terça-feira, 9 de maio de 2006

Orgulho

Deve ser das coisas mais difíceis na vida. Bom, isso e talvez retirar sozinho e sem anestesia a chave que abre a máscara mortífera que o psicopata nos colocou, chave essa que se encontra alojada por trás do nosso olho... Desculpem, vi o Saw II há muito pouco tempo... Falo de sermos mais fortes que o nosso orgulho. É mesmo muito difícil conseguirmos ser mais fortes que o nosso orgulho, mas o facto de ser difícil só traz mais mérito a quem consegue. Eu compreendo que sentirmo-nos humilhados ou injustiçados nos corroa por dentro, mas acho que só temos a ganhar se conseguirmos ultrapassar estes sentimentos sem nos submetermos à vontade do nosso orgulho. Pensem naquilo de que já nos privámos, que já sofremos, que já fizemos sofrer os outros, nas atitudes absurdas que já tivemos por causa do orgulho. Não teria sido melhor se tivéssemos tido a capacidade de o vencer? Não teríamos sido muito mais felizes? Não nos teríamos sentido melhor connosco próprios? Pessoas melhores, mais sensatas? Eu sei que não é fácil ignorar aquela vozinha que nos diz que estamos a ser tansos, que toda a gente vai pensar que somos uns totós. Mas o que é que interessa o que os outros pensam se soubermos ter agido da forma mais decente e racional? Não nos mostramos pessoas melhores se soubermos dar o braço a torcer e não permitirmos que o nosso orgulho nos impeça de reconhecer que errámos?
Notoriamente esta questão está intimamente ligada ao factor imagem. Há pessoas para quem a imagem é tudo e o facto de alguém ficar a pensar que são parvos ou fracos (mesmo até que seja verdade) é insuportável. No entanto não creio ser necessário converter-se ao budismo (se bem que mal não faria) para compreender que essa atitude é primitiva. Basta olhar para a humanidade e verificar que as sociedades mais "civilizadas" são aquelas em que as pessoas começaram a despender cada vez menos energia a defender aquilo a que muitas vezes erradamente se chama honra e que não passa de puro orgulho. E se quiserem comprovar basta ofenderem um árabe e um europeu do norte e verem a diferença.
Há uma velha história chinesa que ilustra esta questão que vou tentar abreviar por palavras minhas.
Viveu em tempos um grande e respeitado espadachim que um dia, num beco, encontra um brutamontes que não conhecia a sua fama. O brutamontes decidiu meter-se com o espadachim humilhando-o, naquela atitude que os brutamontes têm que os faz sentir mais confiantes e seguros. Disse-lhe que se quisesse passar, teria que o fazer por baixo das suas pernas. O espadachim, apesar de exímio guerreiro e de saber que numa questão de segundos deixaria o brutamontes estendido no chão, talvez até morto, não achou que a defesa do seu orgulho justificaria um conflito. Passou por debaixo das pernas do brutamontes e seguiu caminho, satisfeito por ter provado a si mesmo que a força do seu carácter era superior à força do seu orgulho.
É claro que o brutamontes se sentiu muito poderoso e que ficou a pensar que o espadachim era um verdadeiro banana. Mas alguém me consegue explicar porque é que o espadachim se devia importar com isso?

Nota: Não quero, de maneira nenhuma, insinuar que consigo vencer sempre o meu orgulho. No entanto faço por isso e lá vou conseguindo uma vez por outra...

1 comentário:

Guy Pascoal disse...

As coisas bonitas ou feias que se dizem, fazem, dedicam, etc, só têm algum valor quando o destinatário tem um sentimento recíproco! Se não, não passam de baboseiras sem sentido nenhum e que ninguém quer mesmo ouvir porque aborrecem e incomodam! Como dizia ontem uma personagem feminina de uma série sobre sexo, nós só devemos temer as nossas auto criticas! Mas, há que reconhecer, que mesmo tendo apenas medo das nossas auto criticas, não há vontade que resista nem amizade que subsista, quando o sentimento não é recíproco! O problema, e aí que entra o orgulho, é saber qual o sentimento que nutrem por nós e qual o sentimento que nutrimos pelas pessoas. Da forma que as coisas evoluem, é cada vez mais impossível saber isso com certeza e infelizmente ninguem quer pensar muito sobre isso, é de longe preferivel viver constantemente a queixar-se, com a mania que temos sempre azar, que tudo nos corre mal só a nós, que o olho por olho, dente por dente é preferivel a enfrentar o que realmente sentimos e queremos! Se já é tão dificil saber o que sentimos, quanto mais dificil será saber o que os outros sentem por nós! O Orgulho e a vergonha dominam o mundo! Amo-te, pode ser a coisa mais ridícula que se pode dizer, mesmo que se vença o orgulho e a vergonha de o dizer e isso deixa marcas profundas!