quarta-feira, 26 de abril de 2006

Sentimentos

- Eu sou da opinião que não devemos esconder os nossos sentimentos. Acho que não há razão nenhuma para termos vergonha deles e se os escondermos não estamos a ser genuínos.
- Não acho que apenas por não nos expormos não estejamos a ser genuínos. Apenas nos estamos a defender, a proteger. Não quer dizer que aquilo que mostras aos outros não sejas realmente tu. Pode não ser tudo o que és, mas não quer dizer que o que mostras não faça genuinamente parte de ti.
- Sim, compreendo que é um mecanismo de protecção, mas acho que só temos a ganhar se conseguirmos ultrapassar a insegurança que nos faz ser assim. Acho que não tens assim tanto a perder se te abrires sem reservas com toda a gente.
- É engraçado como me fazes lembrar de mim quando tinha a tua idade. Eu também pensava assim. Embora sempre tenha tido uma grande dificuldade em demonstrar os meus sentimentos, sempre achei que os devia demonstrar, e sempre me esforcei por fazê-lo.
- E porque é que mudaste de opinião?
- Mudei de opinião quando finalmente, não sem um bom esforço, consegui abrir-me como um livro.
- O que é que aconteceu?
- Nem sempre as outras pessoas estão preparadas para saber o que nos vai na alma. E isso pode alterar irrecuperavelmente uma relação. Pode estragar o que poderia ser uma boa amizade.
- Queres elaborar?
- Não, nem por isso, mas digo-te que não é sempre melhor demonstrarmos os nossos sentimentos. Nem sempre se ganha em tirar a máscara. E não estou a falar do facto de, ao tirarmos a máscara, nos estamos a expor e a colocar-nos numa situação de vulnerabilidade. Podes dar um passo sem regresso na relação que tens com a pessoa a quem te expões e, embora isto do melhor e pior seja sempre discutível, ficares numa situação pior.
- Compreendo o teu ponto de vista, mas se a outra pessoa não souber lidar com o que sentes o problema é inteiramente dela. Se fores sincero não estás certamente a errar. Acho até que é a única atitude que te permite ter a certeza de estares a agir correctamente.
- Eu também compreendo o teu ponto de vista e provavelmente, dependendo da situação, estão ambos correctos. Há que ter consciência que não há verdades universais e absolutas, a vida não é a preto e branco, os tons de cinzento são infinitos. Só a experiência de vida te permite distinguir as situações em que será provavelmente melhor retraires as tuas emoções. No entanto acho que, apesar de tudo, tens razão no facto de ser a única maneira de garantires que agiste correctamente, há é que ter consciência que agir correctamente pode ter um preço. No fundo espero que, ao contrário de mim, consigas amadurecer mantendo essa opinião.
- Vou tentar.
- Boa sorte!

3 comentários:

Guy Pascoal disse...

Por acaso eu sempre pensei que o melhor seria esconder os sentimentos e o que sinto e com a idade aprendi que o melhor mesmo é ser constantemente um livro aberto, a piada disto é que quando escondia os sentimentos fui, obviamente e por minha culpa, várias vezes mal interpretado, agora que já não o faço, as más interpretações que outora foram feitas, já não conseguem de forma nenhuma suplantar a ideia que foi estabelecida de forma a que a minha postura hoje faça com que as pessoas me vejam de outra forma! Acho que aquilo que irá prevalecer quase sempre, são as primeiras impressões, apesar de ser quase uma verdade absoluta que isso não se deve fazer, por isso, se calhar o melhor mesmo é ser um livro aberto a toda a hora, temos é de ter cuidado com o vento para que as folhas não sejam arrancadas com uma aragem que possa vir de repente!

Chô Bítor disse...

Independentemente de como se deve ou não ser, ser um livro aberto não nos protege de interpretações erradas.

Guy Pascoal disse...

Pois não, mas isso já não se torna num problema de consciencia que fica sempre tranquila quando se é um livro aberto, independentemente do que pensem, ou não, do livro. Dormir de consciencia tranquila é que é o verdadeiro desafio, e não vale enganarmo-nos ou desculparmo-nos a nós proprios!