quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.2.2
Milhões de gigantescos escaravelhos com cabeças humanas! O pavor atingiu o seu máximo expoente quando o bando iniciou um vertiginoso vôo picado na sua direcção e conseguiu perceber que todos tinham a cara do Helmut Kohl!
Correu o mais depressa que podia, mas os seus perseguidores aproximavam-se. Um suspiro de semi-alívio surgiu das suas entranhas ao avistar ao longe o que parecia ser uma arma anti-aérea. Estranhamente conveniente, conseguiu ainda pensar enquando reuniu as suas últimas forças para um disparo final na corrida em direcção ao aparelho. O enorme reservatório acoplado ao engenho ter-lhe-ia provocado um sorriso, não estivesse a lutar pela sua vida. Quase não conseguia acreditar na sua sorte! Era um projector de coelhos, a arma conhecida mais eficaz contra escaravelhos gigantes, e parecia carregada.
Com um pulo quase felino sentou-se no engenho e apontou para o enxame. Apertou o gatilho e soltou instintivamente uma gargalhada quando os coelhos, projectados de rajada a alta velocidade e com um ritmo alucinante, começaram a atingir os escaravelhos. Embora não tenha conseguido atingir muitos dos seus atacantes - devido à fraca aerodinâmica do coelho, a precisão era um dos pontos fracos desta fascinante peça de artilharia - o factor surpresa foi fundamental. Os escaravelhos, claramente desorientados, começaram a perder o seu ímpeto e acabaram por dispersar.
Rejubilou. Torrentes de adrenalina ainda corriam nas suas veias e demorou até conseguir acalmar-se e parar de tremer. No entanto, a calma não durou muito tempo e a adrenalina voltou a subir ao avistar uma nuvem negra a formar-se no horizonte. Os escaravelhos reorganizaram-se e estavam de volta para uma segunda investida. Mais, vinham melhor preparados, munidos de envelhecidas sandes de carne enlatada, capazes de levar à náusea o mais bravo.
Assim que se apercebeu da nova ameaça, avaliou a sua situação numa fracção de segundo. O reservatório de coelhos estava a menos de um quarto e o ambiente iria ficar insuportavelmente nauseabundo, só lhe restava procurar abrigo. No segundo seguinte já estava novamente em marcha a alta velocidade, mas os escaravelhos eram muito mais rápidos e facilmente ganharam terreno. Todas as casas estavam em ruínas e certamente não aguentariam o ataque, mas conseguia ver por detrás das casas, uma enorme torre amarela que curiosamente parecia ter o formato de um colossal e hirto dedo médio. Correu para lá, mas o enxame estava já perigosamente perto.
Por uma infeliz fatalidade do destino, ou pela teoria do caos, como talvez alguns defendessem, quando o seu pé direito estava prestes a atravessar a arcada que anunciava a segurança, a força de Coriolis afectou a gravidade inversa exactamente da forma necessária para maximizar a inércia de uma sandes de carne enlatada, largada pelo escaravelho que se deslocava na linha que formava um ângulo de trinta e sete graus com a linha da sua trajectória, fazendo com que esta o atingisse na nuca com uma força tal que, violentamente projectado para a frente, aterrou atordoado de cabeça no chão.
Rapidamente surgiram dois pares de esqueléticas mãos com membranas interdigitais que o agarraram pela roupa e o puxaram mais para dentro. Não tinha ainda recuperado da desorientação quando uma das criaturas, que além dos volumosos lábios verdes não pareciam ter mais que uma fina e viscosa camada sobre a sua estrutura óssea, se aproximou e lhe deu duas vigorosas chapadas.
Paf, paf! Então pá? Ainda estás connosco ou não?
Esfregou os olhos e reconheceu as pessoas na sua frente. O que aconteceu, perguntou. Não faço a mínima ideia do que aconteceu, mas acho que da próxima vez é melhor meteres só um ácido.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.2.1
O cenário era atemorizador. Uma gigantesca sombra fantasmagórica que, apesar de translúcida, permitia distinguir contornos, flutuava na sua direcção. Não conseguiu perceber se se tratava de uma única entidade ou se pelo contrário era um enorme grupo delas, para o seu cérebro apenas importou o facto de ser enorme e aterrorizante.
Correu enquanto pôde, mas cada vez que parava, pensando estar a salvo, a grandiosa sombra reaparecia sobre si. Rapidamente percebeu que era inútil. Esgotado, deixou-se ficar imóvel enquanto a sombra pairava sobre si. Quando esta começou lentamente a descer, abriu os braços numa atitude de entrega e deixou que esta o envolvesse por completo. Sentiu, impotente, a consciência a fugir-lhe enquanto os pés perdiam o contacto com o solo.
Acordou na sua cama. Tudo teria sido um sonho... O tempo nunca mais parou mas, curiosamente, nunca deixou de ter a estranha sensação de que não estava a viver a realidade.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.1.2
Quem és tu? Perguntei. Quem sou eu? Tu é que devias saber. Eu nem sequer tenho nome. Respondeu. Ah, és tu... Mas tu não existes, o que é que estás aqui a fazer? Sei lá eu! A última coisa que me lembro é de um médico me injectar qualquer coisa, portanto isto deve ser outra viagem dentro da minha cabeça. E sabes quem eu sou... Sim, não sei como nem porquê, mas sim, sei. Curioso, muito curioso. Olha, a mim já nada me espanta, mas acho que isto se calhar é para me dar a oportunidade de te dizer que estou cansado, que já não me apetece mais. Acredita que compreendo perfeitamente, a mim também já me chateia um bocado, e nem está a sair grande coisa, mas acho que pelo menos pelo valor como exercício criativo, não devíamos desistir. Não sei quanto mais vou aguentar... Onde é que está o teu espírito? É o teu propósito, algo ao qual não podes escapar. É óbvio que tens razão, mas às vezes o ímpeto esmorece. Pedires-me para desistir é perfeitamente absurdo, tu és um sobrevivente! Agora vá, desanda daqui e cumpre o teu fado.
Abriu os olhos de repente, como se tivesse sido empurrado para a realidade. Era noite e tudo estava envolvido numa tranquila penumbra. Respirou fundo e tentou descontrair enquanto se lembrava do sonho que tinha tido. Questionou-se sobre o que significaria, se teria sido mesmo um sonho, já que estava tão vívido na sua mente como qualquer acontecimento real. Parecia tão real como a aprisionante inactividade do seu corpo. Ponderou sobre quem seria aquela pessoa. No sonho conhecia-a, mas não sabia quem era. Apesar disso, percebeu um ódio visceral, Não sabia porquê, mas odiava aquela pessoa. Um ódio tal que o assustou quase a um ponto de choque. Desisto, ouviste? As frases formavam-se no seu cérebro, vindas de um qualquer recanto do seu subconsciente. Para mim chega! Não sou o teu fantoche! A confusão aumentava, não sabia porque a sua mente parecia fora do seu controle, nem a quem se dirigia. Desisto! Tenho esse direito! A sensação de impotência era atroz. Era como se fosse um mero espectador enquanto a sua mente proferia iradas exclamações. Liberta-me, filho da puta! Liberta-me! Quem? Quem? Só podia ser aquela pessoa. Mas quem era? Porque a odiava assim?
Começou a recuperar o controlo da sua mente. Conseguiu tranquilizar-se lentamente, mas uma palavra permaneceu indelével, "desisto", a palavra acabou por ocupar todo o seu pensamento. Calmamente fechou os olhos. Concentrou-se no seu coração, visualizou-o na sua cabeça, tranquilamente, cada vez com maior detalhe. Passado algum tempo, era como se estivesse a olhar para dentro do seu peito. Via nitidamente o seu coração a pulsar, conseguia ver até os pequenos vasos que o irrigam. Concentrou então nele toda a sua força, toda a sua vontade, e ele parou.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.1.1
Alguns segundos depois de abrir os olhos, a realidade atingiu-o como um raio. Seria melhor uma existência solitária num mundo congelado, mas onde se podia mexer, ou uma existência fisicamente vegetativa num mundo compartilhado? O dilema fervilhava no seu cérebro e embora uma parte dele o tentasse convencer que o importante era a mente e não o corpo e que poderia ter uma vida gratificante, não conseguia acreditar. O dilema era fictício, sabia perfeitamente que nunca escolheria a sua situação actual, a que mais cruelmente se apresentava como real.
Doutor, quero voltar a estar em côma, disse assim que o médico atravessou a porta do quarto. Desculpe? Retorquiu incrédulo. Sei que é possível induzir um côma, quero que me façam isso, insistiu. Não podemos fazer isso. Esse procedimento envolve muitos riscos e é usado apenas em casos de dor extrema, como acontece, por exemplo, em casos de queimaduras muito extensas. Além do mais, não pode ficar aqui indefinidamente, existem outras pessoas a precisar dessa cama e, como a sua condição já se encontra estabilizada estamos até a pensar dar-lhe alta dentro de uma semana, tem que começar a fazer os preparativos para voltar para casa e refazer a sua vida. Já percebi que não vale a pena insistir, mas como é que propõe que eu faça esses preparativos? O hospital está a tentar entrar em contacto com a sua família, certamente alguém virá para o ajudar.
Estava já instalado na sua casa, a família tinha já contratado uma enfermeira para tratar dele, a quem decidiu não dirigir mais palavras do que as estritamente necessárias, quando, no meio de toda a sua revolta surgiu um refrescante pensamento positivo. Nem parecia seu, era como se lhe tivesse sido enviado de fora e dizia-lhe que uma pessoa é a sua mente e não o seu corpo, o corpo era apenas uma ferramenta. Dizia-lhe que a evolução pessoal não era feita no mundo físico, mas no campo espiritual, que era este o importante e que não lhe estava vedado. Lembrou-se das crenças budistas e obrigou-se a acreditar que a libertação do plano terreno era de facto possível. Começou a passar a grande maioria do seu tempo em meditação e libertou-se aos poucos das amarras dos apegos às coisas do mundo físico. Quando finalmente conseguiu sair do seu corpo estava já num ponto tal da sua cultivação pessoal que não sentiu qualquer euforia. Estava já livre de todas as paixões. Compaixão era o único sentimento que perdurava.
Viajou por inúmeros planos de existência e estabeleceu contacto com vários seres iluminados. O seu corpo passou o resto dos dias imóvel até perecer, mas a sua mente percorreu o universo e perdurou.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.2.2
Por muito confortável que se sentisse durante o momento morto, não conseguia evitar que o aterrorizasse a ideia de estar completamente sozinho, de não vir a ter outro contacto com um ser humano. Este temor provocou-lhe uma torrente de recordações. Lembrou-se da sua família, dos seus amigos. Lembrou-se dos passeios à beira-mar, com as ondas a acariciarem-lhe os pés. Do vento na cara. Do que apreciava observar as pessoas nas suas vidas. Sentiu saudades de ter emoções. Pela primeira vez a tranquilidade pareceu-lhe insuficiente. Não queria tranquilidade, queria emoções. Não as conseguiria voltar a ter se não eliminasse o momento morto. Já não lhe interessava qual a verdadeira realidade, apenas queria viver numa em que existisse mais gente. Não queria ficar sozinho.
Procurou a pessoa e sem mais hesitações assinou o documento que lhe permitiria voltar a ser normal. A pessoa sorriu. Disse-lhe que tinha tomado a decisão certa e, retirando o cadeado que trancava o armário por trás de si, retirou um frasco a partir do qual encheu uma seringa. É provável que com esta dose deixe completamente de ter lapsos de consciência. Acenou afirmativamente com a cabeça, autorizando a intervenção.
Viveu de forma normal o resto dos seus dias, valorizando e acarinhando cada experiência, agradável ou não, crescendo e aprendendo com ela. Apreciou cada momento que passou com outras pessoas, evoluindo com o que com elas aprendia. Poucos talvez tenham sido os momentos em que voltou a experimentar verdadeira tranquilidade, mas isso não o incomodava. Dava-se por feliz por esta lhe ser negada pelas emoções que o inundavam.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.2.1
Sem a certeza que teria sido fruto de raciocínio lógico ou de divagação alienada, decidiu que não iria acreditar na pessoa. Não conseguia ter como certo que esta realidade, aquela em que estaria a ser tratado, seria a verdadeira. A verdade é que nem lhe interessava assim tanto se seria ou não a verdadeira. Optou por escolher a que lhe parecia mais confortável, e esta era sem dúvida a que envolvia o momento morto. Concluira que o momento morto era a altura em que sentia maior tranquilidade, plenitude até. Não lhe interessava que tudo existisse apenas na sua mente e que o seu corpo estivesse em catatonia numa cela de um qualquer manicómio. Viveria sozinho num mundo congelado no qual seria um deus. Deus de ninguém, era certo, mas bastar-lhe-ia seu o seu próprio deus.
Estava decidido, não assinaria o termo de responsabilidade. Não aceitaria qualquer tipo de tratamento. Apressou-se a procurar a pessoa para a informar da sua decisão.
Não quero, disse, não quero ser tratado. Nem tenho a certeza de estar de facto doente. Tenho a obrigação de o aconselhar contra essa decisão, respondeu a pessoa, se desistir do medicamento é possível que nunca mais venha a ter momentos de lucidez como este. Como lhe disse, não tenho a certeza que este seja de facto um dos meus momentos de lucidez, retorquiu, e a minha decisão é final, não autorizo que me sejam administrado mais nenhum tipo de drogas. Se essa é a sua decisão, teremos que a respeitar. Considere cancelado o tratamento. Espero que apesar disso ainda venha a ser possível mantermos outra vez um diálogo.
Imediatamente após a última palavra proferida pela pessoa, tudo congelou novamente. De forma tão instantânea que a pessoa ficou imóvel mantendo a posição dos lábios que originou a última sílaba que proferiu. Olhou para o relógio e verificou que este, ao contrário do que acontecia antes, não marcava a meia-noite e doze. Não sabia como, mas sabia que o momento morto que se tinha iniciado não acabaria. Manteve-se tranquilo ao aperceber-se que sabia que não iria mais ter qualquer contacto com outra pessoa. Sabia que o mundo em que iria existir seria só seu. Sabia que estava sozinho. Sabia tudo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.1.2
Com todo o conhecimento de tudo o que havia para saber, limitava-se a passar longos períodos em meditação. Períodos que no mundo físico representavam eras. Assistiu ao desenvolver da humanidade e de inúmeras outras civilizações espalhadas pelo universo, que sentia cada vez mais distantes de si. Criou vida em milhões de outros planetas e acompanhou a sua evolução. Invariavelmente, acabavam por desenvolver inteligência e era o início do fim. Umas mais depressa, outras mais devagar, todas as civilizações que emergiam acabavam por se autodestruir.
Houve no entanto, por uma curiosa sequência de evolução, uma que se distinguiu. Provavelmente bastaria mudar um pequeno acontecimento na sua história para que tudo tivesse descambado, mas a verdade é que, contra todas as expectativas, esta civilização persistiu e conseguiu ultrapassar o ponto chave em que o egoísmo é tal que corrói tudo por dentro. Passado este ponto, foi com genuína expectativa, tal que teve que fazer um verdadeiro esforço para não dar uma ajuda, que acompanhou o seu progresso. Testemunhou com um orgulho paternal a erradicação da crueldade e deixou-se invadir pela paz que aquela sociedade tinha conseguido atingir. Seguiram-se o ódio, a ganância, o egoísmo, a ira. Muitas gerações passaram, milhares, mas conseguiram mesmo finalmente libertar-se do materialismo. Esta momento foi acompanhado com um imensurável regozijo. Estavam mesmo quase, bastava mais um pequeno passo para chegarem a si e sabia que iam conseguir. Tinham conseguido soltar-se dos grilhões do mundo físico, era uma questão de tempo até o conseguirem descobrir.
Num ápice, inúmeras consciências partilhavam a sua. Tinham conseguido. Desafiando todas as probabilidades, tinham conseguido atingir o máximo nível de evolução. Estavam consigo, todos eles. A sensação era de extremo conforto, quase inebriante. Já não estava sozinho, finalmente. E a harmonia durou para sempre.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.1.1
Sabia tudo o que acontecia. As atrocidades que testemunhava eram inimagináveis e começou a aperceber-se que estava a adquirir algo que poderia definir-se como repulsa pelo ser humano. Não por nenhum em particular, por todos. Começava mesmo a desprezar todos os humanos. Imaginava-se a esmagá-los um a um como se de pequenos vermes se tratassem. E para ele não tinham mesmo mais importância que qualquer outro verme.
Pensava no seu antecessor, no que o teria levado a procurá-lo e passar-lhe as suas responsabilidades e soube que tinha sido esta mesma aversão. Apercebeu-se que se não se tivesse afastado acabaria por sucumbir à vontade de eliminar toda aquela espécie repugnante. Pensava no que lhe tinha dito sobre o livre-arbítrio e agora compreendia. No entanto, a sua não intervenção começava a fazê-lo sentir-se sem propósito. Ponderava qual seria o seu papel, a sua utilidade. Por que razão existiria um deus se não se manifestava. Porque não tinha o seu antecessor simplesmente desaparecido sem deixar ninguém no seu lugar?
Decidiu enfim deixar de ser meramente passivo. Queria fazê-los sofrer, obrigá-los a viver tragédias que só conseguiriam ultrapassar se se aproximassem uns dos outros. Iria despertar a compaixão pela necessidade. Mandou terramotos, pragas, inundações e todo o tipo de catástrofes de proporções bíblicas. Assistiu impávido enquanto morriam aos milhões, acreditando que desta forma, através de um processo de selecção natural, faria com que os altruístas sobrevivessem através da entreajuda. Verificou no entanto que, apesar de toda a miséria e sofrimento, havia sempre, sempre alguém disposto a usufruir da desgraça alheia. Percebeu que o instinto de sobrevivência fazia com que tudo fosse permitido e testemunhou actos de impensável crueldade. Aceitou finalmente que era inútil, nada poderia salvar aquela mesquinha criatura. Tinha um defeito de fabrico. Não, era ainda mais profundo que isso, era um erro de concepção. Não havia nada a fazer.
Com um pensamento, todos os primatas desapareceram da superfície da Terra e, depois de minucioso planeamento, decidiu tentar de novo noutra ponta do universo.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.2
Embora a antecipação lhe provocasse um ligeiro nervosismo, porque nos tempos que corriam - metaforicamente falando, dadas as circunstâncias - era o sinal que marcava o início do período em que saia para o exterior, foi com perfeita naturalidade que encarou o momento em que tudo parou.
Havia também alguma excitação pelo facto de ter decidido estudar este fenómeno, conduzir uma pesquisa o mais científica possível que conseguisse pelo menos proporcionar-lhe algumas pistas sobre as suas origens e sobre o seu efeito. Queria também saber o que tinha visto da última vez, aquela variação de luminosidade era também uma fonte de grande curiosidade.
O plano, que não considerou propriamente uma obra prima saída do cérebro de um grande estratega, mas que o satisfez minimamente, consistia em percorrer a cidade de forma sistemática e atenta, de forma a detectar alguma coisa que escapasse ao congelamento e que eventualmente lhe permitisse ter alguma ideia do que tinha provocado o que tinha presenciado e que lhe permitisse recuperar a confiança na sua lucidez, já que o acontecimento tinha sido tão rerpentino e ténue que deixava alguma dúvida se teria mesmo acontecido ou se, pelo contrário, não teria passado de uma partida da sua imaginação. Complementarmente iria também observar com algum rigor o comportamento dos corpos celestes, bem como o do seu próprio corpo durante o momento morto. Obteve uma planta da cidade, traçou itinerários para cada incursão e reuniu material para registar as suas observações. Esperava que dentro de algum tempo, aquele caderno contivesse informações sobre algum outro ser ou entidade que, como ele, conseguisse escapar à acção deste estranho fenómeno.
As primeiras expedições apenas conseguiram revelar que o fenómeno se extendia aos corpos celestes. Tanto a lua como as estrelas se mentinham estáticas, não descrevendo os seus movimentos naturais. Apesar de não ser de todo uma situação expectável, achou que, dadas as circunstâncias, fazia sentido, dado que o momento morto aparentava já durar bastante mais que uma noite, sem no entanto se verificar qualquer alteração ambiental.
Quanto à observação do seu próprio corpo, achou curioso só após ter decidido efectuar esta análise de forma mais cuidada, se ter apercebido que, apesar de se sentir de perfeita saúde e do seu corpo aparentar funcionar normalmente, não sentia qualquer necessidade fisiológica. durante o momento morto nunca sentia fome, sede nem necessidade de excretar os subprodutos do seu metabolismo. No entanto, apesar da de não ingerir absolutamente nada durante o momento morto, nunca sentiu qualquer tipo de fadiga ou fraqueza, pelo contrário, sentia-se muito mais enérgico que durante a parte da sua vida que se poderá considerar mais normal.
O período que se seguiu seria certamente considerado extremamente aborrecido por muitos, no entanto a paz reinava na sua mente enquanto percorria as ruas que, apesar de pejadas de pessoas imóveis, era já como se estivessem desertas para ele.
Esta paz durou, no entanto, pouco. Numa altura em que a possível existência de algo desconhecido que se movimentasse no momento morto já não era algo sobre que ponderasse com frequência, eis que algo provoca o fenómeno que cada vez mais era categorizado como uma partida da imaginação. Pior, em vez de um acontecimento momentâneo, este teve uma duração que lhe permitiu concluír que não se tratava de algo criado pelo seu cérebro. Era notória a variação na luz ambiente, como se algo o sobrevoasse, como se um bando de gigantescas aves planasse sobre si. A curiosidade transformou-se em terror ao olhar para cima. Arrependeu-se de ter querido saber o que, além de si, se movimentaria durante o momento morto.
Enquanto tentava obrigar o corpo a reagir, combatendo a paralisia provocada pelo medo, uma frase teimava em não desaparecer do seu pensamento: "Cuidado com o que desejas".
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2.1
Vagueava pelas ruas intrigado com a sobra que acreditava ter visto. Na sua situação corrente, era já algo difícil confiar completamente nos seus sentidos, mas tinha praticamente a certeza que algo tinha acontecido, que tinha detectado movimento. A ideia de não ser a única pessoa activa durante o momento morto causava-lhe, por um lado algum conforto pelo facto de ser possível que não estivesse sozinho, mas também algum desconforto por sentir de alguma forma que a sua privacidade estava a ser invadida. O desconforto começou a ganhar terreno quando ponderou que, o que quer que estivesse a partilhar consigo aqueles momentos não seria provavelmente humano. A sensação com que tinha ficado era de que alguma entidade etérea teria flutuado por cima dele. Enquanto se perdia nestes pensamentos, o seu coração acelerou ao aperceber-se que algo estava novamente a influenciar a luminosidade. Assim que concentrou a sua atenção no fenómeno começou mesmo a distinguir um vulto. Tornava-se cada vez mais nítido, até que começou a distinguir o contorno de alguém, alguém vestido de branco. Deitou-se enquanto sentia a consciência a fugir-lhe. A pessoa de branco aproximava-se cada vez mais e esforçou-se por manter a consciência enquanto deixava de sentir o seu corpo.
As suas pálpebras abriram-se e deixou-se permanecer imóvel, permitindo apenas movimento aos seus olhos para reunir informação sobre o que o rodeava numa tentativa de perceber onde se encontraria, aparentava ser num hospital ou algo semelhante.
Concluiu que tinha perdido os sentidos e entretanto o momento morto teria terminado. Provavelmente teria sido encontrado inconsciente e trazido para o hospital onde acordou quando começou a ver a pessoa de branco. Pessoa esta que olhava para si como que à espera de um sinal de reconhecimento da sua presença, que acabou por acontecer quando, algo incredulamente ainda, fitou o homem nos olhos.
Parece que está a acordar. Disse o homem de bata branca enquanto o observava, não aparentando no entanto estar a falar consigo. Você está a acordar de um coma prolongado. Continuou, agora dirigindo-se notoriamente a ele. Não se esforce, deixe que a consciência volte naturalmente.
Coma prolongado? Pensou. Teria toda a história do momento morto tinha sido uma mirabolante fabricação do seu cérebro? Consegue ouvir-me? Perguntou o homem de bata branca. Respondeu afirmativamente com um ligeiro aceno da cabeça. Houve alturas em que achámos que o perdíamos. Continuou. Mas você conseguiu e já está fora de perigo. Perguntou o que tinha acontecido, mas o homem de bata branca exortou-o a descansar por algum tempo prometendo que voltaria para o pôr ao corrente de tudo e, sem lhe ter dado qualquer hipótese de argumentar, esgueirou-se através da porta por onde entrou de seguida uma jovem, também vestida de branco que com uma voz extremamente meiga lhe perguntou se precisava de alguma coisa. Perguntou novamente o que lhe tinha acontecido e ela respondeu apenas que tinha tido um acidente muito grave mas que o doutor lhe explicaria tudo o que quisesse saber. Aconselhou-o também a descansar e, antes de desaparecer novamente pela porta, disse que a chamasse caso precisasse de alguma coisa.
A consciência voltava lentamente e com ela alguma ira. Uma pessoa acorda de um coma e ninguém lhe diz nada? Praguejou silenciosamente. Nem sequer a consideração de me dizerem onde estou, e a enfermeira nem sequer me deixou aqui o interruptor para a chamar. Estará à espera que eu grite caso precise dela? Continuou.
Decidido a chamar alguém e obter as respostas que achava ter direito, percorreu com os olhos a parede da sua cabeceira e lá vislumbrou o desejado interruptor. Tentou alcançá-lo e ainda demorou um ou dois segundos a perceber que o braço não estava a responder à ordem do cérebro. Demorou outro segundo ou dois até o pânico se instalar por completo. Abriu a boca para permitir a saída do grito que se formava nas profundezas do seu ser, que apenas terminou quando o homem de bata branca apareceu e, munido de uma seringa, lhe administrou qualquer coisa que o fez novamente perder a consciência.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.2
Por muito que se esforçasse, não conseguia obrigar-se a acreditar que tudo o que lhe estava a acontecer era real. Era tudo demasiado surreal para ser credível, no entanto a única outra explicação envolvia problemas mentais. Conquanto, o seu cérebro parecia funcionar normalmente, conseguia raciocinar, conseguia questionar os acontecimentos, conseguia facilmente atribuir a conversa com Deus a um lunático devaneio da sua mente, mas não era tão fácil atribuir a essa causa todo este fenómeno do momento morto. A clareza do seu raciocínio provocava-lhe uma resistência para assumir a insanidade mental como um ponto assente.
Será que um louco consegue ponderar sobre a sua demência? Meditava tranquilamente sobre esta questão, flutuando a alguns centímetros do chão, quando sentiu que iniciava uma longa queda que culminou com um grito vindo do seu âmago. Abriu os olhos e, encandeado pela iluminação fluorescente, conseguiu ainda ver alguém a retirar uma agulha do seu braço. Não estava à espera que fizesse efeito tão depressa, disse.
Onde estou? Perguntou confuso. Foi encontrado a deambular pelas ruas a falar sozinho. Dizia coisas sem sentido e não reconhecia a presença das outras pessoas. Fomos avisados e como não conseguimos saber a sua identidade nem descobrir alguém que o conhecesse, tivemos que o trazer para aqui. Respondeu a pessoa. Aqui onde? Insistiu, fazendo um esforço para se lembrar dos acontecimentos recentes. Está numa instituição para pessoas com problemas mentais. Um manicómio, portanto. Nós não gostamos de usar esse termo, mas sim. Já cá está há algumas semanas, sempre num estado cataléptico. Decidimos administrar-lhe uma droga experimental que parece resultar muito bem, melhor do que eu esperava. Consegue lembrar-se que alguma coisa? Sim, lembro-me que o mundo estava congelado e que Deus me pediu para o substituir. Compreendo... Vamos elaborar uma terapêutica e ver como a situação evolui, estou confiante que esse problema não será permanente.
Limitou-se a passear calmamente pelos corredores, mas um nervosismo incontrolável instalou-se ao passar da meia-noite. Olhava estático para um relógio na parede à espera do minuto doze, apenas para verificar que, ao cair deste, tudo congelou novamente à sua volta. Teria já terminado o efeito do medicamento? O que realmente estaria a acontecer? O que seria real? Colocou a si próprio estas e muitas outras questões, mas a verdade é que não conseguiu responder a nenhuma de forma satisfatória. Agora que supostamente estaria de volta ao mundo real, encontrava-se novamente naquilo a que para si era vulgarmente designado por momento morto, designação que não significaria o mesmo para mais ninguém.
A sua tendência para o racionalismo acabava de ditar a única explicação plausível. Definitivamente estava mentalmente doente. Doente seria um termo relativo, pois a única coisa que faria os "sãos" achar que os "dementes" é que seriam os doentes era uma mera questão de números. Como os "sãos" eram mais que os "dementes", eram levados a crer que a sua realidade era a verdadeira, mas não havia qualquer garantia nisto. Nada conseguia provar sem qualquer dúvida que não seriam os "dementes" a ver a realidade como ela efectivamente é.
Uma catadupa de questões invadia-lhe a mente. A principal sendo se seria ele a estar mentalmente doente ou se estaria sim mais lúcido que as restantes pessoas.
Sem qualquer noção de quanto tempo teria passado, quando a pessoa com quem tinha falado antes o abordou, apercebeu-se que, não sabendo também há quanto tempo, tudo já tinha voltado ao normal. Teria terminado o momento morto. Pensou. Mas de seguida, como uma sequência normal de pensamentos que não se controla, pensou que não existia momento morto. Que tudo acontecia apenas no seu cérebro. Teve ainda tempo para se aperceber que a pessoa que o abordava era a única com quem tinha falado nos últimos tempos, tempos dos quais já tinha perdido completamente a noção da extensão.
Então? Como se sente? Perguntou a pessoa. Na mesma, respondeu, acho que continuo na mesma. Acabo até agora de sair de um momento em que tudo fica estático à minha volta e acho que só agora voltei à realidade. Isso é muito positivo, significa que o medicamento está a ter efeito a longo prazo. Acredito que com mais uma ou duas semanas de terapêutica, ficará praticamente curado. Mas que garantia tenho eu que esta é a verdadeira realidade? Como é que sei que você não passa de uma alucinação? Pois, de facto não sabe, terá que acreditar em mim. Vamos supor que acredito. Qual será o plano? Vamos manter uma administração diária do medicamento durante uma semana, reduzir para metade na semana seguinte e logo veremos como evolui a situação. Há apenas uma questão, como se trata de um medicamento que ainda está em fase experimental, será necessário que assine este termo de responsabilidade. Estou portanto a ser uma cobaia. Não creio que seja necessário ver as coisas assim. Pense que está a contribuir para o avanço da medicina, que estará a ajudar pessoas com problemas como o seu. Desculpe-me, mas vou precisar de algum tempo para pensar nisso. Com certeza. Só peço que não demore muito, estaria já na altura de tomar a segunda dose.
Apenas uma frase perdurou na sua mente. "Pessoas com problemas como o seu". Haveria mais pessoas com um problema como o seu? Ponderou. E seria de facto um problema?
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1.1
Nunca se tinha sentido tão à-vontade. Durante o momento morto, cuja duração parecia já quase igualar a do restante período, em que se recolhia quando o mundo regressava à normalidade, sentia-se em casa onde quer que estivesse. Estava já tão confiante que, quando começou a ouvir ao longe a voz já conhecida, estava a descontrair deitado num relvado, completamente nu, de braços e pernas abertas. Já não se questionava se tudo seria real, não lhe interessava minimamente se era uma realidade geral ou apenas sua, decidira simplesmente vivê-la enquanto durasse. Ponderou apenas se não seria algo impróprio receber Deus naqueles propósitos, mas, lembrando-se da conversa anterior, decidiu verificar se a história do senso de humor seria mesmo verdade. Seria talvez testar os limites do senso de humor, mas, se Deus realmente o tivesse como afirmara, teria que perceber a ironia cómica inerente ao facto de alguém o receber nu.
- Vejo que estás a desfrutar o teu tempo.
- É verdade, não é que haja mais alguma coisa para fazer, não é?
- Acho bem que o tenhas aproveitado, porque estava a planear começares hoje com as tuas obrigações.
- Isso das obrigações é uma das coisas que queria debater contigo. Não acho muito correcto que não me tenhas dado nenhuma hipótese de escolha. Acho que isto de ser deus não devia ser imposto a ninguém.
- Estás a dizer que não queres?
- Não necessariamente. Mas a verdade é que não tenho a certeza. Não sei se terei o perfil adequado.
- Acho que o facto de não estares já embriagado com a ideia de vires a ter tal poder já é um bom indício de que tens o perfil adequado.
- Mas... Depois não posso voltar atrás, não é? E se eu me arrepender? Terei alguma maneira de te contactar?
- Não, nada disso será possível. Não poderás voltar atrás nem contactar-me. Honestamente, duvido que te venhas a arrepender. Quem é que se arrependeria de ter poder absoluto?
- Eu... por exemplo...
- Será que ajuda se considerares isto como um favor pessoal que me estarás a fazer?
- Bom... Pressão à parte, acho que sim. Como é que se pode recusar um favor a Deus?
- Caso ainda não estejas convencido posso sempre mandar-te uma pragazita. Já estou um bocado destreinado, mas acho que ainda me lembro de algumas.
- Ha ha, boa piada. Afinal tens mesmo senso de humor. Não será necessário, eu aceito. Até já ando um bocadinho farto desta história do momento morto.
- Obrigado. Será esta então a última conversa que teremos.
- Então e o que é que eu tenho que fazer?
- Absolutamente nada. Tudo irá acontecer exactamente... Agora!
Sentiu-se a flutuar no vazio, no meio do nada absoluto. No entanto bastava que um pensamento surgisse para que este automaticamente se materializasse à sua volta. A sua percepção não era em nada comparável à que antes tinha através dos seus sentidos. Era como se todos os seus sentidos tivessem sido extremamente amplificados e reunidos num só. Não se sentia tão diferente como esperava, apenas tinha consciência de absolutamente tudo e, embora aparentemente ainda conseguisse ponderar várias hipóteses e dissertar mentalmente sobre as questões, o conceito de dúvida tinha desaparecido completamente.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.2
Tinha já perdido completamente a noção da duração actual, naturalmente relativa, do momento morto. Aproveitava-o para passear pelas ruas onde tudo estava estático, parecia que estava dentro de um filme em que alguém tinha pressionado o botão de pausa. A verdade é que já não o incomodava, proporcionava-lhe até um certo conforto, uma sensação de privacidade. Era como se estivesse sozinho no mundo e sabia bem. Tinha consciência que era uma pessoa que lidava bem com a solidão, tinha até já por diversas vezes fantasiado com situações semelhantes, em que estava sozinho no mundo, mas sempre imaginou que, numa situação real não conseguiria ser isento de angústia, que sofreria com a falta de outras pessoas, no entanto estava a concluir que afinal não era verdade. Podia considerar que estava sozinho no mundo, pelo menos durante o momento morto, e isso não lhe provocava qualquer tipo de emoção negativa. Esta questão não deixou de o inquietar. A sensação de conforto não significaria provavelmente nada de bom sobre si. Seria uma pessoa fria e misantropa? De facto sempre se considerou uma pessoa muito mais racional que emocional, mas isto era provavelmente um exagero. Como podia sentir-se bem sabendo que era o único ser num planeta. Planeta? Qual seria a extensão deste fenómeno? Atingiria todo o universo? Pensou. Ocorreu-lhe que nunca se tinha lembrado de observar o céu durante o momento morto. Olhava para o céu, claro, mas não durante tempo suficiente para verificar se a lua se movia ou estaria também estática no firmamento.
Estava a preparar-se para se recostar num banco de jardim a observar o céu quando a sua atenção foi distraída pelo passar de algo que apenas pôde descrever como uma sombra. Algo provocou uma variação da luminosidade que, como tudo o resto, se mantinha completamente estática durante o momento morto. Imediatamente a seguir tudo voltou ao normal. Deixou-se ficar sentado, observando as pessoas a voltar à vida, sem qualquer indício de se terem apercebido que alguma coisa se tinha passado. Mas na sua mente apenas uma questão estava a ser ponderada. O que teria provocado aquela sombra? A não ser que tivesse sido enganado pelos seus sentidos, não era o único a movimentar-se durante o momento morto. Não estava sozinho.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Tempus Fugit - Capítulo 1.1
O tempo passou, ou não, e numa altura em que já sentia que vivia sozinho num mundo só seu, eis que, durante o momento morto, ouve uma voz. Não sabia se seria mesmo uma voz real ou se apenas existia dentro da sua cabeça, mas parecia aproximar-se, até ao ponto de se tornar inteligível.
- Acho que estás pronto.
- Quem és tu? Onde estás?
- Sou conhecido por muitos nomes, mas a verdade é que não tenho nenhum. E... acho que pode dizer-se que estou em todo o lado.
- Pronto! Acho que posso concluir que estou definitivamente louco. Provavelmente até já estou internado num qualquer manicómio e isto está tudo a passar-se dentro do meu cérebro...
- Não precisas de te preocupar. Tudo vai fluir naturalmente. Tenho a certeza que foste a escolha certa. Não soubesse eu tudo.
- Já percebi. Estás em todo o lado, sabes tudo... És Deus, certo?
- Esse é um dos nomes pelo qual sou conhecido.
- Isto pode ser um choque, mas eu não acredito em ti. Talvez não seja um choque porque provavelmente também já sabias isso, não é?
- Sim, sabia e não traz qualquer problema. Não irá provocar qualquer impedimento à realização do meu plano.
- Plano... Tens um plano para mim?
- Sim. É verdade. Apesar de muita gente pensar que tenho um plano para toda a gente, isso não é verdade. São raríssimas as vezes que intervenho na vida das pessoas. Esta é regida quase unicamente pelo livre-arbítrio. A vida de cada um é apenas definida pelas suas próprias opções. Mas para ti, sim, tenho um plano.
- Não fiques a pensar que estou a acreditar nisto tudo, porque não é verdade. Tenho a certeza que tu não existes fora da minha mente e que não és mais que uma manifestação da minha demência. Mas vou entrar no jogo. Qual é o plano?
- Estou cansado. Quero passar as minhas responsabilidades a um substituto e esquecer este universo.
- Boa! Vou ser Deus! Ao ponto a que eu cheguei... Será que vão conseguir curar-me ou estarei condenado a viver o resto da vida nesta espécie de realidade só minha?
- O resto da tua vida é a eternidade. E já te disse que o facto de acreditares não faz diferença nenhuma. O fenómeno que tens andado a experimentar, aquele a que chamaste momento morto, não é mais que uma forma de te ajudar a criar a necessária distância emocional do mundo. Senão ias querer ajudar toda a gente, acabar com a fome, com as doenças, com a crueldade, sem sequer ponderares sobre as possíveis consequências. Lá se ia o livre-arbítrio, não era?
- Como é que sabes que lhe chamei momento morto? Ah, compreendo, se és um produto da minha mente sabes tudo o que eu sei. Mas olha, pelo menos apesar de doido, não estou estúpido. Parece que o meu cérebro ainda consegue fabricar devaneios com algum sentido. Essa do livre-arbítrio está muito boa. Agora a questão é: será que faria sentido se não estivesse demente?
- Acredita no que te for mais confortável, é o que a maioria das pessoas faz.
- Suponho que sim. Então e como é que isso vai acontecer? Vou ter algum tipo de treino? Existe um curso de formação para deus?
- Gosto do teu senso de humor. Foi até uma das razões pelas quais te escolhi. Muita gente pensa o contrário, mas eu tenho senso de humor, gosto de me divertir. O curso, já estás a frequentá-lo há algum tempo e as boas notícias são que não tens que fazer qualquer esforço. Quando o momento chegar, e não falta muito, estarás preparado. Já estás praticamente desligado do que te rodeia, só falta habituares-te à tua nova condição. Quando esse momento chegar, venho oficializar a passagem de responsabilidades e vou desaparecer para o meu merecido descanso.
- E isso vai ser quando? Estás a ouvir-me? Deus?...
A situação era demasiado absurda para continuar a achar que se encontrava mentalmente são. Atingira o ponto da aceitação, estava louco. Provavelmente o estender progressivo do momento morto seria a sua condição a agravar-se cada vez mais, provavelmente para culminar num constante momento morto. E aí? O que faria? Como seria capaz de viver num mundo congelado? Apercebendo-se que todas estas questões lhe ocorriam como um mero processo mental e não como uma preocupação, decidiu simplesmente continuar a viver como até aí, um dia de cada vez, deixando que os acontecimentos surgissem de uma forma natural e espontânea.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Tempus fugit - Capítulo 1
Tinha acabado de cair o minuto doze da primeira hora do dia quando, por um período que não durou mais que um segundo, sentiu que tudo tinha parado à sua volta. Rapidamente tudo voltou ao normal, mas ficou com uma sensação que algo de muito estranho tinha acontecido. O intervalo de tempo tinha sido demasiado curto para permitir que se tivesse apercebido durante o decorrer do fenómeno e quando deu por si a questionar o que teria acontecido já tudo tinha regressado à monótona normalidade.
Não lhe dando qualquer importância, talvez por genuíno desinteresse, talvez por medo de concluir que se tratava do sintoma de um qualquer problema mental, rapidamente se esqueceu do acontecimento e prosseguiu com a sua rotina. No entanto, no dia seguinte, exactamente à mesma hora, quando os onze minutos e cinquenta e nove segundos se transformaram nos doze minutos, o estranho fenómeno voltou a acontecer. Extremamente breve também; no entanto jurava a si mesmo que tinha durado um pouco mais que no dia anterior. Seria talvez quase imperceptível, mas tinha como certo que, enquanto no dia anterior o fenómeno tinha durado certamente menos de um segundo, desta vez aparentava ter durado pelo menos um segundo e meio.
Desta vez não conseguiu calar a voz dentro da sua cabeça que indagava se ele não estaria a desenvolver alguma espécie de demência. No entanto, algo provavelmente comum entre os loucos, descartou incondicionalmente essa hipótese. O que estaria a acontecer, seria perceptível para mais alguém, ponderou. Não era nada que provocasse qualquer tipo de problema ou prejuízo, o único impacto era devido apenas à estranheza que provocava. Parecia apenas que o tempo parava por um instante, mas que o fenómeno não o afectava directamente. Se de facto o tempo parasse e conseguia ter a percepção de que estava a acontecer, era porque para ele o tempo continuava a decorrer, supunha. Supunha também que era extremamente improvável que fosse o único a detectar esta situação pelo que decidiu, caso esta se continuasse a observar, relegando a hipótese de ser algo que apenas acontecia dentro do seu cérebro, debater a questão com alguém para indagar se outros se estaria a aperceber e eventualmente conseguir, pelo menos, teorizar uma explicação.
Embora estivesse curioso e expectante para saber se o fenómeno se iria continuar a repetir, conseguiu não pensar muito mais nisso até se aproximar a hora. No entanto, à meia-noite e onze estava a olhar para o relógio a ver os segundos a passar e a surpresa já nem foi muito grande quando, ao atingir os doze minutos, o relógio parou por um instante antes de prosseguir para o segundo um. Não era já surpresa, mas ficou curioso ao reparar que desta vez o fenómeno, para o qual começava já a pensar num nome, tinha seguramente durado mais de dois segundos.
A curiosidade começava mesmo a ser estimulada, mas a demência também começava a ser uma hipótese mais realista. Começou investigar disfarçadamente se haveria mais gente a ter noção do que estava a acontecer, mas nada apontou para que mais alguém estivesse a experimentar algo de anormal. Durante cerca de uma semana o fenómeno foi continuando a aumentar de duração. Era impossível de saber ao certo, porque durante a ocorrência não havia maneira de medir o tempo. Neste momento parecia já qualquer coisa entre um ou dois minutos, em que tudo à sua volta simplesmente congelava. Nos últimos dias tentava sempre estar na rua, onde houvesse pessoas, e não tinha ainda encontrado ninguém que não ficasse congelado durante o fenómeno que começou a chamar "momento morto".
Não aparentava haver uma relação directa, mas mesmo fora do momento morto começava a sentir-se cada vez mais desligado de tudo o que o rodeava. Passava grandes períodos imerso nos seus pensamentos, em que perdia completamente a noção de tudo. Ficava mesmo abismado quando voltava a si e se apercebia que não conseguia lembrar-se de nada do que tinha acontecido à sua volta, inconsciente do tempo que teria passado desde que começara a dissecar uma ideia dentro do seu cérebro. Mais ou menos directamente, os pensamentos estavam sempre relacionados com o momento morto. Intrigavam-no coisas como o paradoxo de o tempo aparentemente parar. Era algo que não fazia qualquer sentido, o tempo não podia parar, o seu coração continuava a bater, o seu relógio biológico continuava a funcionar, tinha a percepção do que estava a acontecer, portanto o tempo não podia estar parado. Como era possível? O que significaria? Passava horas a ponderar numa explicação para o facto de ser aparentemente a única pessoa a aperceber-se, mas, mesmo por muito absurda que fosse, não conseguia encontrar nenhuma. Sem saber muito bem se seria uma consequência directa ou indirecta do fenómeno, talvez não fosse o fenómeno mas sim o facto de se mostrar cada vez mais meditabundo, sentia-se progressivamente a afastar-se dos outros. Cada vez falava menos com os amigos e se sentia mais desprendido das coisas que normalmente o interessavam. No entanto não era algo que o deixasse triste ou que provocasse qualquer tipo de medo. Sentia-se mesmo desprovido de interesse por todas as coisas e pessoas que existiam no seu mundo e isso fazia com que sentisse o afastamento como uma coisa natural. Este facto, à parte de lhe proporcionar mais tempo de reflexão sobre o seu significado, contribuindo assim também para o afastamento, não lhe causava qualquer outro efeito.
Os meses foram passando e o fenómeno continuava a aparentar estender-se sem que surgisse nada que conseguisse lançar alguma luz sobre a sua causa. Ainda teve um período em que andou intrigado pelo facto de não ter qualquer impulso para usufruir do momento morto, calculava que numa situação destas aproveitaria para apalpar umas raparigas ou para roubar coisas, mas a verdade é que não tinha qualquer vontade de o fazer. Isto fê-lo pensar que o seu desligamento do mundo material e emocional estaria perto do seu clímax. Não se sentia triste nem alegre, simplesmente tranquilo.