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terça-feira, 17 de março de 2009

Presenças #10

Noite após noite esperei pela aparição. Não conseguia dormir mais que dez ou quinze minutos sem acordar sobressaltado, com a sensação de que não estava sozinho, mas nunca passava de uma malévola partida da minha imaginação.
A espera foi-se tornando cada vez mais atroz. Deixei de conseguir ficar deitado e passava as noites frenético, a andar de um lado para o outro no quarto. Vamos a isso! Estou disposto a fazer o que quiseres! Gritei uma noite à escuridão, rendido, no apogeu do meu desespero. Senti um longo arrepio ao ouvir a voz. Não sinto em ti uma verdadeira vontade de te tornares algo mais do que és, algo superior, disse a voz, não me serves assim. Mas eu quero, quero mesmo, sinto que é o meu propósito, supliquei, estou aqui à tua mercê. Não, retorquiu a voz, enganei-me, não és tu quem eu procurava. Não, não! Gritei, mas só o vazio do meu quarto lá estava.
Fiquei desolado, destroçado. Tinha sido tudo em vão. Perguntei-me se não seria mesmo este o objectivo da entidade, destruir-me. Pensei que devia ter dado mais atenção às palavras da crioula, mas já não tinha qualquer controle sobre mim. Morri por dentro. Arrastava-me de um lado para o outro e deixei completamente de conseguir dormir.
Passado muito tempo, numa das noites que passava sentado na cama a olhar para o infinito, senti o odor acre que tinha deixado de acompanhar a entidade. Arregalei os olhos e com um violento golpe de rins fiquei de joelhos na cama. A um palmo da minha cara estava o rosto do espectro. Sim, ouvi numa voz sibilante, agora estás pronto, chegou o momento de sermos um, disse a entidade com um faiscar nos olhos. Não compreendi o que quereria dizer com aquilo, mas estava já num ponto em que não tinha qualquer poder sobre mim. Era já algo de sub-humano, uma mera casca vazia, um simples corpo antropomórfico que por dentro não abrigava nada, não existia já em mim qualquer sentimento, qualquer vontade. Limitei-me a fixar os brilhantes olhos da entidade e acenar com a cabeça em consentimento. O corpo disforme da aparição começou a expandir-se à minha volta, como um abraço fatal. Abri os braços e entreguei-me, mas, quando esperava que tudo acabasse, eis que algo embate em mim e me projecta alguns metros para trás. Atónito, olhei para a entidade e consegui apenas ver um par de olhos tristes a desaparecer no que seria o seu corpo. Numa questão de segundos, com um grito indescritível que nunca poderia ser deste mundo a entidade retorceu-se e desapareceu numa ténue nuvem de fumo negro. Sentado no chão compreendi. O velho cão tinha-me salvado. Não sabia de quê, mas naquele momento acreditei que se tinha sacrificado para me proteger de um destino inimaginavelmente cruel.
Nunca mais tive qualquer experiência ou contacto com outras realidades, mas nunca mais fui o mesmo. Nunca mais consegui recuperar qualquer tipo de emoção, nem preencher o vazio que me tornei.
Este é o meu testemunho, o que deixo para a posteridade. A única marca que ficará de mim neste plano de existência. Nunca saberei o que realmente teria acontecido se o velho cão não tivesse intervindo. Custa-me acreditar nisso, mas não sei se teria tido um destino ainda mais miserável. Não sei nada. É tarde demais para mim, mas para dar algum propósito a este meu legado, deixo uma lição que não é minha: Nunca percas o controlo do teu fado.

Presenças #9

Algumas noites depois, tempo durante o qual me senti cada vez mais frágil e debilitado, presenciei a entidade a materializar-se perante os meus olhos. Sem que eu dissesse nada, uma voz na minha cabeça começou finalmente a explicar-me alguma coisa sobre o que me estava a acontecer. Preciso de um elo de ligação a este mundo, disse, a minha realidade é insuportável para mim, só existe mágoa e miséria lá e eu preciso de sair. Existem entidades na vossa realidade que têm uma sensibilidade especial que lhes permite aperceberem-se de nós, mas é muito difícil encontrar alguém que consiga realmente comunicar com um de nós, como estamos a fazer neste momento. Por isso te escolhi. Mas, escolheste-me para quê? Perguntei já algo impaciente. Essa tua característica permite-me ligar-me a ti de forma permanente. Ficar aqui indefinidamente. Permite-me afastar-me do sofrimento que é viver na minha dimensão. Serás a minha âncora nesta realidade. Respondeu a entidade, mantendo a boca imóvel, mas colocando uma expressão que me inspirou comiseração. O que é que eu tenho que fazer? Perguntei com uma ponta de desconfiança. Nada, respondeu prontamente a entidade, só tens que querer.
Pareceu-me que as últimas palavras se mantiveram no ar por alguns momentos juntamente com o brilho que já considerava normal, quando a figura desapareceu, mas desta vez ficou também uma sensação de vazio em mim que não consegui compreender. Segundos depois de tudo se ter desvanecido, ouvi um ganido que se transformou num longo uivo. Pareceu entrar-me pelo diafragma e espalhar-se por todo o meu corpo fazendo os meus pelos eriçarem-se. Olhei para o canto e vi os olhos tristes que esperava ver. Vi-os descrever uma circunferência e desaparecer, como se o velho cão se tivesse enroscado no chão e fechado os olhos. Tive vontade de sair da cama e aproximar-me dele, mas não consegui encontrar coragem suficiente.
Deitado, pensei sobre o que a entidade me tinha dito. Ponderei se quereria ajudá-la, porque teria ficado com aquela sensação quando se foi embora. Comecei a aperceber-me que não tinha propriamente controle sobre a questão. Percebi que apesar de reconhecer que corria um risco e que talvez não tivesse muito a ganhar com isso, não conseguia deixar de querer. Não conseguia fazer desaparecer a vontade de estabelecer aquela ligação com uma realidade alternativa. Escolhe o teu caminho sem nunca deixares que o teu discernimento seja toldado pelas entidades. A frase soou na minha cabeça na voz da africana. O meu discernimento não está toldado, apenas não acho que esteja em perigo, respondi a mim próprio, além do mais, acho também que não tenho nada a perder.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Presenças #8

Durante as noites seguintes acordei várias vezes e olhava esperançado para os pés da cama, apenas para não encontrar nada. Ficava depois algum tempo acordado a questionar-me porque razão tinha passado a desejar que acontecesse aquilo que até há pouco tempo atrás só queria que acabasse. Porque seria que, apesar do temor, queria agora que a entidade aparecesse. Começava a achar que não era apenas uma questão de curiosidade, que algo em mim acreditava que aquele ser tinha algo de extrema importância para me transmitir, uma informação de carácter vital que eu tinha mesmo que obter. Dava por mim a acordar de noite e instintivamente perguntar à escuridão se lá estaria alguém e cheguei mesmo a temer pelo meu equilíbrio psíquico, se é que ele existia. Durante muito tempo, tanto o meu olhar como as minhas palavras esbarraram no vazio.

Mas uma noite, ao abrir os olhos, deparei-me com aquele rosto mesmo em frente ao meu, como se a entidade estivesse ajoelhada junto à minha cama a observar o meu sopor. Sem controlo, dei um salto e fiquei sentado no fundo da cama olhando, atónito, a figura, na qual pensei ter conseguido distinguir uma expressão de desilusão. No segundo seguinte já me enchia de vergonha por verificar que ainda não conseguia controlar o meu medo. Espera! Gritei ainda, mas a entidade já se desvanecia, deixando aquele brilho no sítio onde estavam os seus olhos, que me provocava longos arrepios na coluna vertebral. A desmoralização atingiu-me como um raio, com tal violência que pareceu disparado pela própria Fulgora. Estava revoltado comigo próprio, tinha tido a minha oportunidade e perdi-a por causa do meu medo inconsciente. Agora, voltava ao ponto de não saber se teria outra, agravado pelo ressentimento.

Deixei de conseguir dormir. Passava as noites a pensar no que a entidade quereria de mim, se a voltaria a ver. Por vezes parecia-me ver um vulto a atravessar a escuridão, mas quando olhava melhor, não estava lá nada. Falava com a penumbra na esperança que a minha voz conseguisse atravessar a barreira da minha realidade. Sentia-me enegrecer por dentro, que uma parte de mim definhava de dia para dia e que acabaria inevitavelmente por morrer.

Passado algum tempo, quando já não tentava nada e me limitava a passar as noites imóvel na cama, deitado de costas a olhar fixamente para um ponto no tecto, na esperança que a fadiga me fizesse perder a consciência, vejo o rosto, estranho mas já familiar, materializar-se perante os meus olhos. O medo voltou, a pulsação acelerou, mas consegui controlar-me o suficiente para falar. Não te vás embora, consegui dizer com a voz trémula e quase a falhar-me. A face sorriu, um sorriso entre o infantil e o cruel. A mancha negra e disforme que completava a entidade apareceu também e tornou-se quase palpável. Desceu suavemente até ficar como que de pé ao fundo da cama, limitando-se a olhar para mim mantendo aquele sorriso que me fazia temer que destruísse tudo o que tinha conseguido para afastar o terror.

O que queres de mim? Perguntei depois de alguns momentos a ganhar coragem. O sorriso do espectro tornou-se paternalista. Foste escolhido, ouvi, mas a sua boca manteve o sorriso e não se mexeu. Escolhido para quê? Questionei, algo na dúvida se a voz que ouvia seria mesmo a entidade a falar comigo ou se, pelo contrário, seria apenas a minha imaginação. Tudo a seu tempo, ouvi, enquanto o sorriso da figura se abria grotescamente provocando-me verdadeiro pavor. Mantém-te sereno, que tudo se revelará, ouvi ainda antes da aparição se começar a esfumar. Como é que posso manter-me sereno? O que queres de mim? E porque é que me aterrorizas assim??? Diz-me! Perguntei à atmosfera, já que era óbvio que a entidade já não estava lá.

Ainda com a pulsação extremamente acelerada, perguntei-me porque quereria saber o que a entidade queria de mim. Porque seria que apesar do horror que me provocava, eu alinhava na história. O medo é uma ferramenta de auto-preservação, disse a mim próprio, devia talvez dar-lhe mais crédito, talvez seja o meu subconsciente a tentar avisar-me. Foi então que algo me distraiu.

Ao fundo, no canto do quarto, vi dois círculos de luz ténue. A minha pele arrepiou-se e senti um formigueiro na parte de trás da cabeça. Perscrutei a escuridão e percebi que era um par de olhos que reflectiam a quase inexistente luz que um diminuto quarto minguante proporcionava. Não sei se por, apesar de tudo, ainda manter alguma crença nas explicações normais ou se por mera negação, o meu primeiro pensamento foi que um gato vadio me teria entrado pela janela, mas algo atingiu o meu cérebro e me fez divisar que havia algo de familiar naqueles olhos. Após alguns segundos identifiquei-os sem qualquer dúvida. Eram os olhos do cão que tinha visto no caminho de regresso da casa da crioula! O mesmo olhar desolado que tinha visto nesse dia. Tentei em vão encontrar uma explicação para a presença do cão no meu quarto e o pavor que eu pensava estar já controlado voltou. Mais uma vez, o pânico me fez cobrir completamente com o cobertor, mas desta vez sei que não fechei os olhos até vislumbrar a luz solar. Quando percorri o quarto já iluminado pelo dia, não vi nada de anormal.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Presenças #7

Passaram vários dias sem que nada de estranho tenha acontecido. Tive momentos em que desejei que o espectro tivesse aparecido, já que aliado ao medo estava também uma espécie de curiosidade mórbida, queria saber porque tudo aquilo me estava a acontecer. Pensei que o medo é sempre provocado pelo desconhecimento, que assim que o enfrentasse, assim que passasse a conhecer aquilo que temia, todo o medo desapareceria naturalmente. Mas ao fim de algum tempo comecei a achar que talvez tudo tivesse já terminado, ou até que poderia ter sido uma manifestação da minha mente, uma qualquer espécie de demência leve e temporária.
Todas estas ideias se dissiparam quando uma noite, não sei se por acaso ou por outra razão, acordei. Ao aperceber-me que o dia ainda não tinha nascido, fiquei satisfeito por poder continuar a dormir e virei-me para o outro lado. Enquanto me aninhava para continuar o meu sono, que já começava a conseguir ser novamente sossegado, uma sensação estranha fez-me abrir outra vez os olhos. Senti o meu coração parar por alguns instantes para depois disparar num ritmo desenfreado. A entidade estava lá, aos pés da minha cama. Só conseguia vislumbrar um vulto mas sabia que era ela. Respirei fundo e tentei acalmar-me. Estava a conseguir controlar o medo, mas quando a cabeça da aparição rodou e sua face, quase desprovida de feições, ficou virada para mim, quando os seus enormes olhos brilhantes encontraram os meus, todos os meus esforços ruíram e só consegui cobrir-me completamente com o cobertor e enroscar-me em posição fetal. Durante algum tempo ouvi o que só poderia ser a sua voz. Murmurada, parecia não vir de dentro do meu quarto, mas de um qualquer sítio longínquo, chegando já transtornada aos meus ouvidos. Lembrei-me do que a crioula me tinha dito sobre outras realidades e tive a certeza que era verdade. Não sabia ao certo porquê, mas tinha a certeza que aquela voz não podia vir deste mundo. Não conseguia perceber o que dizia, mas pareceu-me ter distinguido as palavras "aqui" e "sempre", mas pode muito bem ter sido imaginação minha, já que encolhido debaixo do cobertor apenas me chegava um sussurro imperceptível.
Pensei na africana e ouvi a sua voz na minha cabeça, suave e reconfortante. Nem tudo é o que parece, ouvi nitidamente na minha cabeça pela voz da negra e isso conseguiu transmitir-me alguma fleuma. Ponderei se pela sua voz melodiosa, estaria a minha mente a reviver o diálogo, como acontece com músicas que gostamos e que estão tão indelevelmente impressas nos nossos cérebros que conseguimos mesmo ouvi-las dentro da nossa cabeça, ou se não seria mesmo a africana a enviar-me uma mensagem telepática. Pensei que não lhe tinha dito absolutamente nada acerca do meu problema e que ela parecia saber de tudo. Talvez soubesse também o que me estava a acontecer no momento. Ocorreu-me depois que a minha tia lhe teria contado tudo pelo telefone, que seria apenas por isso que eu não tinha precisado de dizer nada e que provavelmente a pessoa não teria poderes tão especiais. Independentemente da origem da sua voz na minha cabeça, a verdade é que teve um efeito extremamente calmante e quando me apercebi, já a luz de um dia de sol atravessava, inexorável, a barreira têxtil que a separava dos meus olhos.
Sem saber se tinha adormecido ou apenas ficado absorto e imerso nos meus pensamentos, puxei devagar o cobertor até ao nariz e espreitei para fora. Estava sozinho. A luz inundava todos os cantos e ao sentir o calor no rosto senti-me cheio de energia, alegre até. Achei que tinha vencido o temor, que não tinha qualquer razão para o pânico que tinha sentido durante a noite. Acreditei que não iria mais fugir ou esconder-me. Se a entidade voltasse, iria enfrentá-la como quem deve enfrentar o seu destino, de olhos nos olhos, sem medo. Iria tentar saber o que queria de mim, tinha que saber. Uma ponta de melancolia tentou contrariar a minha boa disposição ao ocorrer-me que a entidade poderia nunca mais aparecer, que poderia nunca vir a saber.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Presenças #6

O canto dos pássaros, logo pela primeira luz da madrugada, acordou-me. Calmamente abri os olhos e gelei instantaneamente ao vislumbrar uma figura que pairava à minha frente a cerca de um metro do chão. Conseguia distinguir um rosto de feições simples, mas o corpo não passava de uma massa disforme e ondulante. Além dos seus grandes olhos, pouco mais se distinguia que uma pequena fenda que identifiquei como sendo uma boca. No entanto, apesar de atemorizante, a figura tinha uma estranha beleza. Uma beleza que conseguiu transmitir-me tranquilidade e aos poucos consegui recuperar a calma e controlar o medo. Deixei-me ficar deitado no sofá, a observar a estranha aparição, sem saber se se teria já apercebido que eu tinha acordado. Depois de terem passado o que me pareceu cerca de dez ou quinze minutos, estremeci ao ver o rosto da figura esboçar o que me pareceu um sorriso. Levantei a cabeça para ver melhor mas no segundo seguinte a figura já não estava lá. Pareceu-me que, no entanto, ainda se manteve durante perto de um minuto, um brilho arrepiante no local onde estavam os olhos da aparição, que me destruiu toda a tranquilidade que tinha conseguido adquirir.
Tentei recuperar a compostura. Desta vez não iria conseguir fazer-me acreditar que tinha sido apenas um sonho, tinha a certeza que estava perfeitamente acordado. Ponderei que, na realidade, não me tinha ainda acontecido nada que me tivesse feito pensar que estaria realmente em perigo. O medo que sentia era pelo desconhecimento do que me estava a acontecer, pela estranheza dos fenómenos, e pensei que talvez não tivesse razões muito válidas para o ter. Se a entidade, para usar o termo da crioula, me quisesse fazer mal, já tinha tido varias oportunidades. Lembrando-me das palavras da enorme africana, disse a mim próprio que o facto de ainda não me ter prejudicado, não implicava que tivesse boas intenções, mas achei que o terror que os fenómenos me inspiravam não teria muita razão de ser e decidi tentar controlá-lo. E talvez nem fosse difícil, porque por muito estranho que pareça, a verdade é que, começava a ficar algo habituado. Ponderei se teria coragem para tentar comunicar.

terça-feira, 3 de março de 2009

Presenças #5

Mantivemo-nos em silêncio até que a minha atenção foi atraída por um cão deitado no passeio, não muito grande, mas bastante robusto. O focinho era curto o pelo malhado de castanho sobre branco. Estava deitado a roer qualquer coisa. Conforme me aproximei, a desconcertação fez o meu queixo e os meus braços caírem enquanto instintivamente inclinava o corpo para a frente. O cão tinha amputada a pata anterior direita e estava a roer o seu próprio osso! A minha reacção fez o cão levantar a cabeça e consternei-me ao ver uma profunda tristeza no seu olhar. A minha tia puxou-me pelo braço dizendo-me para não me distrair, enquanto acelerava o passo e depressa chegámos de volta a casa dela.

Espero que leves esta história muito a sério e que não te esqueças do que ela te disse, proferiu apenas, circunspecta, antes de se despedir de mim. Obrigado tia, foi a única coisa que lhe consegui dizer enquanto lhe dava um leve beijo na face enrugada.

No caminho de volta para casa debati-me comigo próprio. Por um lado, sabia que o que me estava a acontecer era real, mas apesar disso tinha uma grande dificuldade em acreditar na conversa da africana sobre entidades e realidades paralelas. No entanto, se era verdade o que a crioula tinha dito sobre a forma de me proteger, bastava que não fizesse nada estúpido e não teria problemas.

Já sentado no sofá, pensei que afinal a minha visita à estranha mulher não tinha contribuído em nada para que deixassem de me acontecer o que eu vou apenas chamar episódios. Respirei fundo e, enquanto me deixava afundar, revi a minha situação. Apercebi-me que enquanto estive em casa da crioula, parecia que a minha razão tinha entrado num estado latente. Na altura, tudo o que ela me dizia soava perfeitamente certo. Como se estivesse a absorver algo real e incontestável a um nível elementar da minha consciência. As suas palavras tinham entrado em mim sem qualquer influência do meu raciocínio. Mas enquanto as minhas pálpebras se fechavam achei que, apesar de interessante, a minha visita à africana não tinha sido uma grande ajuda.

Senti a consciência a regressar pelo olfacto. Ainda de olhos fechados, senti o meu corpo arrefecer ao reconhecer o odor. O pânico começou a apoderar-se de mim e impediu-me de abrir os olhos. Não sei quanto tempo passou, mas pareceu uma eternidade. Não há nenhuma razão para teres medo, disse uma voz sussurrada. O susto pôs-me de pé numa fracção de segundo, agora com os olhos bem abertos. Nada. A noite de lua cheia entrava pela janela iluminando fracamente a casa, que permanecia tranquila e vazia como sempre. Já não sentia o cheiro. Deixei-me cair de volta no sofá e decidi assumir que tinha sido só um pesadelo.

Presenças #4

Fizeste muito bem em procurar ajuda, corres um grande perigo. A surpresa fez-me endireitar as costas e colocou-me uma expressão de estupefacção. Apesar da envergadura da mulher, a sua voz era suave e doce, quase melodiosa. Falava com uma pronúncia perfeita, certamente estaria cá há muito tempo, talvez até tivesse mesmo nascido cá e por uma fracção de segundo ponderei, algo envergonhado, sobre o facto de eu desconhecer uma cultura tão diferente da minha, que existe tão perto e há tanto tempo. Senti que a sua elocução me percorria todo o corpo. Apesar do aviso que continha, provocou-me uma quase inebriante sensação de paz. Tive a certeza que podia confiar nela e absorvi as suas palavras como se me alimentassem a alma. Meu querido, continuou, há pessoas que são mais sensíveis às entidades do outro lado. Isso pode ser um grande poder, se o souberes controlar, mas traz também uma enorme ameaça. Se deixares que se apoderem de ti, podem fazer-te cometer actos terríveis! Para já, não há muito que eu possa fazer para te ajudar, senão alertar-te para o teu dom, ajudar-te-á a manter o controle. Mas, que entidades são essas, do outro lado? Perguntei, depois de ter a certeza que não a interromperia. Fantasmas? Pessoas que já morreram? Acrescentei. Depois de inspirar fundo, a mulher continuou. A maioria das pessoas pensa, ou faz mesmo questão de pensar, que esta é a única realidade que existe, mas não é. Existem outras. Há quem lhes chame planos de existência, mas o que lhes chamamos não é o importante, o importante é que elas existem e nós temos que reconhecer a sua existência para nos podermos proteger. Assim como nesta realidade existem pessoas boas e más, nas outras também é assim. Existem entidades tão plenas de vileza que são capazes de tudo para cumprir qualquer objectivo sombrio que tenham.

Fiquei alguns momentos em silêncio, a assimilar o que tinha ouvido e algo surpreendido com a eloquência da mulher. Apesar de ser muito céptico em relação a coisas não reconhecidas pela ciência, não consegui imaginar nenhuma explicação lógica que me permitisse refutar a existência de outros planos de existência. O que devo então saber? Perguntei. Além de saberes e reconheceres que existem coisas que não conseguimos explicar, apenas tens que te manter sempre consciente das tuas decisões, escolhe o teu caminho sem nunca deixares que o teu discernimento seja toldado pelas entidades, respondeu a mulher, dando especial ênfase às palavras sempre e nunca. Parece-me fácil, e até pode ser que seja uma entidade boa, disse eu com leveza. Pois parece, mas nem tudo é o que parece, retorquiu algo bruscamente e abriu um pouco mais os seus olhos negros, fazendo-me perceber que, apesar das suas palavras parecerem uma frase feita, falava muito a sério. A porta da minha casa estará sempre aberta para ti, mas eu não conseguirei ajudar-te se tu próprio não te ajudares também, acrescentou em jeito de conclusão enquanto cruzava as mãos em cima da barriga.

Segundo percebi pela reacção da minha tia, que se levantou prontamente, tudo estaria dito e era o momento de sairmos. A minha tia despediu-se com uma subtil vénia com a cabeça. Só depois me apercebi que não tinha trocado uma única palavra com a africana. Eu fi-lo com um agradecimento algo hesitante e saímos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Presenças #3

A porta dava directamente para uma sala tenuemente iluminada à luz de velas, aleatoriamente espalhadas. As paredes, inicialmente brancas, apresentavam uma gradação de tom cinzento acastanhado que se propagava até ao tecto, provavelmente devida à utilização continuada de velas e incensos. Um aroma de especiarias preenchia a divisão e tive a sensação que teve em mim um efeito calmante. A única decoração visível consistia em três grandes máscaras africanas, esculpidas em madeira, suspensas no que parecia ser o centro geométrico exacto de cada uma das restantes paredes. Junto à parede do fundo, entre dois armários de vidro, encostados aos cantos, que permitiam vislumbrar dezenas de frascos e caixas de várias formas e tamanhos no seu interior, perto de uma dezena de almofadas formava um círculo no chão. Sentada sobre a maior de todas, virada na nossa direcção, estava uma enorme crioula. O seu cabelo, constituído por centenas, talvez até milhares, de finas tranças, caía-lhe sobre os ombros e amontoava-se à sua volta, tornando a sua silhueta algo disforme. Um enorme pano, de padrão abstracto em tons de preto e verde vivo, enrolava-se à volta do seu volumoso corpo, deixando-lhe os ombros nus mas cobrindo-a quase até aos pés. Estava sentada de pernas abertas, com os pés descalços, gretados e de aspecto áspero, assentes no chão. Os antebraços estavam poisados nos joelhos e a cabeça inclinada para a frente. Olhava fixamente para um quadrado de tecido, repleto de símbolos semelhantes aos que tinha visto na porta, esticado no chão à sua frente, onde se espalhavam variados objectos que não consegui distinguir. Sem uma palavra, encostando a palma da mão direita à zona inferior das minhas costas, a minha tia conduziu-me a uma das almofadas mais próximas da mulher, onde me convidou a sentar, esticando a mão esquerda na sua direcção. Aquiesci. Com uma agilidade surpreendente para uma pessoa de tal idade, a minha tia sentou-se na almofada oposta, deixando-me realmente boquiaberto. A minha nova posição permitiu-me perscrutar o conteúdo do armário no canto oposto a mim e os meus olhos arregalara-se ao incidirem sobre um frasco, de aspecto antiquíssimo, onde pairava envolta num líquido amarelado o que reconheci como uma mão humana, com unhas longas e encurvadas. A palma aberta, virada para mim, tinha desenhado um símbolo que, apesar de não ter conseguido identificar, me pareceu estranhamente familiar. A minha atenção no arrepiante artefacto foi desviada quando, lentamente, a enorme crioula levantou a cabeça, cumprimentou a minha tia com um aceno de cabeça quase imperceptível e fixou os seus grandes e negros olhos em mim.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Presenças #2

Lembrei-me de uma velha tia, entendida nestas questões mais obscuras e decidi procurá-la. Mesmo que não me pudesse ajudar, pelo menos sentiria o alívio de partilhar o meu problema com alguém, que sabia que me levaria a sério sem colocar logo a hipótese da demência.
Depois de uma genuína manifestação de júbilo por me ver passado tanto tempo, a velhinha rapidamente se apercebeu que algo estranho se passava e a sua expressão rapidamente mudou para revelar consternação. Pegou na minha mão direita com a sua mão esquerda e, apoiada com a outra mão numa tosca bengala, conduziu-me para a sala e convidou-me a sentar. Durante alguns momentos limitámo-nos a permanecer em silêncio, ordenando as memórias que a visão um do outro fizeram reviver. A minha tia era já bastante idosa na última vez que a tinha visto e não estava muito diferente do que eu me lembrava. Muito magra, com a roupa tão branca como o seu cabelo, arranjado num imaculado carrapito, como sempre a conheci. Pareceu-me apenas mais pequena, mas suponho que seria eu que estava maior. Conta-me tudo, disse quebrando o silêncio. Contei. Ela ouviu tudo atentamente sem proferir uma palavra, limitando-se a, com um ar grave, acenar lentamente com a cabeça. Quando terminei a minha história, depois de uma pausa, consegui sentir algum alívio quando a velhota disse que conhecia alguém que talvez fosse capaz de me ajudar. Depois de um telefonema em que parecia tentar que eu não percebesse o que dizia, durante o qual me olhava austeramente, inclinou a cabeça na direcção da porta.
Depois de percorrer sítios onde nunca antes tinha estado, entrámos por um bairro, provavelmente clandestino, de ruelas estreitas e quase labirínticas. Apenas numa ocasião, passámos por um pequeno grupo de pessoas, de ar sombrio, que conversavam num recanto. Quando nos viram, pararam de falar e limitaram-se a seguir-nos com os olhos. Quando já estávamos de costas para eles, um arrepio na coluna vertebral dizia-me que os seus olhos ainda estavam fixos em mim e cheguei mesmo a ter algum receio que nos pudessem fazer mal, mas ao verificar a atitude decidida mas tranquila da minha tia, percebi que nenhum mal nos aconteceria. Era quase desconcertante a força que aquela velha e pequena senhora emanava.
Por fim, chegámos a uma porta que se destacava de todas as outras. Estava quase completamente coberta com estranhos símbolos gravados na madeira e senti um calafrio ao ver presa no centro uma fita negra que prendia a pata mumificada de um pequeno animal, que não consegui identificar. Com um ritmo lento, a minha tia bateu quatro vezes com o nó do seu encurvado dedo médio da mão esquerda. A porta abriu-se mas ninguém apareceu. Apesar de estar quase certo de que foi apenas uma somatização provocada pela minha imaginação, senti de facto, assim que a porta se abriu, algo que apenas consigo descrever como uma onda de energia emanando do local . O meu coração palpitava num misto de nervosismo e curiosidade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Presenças #1

Começou com o som constante de passos atrás de mim. Ao princípio, como para qualquer outra pessoa, era uma situação perfeitamente normal, seria alguém que vinha a caminhar atrás. Mas não agora, já me aconteceu vezes suficientes para achar que há muito mais probabilidades de não encontrar ninguém atrás de mim, apesar do som dos passos ser perfeitamente distinguível e, embora isso possa já ser impressão minha, seja até perceptível a presença de alguém. Ficaria extremamente feliz se fosse tudo uma questão de impressão, impressão que alguém me segue, mas e o som? O som dos passos é inconfundível e não sou o único que já ouviu. Alguns dos meus amigos também já partilharam comigo o arrepiante fenómeno e acho até que foi isso que afastou de mim a maioria deles. E como é que eu os posso censurar? Se me pudesse libertar disto com a facilidade com que eles podem, provavelmente já o teria feito também. Já dura há algumas semanas, e apesar de já não me surpreender, não consigo evitar o arrepio que me percorre a coluna vertebral quando acontece.
Piorou muito quando começou o cheiro. Mais recentemente, pouco depois de começarem os passos, envolve-me e invade-me as narinas um cheiro acre. Nas primeiras vezes chegava mesmo a dar-me vómitos, mas acabei por me conseguir habituar minimamente. Lá tentava continuar com a minha vida, fazendo um esforço para ignorar tudo isto, mas quando um dia ouvi nitidamente uma voz, não consegui mais. "Preciso de um favor teu", disse a voz. Calma, segura, perfeitamente nítida e vinda de lado nenhum. Apesar de já esperar não encontrar ninguém, olhei em volta como que suplicando uma explicação. Nada. O pavor instalou-se. A respiração parou. Os olhos esbugalharam-se. Os músculos contraíram-se e petrificaram. Só o coração teimava em contrariar o estado de latência do resto do corpo, debatendo-se violentamente contra o esterno como um lunático que se debate violentamente contra o colete de forças que o restringe. Lentamente consegui caminhar até um sítio onde me pude sentar e recuperar do susto.
Pensei que não podia continuar em negação sobre o que me estava a acontecer, isso não me iria ajudar a lidar com a situação. Mas fazer o quê? Ajuda para quê? Apesar de ter começado a aceitar a minha condição, não sabia o que podia fazer para a resolver. Nunca dei qualquer crédito a esoterismos, espiritismos ou exorcismos, e continuava a descartar a hipótese de que o fenómeno estaria relacionado com este tipo de crenças, mas depois de ouvir a voz mais algumas vezes, sempre depois de começar a ouvir os passos e sentir o odor, comecei a abrir-me a outras perspectivas.