Encontrei -os novamente.
E que falta me faziam :)
"A tentar
Pra sentir
E mudar
Pra voltar a cair
Para me levantar
Para nunca mais tentar
Mentir
Pra crescer
Para amar
Para ser
O lugar
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir "
Ornatos Violeta "Para nunca mais mentir"
Albúm - O Monstro Precisa de Amigos (1999)
sexta-feira, 13 de abril de 2007
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Psicose
O ambiente estava carregado. Os que não contemplavam os pormenores do monótono padrão formado pelas frias lajes do chão, perdiam-se nas macabras figuras desenhadas nas paredes pelo descascar da tinta junto ao tecto. O silêncio seria absoluto, não fosse o velho louco que a um canto balbuciava blasfémias e as repetidas e abafadas pancadas, a uma cadência lenta e constante, que se ouviam muito ao longe e cuja reverberação metálica se propagava pelos longos corredores. O cheiro a mofo, misturado com as emanações dos corpos era fracamente atenuado pela brisa débil, oferecida por uma decrépita e preguiçosa ventoinha que pendia no tecto, provocando ténues variações na luz.
Uma palavra começou a ganhar forma no meu cérebro, cada vez mais distinta. Era uma palavra familiar, tão familiar…
O meu nome? Sim, era o meu nome! Olhei na direcção da voz e já ninguém olhava o chão, muito menos a tinta das paredes, todos olhavam para mim, para mim! O pânico cresceu ao tomar consciência que alguém no grupo de facto me chamava. O coração disparou, como se se projectasse violentamente contra a parede interior do meu peito, numa desesperada tentativa para sair. Os músculos começaram a paralisar, um a um, e tudo ficou branco…
- Está tudo bem. Dizia uma voz suave. Amanhã tentamos outra vez, mas temos que nos esforçar mais. Está bem?
- Não!!! Respondi sem emitir qualquer som, mantendo os olhos fechados.
- Agora vamos descansar, amanhã correrá melhor.
- Não! Não. Não…
Arrastei-me pelos infindáveis corredores tentando evitar aqueles que me olhavam fixamente. Odiava-os, parecia que olhavam para dentro de mim, como os odiava...
Sentei-me na poltrona do canto e perdi-me, contemplando o desenho abstracto que as várias décadas de utilização gravaram na sua superfície. Outra vez aquela palavra familiar ecoava no fundo do meu cérebro, cada vez mais expressiva. Percebi que novamente alguém me chamava. Porque é que não me deixavam em paz? Porque não esqueciam que eu existia? Ignorei, mantive o meu olhar fixo na poltrona e desejei que a voz se extinguisse, mas isso não aconteceu, pior, tornou-se cada vez mais próxima, mais próxima. Depois de uma fracção de segundo, em que me transformei numa estátua de pânico ao sentir uma mão sobre o meu ombro, a adrenalina disparou e perdi o controle sobre o meu corpo. Sentia apenas o meu corpo a rodopiar freneticamente e as mãos a embater violentamente contra tudo o que me rodeava, até que a dolorosa picada no braço me fez desfalecer.
Gargalhadas, escuridão e gargalhadas. Tremi de medo ao sentir as gargalhadas que ribombavam pelo meu cérebro. De onde vinham? Quem estaria ali? Porque ria assim? Sentei-me encolhido e, semicerrando os olhos, perscrutei a escuridão. Um violento espasmo percorreu o meu corpo quando me pareceu vislumbrar o contorno esbatido de um rosto pálido e fantasmagórico. Cerrei os olhos, não sei por quanto tempo, horas talvez, até que consegui reunir coragem para os abrir novamente. Rapidamente me apercebi que não era um rosto, eram vários! Estava rodeado de rostos arrepiantes que com um lúgubre esgar, riam tresloucadamente. O terror aumentava, atingindo o seu fastígio quando os rostos se começaram a aproximar. Vinham de todos os lados, cada vez mais perto e quando comecei a conseguir distinguir os contornos escuros dos seus corpos escancarei a boca para gritar mas nenhum som saiu. Em vez disso uma dor lancinante invadiu-me a cabeça fazendo-me fechar os olhos em agonia. Quando os abri, comecei a focar a cor esbatida que me rodeava, com a sua matriz de círculos perfeitamente espaçados. Lentamente recuperei os sentidos enquanto o meu coração abrandava. Tacteei o chão e sorri ao sentir os montículos almofadados. Fechei novamente os olhos.
O sol que entrava pela janela, sem grades e aberta de par em par, aquecia-me a face. Uma branda brisa soprou, renovando o ar do quarto e agitando os meus cabelos desalinhados. Lentamente levantei-me e, aproximando-me da janela, inspirei profundamente o ar puro e fresco, de aroma a terra e flores. Enquanto o fazia os meus pés descalços perderam o contacto com o chão. O meu corpo elevava-se e lentamente flutuei janela fora. O tempo perdeu o sentido enquanto flutuava sobre extensas planícies coloridas, majestosos desfiladeiros, densas e verdes florestas, rios, mares…
O som metálico da fechadura fez-me imediatamente voltar a sentir o chão debaixo das minhas costas. Porque não me deixariam sossegado, com os meus pensamentos? Porque estavam tão decididos a ouvir-me? Que achariam que tinha para lhes dizer? Não desistiriam, tinha que fugir daquele sítio. Tinha a certeza que se conseguisse abrir uma janela, poderia realmente voar. Estaria mesmo demente? Sabia que as pessoas não voavam. Apesar de o fazer de maneira diferente da maioria, o meu cérebro parecia funcionar na perfeição. Mas eu tinha a certeza! O longínquo chão não me assustava, sabia que voaria para onde quisesse, para a liberdade. Tinha que encontrar uma saída. Tinha que haver uma janela sem grades!
Uma ideia brilhou na minha mente. Era simples, bastava conseguir ficar invisível! Se estivesse invisível conseguiria entrar na sala proibida sem ninguém perceber. Era brilhante! Mas será que conseguia?
A porta abriu-se. Saí em silêncio, decidido a testar a minha capacidade de me tornar completamente invisível.
Dirigi-me a um dos corredores de maior movimento, aquele que eu evitava a todo o custo e que me provocou um profundo arrepio na coluna quando me aproximei dele. A luz, irregularmente difusa, mergulhava o ambiente numa estranha soturnidade. Só a motivação do meu objectivo me permitiu continuar. Obstinado, coloquei-me a meio do corredor, respirei fundo e concentrei-me. Concentrei-me profundamente em ficar invisível e, para meu gáudio, senti que começava a acontecer. Olhei para baixo e tive ainda um vislumbre do meu corpo translúcido antes de desaparecer completamente. O júbilo transformava-se em euforia, quase impossível de conter!
Deixei-me ficar e cada pessoa que passava, impassível à minha presença, elevava um pouco mais o meu espírito. Tive a confirmação absoluta quando fui obrigado a desviar-me, para que um dos passantes não esbarrasse comigo. Vinha mesmo direito a mim, era óbvio que não me via. Estava mesmo a resultar. Sucesso, sucesso!!!
Seria muito simples. Bastava colocar-me junto da porta da sala proibida e, quando alguém saísse, eu esgueirar-me-ia para dentro antes que a porta se fechasse.
Não havia nenhuma razão para adiar mais. Reforcei a minha concentração em manter-me invisível, dirigi-me para o local seleccionado e esperei. A sala tinha muita afluência, muita gente entrava, mais tarde ou mais cedo alguém teria que sair. E eis que acontece! Com um pulo cuidadoso, para que não me ouvissem, entrei. Era enorme. De um lado, uma comprida mesa oferecia as mais variadas iguarias, a maioria das quais irreconhecíveis para mim. Do outro, os que não se deliciavam com os prazeres gastronómicos oferecidos no lado oposto, entregavam-se aos prazeres da carne em luxuriosas e animalescas orgias em que os contornos dos corpos se diluíam, parecendo apenas uma enorme e grotesca criatura. Era então isto que acontecia aqui, pensei, mas num ápice, toda a minha atenção se concentrou na parede ao fundo da sala. Uma janela! Uma janela sem grades, sem trancas! Confiante na minha invisibilidade, atravessei calmamente a sala e aproximei-me da janela. O meu coração palpitava em antecipação e quase me saiu pela boca quando, ao accionar o puxador, a janela se abriu. Fleumaticamente mas decidido, subi, tinha chegado o momento, seria livre! Abri os braços e com um pequeno impulso os meus pés deixaram para trás o frio parapeito.
Uma palavra começou a ganhar forma no meu cérebro, cada vez mais distinta. Era uma palavra familiar, tão familiar…
O meu nome? Sim, era o meu nome! Olhei na direcção da voz e já ninguém olhava o chão, muito menos a tinta das paredes, todos olhavam para mim, para mim! O pânico cresceu ao tomar consciência que alguém no grupo de facto me chamava. O coração disparou, como se se projectasse violentamente contra a parede interior do meu peito, numa desesperada tentativa para sair. Os músculos começaram a paralisar, um a um, e tudo ficou branco…
- Está tudo bem. Dizia uma voz suave. Amanhã tentamos outra vez, mas temos que nos esforçar mais. Está bem?
- Não!!! Respondi sem emitir qualquer som, mantendo os olhos fechados.
- Agora vamos descansar, amanhã correrá melhor.
- Não! Não. Não…
Arrastei-me pelos infindáveis corredores tentando evitar aqueles que me olhavam fixamente. Odiava-os, parecia que olhavam para dentro de mim, como os odiava...
Sentei-me na poltrona do canto e perdi-me, contemplando o desenho abstracto que as várias décadas de utilização gravaram na sua superfície. Outra vez aquela palavra familiar ecoava no fundo do meu cérebro, cada vez mais expressiva. Percebi que novamente alguém me chamava. Porque é que não me deixavam em paz? Porque não esqueciam que eu existia? Ignorei, mantive o meu olhar fixo na poltrona e desejei que a voz se extinguisse, mas isso não aconteceu, pior, tornou-se cada vez mais próxima, mais próxima. Depois de uma fracção de segundo, em que me transformei numa estátua de pânico ao sentir uma mão sobre o meu ombro, a adrenalina disparou e perdi o controle sobre o meu corpo. Sentia apenas o meu corpo a rodopiar freneticamente e as mãos a embater violentamente contra tudo o que me rodeava, até que a dolorosa picada no braço me fez desfalecer.
Gargalhadas, escuridão e gargalhadas. Tremi de medo ao sentir as gargalhadas que ribombavam pelo meu cérebro. De onde vinham? Quem estaria ali? Porque ria assim? Sentei-me encolhido e, semicerrando os olhos, perscrutei a escuridão. Um violento espasmo percorreu o meu corpo quando me pareceu vislumbrar o contorno esbatido de um rosto pálido e fantasmagórico. Cerrei os olhos, não sei por quanto tempo, horas talvez, até que consegui reunir coragem para os abrir novamente. Rapidamente me apercebi que não era um rosto, eram vários! Estava rodeado de rostos arrepiantes que com um lúgubre esgar, riam tresloucadamente. O terror aumentava, atingindo o seu fastígio quando os rostos se começaram a aproximar. Vinham de todos os lados, cada vez mais perto e quando comecei a conseguir distinguir os contornos escuros dos seus corpos escancarei a boca para gritar mas nenhum som saiu. Em vez disso uma dor lancinante invadiu-me a cabeça fazendo-me fechar os olhos em agonia. Quando os abri, comecei a focar a cor esbatida que me rodeava, com a sua matriz de círculos perfeitamente espaçados. Lentamente recuperei os sentidos enquanto o meu coração abrandava. Tacteei o chão e sorri ao sentir os montículos almofadados. Fechei novamente os olhos.
O sol que entrava pela janela, sem grades e aberta de par em par, aquecia-me a face. Uma branda brisa soprou, renovando o ar do quarto e agitando os meus cabelos desalinhados. Lentamente levantei-me e, aproximando-me da janela, inspirei profundamente o ar puro e fresco, de aroma a terra e flores. Enquanto o fazia os meus pés descalços perderam o contacto com o chão. O meu corpo elevava-se e lentamente flutuei janela fora. O tempo perdeu o sentido enquanto flutuava sobre extensas planícies coloridas, majestosos desfiladeiros, densas e verdes florestas, rios, mares…
O som metálico da fechadura fez-me imediatamente voltar a sentir o chão debaixo das minhas costas. Porque não me deixariam sossegado, com os meus pensamentos? Porque estavam tão decididos a ouvir-me? Que achariam que tinha para lhes dizer? Não desistiriam, tinha que fugir daquele sítio. Tinha a certeza que se conseguisse abrir uma janela, poderia realmente voar. Estaria mesmo demente? Sabia que as pessoas não voavam. Apesar de o fazer de maneira diferente da maioria, o meu cérebro parecia funcionar na perfeição. Mas eu tinha a certeza! O longínquo chão não me assustava, sabia que voaria para onde quisesse, para a liberdade. Tinha que encontrar uma saída. Tinha que haver uma janela sem grades!
Uma ideia brilhou na minha mente. Era simples, bastava conseguir ficar invisível! Se estivesse invisível conseguiria entrar na sala proibida sem ninguém perceber. Era brilhante! Mas será que conseguia?
A porta abriu-se. Saí em silêncio, decidido a testar a minha capacidade de me tornar completamente invisível.
Dirigi-me a um dos corredores de maior movimento, aquele que eu evitava a todo o custo e que me provocou um profundo arrepio na coluna quando me aproximei dele. A luz, irregularmente difusa, mergulhava o ambiente numa estranha soturnidade. Só a motivação do meu objectivo me permitiu continuar. Obstinado, coloquei-me a meio do corredor, respirei fundo e concentrei-me. Concentrei-me profundamente em ficar invisível e, para meu gáudio, senti que começava a acontecer. Olhei para baixo e tive ainda um vislumbre do meu corpo translúcido antes de desaparecer completamente. O júbilo transformava-se em euforia, quase impossível de conter!
Deixei-me ficar e cada pessoa que passava, impassível à minha presença, elevava um pouco mais o meu espírito. Tive a confirmação absoluta quando fui obrigado a desviar-me, para que um dos passantes não esbarrasse comigo. Vinha mesmo direito a mim, era óbvio que não me via. Estava mesmo a resultar. Sucesso, sucesso!!!
Seria muito simples. Bastava colocar-me junto da porta da sala proibida e, quando alguém saísse, eu esgueirar-me-ia para dentro antes que a porta se fechasse.
Não havia nenhuma razão para adiar mais. Reforcei a minha concentração em manter-me invisível, dirigi-me para o local seleccionado e esperei. A sala tinha muita afluência, muita gente entrava, mais tarde ou mais cedo alguém teria que sair. E eis que acontece! Com um pulo cuidadoso, para que não me ouvissem, entrei. Era enorme. De um lado, uma comprida mesa oferecia as mais variadas iguarias, a maioria das quais irreconhecíveis para mim. Do outro, os que não se deliciavam com os prazeres gastronómicos oferecidos no lado oposto, entregavam-se aos prazeres da carne em luxuriosas e animalescas orgias em que os contornos dos corpos se diluíam, parecendo apenas uma enorme e grotesca criatura. Era então isto que acontecia aqui, pensei, mas num ápice, toda a minha atenção se concentrou na parede ao fundo da sala. Uma janela! Uma janela sem grades, sem trancas! Confiante na minha invisibilidade, atravessei calmamente a sala e aproximei-me da janela. O meu coração palpitava em antecipação e quase me saiu pela boca quando, ao accionar o puxador, a janela se abriu. Fleumaticamente mas decidido, subi, tinha chegado o momento, seria livre! Abri os braços e com um pequeno impulso os meus pés deixaram para trás o frio parapeito.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Angústia
Estava num recanto de um prédio. Acanhadamente tentava interpelar as pessoas que, com total indiferença, passavam sem sequer desviar o olhar. Ao passar por ela, ouvi um desfalecido “O senhor pode ajudar-me, por favor?”. Se calhar mais por falta de hábito de andar pelo centro da cidade, onde os mendigos - nem todos merecedores de ajuda - abundam, do que por solicitude, parei, dei um passo atrás com um “Sim?”, pensando que a velha senhora precisava de indicações. O meu coração começou imediatamente a encolher quando ela, sem conseguir conter as lágrimas que lhe escorriam pela face, disse que lhe tinham descoberto um cancro, que estava a começar a fazer quimioterapia, que não tinha nada em casa para comer… Instintivamente despejei nas suas mãos as moedas que tinha e tive vontade de a abraçar, de lhe dizer que tudo iria correr bem, tentar aliviar um pouco da sua dor. Não sei se teria servido para alguma coisa, mas sei que não tenho robustez emocional para uma situação daquelas, pelo que, com um aceno em resposta aos agradecimentos, me afastei rapidamente, no limiar das lágrimas. Revendo agora a situação, uma senhora já com alguma idade ali naquele recanto, invisível, reaviva a angústia que senti. Percebia-se perfeitamente que era uma situação nova para ela, o seu constrangimento era notório e via-se a vergonha e o desespero nos seus olhos. Nem por um segundo duvidei da sua necessidade e o meu coração continua encolhido por não ter podido fazer mais. Num país que se diz desenvolvido, uma pessoa não devia chegar àquela idade e ter que pedir esmola.
sexta-feira, 30 de março de 2007
O ID63
“O ID63??? Não, não sei nada sobre isso!” Foi o que quase toda a gente me respondeu com a voz trémula de terror; com excepção de alguns que, desconfiadamente, apenas referiram que não pronunciavam aquela designação, enquanto continuavam apressadamente o seu caminho, visivelmente perplexos com meu interesse.
Encontrei por fim um ancião, notoriamente demente, que se dizia um conjurador de anjos e demónios. Depois de inúmeras e assustadoras advertências, no meio do seu delírio conseguiu indicar-me o covil do monstro. Indicações que segui com alguma dúvida, mas que se provaram exactas.
Aproximei-me cuidadosamente e lá estava ele, o ID63, a majestosa besta! Estudei-a, analisei-a, procurei as suas fraquezas e por fim descobri o âmago da sua fragilidade. Decidido, elaborei um plano de ataque, revi-o minuciosamente e acreditei no meu sucesso.
Reuni toda a minha coragem e, no momento certo, avancei para o perverso prodígio. Aquele que, de tão grotesco e infame, não tem nome. Aquele que apenas mereceu uma identificação numérica, e mesmo essa, capaz de induzir pavor no coração dos mais audazes.
A vil criatura percebeu a minha aproximação e virando o seu temeroso focinho na minha direcção, urrou de tal forma que não só senti as vibrações no diafragma, como consegui também sentir o calor fétido do seu hálito.
Tinha passado o ponto sem retorno, o confronto era inevitável. Avancei para o abjecto ser enquanto ele, com outro urro que pareceu fazer tremer a terra por debaixo dos meus pés, avançou para mim. Cada um de nós acelerando o seu passo, a adrenalina a tomar conta de mim, o tempo a parecer distender-se, o embate estava iminente e…
Encontrei por fim um ancião, notoriamente demente, que se dizia um conjurador de anjos e demónios. Depois de inúmeras e assustadoras advertências, no meio do seu delírio conseguiu indicar-me o covil do monstro. Indicações que segui com alguma dúvida, mas que se provaram exactas.
Aproximei-me cuidadosamente e lá estava ele, o ID63, a majestosa besta! Estudei-a, analisei-a, procurei as suas fraquezas e por fim descobri o âmago da sua fragilidade. Decidido, elaborei um plano de ataque, revi-o minuciosamente e acreditei no meu sucesso.
Reuni toda a minha coragem e, no momento certo, avancei para o perverso prodígio. Aquele que, de tão grotesco e infame, não tem nome. Aquele que apenas mereceu uma identificação numérica, e mesmo essa, capaz de induzir pavor no coração dos mais audazes.
A vil criatura percebeu a minha aproximação e virando o seu temeroso focinho na minha direcção, urrou de tal forma que não só senti as vibrações no diafragma, como consegui também sentir o calor fétido do seu hálito.
Tinha passado o ponto sem retorno, o confronto era inevitável. Avancei para o abjecto ser enquanto ele, com outro urro que pareceu fazer tremer a terra por debaixo dos meus pés, avançou para mim. Cada um de nós acelerando o seu passo, a adrenalina a tomar conta de mim, o tempo a parecer distender-se, o embate estava iminente e…
terça-feira, 27 de março de 2007
Fadinho da Carla
Disseram que eras bravia,
Que seria um erro crasso.
Confiando no meu siso,
E sem ligar ao aviso,
Fui morar no teu regaço.
Vi depois que foi simpatia,
Bravia era só um ensaio.
Mera mentira piedosa,
Eufemismo, simples prosa,
Tu és é reles cumó raio!
Não venho para aqui lamentar-me,
Sabemos que há espinhos na rosa.
Quem ama por gosto não cansa,
Quem espera sempre alcança,
Talvez fiques menos ranhosa.
Mas estava no meu destino
Que ia acabar ao teu lado.
E ainda que mal cantado,
Tinhas sempre que ser tu
A dona deste meu fado.
Que seria um erro crasso.
Confiando no meu siso,
E sem ligar ao aviso,
Fui morar no teu regaço.
Vi depois que foi simpatia,
Bravia era só um ensaio.
Mera mentira piedosa,
Eufemismo, simples prosa,
Tu és é reles cumó raio!
Não venho para aqui lamentar-me,
Sabemos que há espinhos na rosa.
Quem ama por gosto não cansa,
Quem espera sempre alcança,
Talvez fiques menos ranhosa.
Mas estava no meu destino
Que ia acabar ao teu lado.
E ainda que mal cantado,
Tinhas sempre que ser tu
A dona deste meu fado.
segunda-feira, 26 de março de 2007
Exercício descritivo
É monumental! De ambos os lados da movimentada estrada, passeios espaçosos e ricamente decorados envolvem verdadeiros jardins rodeados por plátanos de várias idades, no centro dos quais se alinham fileiras de altíssimas palmeiras de variadas espécies, cercadas por uma miríade de arbustos floridos e impecavelmente tratados. Antes de começar a caminhar ao longo da calçada, eximiamente elaborada com complexos motivos, deixei o meu olhar percorrer o percurso que ia efectuar, surpreendendo-me com a riqueza visual, cultural e até biológica daqueles passeios. Nas extremidades dos alongados jardins vêm-se monumentos, inúmeras estátuas de ilustres, desconhecidos de muitos, e algumas árvores bastante incomuns. A minha atenção deteve-se numa espécie de palmeira de aparência algo extraterrestre. O seu grosso tronco principal não mede mais que alguns palmos, a partir de onde se projectam vários ramos, ou troncos secundários, um pouco mais finos e de aspecto áspero. Todos estes troncos secundários são completamente isentos de ramificações e as únicas folhas, longas e pontiagudas como a ponta de uma espada, projectam-se da sua extremidade em todas as direcções, formando com as suas pontas uma esfera quase perfeita. Noutras, semelhantes e igualmente estranhas, os ramos brotam de uma massa no chão e as folhas nas extremidades são em forma de leque. Deliciei-me com estes originais seres vivos que pareciam saídos de um deserto e iniciei a minha caminhada ao longo daquela extraordinária avenida.
Passeava lentamente, numa tentativa de observar tudo pelo caminho, mas a paisagem é tão rica em pormenores que por vezes tinha que parar por alguns momentos para apreciar plenamente o que me rodeava. Um bom exemplo é o quiosque de aspecto secular cujos floreados e elaboração estética me fizeram dar algumas voltas em seu redor. É um hexágono formado por placas de metal grosseiramente pintadas de verde, de aspecto robusto e oxidado, que nas arestas são unidas com uma peça do mesmo metal, artisticamente elaborada com motivos complexamente retorcidos que aparentavam ter sido inspirados tanto nas plantas como no fogo. O telhado é formado por uma estrutura semelhante à base, também com os mesmos ornamentos nas extremidades, que serve de suporte a um toldo branco, coberto com as mesmas folhas secas que se espalham pelo chão e se acumulam nos cantos. Por dentro, por entre um mar de revistas e afins que não permitia ver mais que o seu busto, um homem de rosto vincado e ar enfadado, cuspia constantemente os pedaços de tabaco que o seu cigarro sem filtro lhe deixava na boca. Os seus olhos fundos observaram-me debaixo da sua boina preta, enquanto esquadrinhava o seu estabelecimento, e voltaram ao seu marasmo quando prossegui o meu caminho.
Mais abaixo detenho-me diante de um plácido lago ao longo de uma parte do passeio, em cuja extremidade se encontra uma fonte, onde sobre uma enorme rocha carcomida, está uma estátua de aspecto antigo retratando um homem seminu de longas barbas e cabelos, que segura um pote de onde jorra a água. Dir-se-ia o próprio Poseidon, ali, no centro de um passeio de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, um deus despercebido que ninguém adorava.
Depois de observar, fascinado, todos os pormenores da estrutura, que dir-se-ia saída de um jardim grego da antiguidade; delirante com os pequenos tesouros que se podem encontrar no coração de uma atarefada cidade; voltei a minha atenção para os transeuntes. Cada um seguindo o seu caminho, a maioria em passo acelerado, de olhos no chão ou no infinito. Ninguém parecia ver nada à sua volta, ninguém desfrutava da paisagem, dos magníficos pormenores que esta avenida oferece. A própria calçada é uma verdadeira obra de arte e certamente nem os que iam de olhos no chão a iam realmente a ver. A única excepção foi aquele homem de meia-idade, que aparentava envergar apenas um comprido casaco preto, muito gasto, que, além de um fino triângulo do seu peito amarelado, apenas permitia ver os seus tornozelos e pés encardidos que preenchiam umas sandálias que certamente já tinham palmilhado muitas centenas de quilómetros. Entre as madeixas que desordenadamente lhe caíam de ambos os lados da face magra e escurecida, acabando por se dissimular numa barba de aspecto áspero e sujo, apresentava uns olhos azuis esbugalhados, praticamente a única coisa que conseguia sobressair da selva desgrenhada que era a sua cabeça. Enquanto caminhava devagar, movia a cabeça em todas as direcções, perdendo - ou será mais correcto dizer - empregando todo o tempo necessário para observar minuciosamente tudo à sua volta. Parecia, como eu, fazer questão de observar em vez de apenas olhar, querer beber tudo o que o rodeia, absorver o mundo! Ponderei se seria triste o facto de, no meio de tanta gente, a única pessoa com quem me tinha conseguido identificar minimamente, ter sido um vagabundo, visivelmente afectado mentalmente. Achei que não.
Desço mais um pouco e decido sentar-me num dos bancos de jardim que se perfilavam ao longo do passeio. De estrutura metálica, já esverdeada pelo tempo, sobre a qual se alinhavam tiras de madeira, escura, gretada e ressequida, onde, gravadas, se conseguiam ainda vislumbrar antigas promessas de amor. O banco rangeu em uníssono com o meu suspiro de prazer ao descontrair-me e sentir nas costas o calor do sol ali armazenado. Imaginei que o ranger do banco foi também um suspiro de prazer, de satisfação por uma dos milhares de pessoas que por ali passavam o ter usado, fazê-lo sentir-se útil, real, verdadeiro, sentir-se de facto um banco! Senti-me muito bem.
As minhas divagações foram interrompidas por um bando de pombos que, alvoraçadamente, apareceu, como que vindo do nada. Cerca de um minuto depois apercebi-me que o enorme bando seguia uma senhora já muito idosa, muito baixa e magra, que caminhava lentamente ao longo da avenida. A sua postura encurvada, a sua indumentária completamente preta e o enorme xaile, igualmente preto, que pendia sobre a sua cabeça e envolvia os seus ombros descaídos, escondendo grande parte do seu rosto enrugado, provavelmente mais pelas amarguras da vida do que pelo devorar do tempo, faziam a sua silhueta parecer ainda mais insignificante.
Notava-se a excitação dos pombos a aumentar enquanto seguiam a velha senhora, terminando num clímax de euforia quando esta se sentou no banco a seguir ao meu e fez aparecer, como que por magia, um enorme saco de milho e, também como que através de um qualquer sortilégio, desapareceu no meio dos pombos que a envolviam freneticamente. Com excepção de alguns indivíduos visivelmente doentes, os pombos pareciam bastante saudáveis e bem alimentados. A sua plumagem em tons cinzentos e azulados apresentava belos reflexos verdes quando lhe batia o sol. E enquanto se acotovelavam - se é que tal termo se pode aplicar a aves - presenteavam o observador com um verdadeiro espectáculo de luz e cor; uma verdadeira tela viva.
Deixei-me ficar, a observar os pombos na sua azáfama para disputar os grãos que se espalhavam pela calçada e, quando o turbilhão começou a esmorecer, diverti-me com os seus rituais de acasalamento. Os machos, inchados, incansáveis, exibindo-se para elas, e elas a fugir, de tal forma desinteressadas que admirei a perseverança deles; aquele tipo de indiferença é coisa para frustrar os mais obstinados, mas eles, impassíveis, voltavam à carga. Esperam vencer pela exaustão, suponho. Senti alguma vergonha pela minha espécie ao pensar que os humanos, nos seus jogos de acasalamento, acabam por não ser assim tão diferentes dos pombos...
Passeava lentamente, numa tentativa de observar tudo pelo caminho, mas a paisagem é tão rica em pormenores que por vezes tinha que parar por alguns momentos para apreciar plenamente o que me rodeava. Um bom exemplo é o quiosque de aspecto secular cujos floreados e elaboração estética me fizeram dar algumas voltas em seu redor. É um hexágono formado por placas de metal grosseiramente pintadas de verde, de aspecto robusto e oxidado, que nas arestas são unidas com uma peça do mesmo metal, artisticamente elaborada com motivos complexamente retorcidos que aparentavam ter sido inspirados tanto nas plantas como no fogo. O telhado é formado por uma estrutura semelhante à base, também com os mesmos ornamentos nas extremidades, que serve de suporte a um toldo branco, coberto com as mesmas folhas secas que se espalham pelo chão e se acumulam nos cantos. Por dentro, por entre um mar de revistas e afins que não permitia ver mais que o seu busto, um homem de rosto vincado e ar enfadado, cuspia constantemente os pedaços de tabaco que o seu cigarro sem filtro lhe deixava na boca. Os seus olhos fundos observaram-me debaixo da sua boina preta, enquanto esquadrinhava o seu estabelecimento, e voltaram ao seu marasmo quando prossegui o meu caminho.
Mais abaixo detenho-me diante de um plácido lago ao longo de uma parte do passeio, em cuja extremidade se encontra uma fonte, onde sobre uma enorme rocha carcomida, está uma estátua de aspecto antigo retratando um homem seminu de longas barbas e cabelos, que segura um pote de onde jorra a água. Dir-se-ia o próprio Poseidon, ali, no centro de um passeio de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, um deus despercebido que ninguém adorava.
Depois de observar, fascinado, todos os pormenores da estrutura, que dir-se-ia saída de um jardim grego da antiguidade; delirante com os pequenos tesouros que se podem encontrar no coração de uma atarefada cidade; voltei a minha atenção para os transeuntes. Cada um seguindo o seu caminho, a maioria em passo acelerado, de olhos no chão ou no infinito. Ninguém parecia ver nada à sua volta, ninguém desfrutava da paisagem, dos magníficos pormenores que esta avenida oferece. A própria calçada é uma verdadeira obra de arte e certamente nem os que iam de olhos no chão a iam realmente a ver. A única excepção foi aquele homem de meia-idade, que aparentava envergar apenas um comprido casaco preto, muito gasto, que, além de um fino triângulo do seu peito amarelado, apenas permitia ver os seus tornozelos e pés encardidos que preenchiam umas sandálias que certamente já tinham palmilhado muitas centenas de quilómetros. Entre as madeixas que desordenadamente lhe caíam de ambos os lados da face magra e escurecida, acabando por se dissimular numa barba de aspecto áspero e sujo, apresentava uns olhos azuis esbugalhados, praticamente a única coisa que conseguia sobressair da selva desgrenhada que era a sua cabeça. Enquanto caminhava devagar, movia a cabeça em todas as direcções, perdendo - ou será mais correcto dizer - empregando todo o tempo necessário para observar minuciosamente tudo à sua volta. Parecia, como eu, fazer questão de observar em vez de apenas olhar, querer beber tudo o que o rodeia, absorver o mundo! Ponderei se seria triste o facto de, no meio de tanta gente, a única pessoa com quem me tinha conseguido identificar minimamente, ter sido um vagabundo, visivelmente afectado mentalmente. Achei que não.
Desço mais um pouco e decido sentar-me num dos bancos de jardim que se perfilavam ao longo do passeio. De estrutura metálica, já esverdeada pelo tempo, sobre a qual se alinhavam tiras de madeira, escura, gretada e ressequida, onde, gravadas, se conseguiam ainda vislumbrar antigas promessas de amor. O banco rangeu em uníssono com o meu suspiro de prazer ao descontrair-me e sentir nas costas o calor do sol ali armazenado. Imaginei que o ranger do banco foi também um suspiro de prazer, de satisfação por uma dos milhares de pessoas que por ali passavam o ter usado, fazê-lo sentir-se útil, real, verdadeiro, sentir-se de facto um banco! Senti-me muito bem.
As minhas divagações foram interrompidas por um bando de pombos que, alvoraçadamente, apareceu, como que vindo do nada. Cerca de um minuto depois apercebi-me que o enorme bando seguia uma senhora já muito idosa, muito baixa e magra, que caminhava lentamente ao longo da avenida. A sua postura encurvada, a sua indumentária completamente preta e o enorme xaile, igualmente preto, que pendia sobre a sua cabeça e envolvia os seus ombros descaídos, escondendo grande parte do seu rosto enrugado, provavelmente mais pelas amarguras da vida do que pelo devorar do tempo, faziam a sua silhueta parecer ainda mais insignificante.
Notava-se a excitação dos pombos a aumentar enquanto seguiam a velha senhora, terminando num clímax de euforia quando esta se sentou no banco a seguir ao meu e fez aparecer, como que por magia, um enorme saco de milho e, também como que através de um qualquer sortilégio, desapareceu no meio dos pombos que a envolviam freneticamente. Com excepção de alguns indivíduos visivelmente doentes, os pombos pareciam bastante saudáveis e bem alimentados. A sua plumagem em tons cinzentos e azulados apresentava belos reflexos verdes quando lhe batia o sol. E enquanto se acotovelavam - se é que tal termo se pode aplicar a aves - presenteavam o observador com um verdadeiro espectáculo de luz e cor; uma verdadeira tela viva.
Deixei-me ficar, a observar os pombos na sua azáfama para disputar os grãos que se espalhavam pela calçada e, quando o turbilhão começou a esmorecer, diverti-me com os seus rituais de acasalamento. Os machos, inchados, incansáveis, exibindo-se para elas, e elas a fugir, de tal forma desinteressadas que admirei a perseverança deles; aquele tipo de indiferença é coisa para frustrar os mais obstinados, mas eles, impassíveis, voltavam à carga. Esperam vencer pela exaustão, suponho. Senti alguma vergonha pela minha espécie ao pensar que os humanos, nos seus jogos de acasalamento, acabam por não ser assim tão diferentes dos pombos...
quarta-feira, 14 de março de 2007
Graça surpreendente
Andar de transportes públicos pode ser cansativo e até desconfortável, mas é também uma excelente oportunidade para observar o ser humano. Se tivermos alguma sorte, e nem é preciso muita, então conseguimos deparar-nos com verdadeiros casos de estudo, como o indivíduo com quem partilhei o metropolitano esta manhã.
Aparentemente tratava-se de uma pessoa que, como a grande maioria das outras que usufruíam daquele transporte, se dirigia para o seu emprego e, caso se mantivesse calada, não seria distinguível dos demais.
Mas distinguia-se, bastante mesmo, devido ao facto de ter decidido aproveitar a sua viagem para pregar às massas. De referir que não acho que seja nada a condenar, admiro até as pessoas que têm presença suficiente para o fazer, e esta tinha-a com fartura, dir-se-ia até que seria movida por uma encomenda divina.
Creio que não pregava nada de prejudicial, aparentemente manifestava-se contra a falta de respeito pelos outros (roubo, mentira, violência, homicídio, etc.), contra a fornicação, a favor do amor e em defesa das mulheres, tentando demonstrar-lhes os castigos divinos para a referida prática demoníaca, aparentemente a principal causa de partos difíceis e até mortais, provavelmente por ordem crescente de grau de empenho na dita.
Dado que se movimentava de forma a conseguir que as suas palavras chegassem ao maior número de pessoas possível, não consegui apanhar todo o discurso, mas aparentemente todos os males da nossa sociedade; entre os quais consegui distinguir os incêndios florestais que, dada a espiral descendente de autodestruição em que nos encontramos, vão aumentar; se devem a estas questões. Quem sabe não tem razão?...
Estava já eu plenamente satisfeito, deleitado até, com a oportunidade de ouvir os ensinamentos desta profetisa que nem me pareceu completamente lunática, quando a experiência conseguiu tornar-se mais sublime. Tendo tido o privilégio de sair na mesma estação, pude ainda testemunhar a entoação, sonante e exímia, do que me pareceu ser uma versão portuguesa de “amazing grace”. Que pessoa fascinante!
Aparentemente tratava-se de uma pessoa que, como a grande maioria das outras que usufruíam daquele transporte, se dirigia para o seu emprego e, caso se mantivesse calada, não seria distinguível dos demais.
Mas distinguia-se, bastante mesmo, devido ao facto de ter decidido aproveitar a sua viagem para pregar às massas. De referir que não acho que seja nada a condenar, admiro até as pessoas que têm presença suficiente para o fazer, e esta tinha-a com fartura, dir-se-ia até que seria movida por uma encomenda divina.
Creio que não pregava nada de prejudicial, aparentemente manifestava-se contra a falta de respeito pelos outros (roubo, mentira, violência, homicídio, etc.), contra a fornicação, a favor do amor e em defesa das mulheres, tentando demonstrar-lhes os castigos divinos para a referida prática demoníaca, aparentemente a principal causa de partos difíceis e até mortais, provavelmente por ordem crescente de grau de empenho na dita.
Dado que se movimentava de forma a conseguir que as suas palavras chegassem ao maior número de pessoas possível, não consegui apanhar todo o discurso, mas aparentemente todos os males da nossa sociedade; entre os quais consegui distinguir os incêndios florestais que, dada a espiral descendente de autodestruição em que nos encontramos, vão aumentar; se devem a estas questões. Quem sabe não tem razão?...
Estava já eu plenamente satisfeito, deleitado até, com a oportunidade de ouvir os ensinamentos desta profetisa que nem me pareceu completamente lunática, quando a experiência conseguiu tornar-se mais sublime. Tendo tido o privilégio de sair na mesma estação, pude ainda testemunhar a entoação, sonante e exímia, do que me pareceu ser uma versão portuguesa de “amazing grace”. Que pessoa fascinante!
terça-feira, 13 de março de 2007
Monodiálogo
- Aaaargh, como aquela gaja me irrita!!!
- Calma, tens que te controlar, não te podes deixar afectar assim.
- Pronto, lá vem ele com a sua calma. Deixa-me lá irritar se a gaja me irrita, se até já estou no ponto de bastar ela aproximar-se para ter vontade de lhe pregar uma sonora e dolorosa chapada! Que bem que me saberia...
- Não podes ser assim, se ela te irrita, tu é que tens que saber lidar com isso. O problema é teu, não dela; ela só está a ser igual a si própria.
- Epa… és um chato de merda! Sempre com o teu racionalismo. Sabes, também me irritas profundamente.
- Lá está outra coisa que tens que saber controlar. Vou pôr-te uma música para acalmar.
- Para ti é tudo muito fácil, não é?
- Para mim pode ser simples, mas lá por não complicar as coisas não quer dizer que seja tudo fácil, antes pelo contrário, é muito difícil ter objectividade que permita manter as coisas simples, mas é o melhor a fazer.
- Tens, obviamente, consciência que é exactamente esse tipo de conversa que te torna tão irritante…
- Hum… talvez esta outra música, ou se quiseres posso mostrar-te como seria aquela gaja sem roupa…
- Deixa lá isso, se quisesses mesmo agradar-me, calavas-te, nem que fosse só por uns minutos.
- Sabes perfeitamente que isso não é possível.
- Pois sei, mas era tão bom…
- Gaita! É mesmo muito frustrante ser o teu cérebro!
- Calma, tens que te controlar, não te podes deixar afectar assim.
- Pronto, lá vem ele com a sua calma. Deixa-me lá irritar se a gaja me irrita, se até já estou no ponto de bastar ela aproximar-se para ter vontade de lhe pregar uma sonora e dolorosa chapada! Que bem que me saberia...
- Não podes ser assim, se ela te irrita, tu é que tens que saber lidar com isso. O problema é teu, não dela; ela só está a ser igual a si própria.
- Epa… és um chato de merda! Sempre com o teu racionalismo. Sabes, também me irritas profundamente.
- Lá está outra coisa que tens que saber controlar. Vou pôr-te uma música para acalmar.
- Para ti é tudo muito fácil, não é?
- Para mim pode ser simples, mas lá por não complicar as coisas não quer dizer que seja tudo fácil, antes pelo contrário, é muito difícil ter objectividade que permita manter as coisas simples, mas é o melhor a fazer.
- Tens, obviamente, consciência que é exactamente esse tipo de conversa que te torna tão irritante…
- Hum… talvez esta outra música, ou se quiseres posso mostrar-te como seria aquela gaja sem roupa…
- Deixa lá isso, se quisesses mesmo agradar-me, calavas-te, nem que fosse só por uns minutos.
- Sabes perfeitamente que isso não é possível.
- Pois sei, mas era tão bom…
- Gaita! É mesmo muito frustrante ser o teu cérebro!
quinta-feira, 8 de março de 2007
Mulheres
- Confiar nas mulheres? És maluco? As mulheres não são de confiança. Se um gajo lhes deixa as rédeas muito soltas, acaba sempre por se lixar!
- Parece-me uma opinião algo radical. Aceito que haja pessoas, não apenas mulheres, que não são de confiança, mas a generalização é habitualmente, um erro.
- Tu és muito ingénuo! Não conheces o animal mulher. Elas não são frágeis como querem que pareça, são manipuladoras!
- O teu discurso parece saído da idade das trevas! Essa conversa de as mulheres serem perversas, a verdadeira personificação do demónio já está, felizmente, ultrapassada.
- Ouve bem o que te digo, se dás muita liberdade à tua mulher, mais tarde ou mais cedo ela vai cruzar-se com um gajo que engraça com ela e que tem a energia que tu tinhas antes, que lhe dá certos mimos que tu já não tens pachorra para lhe dar e ela vai borrifar-se para ti. Todo o amor que ela apregoava por ti se esfuma. E ainda por cima são estúpidas demais para perceberem que passado algum tempo, pouco tempo, vão estar na mesma situação que estavam antes, ou pior.
- Então… mas… quer dizer então que a culpa não será, pelo menos inteiramente dela. Se não deixasses de ter pachorra para lhe dar os mimos que ela precisa, provavelmente ela já não se deixava ir na cantiga do outro.
- Elas querem sempre mais do que têm! Até podes ser o Sr. Perfeito que ela vai ter sempre alguma queixa. Nunca nada que tu faças é suficiente para satisfazer uma mulher. Além do mais, é perfeitamente natural a relação esmorecer com o tempo.
- Se esmorece, se calhar é porque o sentimento mudou. Se deixas de te sentir impelido a mimá-la, a fazê-la feliz, se calhar é porque afinal não a amas como achavas que amavas e aí, acho que se calhar mais vale enfrentar a realidade e, por muito complicado e assustador que isso possa parecer, terminar a relação.
- Eu não deixei de gostar da minha mulher. Pode ter passado aquela paixão do início, mas eu amo-a!
- Parece que estás a dizer isso a ti próprio, e até compreendo que queiras mesmo acreditar nisso, mas se quando estás com ela, já não surge em ti qualquer impulso que te puxe para ela. Quando já não tens motivação para a fazer feliz e se calhar até já tens alguma para a fazer infeliz, isso já não se pode chamar amor. Já é uma questão de conforto e habituação. Se calhar até de medo da mudança.
- Não me passa pela cabeça deixar a minha mulher, perder tudo o que construímos juntos. Não a quero perder! Também não consigo andar, falsamente e por obrigação, sempre agarrado a ela como dantes. Acho que era uma hipocrisia passar a vida a fingir, fazer-lhe um mimo só por obrigação quando isso não surge espontaneamente.
- Lá está, se não surge de forma espontânea, se calhar já não estás lá a fazer nada. Se calhar mais vale libertá-la para que ela possa procurar o que precisa. Para que possa colmatar as suas carências. Claro que isso para ti é inconcebível, mas já se está fora de questão deixá-la, assim como dar-lhe o que ela precisa, acho que a única solução seria fechar os olhos e deixá-la resolver as suas carências como achar.
- Como é que com tanta inteligência consegues ser tão estúpido? Isso era mais que meio caminho andado para ela me dar com os pés! Não inventes, o que eu tenho que fazer é controlá-la, não é tentar satisfazê-la.
- É a tua opinião, a tua visão das coisas. Não vou ter a presunção de que é obrigatoriamente a minha visão que está certa e a tua errada, mas definitivamente discordo. Mas mesmo que tenhas razão, que o caminho que apresenta melhores resultados seja o controle, face à satisfação, ou pelo menos à tentativa de satisfação, não será também o caminho mais difícil para ti? Mesmo apresentando os melhores resultados, isso implicará ser a melhor escolha? Acho que não. Para começar, só conseguirias um controle a cem por cento se a vigiasses vinte e quatro horas por dia, e isso é impossível. Assim, será sempre uma fonte de stress, de desconfiança. Acho que deve ser horrível ela ir, por exemplo, ao cabeleireiro e tu ficares a matutar se ela lá terá ido mesmo. Acho que o método do controle só te causa preocupações, enquanto que se confiasses nela e no facto das carências dela estarem minimamente satisfeitas; digo minimamente porque também não acredito que ela vá procurar outra pessoa só porque não lhe deste um abraço e um sorriso quando chegaste a casa ou porque não lhe telefonaste durante o dia, acho que para correres esse risco é porque realmente existe um padrão de comportamento que não a faz feliz; viverias muito mais tranquila e descontraidamente.
- É impossível fazê-la feliz!!! Ouviste alguma coisa do que te disse? É uma missão impossível! A única solução é proteger-me e não lhe dar abébias. Controle!
- Só tu é que podes fazer essa opção, mas pensa quão mais tranquila seria a tua vida sem esse medo? Quão mais feliz serias sem esse fantasma? Acho até que se conseguirias ser tão mais feliz que até poderia voltar o ímpeto de a mimar. Quem sabe não é esse o segredo para reatar a paixão. Tenho a certeza que pelo menos terias mais energia para colmatar as carências dela e resolver os problemas dentro da relação, se não gastasses tanta a tentar envolver a relação numa redoma para a proteger das ameaças externas. Em suma, a melhor maneira de proteger a relação é resolver os problemas internos. E quando digo resolver, não me refiro a tratamento sintomático, em que apenas consegues, pelo menos aparentemente, resolver os sintomas, a manifestação do problema, sem resolver a sua origem. O que tu tens que resolver é o cerne da questão, aquilo que te obriga a esse controle. Resolvendo a origem do problema já não precisas que despender tanta energia a controlá-la. Acho mesmo que seriam ambos muito mais felizes.
- E tu a dares-lhe… A origem do problema não tem solução! Se eu começar a dar-lhe mimos ela vai sempre achar que são poucos. Nunca vou conseguir dar-lhe atenção suficiente de forma a satisfazê-la. Não me chateies mais com esse assunto, não há volta a dar. Rédea curta! Não vou também ser presunçoso ao ponto de achar que é a minha visão das coisas que está certa, mas está! É a única maneira.
- Tudo bem, fecha-se aqui o assunto. Não te chateio mais, mas faz-me confusão como é que se consegue viver assim.
- Daqui a uns anos voltamos a falar nisto.
- Parece-me uma opinião algo radical. Aceito que haja pessoas, não apenas mulheres, que não são de confiança, mas a generalização é habitualmente, um erro.
- Tu és muito ingénuo! Não conheces o animal mulher. Elas não são frágeis como querem que pareça, são manipuladoras!
- O teu discurso parece saído da idade das trevas! Essa conversa de as mulheres serem perversas, a verdadeira personificação do demónio já está, felizmente, ultrapassada.
- Ouve bem o que te digo, se dás muita liberdade à tua mulher, mais tarde ou mais cedo ela vai cruzar-se com um gajo que engraça com ela e que tem a energia que tu tinhas antes, que lhe dá certos mimos que tu já não tens pachorra para lhe dar e ela vai borrifar-se para ti. Todo o amor que ela apregoava por ti se esfuma. E ainda por cima são estúpidas demais para perceberem que passado algum tempo, pouco tempo, vão estar na mesma situação que estavam antes, ou pior.
- Então… mas… quer dizer então que a culpa não será, pelo menos inteiramente dela. Se não deixasses de ter pachorra para lhe dar os mimos que ela precisa, provavelmente ela já não se deixava ir na cantiga do outro.
- Elas querem sempre mais do que têm! Até podes ser o Sr. Perfeito que ela vai ter sempre alguma queixa. Nunca nada que tu faças é suficiente para satisfazer uma mulher. Além do mais, é perfeitamente natural a relação esmorecer com o tempo.
- Se esmorece, se calhar é porque o sentimento mudou. Se deixas de te sentir impelido a mimá-la, a fazê-la feliz, se calhar é porque afinal não a amas como achavas que amavas e aí, acho que se calhar mais vale enfrentar a realidade e, por muito complicado e assustador que isso possa parecer, terminar a relação.
- Eu não deixei de gostar da minha mulher. Pode ter passado aquela paixão do início, mas eu amo-a!
- Parece que estás a dizer isso a ti próprio, e até compreendo que queiras mesmo acreditar nisso, mas se quando estás com ela, já não surge em ti qualquer impulso que te puxe para ela. Quando já não tens motivação para a fazer feliz e se calhar até já tens alguma para a fazer infeliz, isso já não se pode chamar amor. Já é uma questão de conforto e habituação. Se calhar até de medo da mudança.
- Não me passa pela cabeça deixar a minha mulher, perder tudo o que construímos juntos. Não a quero perder! Também não consigo andar, falsamente e por obrigação, sempre agarrado a ela como dantes. Acho que era uma hipocrisia passar a vida a fingir, fazer-lhe um mimo só por obrigação quando isso não surge espontaneamente.
- Lá está, se não surge de forma espontânea, se calhar já não estás lá a fazer nada. Se calhar mais vale libertá-la para que ela possa procurar o que precisa. Para que possa colmatar as suas carências. Claro que isso para ti é inconcebível, mas já se está fora de questão deixá-la, assim como dar-lhe o que ela precisa, acho que a única solução seria fechar os olhos e deixá-la resolver as suas carências como achar.
- Como é que com tanta inteligência consegues ser tão estúpido? Isso era mais que meio caminho andado para ela me dar com os pés! Não inventes, o que eu tenho que fazer é controlá-la, não é tentar satisfazê-la.
- É a tua opinião, a tua visão das coisas. Não vou ter a presunção de que é obrigatoriamente a minha visão que está certa e a tua errada, mas definitivamente discordo. Mas mesmo que tenhas razão, que o caminho que apresenta melhores resultados seja o controle, face à satisfação, ou pelo menos à tentativa de satisfação, não será também o caminho mais difícil para ti? Mesmo apresentando os melhores resultados, isso implicará ser a melhor escolha? Acho que não. Para começar, só conseguirias um controle a cem por cento se a vigiasses vinte e quatro horas por dia, e isso é impossível. Assim, será sempre uma fonte de stress, de desconfiança. Acho que deve ser horrível ela ir, por exemplo, ao cabeleireiro e tu ficares a matutar se ela lá terá ido mesmo. Acho que o método do controle só te causa preocupações, enquanto que se confiasses nela e no facto das carências dela estarem minimamente satisfeitas; digo minimamente porque também não acredito que ela vá procurar outra pessoa só porque não lhe deste um abraço e um sorriso quando chegaste a casa ou porque não lhe telefonaste durante o dia, acho que para correres esse risco é porque realmente existe um padrão de comportamento que não a faz feliz; viverias muito mais tranquila e descontraidamente.
- É impossível fazê-la feliz!!! Ouviste alguma coisa do que te disse? É uma missão impossível! A única solução é proteger-me e não lhe dar abébias. Controle!
- Só tu é que podes fazer essa opção, mas pensa quão mais tranquila seria a tua vida sem esse medo? Quão mais feliz serias sem esse fantasma? Acho até que se conseguirias ser tão mais feliz que até poderia voltar o ímpeto de a mimar. Quem sabe não é esse o segredo para reatar a paixão. Tenho a certeza que pelo menos terias mais energia para colmatar as carências dela e resolver os problemas dentro da relação, se não gastasses tanta a tentar envolver a relação numa redoma para a proteger das ameaças externas. Em suma, a melhor maneira de proteger a relação é resolver os problemas internos. E quando digo resolver, não me refiro a tratamento sintomático, em que apenas consegues, pelo menos aparentemente, resolver os sintomas, a manifestação do problema, sem resolver a sua origem. O que tu tens que resolver é o cerne da questão, aquilo que te obriga a esse controle. Resolvendo a origem do problema já não precisas que despender tanta energia a controlá-la. Acho mesmo que seriam ambos muito mais felizes.
- E tu a dares-lhe… A origem do problema não tem solução! Se eu começar a dar-lhe mimos ela vai sempre achar que são poucos. Nunca vou conseguir dar-lhe atenção suficiente de forma a satisfazê-la. Não me chateies mais com esse assunto, não há volta a dar. Rédea curta! Não vou também ser presunçoso ao ponto de achar que é a minha visão das coisas que está certa, mas está! É a única maneira.
- Tudo bem, fecha-se aqui o assunto. Não te chateio mais, mas faz-me confusão como é que se consegue viver assim.
- Daqui a uns anos voltamos a falar nisto.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
2º Aniversário
Por ocasião do segundo aniversário da Tertúlia dos Néscios, deixo algumas estatísticas das visitas durante o ano de 2006 e desde o princípio de 2007.


Estamos portanto com uma média de cerca de 30 visitas diárias, sendo notório um pico às quintas e sextas feiras.
Ah, e o nosso record diário é de 84 visitas e 799 page views, no dia 15 de Dezembro de 2006 :)
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Radares
“Desde que a CML montou os sensores registaram-se em apenas duas horas 1372 condutores em excesso de velocidade. A velocidade média na Radial de Benfica foi de 110km/h sendo raro encontrar um veículo a circular dentro dos limites impostos.”
Poderá ser que a razão esteja do lado dos automobilistas? Não serão os limites de velocidade em algumas zonas algo restritivos demais? Eu sei como são as nossas estradas, mas dada a evolução da segurança dos automóveis, acho que faria sentido rever estes valores estabelecidos há já tanto tempo e verdadeiramente ridículos em alguns casos. Mas claro que não interessa ao estado perder uma fonte de receitas...
Poderá ser que a razão esteja do lado dos automobilistas? Não serão os limites de velocidade em algumas zonas algo restritivos demais? Eu sei como são as nossas estradas, mas dada a evolução da segurança dos automóveis, acho que faria sentido rever estes valores estabelecidos há já tanto tempo e verdadeiramente ridículos em alguns casos. Mas claro que não interessa ao estado perder uma fonte de receitas...
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Cópias de CDs
Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos
Artigo 81º - Outras utilizações
É consentida a reprodução:
a) Em exemplar único, para fins de interesses exclusivamente científico ou humanitário, de obras ainda não disponíveis no comércio ou de obtenção impossível, pelo tempo necessário à sua utilização;
b) Para uso exclusivamente privado, desde que não atinja a exploração normal da obra e não cause prejuízo injustificado dos interesses legítimos do autor, não podendo ser utilizada para quaisquer fins de comunicação pública ou comercialização.
https://ciist.ist.utl.pt/docs_da/codigo_direito_autor_republicado.pdf
Quem é que disse que a Tertúlia dos Néscios® não é um espaço de divulgação e interesse informativo?
Artigo 81º - Outras utilizações
É consentida a reprodução:
a) Em exemplar único, para fins de interesses exclusivamente científico ou humanitário, de obras ainda não disponíveis no comércio ou de obtenção impossível, pelo tempo necessário à sua utilização;
b) Para uso exclusivamente privado, desde que não atinja a exploração normal da obra e não cause prejuízo injustificado dos interesses legítimos do autor, não podendo ser utilizada para quaisquer fins de comunicação pública ou comercialização.
https://ciist.ist.utl.pt/docs_da/codigo_direito_autor_republicado.pdf
Quem é que disse que a Tertúlia dos Néscios® não é um espaço de divulgação e interesse informativo?
Se...
Se o meu amor me abraçasse
Talvez o tempo parasse
Talvez o espaço ficasse
Maior
Se o meu amor me beijasse
Talvez até o mundo brilhasse
E talvez o dia ficasse
Melhor
Se o meu amor me sorrisse
Talvez o meu peito se abrisse
E, quem sabe, de lá saísse
Fulgor
Se o meu amor me quisesse
Nem sei se isso acontece
Às vezes nem sequer parece
Amor
Talvez o tempo parasse
Talvez o espaço ficasse
Maior
Se o meu amor me beijasse
Talvez até o mundo brilhasse
E talvez o dia ficasse
Melhor
Se o meu amor me sorrisse
Talvez o meu peito se abrisse
E, quem sabe, de lá saísse
Fulgor
Se o meu amor me quisesse
Nem sei se isso acontece
Às vezes nem sequer parece
Amor
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Monólogo
- Porque é que saber coisas inúteis é assim tão bom?
- Hã?
- Porque é que ser-se culto há-de ser o certo? Porque é que a opção de se ser deliberadamente ignorante é, de forma geral, considerada errada?
- Er...
- Acho que não devia ser menos considerado que qualquer outra pessoa só porque optei por não perder tempo com aquilo que é vulgarmente designado por cultura.
- Sabes, isso até faria sentido se não fosses tão burro!
- Hã?
- Porque é que ser-se culto há-de ser o certo? Porque é que a opção de se ser deliberadamente ignorante é, de forma geral, considerada errada?
- Er...
- Acho que não devia ser menos considerado que qualquer outra pessoa só porque optei por não perder tempo com aquilo que é vulgarmente designado por cultura.
- Sabes, isso até faria sentido se não fosses tão burro!
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
Outra vez a merda do aborto...
Há pelo menos duas coisas que me chateiam neste assunto, e nem sequer vou falar no facto desta lei ser uma hipocrisia, que é. Uma delas é a lei em si. Se a lei considera que aquele conjunto de células é um ser humano, se há premeditação e intenção, porque é que o aborto não é tratado como um homicídio qualificado? Mas se calhar a lei não é assim tão “religiosa”. Outra coisa que me chateia, e muito, é o facto dos senhores do “não” acharem que toda a gente tem que se reger pela sua visão das coisas. Ninguém lhes vai obrigar a fazer abortos se a despenalização for avante! Porque é que hão-de querer impor a sua opinião aos outros? Eu vou votar “sim” e não tem absolutamente nada a ver com a minha posição em relação ao aborto. Vou votar assim porque acho que é uma questão na qual cada um deve agir segundo a sua consciência, quem é contra pode continuar a ser contra e quem precisa já não tem que ir a Espanha ou a um vão de escada qualquer. Será que a gente do “não” não compreende que não evita nenhum aborto? E mesmo que evitasse não estaria só a contribuir para que existissem ainda mais crianças indesejadas e desacompanhadas por este nosso país? Será que não era melhor abortar em vez de matar os filhos por anos de negligência e maus-tratos? Senhores do “não”, já vimos do que certos pais são capazes. Isto leva-me a crer que estes senhores que defendem o “não”, são pessoas que não estão preocupadas com o bem-estar dos outros, nem sequer com a defesa da vida, mas sim em impor a sua noção de certo e errado a toda a gente.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
Diálogos
- Faz-me confusão que, tendo tu já mais de trinta anos, os teus pais não saibam que fumas.
- Já reparaste que, quando passas muito tempo com uma pessoa, é como se ela deixasse de ter corpo? Deixa de ser bonita ou feia, gorda ou magra; passa a ser apenas aquela pessoa. Deixamos até de perceber diferenças físicas.
- Porque é que fazes isso? Decorre um momento de silêncio em que estamos com os nossos pensamentos e, quando eu digo alguma coisa, tu ages como se eu não tivesse falado e dizes outra coisa qualquer. Eu sei que deve ser na sequência do que estavas a pensar, mas não é simpático ignorares totalmente o que eu disse.
- Desculpa, é completamente instintivo. Mas eu ouvi o que disseste, sobre os meus pais não saberem que eu fumo. Acho que já passei a idade de lhes dizer.
- É verdade, quando te habituas a ver uma pessoa, ela deve passar para outra região qualquer da memória. Mesmo que inicialmente aches seja bonita ou feia, acabas por deixar de perceber isso bem. É aquela pessoa e pronto, o aspecto físico deixa de ter significado.
- Outra coisa é o toque. Não sei se sentes isso, mas a sensação das primeiras vezes que cumprimentas uma pessoa com contacto físico, um aperto de mão ou um beijinho, muda com a frequência do contacto. Acho que no limite, será como se fosses tu próprio a tocar-te. A minha teoria é que para um casal que já esteja junto há várias décadas, a sensação do toque do outro será a mesma do próprio.
- Acho que nunca passa a idade de se ser sincero. E a verdade é que eles são bem capazes de já saber, ou pelo menos desconfiar.
- Pois, isso é capaz de ser tudo verdade, mas tu nunca mais vais ter a sensação de fumar um cigarro às escondidas.
- Eu acho que cada pessoa tem algo como uma assinatura energética única que é minimamente perceptível ao toque. E sim, acho que é um fenómeno semelhante. Quando te habituas à assinatura energética de uma pessoa começas a senti-la menos.
- Acho que faz bastante sentido.
- Pois é... Nunca mais...
- ...
- ...
- Já reparaste que, quando passas muito tempo com uma pessoa, é como se ela deixasse de ter corpo? Deixa de ser bonita ou feia, gorda ou magra; passa a ser apenas aquela pessoa. Deixamos até de perceber diferenças físicas.
- Porque é que fazes isso? Decorre um momento de silêncio em que estamos com os nossos pensamentos e, quando eu digo alguma coisa, tu ages como se eu não tivesse falado e dizes outra coisa qualquer. Eu sei que deve ser na sequência do que estavas a pensar, mas não é simpático ignorares totalmente o que eu disse.
- Desculpa, é completamente instintivo. Mas eu ouvi o que disseste, sobre os meus pais não saberem que eu fumo. Acho que já passei a idade de lhes dizer.
- É verdade, quando te habituas a ver uma pessoa, ela deve passar para outra região qualquer da memória. Mesmo que inicialmente aches seja bonita ou feia, acabas por deixar de perceber isso bem. É aquela pessoa e pronto, o aspecto físico deixa de ter significado.
- Outra coisa é o toque. Não sei se sentes isso, mas a sensação das primeiras vezes que cumprimentas uma pessoa com contacto físico, um aperto de mão ou um beijinho, muda com a frequência do contacto. Acho que no limite, será como se fosses tu próprio a tocar-te. A minha teoria é que para um casal que já esteja junto há várias décadas, a sensação do toque do outro será a mesma do próprio.
- Acho que nunca passa a idade de se ser sincero. E a verdade é que eles são bem capazes de já saber, ou pelo menos desconfiar.
- Pois, isso é capaz de ser tudo verdade, mas tu nunca mais vais ter a sensação de fumar um cigarro às escondidas.
- Eu acho que cada pessoa tem algo como uma assinatura energética única que é minimamente perceptível ao toque. E sim, acho que é um fenómeno semelhante. Quando te habituas à assinatura energética de uma pessoa começas a senti-la menos.
- Acho que faz bastante sentido.
- Pois é... Nunca mais...
- ...
- ...
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Vida
Barco à deriva,
Ao sabor das ondas,
À mercê dos ventos,
Entregue às correntes.
O barqueiro invoca todas as suas forças,
Estoicamente, agarra-se ao leme,
Mas é uma minúscula embarcação.
Que pode ela fazer contra a força dos elementos?
Que pode o barqueiro fazer?
Contra os demónios que o atormentam,
Contra os pensamentos que não o largam,
Contra as emoções que o arrebatam.
Fará o que pode,
Confiará na boa vontade dos gigantes.
Continuará agarrado ao leme.
Qualquer que seja a costa,
Qualquer que seja o porto,
A que os ventos o entreguem,
Render-se-á a seu talante,
Apenas pode tentar,
Tentar não naufragar.
Ao sabor das ondas,
À mercê dos ventos,
Entregue às correntes.
O barqueiro invoca todas as suas forças,
Estoicamente, agarra-se ao leme,
Mas é uma minúscula embarcação.
Que pode ela fazer contra a força dos elementos?
Que pode o barqueiro fazer?
Contra os demónios que o atormentam,
Contra os pensamentos que não o largam,
Contra as emoções que o arrebatam.
Fará o que pode,
Confiará na boa vontade dos gigantes.
Continuará agarrado ao leme.
Qualquer que seja a costa,
Qualquer que seja o porto,
A que os ventos o entreguem,
Render-se-á a seu talante,
Apenas pode tentar,
Tentar não naufragar.
sábado, 16 de dezembro de 2006
Diálogo
- Estás a dormir?
- ...
- Estás, não estás?
- ...
- Não faz mal, é quando consigo falar melhor contigo. Gosto muito de ter estes momentos para falar contigo. Acho que conseguimos mesmo estabelecer uma ligação, um entendimento.
- ...
- É isso. Sabes, tenho andado um bocado farto de tudo. Não ando deprimido nem nada, só um bocado desanimado. E já sei o que estás a pensar, ficas logo a pensar que já não te amo ou qualquer coisa assim. Não é nada disso, acho que, apesar das nossas divergências, conseguimos fazer a coisa resultar e estou muito satisfeito com o que construímos. O que me apetecia era mudar de vida, mudarmo-nos para outro sítio, para o campo, talvez...
- ...
- Eu sei, eu sei, tens muito medo das mudanças, mas eu preciso tanto delas, não consigo aguentar muito tempo a ter dias sempre todos iguais, ano após ano. E além do mais, estamos na era da comunicação. Ir viver para outra cidade, ou até mesmo para outro país, não é a o que era. Agora é muito fácil manter o contacto com as pessoas de quem gostamos. A província... apetecia-me mesmo deixar a cidade. Ir viver para uma aldeiazita recôndita num canto qualquer lá para o Norte. Viver da terra e tal.
- ...
- Não precisas de dizer, eu sei que iamos sentir falta dos concertos, da cultura, do cais... mas podíamos sempre vir passar um fim-de-semana ou umas férias a Lisboa. Já imaginaste? A paz, as estrelas, os grilos, o ar puro... o verde... Acho que não sentiria falta de nenhuma comodidade, cada vez estou mais desligado delas. Aliás, tenho a certeza que iamos chegar à conclusão de que não precisamos da grande maioria das coisas sem as quais achamos que não conseguiriamos viver felizes.
- ...
- Pelo menos não estás já a arranjar argumentos sem sentido, é uma das razões que faz com que seja muito mais fácil falar contigo nestas circunstâncias, parece que entendes melhor as coisas, que a conversa é muito menos tortuosa. Pelo menos não vens logo com as tuas ideias preconcebidas e os teus estereotipos, com a tua mania de que o mundo tem que ser exactamente aquilo que o teu discernimento te permite inferir dele. E fico muito contente por não estares já a destruir a minha ideia. Até acho mesmo que, já que não te estás a opor, devíamos vender a casa e comprar um terreno na província. Plantarmos a nossa horta, tudo biológico, claro, até podíamos ter uma cabra para dar leite...
- ...
- Já nos estou a imaginar, a passar os serões envolvidos pelos cheiros da natureza, ver a Lua aparecer por detrás do monte, com os cães e os gatos à nossa volta. Eu podia escrever, tu podias fazer aquelas esculturas horríveis e inúteis que tanto gostas de fazer, e a vida seria boa. Não é um belo pensamento?
- ...
- Nem imaginas como fico contente por não discordares. Está decidido então, amanhã pomos a casa à venda e vou começar a procurar um terreno com uma casita para comprarmos. Agora só espero que amanhã não me venhas com as tuas mudanças de opinião da noite para o dia!
- ...
- Estás, não estás?
- ...
- Não faz mal, é quando consigo falar melhor contigo. Gosto muito de ter estes momentos para falar contigo. Acho que conseguimos mesmo estabelecer uma ligação, um entendimento.
- ...
- É isso. Sabes, tenho andado um bocado farto de tudo. Não ando deprimido nem nada, só um bocado desanimado. E já sei o que estás a pensar, ficas logo a pensar que já não te amo ou qualquer coisa assim. Não é nada disso, acho que, apesar das nossas divergências, conseguimos fazer a coisa resultar e estou muito satisfeito com o que construímos. O que me apetecia era mudar de vida, mudarmo-nos para outro sítio, para o campo, talvez...
- ...
- Eu sei, eu sei, tens muito medo das mudanças, mas eu preciso tanto delas, não consigo aguentar muito tempo a ter dias sempre todos iguais, ano após ano. E além do mais, estamos na era da comunicação. Ir viver para outra cidade, ou até mesmo para outro país, não é a o que era. Agora é muito fácil manter o contacto com as pessoas de quem gostamos. A província... apetecia-me mesmo deixar a cidade. Ir viver para uma aldeiazita recôndita num canto qualquer lá para o Norte. Viver da terra e tal.
- ...
- Não precisas de dizer, eu sei que iamos sentir falta dos concertos, da cultura, do cais... mas podíamos sempre vir passar um fim-de-semana ou umas férias a Lisboa. Já imaginaste? A paz, as estrelas, os grilos, o ar puro... o verde... Acho que não sentiria falta de nenhuma comodidade, cada vez estou mais desligado delas. Aliás, tenho a certeza que iamos chegar à conclusão de que não precisamos da grande maioria das coisas sem as quais achamos que não conseguiriamos viver felizes.
- ...
- Pelo menos não estás já a arranjar argumentos sem sentido, é uma das razões que faz com que seja muito mais fácil falar contigo nestas circunstâncias, parece que entendes melhor as coisas, que a conversa é muito menos tortuosa. Pelo menos não vens logo com as tuas ideias preconcebidas e os teus estereotipos, com a tua mania de que o mundo tem que ser exactamente aquilo que o teu discernimento te permite inferir dele. E fico muito contente por não estares já a destruir a minha ideia. Até acho mesmo que, já que não te estás a opor, devíamos vender a casa e comprar um terreno na província. Plantarmos a nossa horta, tudo biológico, claro, até podíamos ter uma cabra para dar leite...
- ...
- Já nos estou a imaginar, a passar os serões envolvidos pelos cheiros da natureza, ver a Lua aparecer por detrás do monte, com os cães e os gatos à nossa volta. Eu podia escrever, tu podias fazer aquelas esculturas horríveis e inúteis que tanto gostas de fazer, e a vida seria boa. Não é um belo pensamento?
- ...
- Nem imaginas como fico contente por não discordares. Está decidido então, amanhã pomos a casa à venda e vou começar a procurar um terreno com uma casita para comprarmos. Agora só espero que amanhã não me venhas com as tuas mudanças de opinião da noite para o dia!
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