quinta-feira, 2 de junho de 2011

Adrenalina #1

Depois de o conseguir arrastar para fora de casa para beber uma cerveja e desfrutar um pouco do fim daquela tarde quente tão agradável, o Bonifácio deu por si a olhar o seu amigo com um inconfundível sentimento de comiseração. Era a primeira vez que se apercebia disto, mas sim, era verdade, o que sentia pelo seu velho amigo Matias, além de uma profunda e inabalável amizade, era pena. Esta constatação chocou-o ao ponto de o seu amigo quebrar o silêncio perguntando-lhe se se passava alguma coisa. Era pouco frequente ser o Matias a preencher o silêncio que muitas vezes se gerava quando estavam juntos, mas isso não era um problema para qualquer dos dois. Não era um silêncio constrangedor. Simplesmente nenhum deles tinha nada que achasse que devia dizer naquele momento e nenhum deles se sentia na obrigação de dizer qualquer coisa com o único intuito de preencher o vazio verbal. Ao Bonifácio, ocorriam-lhe com mais frequência temas de conversa, mas isso não queria dizer que o Matias fosse um tipo calado. Nada disso. O mais frequente era até envolverem-se em acesos debates, mas isto só acontecia quando, de forma natural e espontânea, surgia um tema conceptual sobre o qual ambos tinham opinião. Acontecia com frequência mas não era sempre, que não eram daquelas pessoas que têm opinião sobre tudo, inclusivamente sobre assuntos sobre os quais não sabem absolutamente nada. Não, as opiniões do Bonifácio e do Matias eram sempre fundadas, embora, como eles próprios tinham consciência, pudessem estar completamente erradas. Simplesmente, como não eram pessoas de contar tudo o que lhes passava na vida, tinham vários momentos de ausência de conversa, durante os quais se permitiam, tranquila e confortavelmente, perder nos seus pensamentos sem que ninguém se sentisse obrigado a falar do estado do tempo, que, por sinal, estava tão agradável naquele dia que também não daria grande tema de conversa senão o tradicional: “Está calor hoje!”, “Olha, pois que de facto está. É de extrema clarividência e lucidez a sagaz constatação desse facto”.
Foi uma forte revelação para o Bonifácio, mas era inegável. Tinha pena da vida vazia do seu amigo. Faça-se a ressalva que, apesar de considerar que a vida do seu amigo era vazia, tinha consciência que isso era apenas verdade à luz da sua forma de ver as coisas. Tinha também consciência que a sua forma de ver as coisas não era necessariamente a universalmente verdadeira. Era-o para si, mas respeitava qualquer outra perspectiva tanto como a sua. Isto para não se ficar a pensar que o Bonifácio era daqueles que acha que toda a gente devia viver a sua vida da forma que os próprios vivem. Não. Ao Bonifácio, apesar de ter bem definida a forma como achava que devia viver a sua vida, não lhe passava pela cabeça impingir essa visão a mais ninguém como sendo o correcto. No entanto – talvez isto fosse uma aresta que ainda precisasse de algum desbastamento – fazia-lhe algo que creio se poder descrever como “impressão”, que as pessoas atravessassem este mundo sem aproveitar o (na sua opinião) pouco tempo de vida que lhes é concedido. Causava-lhe confusão, por exemplo, que houvesse gente que passava horas esquecidas sozinha, mesmo estando na companhia de outros, em frente à televisão. Mais confusão ainda lhe causavam pessoas que despendiam anos da sua vida a limpar e arrumar coisas. Ele até gostava de ter as coisas limpas e arrumadas, mas achava que havia uma infinidade de coisas melhores com que ocupar esse tempo. Achava que a razão de estar vivo era tentar passar o maior número de momentos de satisfação e viver o maior número de emoções que fosse possível até que a fria e inevitável mão da morte se pousasse no seu ombro. “Pois”, diria o Bonifácio se estivesse a acompanhar este relato, “a vida é demasiado curta para se perder tempo com ninharias”.
Racionalizou naquele momento que achava que o seu amigo estava a desperdiçar a sua vida, fechado em casa com as suas maquetas e os seus filmes clássicos. Achava que precisava de se apaixonar, de ter o seu coração partido, de curar essa mágoa e apaixonar-se de novo, de experimentar descargas de adrenalina, outros estados de consciência. No fundo, achava que a vida do seu grande amigo começava a perder o significado, dados os anos que já tinha vivido e as parcas, se algumas, ocasiões em que, qual pára-quedista que com metade do seu pé direito e metade das suas mãos fora do avião, com a deslocação do ar a empurrar-lhe as bochechas, pronto para saltar para o vazio assim que a ordem for dada, sentiu todas as células a fervilhar, não só compreendendo a razão de estar vivo, como sentindo essa mesma razão a percorrer-lhe todo o corpo. Só os saltadores sabem porque é que os pássaros cantam, ouvi algures dizer, e é uma bela metáfora. Só quem se dá às emoções é que sabe qual o sentido da vida.
Sentiu que tinha que fazer alguma coisa. Fez um esforço por respeitar as escolhas do seu amigo, impondo-se um limite na tentativa de persuasão, mas achou que ele precisava de ser espicaçado. Tentaria não abusar, mas achou que não seria de amigo não tentar dar alguma emoção à vida do Matias. Se depois achasse que queria voltar à sua vidinha pacata, tudo bem, mas faria-o com conhecimento da alternativa.