quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Arte #6

Os olhos do recém-chegado não se fecharam mais de um minuto seguido naquela noite. Claro que têm como, pensou, se a vontade for verdadeira, arranja-se solução. Será que eu conseguiria? Perguntou-se enquanto alternava o olhar entre as várias formas que se espalhavam junto às paredes fracamente iluminadas. Visualizou-se a ajustar as suas mãos à volta do pescoço de cada um dos seus companheiros de infortúnio. Tentou imaginar os seus rostos a dar o último suspiro. Projectou na sua mente os rostos deploráveis de cada um dos homens à mercê das suas mãos e, perplexo, sentiu-se capaz. Pelas suas figuras lastimáveis, não era tão difícil encaixar um acto tão atroz como sendo movido por compaixão. Coitados, pensou, é triste, mas basta olha para eles para achar que a morte seria um favor. Desviando o olhar para o vulto mais próximo de si, imaginou de seguida o rosto da mulher sem pernas no momento em que a sua vida se esvaía. Achou que seria mais difícil, a calma que conseguia transmitir-lhe criou em si uma empatia que não existia com os demais. Apesar disso, achou que poderia conseguir, se tivesse a certeza que era esse o seu desejo. Quando o encardido rosto da rapariga apareceu na sua mente, rapidamente percebeu que seria muito mais complicado. Apesar de suja e desgrenhada, a sua aparência não suscitava o mesmo nível de comiseração que os outros. Era uma visão excessivamente infausta, sem dúvida, mas não tinha comparação com as miseráveis figuras dos outros. Bastou imaginar os seus olhos tristes à espera do seu irreversível fado para ter a certeza que não conseguiria, mesmo que ela o desejasse. Desejou ardentemente que ela não o quisesse até que o seu pensamento dispersou. E a minha hora, quando chegará? Meditou contemplando os primeiros raios de sol reflectidos nas inúmeras partículas de pó em suspensão no ar deletério.
Pouco tempo depois, como em todos os dias, o silêncio foi quebrado pelo ranger da portinhola. Como um funesto ritual, em resposta ao som, os vultos disformes começam a mover-se e a aproximar-se da porta. Cumprindo a sua parte, o recém-chegado imitou e regressou para junto da mulher com o medíocre pequeno-almoço de ambos.
Preferias morrer? Perguntou baixo à mulher, tentando que ninguém o ouvisse, mas reparou que o velho levantou rapidamente a cabeça, virando para si o ouvido direito. A mulher virou a cabeça devagar na sua direcção. Já tive dias em que aceitaria a morte de bom grado, mas tenho outros em que me sinto feliz por ela não ter chegado, disse, em tom normal e sem qualquer preocupação com quem ouviria. Quase instantaneamente, o velho virou as suas órbitas ocas na direcção dos dialogantes. Porquê a pergunta? Disparou o velho do outro lado da cela. Disseste-me que só não acabaste com a tua vida porque não tinhas como, respondeu o recém-chegado. Disse e repito, retorquiu o velho no seu constante tom amargo. Pois agora já tens como, respondeu secamente o recém-chegado, ainda queres? Não penses que és o Einstein por teres pensado nisso, continuou o velho no mesmo tom, eu já tive essa ideia há muito tempo, mas seria incapaz de pedir uma coisa dessas a alguém, de pedir a alguém que, por mim, carregasse para o resto da vida o peso de ter tirado a vida a outro ser humano. Lentamente, o velho levantou-se e, da mesma forma que o faria se os seus globos oculares ainda se encontrassem no sítio devido, atravessou o espaço e ajoelhou-se em frente do recém-chegado. Estás a voluntariar-te? Perguntou aproximando tanto o seu rosto do do recém-chegado que este se contorceu de náusea ao cheirar o hálito do velho. Sim, voluntario-me, respondeu o recém-chegado sem pensar. Se me garantires que é isso que queres, eu faço-o. Garanto-te que é o que quero, não tenho qualquer dúvida, respondeu prontamente o velho. E tu? Perguntou. Tens a certeza que és capaz? Tens consciência de que nunca mais serás o mesmo? De que esse momento nunca, nunca mais se vai esbater na tua memória? Que vai ficar sempre tão vívido, que vais ter vontade de fazer um furo na cabeça para que as memórias escorram para fora? Pareces saber bastante sobre o assunto, disse o recém-chegado com uma nota de sarcasmo na voz. Não é isso que estamos a debater, respondeu rispidamente o velho. Pois não, retrucou o recém-chegado quase com a mesma rispidez, e já te disse que o faço, que te faço esse favor. Não sei o que aconteceu no teu caso, continuou mais delicadamente, mas se eu o fizer será um acto de misericórdia e será assim que o momento ficará registado na minha memória. Se continuar sempre vívido, fará sentir-me bem lembrar-me que tive coragem suficiente para, movido por puro altruísmo, conceder esse obséquio a alguém, por ter estado à altura da situação e ter feito o que tinha que ser feito. Está bem, convenceste-me, respondeu o velho aparentando estar algo divertido com o discurso, estou à espera. Faço-te esse favor, disse o recém-chegado enchendo o peito, com a condição de haver um dia de reflexão. Isto vale para todos, continuou, levantando o tom de voz. Pensem bem no assunto e dêem-me a vossa resposta amanhã. Não sei onde vou conseguir forças, mas eu faço-o. Faço-o por compaixão para convosco, mas também porque é a única vingança que vos posso proporcionar. Ao terminar o seu discurso, olhando para o rosto triste da rapariga, quase imperceptivelmente, rodou a cabeça para ambos os lados.
Todos ficaram em silêncio virados para o recém-chegado por alguns momentos até que o homem sem braços quebrou a quietude. Eu também quero, disse, elevando o tom de voz mais do que seria necessário para que todos ouvissem. Eu também quero, repetiu mais baixo. Todos os rostos se viraram para si. Mesmo que ainda venha a sair daqui, que não acho que aconteça, que vida vou eu ter? Alguém aqui vai conseguir ultrapassar isto se conseguir sair daqui? Perguntou aos demais. Não, para mim chega, continuou, dirigindo-se ao recém-chegado, se me fazes o favor de não permitir que aquele ser abjecto continue a divertir-se a ver-me definhar, eu agradeço-te do fundo do meu coração. O recém-chegado acenou com a cabeça em consentimento e voltou-se para encontrar o olhar da mulher sem pernas. Eu vou pensar nisso, respondeu a mulher à pergunta não verbalizada.
Enquanto todos se abstraíam, meditando sobre o assunto que se tinha discutido, o recém-chegado acercou-se da rapariga. Tu não precisas de pensar no caso, disse-lhe baixinho, mas sabendo que o velho o ouviria, nunca to conseguiria fazer, não entras para o acordo. Porquê? Perguntou a rapariga. Porque há uma pequena hipótese de saíres daqui e ainda vires a ter uma vida normal, respondeu o recém-chegado. Olha para eles, continuou enquanto percorria o espaço com um movimento do braço direito, mesmo que saíssem daqui, as feridas físicas e emocionais tomariam sempre conta da sua vida, acredito que, para eles, a morte é mesmo a única libertação possível, mas não para ti. Eu não quero morrer, disse a rapariga, olhando fundo nos olhos do recém-chegado, o que eu queria, já que não posso sair daqui, era ficar cá sozinha contigo. O olhar da rapariga desviou-se para uma racha no chão ao proferir a última frase. Porquê comigo? Perguntou espantado o recém-chegado. Tens braços, retorquiu a rapariga, continuando a percorrer lentamente com o olhar a fenda no chão, não és repulsivo, não és mais velho que o meu pai… O recém-chegado deslizou suavemente as costas do indicador direito na face encardida da rapariga, que levantou o olhar para encontrar o seu. A decisão não é minha, disse, mas se ficarmos cá os dois sozinhos, eu não vou poder ser mais que um irmão mais velho para ti. A rapariga virou violentamente a cara para o outro lado e, com passos rápidos, foi sentar-se no canto oposto abraçando as pernas.
O resto do dia decorreu em silêncio. Com excepção do velho, que dormiu a maior parte do tempo, meditabundos, os restantes ocupantes mantiveram-se ensimesmados, provavelmente a pensar no que iria acontecer na manhã seguinte.

12 comentários:

Anónimo disse...

Wise man ... Analana

anãozinhoverde disse...

Rodovalho Zargalheiro Allan Poe...

A tua escrita imersiva fez-me esquecer por momentos que hoje dobraram-me a porta do carro como presente de Natal...

Desculpem a "materialidade" do meu post

THX & Happy X-MAS!!!

Rodovalho Zargalheiro disse...

Deixa lá isso, anãozinho, ainda tens as tuas graças...

Rodovalho Zargalheiro disse...

Once upon a madman’s dairy, where I ended up, vision weak and blurry
I unintentionally stepped on a such huge pile of cow manure
While I cursed, nearly cracking, my foot on a big stone scraping
The foot I so stupidly lay, without looking, on the floor
“Fuck this shit” I muttered, “Fuck this shit spread on the floor”
“Fuck this shit for evermore”

anãozinhoverde disse...

But while my cursing endured, I stared the cow manure
What shining piece was flickering there?
It was so beautiful, touch it I wouldn’t dare
Froze me in such a way,
Astonished I stood when the piece rolled out of the hay
And fit upon the madman’s diary, over a little black square!

Rodovalho Zargalheiro disse...

Ah, distinctly I remember, it was in the shitty December
And each smoking pile of crap, was grossly scattered across the moor
Eagerly I wished to borrow, some machine that shit could swallow
That by this time tomorrow, would have wiped the crap out of the floor
Some strange magic contraption that could wipe clean all this floor
But the shit stood there, even more than was before

anãozinhoverde disse...

So I took the damn diary and left the dense odor
Hoping for an adventure with a mysterious murder
A Calling I felt from the tiny embedded piece
Something weird which I tried not to miss
The book opened against my will
And my heart pounded hard as if it was steel!

Rodovalho Zargalheiro disse...

And the raucous sound uncertain, something like a heavy curtain
Filled me with a fantastic heat where I never felt it before;
So that now, to still the heating on my groin, I stood repeating
At this time, at this late hour, who else can be if not a whore?
Late at night, far at this place, who else can be if not a whore?
T’is my luck and nothing more

(it was a dairy, not a diary... :p But maybe the madman had both :)

Rodovalho Zargalheiro disse...

Promptly my sex grew stronger, hesitating then no longer
"Miss," said I, "or Madam, truly your soft body I implore;
But my mind I was distracting, while shit off my foot was scraping
And so gently you came walking, while I was looking at the floor”
My eyes I lifted from the floor, thinking “Finally, some hardcore”
A chicken was there and nothing more

Then the ugly bird beguiling my sad fancy into smiling
But not at first so scared I was, only after overwhelming shock
The most dumb of all the birds, so stupid that there are no words
My luck is bad but not that much, At least I’m glad you’re not a hawk
T’would be much worse were you a hawk
Quote the chicken, “braaaaawk”

(got carried away... :)

Funny Analana disse...

LOL, tou farta de grizar com os textos :)
Muito obrigada aos dois :)

Rodovalho Zargalheiro disse...

:)

anãozinhoverde disse...

;)