sábado, 16 de dezembro de 2006

Diálogo

- Estás a dormir?

- ...

- Estás, não estás?

- ...

- Não faz mal, é quando consigo falar melhor contigo. Gosto muito de ter estes momentos para falar contigo. Acho que conseguimos mesmo estabelecer uma ligação, um entendimento.

- ...

- É isso. Sabes, tenho andado um bocado farto de tudo. Não ando deprimido nem nada, só um bocado desanimado. E já sei o que estás a pensar, ficas logo a pensar que já não te amo ou qualquer coisa assim. Não é nada disso, acho que, apesar das nossas divergências, conseguimos fazer a coisa resultar e estou muito satisfeito com o que construímos. O que me apetecia era mudar de vida, mudarmo-nos para outro sítio, para o campo, talvez...

- ...

- Eu sei, eu sei, tens muito medo das mudanças, mas eu preciso tanto delas, não consigo aguentar muito tempo a ter dias sempre todos iguais, ano após ano. E além do mais, estamos na era da comunicação. Ir viver para outra cidade, ou até mesmo para outro país, não é a o que era. Agora é muito fácil manter o contacto com as pessoas de quem gostamos. A província... apetecia-me mesmo deixar a cidade. Ir viver para uma aldeiazita recôndita num canto qualquer lá para o Norte. Viver da terra e tal.

- ...

- Não precisas de dizer, eu sei que iamos sentir falta dos concertos, da cultura, do cais... mas podíamos sempre vir passar um fim-de-semana ou umas férias a Lisboa. Já imaginaste? A paz, as estrelas, os grilos, o ar puro... o verde... Acho que não sentiria falta de nenhuma comodidade, cada vez estou mais desligado delas. Aliás, tenho a certeza que iamos chegar à conclusão de que não precisamos da grande maioria das coisas sem as quais achamos que não conseguiriamos viver felizes.

- ...

- Pelo menos não estás já a arranjar argumentos sem sentido, é uma das razões que faz com que seja muito mais fácil falar contigo nestas circunstâncias, parece que entendes melhor as coisas, que a conversa é muito menos tortuosa. Pelo menos não vens logo com as tuas ideias preconcebidas e os teus estereotipos, com a tua mania de que o mundo tem que ser exactamente aquilo que o teu discernimento te permite inferir dele. E fico muito contente por não estares já a destruir a minha ideia. Até acho mesmo que, já que não te estás a opor, devíamos vender a casa e comprar um terreno na província. Plantarmos a nossa horta, tudo biológico, claro, até podíamos ter uma cabra para dar leite...

- ...

- Já nos estou a imaginar, a passar os serões envolvidos pelos cheiros da natureza, ver a Lua aparecer por detrás do monte, com os cães e os gatos à nossa volta. Eu podia escrever, tu podias fazer aquelas esculturas horríveis e inúteis que tanto gostas de fazer, e a vida seria boa. Não é um belo pensamento?

- ...

- Nem imaginas como fico contente por não discordares. Está decidido então, amanhã pomos a casa à venda e vou começar a procurar um terreno com uma casita para comprarmos. Agora só espero que amanhã não me venhas com as tuas mudanças de opinião da noite para o dia!

14 comentários:

Anónimo disse...

No dia seguinte ela acorda e diz que ouviu tudo o que ele disse e que aceita pôr a casa à venda e partir para a aldeia onde se consegue ver o céu estrelado...
E assim acontece. Nos primeiros tempos estão felizes, plantam a horta e entre eles existem momentos deliciosos de silêncio, longos serões de conversas e juras de amor eterno.
Mas um dia ela acorda e tem saudades do stress da cidade, do rio Tejo e do mar, da musica da cidade, dos filmes que iam ver juntos sempre á mesma sala de cinema habitual, das filas na A5, de lutar contra o tempo que teima em não parar... E começa a ficar triste, a sentir um vazio e a olhar para ele de outra forma.
Finalmente tem coragem para lhe dizer que não aguenta mais, que quer voltar a ter a vida antiga na cidade. Ele não entende e não quer voltar. Depois de alguns meses, as discussões sucedem-se, deixam de fazer amor, o ruído do silêncio do campo é ensurdecedor e ela decide partir sozinha para a cidade.

AP disse...

Tambem há rios no bonitos no campo, alem disso o Tejo atravessa o campo :)! Havias de ver o stress de transito que existe em Chãs de Egua quando a D. Rosa se lembra de ir ao talho e deixa o carto estacionado em segunda fila no meio da vila! Tudo mudo e um sentimento não devia terminar por causa de coisas tão mundanas ;)

Anónimo disse...

Pode ser uma ideia bonita, mas para mim não passa disso porque sei que não seria feliz. Gosto da cidade e de tudo que ela me oferece. O sentimento não acaba assim, apenas há discordâncias e as pessoas separam-se e tentam esquecer...

W. disse...

... é mais fácil viver no campo e usufruir da cidade, do que viver na cidade e aproveitar o que o campo oferece...

Anónimo disse...

Isso depende dos gostos de cada um

W. disse...

Não é disso que estamos a escrever?!?! Dos gostos de cada um?!?!
:)

Anónimo disse...

Sim, claro. Foi só um comentário :)

W. disse...

Conheço um sítio, muito calmo, num alto de uma montanha... tão silencioso que se prestarmos muita atenção conseguimos ouvir a própria respiração. Desse local, à noite, consegue-se perfeitamente avistar a cidade "grande"... as luzes, o fumo, os prédios... tentei fazer o mesmo exercício do outro lado, ou seja, no telhado de um desses prédios... curioso, a tal montanha tinha desaparecido...

AP disse...

Ou escondeu-se, para não se saber do segredo que ela possui :)

Anónimo disse...

Mas quando se regressa a casa depois da noite na cidade, as luzes que iluminam as ruas caladas dizem que foi mais uma noite que não volta mais... aí a paz também é sentida

W. disse...

Provavelmente é isso mesmo... escondeu-se... com medo que muito mais gente a descubra!!

W. disse...

...o que torna os lugares tão especiais, inesquecíveis e agradáveis, não são nem os rios, nem o mar, nem as árvores, nem o "não barulho", nem a confusão, nem o cheiro... são as Donas Rosas que e Senhores Josés que lá vivem...

W. disse...

Errata:
onde se lê "Donas Rosas que e Senhores Josés" deverá antes ler-se "Donas Rosas e os Senhores Josés".

Funny Analana disse...

Tanto palavreado para quê? :)