já uma relação de amizade bastante estável com uma das oliveiras do jardim.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Bananas II

01-02-2005

Lembram-se do Fernandes? Aquele atrofiado que nunca tinha posto um cigarro na boca? Sim, aquele, que, com a sua característica arrogância, se esforçava por fazer os fumadores mais fracos de espírito sentir-se estúpidos e inferiores. Pois, esse mesmo! Vi-o ontem a arrumar carros no Restelo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Bananas I

01-02-2005

Há que tempos eu nem sequer me lembrava do Marques! Sempre fomos muito amigos. Apesar da sua personalidade divertida fazer dele um óptimo e frequente companheiro de galhofa, sempre denotei uma certa mania das grandezas; à qual nunca dei muita importância. Pois é, parece que o negócio de bolas de golfe está a ir de vento em popa e ele agora já não conhece ninguém!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um dia escrevi isto

31-01-2005

- “Agasalha-te, deve estar frio”, disse ela num tom maternal que me fez ranger os dentes; respondi com uma onomatopeia e saí para a manhã bucólica de Outono. “Merda! Está um frio de rachar” murmurei enquanto a brisa gélida me lambia a face, “estou a ver que vai ser mais um daqueles dias!”. Meti-me no carro e segui até casa do X; ele já estava à porta, com o seu característico sorriso matinal de quem acorda com a melhor das disposições, eufórico com a vida. Como aquele sorriso me irrita! Todas as manhãs me apetece carregar a fundo no acelerador e deixar aquele sorriso envolto em fumo de escape e simplesmente fugir dele; mas não, ele não tem culpa de ser tão feliz, de achar perfeita a sua vidinha inútil.
- “Bom dia”, disse, como ser fosse uma verdade inegável;
- “Não sei o que é que ele tem de bom. Estamos aqui quando podíamos estar na cama, e ainda por cima está um frio insuportável!”;
- “Sabes, isto pode parecer idiota, mas eu gosto deste frio, faz-nos sentir vivos!”;
- “Tens razão!”;
- “O quê? Concordas?!”,
- “Sim, realmente parece idiota!”.
O resto da viagem até ao emprego decorreu em absoluto silêncio.
- “Almoçamos?”
- “Whatever!”
_________________________________________________________________

- “Não sei porque é que suporto essa tua constante boa disposição! Se soubesses como me irrita...”,
- “Eu sei que te irrita, e, se queres mesmo saber, isso até me dá um certo gozo! Mas queres saber porque é que me suportas? É pela mesma razão que eu te suporto. Tu precisas de mim para não dares um tiro na cabeça, da mesma forma que eu preciso de ti para me manteres em contacto com a realidade. Ser um bom optimista não é tentar acreditar que o mundo é perfeito, mas sim ver a realidade de um ponto de vista positivo e construtivo. É engraçado, o meu optimismo irrita-te enquanto o teu pessimismo me diverte! Não achas que serias muito mais feliz se fosses mais como eu?”
- “E como é que propões que eu faça isso? Como é que eu posso pensar que existe um lado positivo no facto da ementa de hoje ser execrável, quando só de olhar para ela me apetece vomitar?”
- “Se calhar o segredo passa por reduzir o número de coisas que odeias e que te irritam.”
- “Não achas que é um bocado estúpido achar que uma pessoa pode controlar isso? Como é que eu faço para gostar de uma coisa de que não gosto?”
- “Bom, suponho que terás razão nisso, mas um bom começo seria não deixares as coisas que não gostas afectarem-te tanto. Obriga-te a, em vez de praguejar, tirar o melhor partido da situação. Em que é que o pessimismo te ajuda a resolver os problemas?”
- “Ajuda-me a estar preparado para o pior! Poupa-me desilusões”
- “E rouba-te a alegria!”
- “Qual alegria?”
- “A alegria de viver, de poder contemplar a beleza que nos rodeia, de amar!”
- “Vamos pedir que já estou a ficar enjoado!”
Pedi o que me pareceu mais suportável e ele pediu o mesmo.
- “Pergunto-me o que é que te terá feito ficar assim.”
- “O mundo não é um lugar belo, está cheio de humilhação e sofrimento. O ser humano não é humano, é o mais selvagem dos animais!”
- “Mas em que é que a tua postura ajuda? Quando passas por uma pessoa com fome e não tens nada para lhe dar, o que é que achas que ajuda mais a pessoa? Ofereceres um sorriso e umas palavras de conforto e esperança ou sentares-te ao lado dele ajudando-o a praguejar e maldizer o seu fado?”
- “Sabes, acho que a irritação que me provocas é no fundo inveja. A verdade é que eu admiro a tua visão da vida, e se pudesse ser como tu num estalar de dedos, não pensava duas vezes. Mas não consigo. Será patológico? Devo procurar ajuda profissional?”
- “Eu sou da opinião de que temos todas as capacidades necessárias de fazer a nossa auto psicanálise. Temos é que conseguir racionalizar as coisas e encarar e admitir para nós próprios os nossos defeitos, resistindo ao impulso natural da negação.”
- “Nunca vou conseguir!”
- “Às vezes acho que tu gostas de ser assim, que curtes a depressão. Tinhas razão, a comida foi uma desilusão! Amanhã será melhor!”
Contei até dez.
- “Querem vir jantar a nossa casa? É Sexta-feira, podemos ver um filme.”
- “Por mim tudo bem, vou falar com ela.”

Não sei se foi a conversa do almoço, mas curiosamente passei a tarde quase sem me irritar, se calhar já estou a ficar habituado à incompetência.
__________________________________________________________________

- “Abres a porta? Devem ser eles.”
- “Tenho alternativa?”
Abri a porta e lá estava o sorriso aberto. No entanto desta vez transmitiu-me uma inexplicável sensação de calor. Deve ser do vinho que bebi enquanto fazia o jantar.
- “Boas! Entrem e ponham-se à vontade.”
Seguiu-se o habitual, e tratando-se do X, excessivamente caloroso, ritual de cumprimentos.
- “O jantar vai ser bacalhau pessimista!”
- “E estará bom?”
- “Dificilmente! Mas desde quando é que isso é um problema para ti?”
- “Não é. A comida é a parte menos importante do jantar. É preciso ajuda para alguma coisa”
- “Podem ir começando a pôr a mesa. A comida está quase pronta.”
Eles cumpriram e atacámos o bacalhau. Estava bom.
- “Então? Há novidades? Como é que vão as coisas?” Perguntou Y
- “A mesma merda de sempre!” Respondi antes que a W pudesse dizer algo.
- “Porque é que tens sempre que tentar estragar o ambiente?” Perguntou ela.
- “Não estava a tentar nada, simplesmente respondi honestamente.”
- “Pronto, pronto. Foi só uma daquelas perguntas standard. Não é preciso estarem já a chatear-se.”
- “É que esta atitude perante a vida começa a afectar-me os nervos. Está sempre tudo mal. Qual é o meu papel no meio disto? Se não sirvo para o fazer feliz, o que é que eu estou aqui a fazer?”
- “Sombra!”
“Eu estou a falar a sério! Isto está a esgotar-me as forças. Não quero tornar-me maníaco - depressiva! Como é que eu lido com esta merda?”
“Que tal calada?”
Ainda recebi um olhar fulminante antes de ela se ir fechar no quarto.
“Não estava a contar o tempo, mas parece-me que foi um novo recorde!”
“Isto diverte-te? Como tu não está feliz, tens que estragar a noite das outras pessoas?”
“Parece-me que, desta vez, até fui eu a ter a atitude mais cool.”
“Pois, tu só és cool quando estás a gozar com a estabilidade emocional das pessoas. Não vês que ela gosta de ti e quer ser feliz ao teu lado? Porque é que tu não deixas que os teus amigos te ajudem? Vou falar com ela.”

“É impressionante como vocês conseguem manter esta amizade há tanto tempo.”
“É mais uma relação amizade/ódio!”

“Deixa lá, não fiques assim”, confortou X.
“E fico como? Já não aguento as merdas dele!”
“Ele está a passar uma fase difícil. Eu acho que ele, no fundo, está revoltado por estar a ser obrigado a crescer, a ter responsabilidades e já não poder fazer o que lhe dá na cabeça.”
“Mas não é justo que gostar dele tenha um preço tão alto! Já tenho dúvidas que eu significo alguma coisa para ele”
“Eu acho que, de certa forma, ele te culpa, porque foste tu que fizeste tudo acontecer, foi ter-te conhecido que o fez avançar no seguimento normal da vida, casar, constituir família, e isso mostra o que significas para ele; e não acho que esteja arrependido, é só um problema de adaptação. Tenho a certeza que, com a tua ajuda, ele vai ultrapassar esta fase.”
“Mas eu não sei como agir. Acho que não cumpri as expectativas dele.”
“Porque é que não experimentas psicologia inversa? Quando ele está para desatinar, tu levas a coisa na boa e reages com extrema boa disposição, brinca com ele; mesmo que não resulte sempre evitas que a coisa descambe. Pensando nisso, acho que no fundo é como eu tenho conseguido ser amigo dele, embora o faça mais para o chatear.”