sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Writer's block

O macaco sentou-se na sua almofada e olhou lúgubre para o seu tratador e amigo, enquanto este tirava a maquilhagem com a ajuda das lágrimas que escorriam. É sempre desolador ver um palhaço a chorar, mas aquele não era um palhaço qualquer. Era a única pessoa que poderia considerar família. A única pessoa que realmente alguma vez se tinha preocupado consigo desmoronava-se à frente dos seus olhos e o macaco não fazia a mais pequena ideia do que fazer. Ainda com a cara meio esborratada, o palhaço fitou no espelho o reflexo do seu único amigo e esforçou um sorriso. Deixa lá, não te preocupes comigo, isto passa, disse. O macaco limitou-se a baixar a cabeça. Mais tarde ou mais cedo isto teria que acontecer, continuou o palhaço, além do mais já estou velho, algum dia teria que arrumar a peruca. O macaco voltou a levantar a cabeça, olhando o seu amigo com tal tristeza que não foi preciso abrir a boca para que soubesse como se sentia. Estamos ultrapassados, continuou o palhaço, sem saber muito bem se falava com o seu fiel amigo, se consigo próprio. O macaco respondeu com um guincho estridente. O quê, perguntou o palhaço, reinventarmo-nos? Não achas que estamos um bocado velhos para isso? Os miúdos agora não acham piada a trambolhões e tartes na cara. Agora, algo que não meta sangue e desmembramentos não tem piada nenhuma. O macaco emitiu uma série de ruídos enquanto esbracejava freneticamente. Eu também sinto isso, respondeu o palhaço, sei a minha idade mas também acho que ainda tenho muito para dar, sinto-me, no entanto, desenquadrado, antiquado. O macaco deu um único guincho enquanto estendia o dedo indicador na direcção do palhaço. Sim, já sei, reinventarmo-nos, retorquiu o palhaço, mas como? O macaco abriu os braços e soltou uma sequência de grunhidos. Tens razão, respondeu o palhaço, estamos na era da comunicação, quem não está na internet não existe. Hum... É isso... É isso!!! É isso que eles querem, não é? Então tê-lo-ão. Depois de proferir a última sílaba, o palhaço manteve um sorriso tão maquiavélico que fez o macaco estremecer...

Foi aqui que a coisa deixou de fluir, e quando a coisa não flui não há nada a fazer. Por isso, se alguém quiser, pode pegar a partir daqui. Até se pode fazer aquele jogo estúpido de quando éramos putos de cada um inventar uma parte da história, e tal :)

2 comentários:

Canuca disse...

Até gostava de pegar no palhaço e no seu fiel amigo macaco e fazer algo interessante, mas n tenho jeito nenhum para escrever lol...

Quando voltar a fluir logo escreves...

Kiss

Anãozinho Verde disse...

Apoderado de uma ânsia desmesurada, levou meses e meses à procura de uma comunidade online que lhe facultasse o conhecimento necessário para materializar o seu plano macabro.
Existem mentes brilhantes e vulneráveis.
Foram estes os alvos do palhaço cibernético que acabou por se tornar o vínculo à realidade material daqueles que preferem explorar uma outra dimensão…