quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Homens - Capítulo 1

Em contraste com o quase inaudível cumprimento do homem que não se sente bem em lado nenhum, a que ninguém respondeu, o característico cumprimento do homem que ninguém leva a mal “Cambada de filhos-da-puta!” foi retorquido com uma calorosa saudação geral. Entrou como se fosse o dono do sítio e, piscando cumplicemente o olho ao homem que nunca tem opinião, foi sentar-se na mesa do homem que não se sente bem em lado nenhum.
- Então, como é que te sentes hoje?
- Agora que falas nisso… Não me estou a sentir muito bem aqui, vou só beber o café e vou-me logo embora.
Pediu o café ao empregado, que nessa noite era o homem que acha que deus foi assassinado por extraterrestres, que o serviu prontamente. Não foi preciso mais de meio minuto para o homem que não se sente bem em lado nenhum beber o café e sair deixando uma moeda em cima da mesa.
Com um ar triunfante, o homem que ninguém leva a mal levantou-se, deu a volta ao elefante em mármore, de tamanho real, que ocupava o centro da sala e foi sentar-se na mesa do homem que nunca tem opinião, onde também estava o homem que só fala com frases de doze sílabas.
- Porque é que tu implicas com o homem? Disse o homem que só fala com frases de doze sílabas.
- Eu não tenho culpa que ele seja assim. Respondeu o homem que ninguém leva a mal.
- Acho que não havia necessidade. Há muita coisa para te divertires, e muitas delas sem chateares ninguém!
- Tá bem, tá bem. Eu não chateio mais o homem. Também já está a perder a piada. Ó palhaço, disse dirigindo-se ao homem que acha que deus foi assassinado por extraterrestres, traz-me lá meio bagacito.
Nisto entrou o homem que começa todas as frases com “pá…”, e, ao chegar à mesa onde estavam o homem que ninguém leva a mal, o homem que só fala com frases de doze sílabas e o homem que nunca tem opinião, disse no seu jeito próprio:
- Pá… Ainda bem que vos encontro, o homem que imagina coisas mirabolantes vai dar uma festa esta noite e estamos todos convidados. Pá… Vocês sabem que as festas dele são sempre de arromba!
- Por mim vamos já para lá, isto hoje está uma seca, nem sequer ligam a fonte. Disse o homem que ninguém leva a mal, ao que o homem que nunca tem opinião respondeu com um encolher de ombros.
O homem que só fala com frases de doze sílabas concordou pleonasmicamente, terá dito qualquer coisa como “Sim, eu acho que devemos ir embora” ou “Concordo que devemos ir já para lá” e saíram todos despedindo-se do homem que acredita que deus foi assassinado por extraterrestres, cada um à sua maneira.