segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Dia 3
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Dia 2
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Dia 1
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Estrada
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Optimismo
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Viver
O Gervásio tinha sempre muito medo de ser mal interpretado. Às vezes apetecia-lhe mandar uma daquelas bocas cáusticas, mas tinha medo que o levassem a sério.
Um dia, o Gervásio ponderou que a sua preocupação em não ser mal interpretado o estaria a impedir de ser genuíno, de ser ele próprio.
Pensou que não poderia viver sempre em função dos outros e que se condicionasse sempre as suas acções pelo impacto que teriam nos demais, não seria ele, mas sim uma imagem daquilo que achava que os outros queriam que ele fosse.
Então, o Gervásio decidiu mudar. Começou a mandar todos os amigos para o caralho sempre que lhe apetecia, mesmo aqueles que sabia mais sensíveis e viveu feliz para sempre. Quero dizer... mais ou menos feliz... Houve uns amigos que levaram algumas coisas a mal, talvez tivesse a ver com a sua insegurança, talvez não, mas houve com efeito alguns amigos que decidiram interpretar de má fé a genuinidade do Gervásio e a coisa não correu muito bem, mas, tirando isso, viveu feliz para sempre, minimamente feliz, pelo menos, porque depois há o problema das mulheres. Podemos achar que elas estão horríveis e, engolindo em seco, dizer que estão lindas. Mas achar que estão lindas e, apenas pelo impulso idiota da palhaçada, dizer que estão horríveis, não, isso é erro crasso e energúmeno.
Por coisas deste tipo, o Gervásio nunca conseguiu ter sucesso com as mulheres, mas viveu, vá, mediocremente feliz para sempre, se não contarmos a sua inata capacidade de irritar animais de estimação... Nem as outras questões sociais, mas pronto, viveu... Não foi obviamente para sempre, até porque a saúde o traiu algo cedo, mas pronto, viveu... E isso é que interessa!!
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Comida
– Ó Maria, este jantar hoje está muito fraco. O que é que se passa?
– Não se passa nada. Uns dias está melhor, outros está pior. É só comida. Come, mas é.
– Só comida? Só comida?! Tu não digas isso, por favor. A comida é só a tua matéria-prima. Tu és uma artista, cada prato é uma obra de arte digerível! Tu pegas em coisas vulgares, juntas-lhe técnica, inspiração, criatividade… Alma, juntas-lhe a tua alma e crias algo novo, algo que não existia antes. Crias uma representação comestível daquilo que tu és. Não voltes a dizer que é só comida!
– Obrigado, Manuel, sabe muito bem ouvir isso e saber que dás valor.
– Claro que dou valor!
– Queres mais banha nos teus couratos?
– Sim, se fazes favor.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
REM
Estou no corredor de um edifício familiar, a fumar um cigarro junto de um cinzeiro de chão. Noto que as pessoas que passam olham muito para mim, mas não ligo e continuo a fumar tranquilamente. Quando vou para apagar o cigarro, olho para baixo e reparo que estou nu da cintura parar baixo. Aí começa a ansiedade. Embora quem passa não pareça incomodar-se muito com a minha falta de preparos, começo a ficar extremamente desconfortável e envergonhado. Começo a vaguear pelos corredores à procura, sem sucesso e com o stress a aumentar cada vez mais, de um sítio para me esconder. Nisto, vejo-me ao longe. É uma cópia minha, mas ao contrário de mim, está nu da cintura para cima. Não estranho e instantaneamente penso que se me fundir com ele fico totalmente vestido. Corro direito ao meu clone que, assim que se apercebe de mim, como se soubesse em que é que eu estava a pensar, começa também a correr para mim. No momento do impacto fundimo-nos, mas a coisa não corre como eu esperava e, em vez de ficar todo vestido, fico é completamente nu. O stress transforma-se em pânico quando vejo um grupo de pessoas a aproximar-se. Corro para o outro lado e de repente estou num grande salão e gente aproxima-se de todos os lados. Sem rota de fuga, tenho que limitar-me a assistir, impotente, enquanto as pessoas se aproximam e formam uma roda à minha volta. Assim que a roda se fecha, as pessoas param e ficam ali a olhar para mim, rosto rígido, mas com um brilho no olhos divertido e maquiavélico. Sem saber o que fazer, grito a plenos pulmões para que me deixem passar. Pergunto o que querem de mim, mas ninguém responde. Neste momento olho para cima e apercebo-me que o tecto desapareceu. Consigo ver o céu de dentro do edifício e está a relampejar violentamente. Instantes depois, um olho titânico, com gigantescas pestanas aparece onde antes estava o tecto. Quando enormes lágrimas corrosivas começam a jorrar do olho gigante, abrindo buracos no chão, perigosamente perto de mim, já não estou muito preocupado por estar nu, quero é sair dali. A necessidade de fuga torna-se premente. Reúno todas as minhas forças e, correndo tão depressa quanto consigo, vou direito à roda de pessoas que me cerca. Quando estou prestes a abalroar quem está entre mim e a liberdade, ainda tenho um segundo de satisfação achando que vou conseguir e depois acordo, suado e com o coração aos pulos.
Tem sido assim todas as noites há já quase uma semana. O que é que acha que significa, doutor? Doutor?...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
A pedido de diversas famílias...
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Odisseia
É muito, muito ténue, a linha que separa a paixão da obsessão. Tão imperceptível que pode fazer, por exemplo dois velhos marinheiros, eternamente apaixonados pelo mar, acabar as suas vidas de formas bem diferentes. Um, por exemplo, a contar aos netos antigas histórias de viagens e aventuras e outro a dar ordens a um contramestre que, se não é imaginário, é estranhamente parecido com um cabide de pé.
Apesar de parecer que, para este último, as coisas não terão corrido tão bem, isto não é um facto provado já que não há indício que seja infeliz com a sua condição. Há também que reconhecer que representa uma história muito mais interessante. Por isso, vamos esquecer a enfadonha história do velho marinheiro que trocou a sua paixão pelo mar pela paixão por uma mulher e que se entretém hoje a contar aos netinhos as suas aventuras, aumentadas num ponto… ou dois, e vou contar-vos a curiosa e rigorosamente verídica história do segundo marinheiro, que ainda hoje e com os pés em terra firme, sente a brisa marítima na face, enquanto navega ao sabor das ondas.
O nome que os pais lhe tinham dado era Maximiliano Salgueiro, mas esse nome foi há muito esquecido. Depois de ter escolhido dedicar ao mar a sua vida, por altura do seu segundo ano sem pisar terra, alguém começou a chamar-lhe Rabil, que é o nome de uma espécie de atum conhecida por percorrer distâncias titânicas ao longo da sua vida. A alcunha caiu como uma luva e pegou quase instantaneamente. Parecia, de facto, que tinha sido inventada para ele, mas a verdade é que quem lha pôs, o Pichelim, só estava à espera que aparecesse alguém novo para lhe chamar Rabil, numa tentativa de arranjar um outro alvo para a jocosidade da tripulação em relação a alcunhas com uma sonoridade semelhante a partes do corpo. Não resultou. Diria mais, não só não resultou, como, não sei se por uma das conhecidas ironias do destino, passou a ser mais gozado que o Sarda. O Rabil ficou tão satisfeito por finalmente ter um nome que tinha alguma coisa a ver com ele que renunciou completamente o seu nome de baptismo de água benta e fez questão que toda a gente passasse a conhecê-lo apenas pelo seu nome de baptismo de água salgada, o momento do seu renascimento.
A história da sua troca da vida terrestre pelo chamamento do mar será semelhante a qualquer outra: um rapaz quer sair do marasmo, implora ao comandante de um navio para ser contratado por alguma comida e inicia uma estranha e paradoxal aventura, que consegue conjugar a liberdade do vasto mar com a prisão e a semi-escravidão de um navio. Mas, só pode ter sido o destino que o fez calhar naquela embarcação em particular, a Tétis, referida por todos sempre no feminino não só por ter o nome de uma Nereida, mas também porque era unânime na tripulação que a embarcação tinha definitivamente uma alma feminina. Oficialmente era um navio mercante, mas o seu comandante não gostava de ter rotas demasiado rígidas, pelo que no fundo existiam a vaguear pelos mares, pagando o rum e as conservas com a pilhagem do ocasional navio que encontravam à deriva por a tripulação ter toda morrido de alguma epidemia ou de algum incauto barco que tivesse o infortúnio de passar por perto e não desse muito trabalho nem fizesse muito alarido atacar.
Era o navio perfeito para o Rabil e ele sentiu-o. Não sei se já tinha esse plano ou se foi algo que aconteceu naturalmente, a verdade é que, desde que embarcou na Tétis mais ninguém o viu em terra. Ficava sempre na embarcação quando esta aportava. Dizia que lhe causava enjoos estar em terra firme, que não havia lá nada que lhe interessasse, que se despachassem porque estavam a perder os bons ventos ou as boas correntes ou o que fosse. O que ele queria era navegar. Esta particularidade começou a torná-lo conhecido e rapidamente captou a atenção do comandante, também ele um apaixonado/obcecado pelo mar, e começaram a conversar cada vez mais. O jovem Rabil, de olhos arregalados, sorvia as histórias do comandante como se fossem mel e este, satisfeito por ter alguém com quem as partilhar, enfatizava-as com entusiasmo. Havia, no entanto, outro motivo. Um motivo oculto mas inofensivo que aproximava o comandante do Rabil: curiosidade. Intrigava-o que o rapaz não quisesse ir a terra. Até a ele próprio, que era provavelmente a pessoa mais ligada ao mar que conhecia, lhe sabia bem pisar terra firme depois de meses no mar. Mais não fosse para visitar um bordel, onde entre outras coisas aliciantes, podia pousar tranquilamente a caneca na mesa sem receio que aquela deslizasse. Passado pouco tempo, o comandante admitiu para si próprio que a única explicação seria que o Rabil tinha uma alma feita de mar. Que era algo como a encarnação do espírito de uma qualquer divindade marítima. Era pelo menos indiscutível que tinha nascido para aquilo, para navegar. Era, sem dúvida, mais apaixonado pelo mar que qualquer outra pessoa e passou a respeitá-lo ainda mais por isso.
Com o passar dos anos, a sua relação tornou-se muito próxima da de pai e filho e o Rabil começou a ser declaradamente o protegido do comandante. Tirando algumas excepções que, por serem excepções não conseguiram influenciar o ambiente geral da tripulação, todos aprovaram e compreenderam o favoritismo. Era notório que aqueles dois tinham mais em comum do que quaisquer outras duas pessoas naquele navio. Além disso, o carisma e sentido de humor naturais do Rabil faziam com que fosse difícil não gostar dele e toda a gente percebia o bem que fazia à moral geral do grupo que, naturalmente, é um ponto de extrema importância quando se está preso numa embarcação e se tem forçosamente que trabalhar em equipa.
Os anos foram passando e a vida do mar, que começava a marcar com suaves linhas os cantos dos olhos do jovem Rabil, foi ficando cada vez mais profundamente gravada nos sulcos do rosto do velho comandante.
– Sabes? – Disse-lhe o comandante uma noite, depois de uma generosa quantidade de rum ingerida. – Tenho andado a ouvir uma sereia a chamar-me. Ando a pensar que se calhar está na altura de ir ter com ela.
– Uma sereia? Também quero! – Respondeu o Rabil ebriamente divertido. Ainda não aguentava o rum como o velho.
Quando no fim da frase, ao olhar para o seu mentor, se apercebeu do seu ar sério, endireitou-se muito depressa na cadeira, como se num instante lhe tivesse passado a bebedeira.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou o Rabil com a expressão mais grave que alguém alguma vez viu no seu rosto.
– Sabes como esta vida estraga. Estou a desmanchar-me por dentro. – Disse o comandante com um suspiro. – Tive a vida que quis ter e estou satisfeito com isso, mas não quero ir morrer a terra. E de que serve a um navio um comandante que já não consegue comandar?
Era verdade que qualquer pessoa que visse o comandante se questionaria como estaria ainda vivo, já que tinha a aparência do cadáver de um afogado, deixado ficar à deriva nas marés, inchado e purulento. A sua boca, se pudesse ter sido preservada até aos nossos dias, proporcionaria anos de estudo a um departamento de investigação do escorbuto. No entanto, para o Rabil e para o resto da tripulação era o seu comandante, simplesmente o seu comandante. Todos assistiram à sua lenta decadência de forma gradual. As suas mentes tiveram a possibilidade de se adaptar à mudança de forma natural sem que isso causasse o choque normal que qualquer pessoa teria ao ver o velho pela primeira vez naquele estado.
– Não estou a gostar nada desta conversa… – Disse, apreensivo, o Rabil.
– Tu serás o novo comandante da Tétis! – Exclamou, tentando dar alguma solenidade à frase.
– A Tétis tem um comandante e vai tê-lo por muito tempo.
– Compreende, meu rapaz, isto não é uma escolha minha. Não tenho outra opção.
O Rabil limitou-se a fitar o velho, a encaixar a dura realidade.
– E não é tarde nem é cedo! – Disse o velho comandante antes de emborcar de uma vez o restante conteúdo da garrafa.
Levantou-se sofridamente e, cambaleante, dirigiu-se à porta do camarote levando o Rabil por um braço.
– Animais, a partir deste momento, este é o vosso novo comandante! – Disse com a voz arrastada da bebedeira. Se alguém tem alguma coisa contra, que se chegue à frente para que eu o possa enforcar na retranca com uma malagueta enfiada no cu.
Ninguém se chegou à frente. Era mais que óbvio que o monte de pústulas com fedor a álcool e fluidos corporais em que o comandante se tinha tornado não era capaz de enforcar um rato, muito menos tão bêbedo como estava que, se não estivesse ainda agarrado ao braço do Rabil, já teria certamente caído. Além disso, toda a gente sabia, desde o comandante até ao corcunda coxo e imbecil que conseguiu convencer o comandante a “salvá-lo” de uma vida de mendigagem alegando que dava jeito ter alguém que limpasse o vómito do convés, originando a criação do posto de limpador de vómito até aí inexistente na tripulação (parecia estúpido, mas a verdade é que já ninguém tinha que se dar ao trabalho de ir a correr vomitar borda fora e podia apenas deixar-se tranquilamente adormecer na poça da sua imundice que o Corcoxo, alcunha que ganhou nos primeiros segundos na embarcação, até se dava ao requinte de limpar os pedaços que ficassem na barba com uma espinha de badejo que tinha adaptado para o efeito) que seria impossível impor à tripulação da Tétis um comandante que não fosse respeitado para tal, por muitos enforcamentos e inserções de objectos em orifícios que ocorressem (e as malaguetas, além de não chegarem para todos, eram precisas para amarrar os cabos). Apesar de todo o teatro, era claro para todos que a única razão pela qual ninguém se chegou à frente era porque toda a tripulação sabia que o Rabil era a única pessoa que poderia substituir o seu velho comandante.
- Foi uma honra navegar com todos vocês, menos contigo Corcoxo, obviamente. Não deixam de ser um punhado de vermes, mas são o punhado de vermes com mais espírito que conheci em toda a minha vida. Amanhã podes ocupar o meu camarote. – Terminou, dirigindo-se ao Rabil e voltou para o seu camarote agarrado aos barris e ao que mais o conseguisse ajudar a manter-se de pé.
No dia seguinte, quando o Rabil entrou no seu novo camarote ficou literalmente de queixo caído. Tudo estava limpo e arrumado e não havia vestígios do comandante. Nunca mais seria visto. O seu misterioso desaparecimento criou uma espécie de mito de que o comandante teria feito um pacto com Nereu e dedicado a sua alma ao mar. Curiosamente, de uma forma natural, isto deu à tripulação a sensação de que o seu navio estava protegido por uma qualquer força divina. O mito ficou tão enraizado que, para se entreter ao serão com algo mais que o rum, a tripulação inventava histórias sobre a nova vida do seu antigo comandante como uma excitada semidivindade a perseguir lascivamente as oceânides. As suas aventuras imaginárias, particularmente as que envolviam Admete e Clítia, ficaram gravadas na atmosfera daquela embarcação e foram contadas por muitos, muitos anos.
Foi assim que o Rabil herdou o comando da Tétis, muito perto do seu décimo sétimo ano sem pisar terra. Embora bastante menos agressivo que o seu antecessor, era também um comandante justo e empático com a sua tripulação, mas não se enganem, não era uma pessoa com quem, como diria a minha avó, se fizesse farinha. Ainda hoje se deve contar a história da viagem em que um infeliz não gostou de ter sido repreendido e tentou aliciar a tripulação a amotinar-se. Os seus testículos estiveram meses pregados no mastro até terem sido comidos pelas gaivotas quando a embarcação se aproximou de terra.
O espírito a bordo da Tétis manteve-se por muitos anos e o Rabil nunca se sentiu infeliz por ter trocado a sua família por um punhado de biltres fedorentos e mal-educados nem por ter trocado os seus amigos pelas ondas. Nunca se arrependeu de conhecer mais correntes que pessoas nem de se ter deitado com mais ventos que mulheres. A única diferença é que passavam cada vez menos tempo aportados e, quando chegou ao ponto deste tempo se resumir ao apenas necessário para recarregar o navio com mantimentos e rum, a tripulação começou a ficar descontente com a situação. Conforme os anos se transformavam em décadas, a cada aportada da Tétis a tripulação diminuía um pouco e foi com o coração apertado que, na última vez que a Tétis foi vista num porto, os últimos resistentes, impotentes para convencer o Rabil a ir a terra algum tempo e tentar refazer a tripulação, ficaram a vê-la afastar-se lentamente, tripulada apenas pelo seu comandante.
Diz-se que passaram mais de trinta anos até um navio militar encontrar a Tétis em alto mar, aparentemente à deriva e descobrir nela um velho tresloucado e esquálido a dar ordens a fantasmas. À força e não sem alguma insensibilidade, lá conseguiram separar o desgastado Rabil da sua velha Tétis, apenas para o fechar em terra à espera do fim. Sim, conseguiram tirar o Rabil do mar, mas o meu consolo é saber que nunca conseguirão tirar o mar do Rabil. E, em verdade vos digo que, além do da perda do seu mentor, não há relato de mais nenhum momento de infelicidade seu desde que pisou o convés do navio/mulher que viria a amar. A pobre Tétis certamente já só existe na mente distorcida do seu eterno comandante, mas isso não me causa qualquer espécie de comiseração. Tenho cá para mim que vão ser felizes para sempre.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Curtas
Deverá o cego não querer saber
Que a razão do seu não ver
Reside só na questão do doer ou não doer?
Mais fácil será não ver para não doer
E o surdo será que quer ouvir
Que a sua surdez se deve ao não querer ouvir
As palavras que sabe serem as tais da boca dos demais?
E aqueles que sabem do que falo não o vão entender
Que para compreender é preciso deixar que a razão faça parte desta equação.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Bananas XII
Porra! Foda-se!!! Quase que não dá para acreditar! Se eu não tivesse ouvido a história em primeira mão, directamente do Faustino, não acreditava mesmo. Pois é. A puta não só conseguiu dar-lhe a volta, como conseguiu fodê-lo completamente! Quando ele me disse que a tinha conhecido num bar de strip, eu fiquei logo de pé atrás. Mas ela só fazia aquilo até arranjar alguma coisa mais séria, dizia ele. Alguma coisa mais séria… O caralho! O que ela queria era arranjar um tanso como o Faustino. A vaca da rameira tinha o plano todo delineado e o pobre do Faustino foi cair mesmo em cheio na armadilha. Deve ter-se sentido especial. Foda-se, deve ter-se sentido o maior, uma gaja de um bar de alterne a demonstrar um interesse por ele que, ao contrário daquele demonstrado por todas as suas demais colegas, parecia mesmo, mesmo genuíno. Uma gaja por quem já tinham passado milhões de gajos diz ao Faustino que ele é especial. Na cabeça do Faustino, que lhe interessava que fosse ou não genuíno? Ia passar um bom bocado, um tempo a dar umas quecas de borla, qual poderia ser o prejuízo? Pois… O fodido é que a suína da brasileira lhe furou os preservativos todos. Pois é… Agora tem que pagar uma pensão a um filho que viu quatro vezes na vida e que não sabe muito bem quem ele é. É uma merda…
segunda-feira, 8 de março de 2010
Bananas XI
Parte-me o coração a história do Vitorino. É um facto que a ex-namorada dele é uma cabra. É um facto que estava melhor sozinho que com ela. Agora… Não sei se é um facto que está melhor com a ucraniana…
Pronto, ela até é bastante bem-feita. Engraçada. Muito loura, tem um porte que consegue impressionar. Mas… por favor. Casar logo assim depois de a conhecer há um mês? Não digo que não estivessem apaixonados e não sei quê, mas, casar logo assim? E ter logo um filho assim??
O que eu sei é que, a cada dia que ele chegava do trabalho havia mais um membro da família a morar com eles. Um membro desempregado da família, claro, e o Vitorino lá continuava a querer ser o homem perfeito, sempre na sua boa onda, que temos que ser uns para os outros. Pois, a verdade é que agora, entre pais, tios, irmãos, primos, cunhados e outros parentes mais ou menos remotos, moram mais de vinte ucranianos na casa do Vitorino e ele é o único que leva dinheiro para casa.
Divorciar-se? Ela ameaça que leva o miúdo para a Ucrânia, ou para a Croácia, ou para o raio do filho da puta de país de onde eles vêm e que ele nunca mais o vê. É que… O miúdo é a única coisa que ele tem. É o miúdo que lhe proporciona a única mísera lufada de ar fresco que ele consegue obter naquela casa. E agora? O que é que o coitado do Vitorino vai fazer? Que lhe resta senão aguentar? Uma criança precisa de uma mãe…
segunda-feira, 1 de março de 2010
Historieta
Já era quase noite e ainda não tinha conseguido escrever nada, a história até tinha fluido bem ao início, mas chegou a um impasse e encalhou. Nem tinha bem a certeza se gostava do que já tinha escrito, mas tinha saído naturalmente, e o que interessava não era ele gostar, mas sim o editor gostar, e agarrava-se sempre a este pensamento para conter o impulso de rasgar tudo; afinal, se assim não fosse nunca teria publicado nada, já que nada do que escreveu lhe agradou realmente quando releu tudo no fim, mas a verdade é que os seus livros vendiam e isto proporcionava-lhe uma vida confortável. Em todo o caso, sentia que esta história seria diferente, não conseguia perceber porquê mas, apesar de simples, sentia-a especial, com potencial. Além do mais, não era uma história qualquer, dizia-lhe algo mais que as outras visto o personagem principal ser também um escritor, não propriamente ele, mas naturalmente, e apesar de se esforçar para contrariar isso, havia muito dele no personagem. Tinha sempre uma grande dificuldade em dar nomes aos seus personagens, mas assim que começou a escrever a história, o nome Stark Lone surgiu-lhe na mente e, embora uma voz dentro de si dissesse que não era prestigiante para a sua língua materna usar um nome estrangeiro, agradou-lhe a sonoridade e ficou feliz por não ter que pensar mais nisso.
Não vale a pena insistir, pensou. Pousou a caneta, vestiu o casaco e saiu para jantar, pelo caminho pensou que a dificuldade com que se estava a deparar talvez se devesse à luta constante que travava contra o instinto de aproximar Lone de si próprio, talvez ajudasse se colocasse mais de si no seu personagem, mas rapidamente decidiu não o fazer, isso implicava abrir um pouco do livro fechado que era a sua vida e iria fazê-lo sentir-se tão vulnerável que só o próprio pensamento disso lhe provocou um arrepio. Não, Lone, além de ter a mesma profissão, não teria mais em comum com o escritor do que qualquer outra das personagens que nasceram na sua caneta. Dando esta questão como encerrada, deu por si já sentado no restaurante. Comeu, e foi já durante o cigarro que acompanhava o café que lhe surgiu uma ideia; Lone podia suspeitar de que só existia numa história. Melhor! Lone pode fazer a personagem da história que está a escrever aperceber-se de que existe apenas num livro e isso o levar a questionar se não será também ele apenas uma personagem numa história de ficção. Este pensamento fez o escritor estremecer. Não seria a vida dele também apenas um livro? E se este momento, este cigarro, este sentimento existirem apenas porque alguém os escreveu? Tanto quanto sabia, ele e Lone podiam afinal ser o mesmo. Com este fluxo de pensamentos, embora tivesse consciência de quão absurdo parecia, não conseguiu evitar a sensação de que mergulhava mais fundo na verdade do que alguma vez antes. Sentiu uma tontura e pediu um brandy; bebeu-o de um trago, acendeu mais um cigarro e saiu para a noite deixando uma nota na mesa.
Apesar de ter ajudado a recuperar as forças, aquele brandy não ajudou a reduzir a torrente de pensamentos que lhe rodopiava na mente, e embora argumentasse consigo próprio que nenhum deles fazia sentido, cada vez se sentia mais convencido que era apenas um elo na cadeia e não existia fora da sua realidade, da sua história. Questionou também se quem estava a escrever a sua história não seria também apenas uma personagem de uma história maior. Onde é que isto acaba? A palavra “acaba” ecoou no seu crânio. Todos os livros têm um fim. O que acontece quando o livro acabar? Se eu for apenas uma personagem de um livro que está a escrever um livro, será que se eu acabar o livro que estou a escrever, o livro em que existo acabará também? E o que acontece aos personagens quando um livro acaba? Não é que o escritor fosse um verdadeiro amante da vida, mas a ideia de deixar de existir provocou-lhe uma contida sensação de pânico. No entanto um pensamento acalmou-o automaticamente, se não acabasse o seu livro, certamente o seu autor também não acabaria o seu. É isso, disse para si próprio, basta não acabar o meu livro! Caminhou um pouco mais pelas ruas já quase desertas tentando digerir a situação, fez ainda mais algumas tentativas para se convencer que tudo não passava de um delírio seu, mas com muito pouco sucesso.
Decidiu então deixar a história de Stark Lone de parte, talvez a acabasse quando fosse mais velho. Com esta decisão conseguiu dormir um pesado sono sem sonhos. Ao contrário do que era habitual, o escritor acordou com uma óptima disposição, mas assim que abriu os olhos, sem qualquer controlo da sua parte, a história de Lone começou a desenrolar-se na sua mente. Enquanto no dia anterior não tinha conseguido escrever nada, no primeiro minuto desta manhã já sabia como a história continuava. Pensou que o melhor era mesmo escrever, senão esquecer-se-ia, e além do mais era só mais algum desenvolvimento, isso não o obrigava a acabar o livro. Preparou algo que se assemelhava com um pequeno-almoço e sentou-se a comer com uma mão e a escrever com a outra. Escreveu como nunca e já a tarde ia avançada quando o seu estômago se manifestou com um sonoro ronco. Só neste momento se apercebeu do que estava a fazer, era impossível saber ao certo, mas o livro já iria certamente a mais de meio. Praguejou e insultou-se pela sua estupidez, mas a história continuava na sua cabeça e tinha que fazer uma esforço para se impedir de a escrever. Atirou a caneta para longe e levantou-se abruptamente. Decidindo render-se aos protestos do estômago, saiu para comer e comprar cigarros. Depois de um farto lanche decidiu aproveitar a última luz do dia dando um longo passeio, tendo bastante sucesso na tentativa de afastar Lone da sua mente. Quando regressou ao seu apartamento era já bastante tarde, olhou para a secretária estremeceu ao ver a caneta novamente colocada em cima! Foi a mulher-a-dias, só pode, pensou e sentou-se em frente à televisão a comer a sanduíche que tinha trazido, acompanhada de uma cerveja. Terminada a refeição, deixou-se ficar no sofá a ver um documentário sobre moluscos até que se deixou dormir.
Estavam os primeiros raios de sol a entrar pela janela quando o escritor acordou de um sonho surreal, ainda meio a dormir sentou-se à secretária e começou inconscientemente a escrever até que o vício o obrigou a pegar num cigarro e foi aí que acordou realmente, sem qualquer noção do que tinha escrito tentou lembrar-se do sonho, tudo estava muito ténue na sua mente, mas lembrava-se que tinha sonhado com Lone, era exactamente como o imaginava, assim que visualizou Lone, a memória do sonho aclarou-se. Lembrava-se de ele lhe ter dito que era inútil resistir, o seu propósito seria cumprido independentemente da sua vontade e só tinha a ganhar se aceitasse o seu destino. Tinha a sensação de que a conversa tinha sido muito mais longa, mas não conseguia lembrar-se de mais nada. Reviu a sua situação num derradeiro esforço para a racionalizar. Que ideia mais estúpida, pensou, devo estar a ficar doido, os personagens não existem, não sentem, logo eu não posso ser um personagem. Por momentos ocorreu-lhe que devia procurar ajuda profissional, mas rapidamente pôs esta ideia de parte lembrando-se da sua nada simpática opinião sobre psicólogos e psiquiatras, e a verdade é que por muito que a sua razão lhe dissesse que estava a entrar num estado de demência, continuava convicto que estava mais são mentalmente do que alguma vez estivera. Os personagens não sentem! Disse alto, mas as suas palavras transbordavam insegurança. Apercebendo-se que estava a ficar bastante irritado com todos estes pensamentos respirou fundo, fez um esforço para limpar a mente e leu o que tinha escrito. Extraordinário! O escritor deparava-se com um sentimento completamente novo para ele. Estava realmente agradado com o que tinha escrito até então. Sentiu que, pela primeira vez, tinha conseguido criar algo bom. Era a primeira vez que estava plenamente satisfeito com o seu trabalho, e a sensação era fantástica! Ainda inebriado, releu tudo outra vez talvez para se certificar, talvez para acariciar o seu ego mais um pouco, mas a verdade é que continuou a achar que estava estranhamente perfeito, não havia nenhuma frase que achasse que deveria ser alterada, estava perfeito! A palavra persistiu na sua cabeça. Está a ficar perfeito, disse alto, deliciando-se em cada letra. Sentia que podia acabar o livro, lembrou-se das palavras de Lone, lembrou-se dos seus temores e, decidindo não se precipitar, saiu para clarear as ideias, afinal ainda não tinha comido nada.
Enquanto caminhava tentou organizar as ideias, e passado o orgulho inicial de estar perante uma verdadeira obra-prima, começou a desconfiar da situação. Porque é que normalmente considerava todas as suas obras mero lixo, tendo até uma certa tendência para desprezar os seus leitores, e com esta era diferente? Compreendia que seria possível escrever algo que não considerasse lixo, mas escrever algo que considerasse realmente bom era para ele um conceito estranho. Mais estranho era achar que seria uma obra-prima. Deduziu que teria que haver uma relação entre o livro e a sua nova perspectiva. Automaticamente o seu pensamento voltou à teoria, que futilmente se esforçava por considerar demente, de que era apenas um personagem. Isto explicava a qualidade deste seu trabalho, bastava o seu autor escrever que ele tinha escrito algo que lhe agradava para isso ser a realidade para si. Além do mais, este livro estava a ser criado de uma forma quase irreal, não tinha feito qualquer esforço para o escrever, tudo tinha saído naturalmente, demasiado naturalmente. Curiosamente, desta vez a ideia não lhe causou medo, sentiu até uma certa segurança pelo facto de estar ciente da sua condição. Se realmente apenas existia numa história, mais valia estar ao corrente disso! Assim conseguiu afastar os seus medos e pensou que afinal, acabar ou não o livro não seria uma decisão sua, aliás nada seria feito por decisão sua, a sua vontade estava sujeita à vontade do seu autor. Resignado com a sua situação sentiu até uma sensação de calma, não era responsável por si, não valia a pena gastar energia com decisões, a sua vida era regida por uma entidade superior e a ele bastava-lhe vivê-la, representar o papel que lhe tinha sido atribuído. Não questionou mais a sua sanidade mental nem a veracidade da sua situação e sentiu-se iluminado, sentiu que tinha descoberto muito mais do que todas as outras personagens com quem partilhava a sua história. Sentado no banco de um jardim, observou os outros com uma superioridade paternal, coitados, pensou, todos certos de que existem realmente…
Convicto de que não dependia de si, não se preocupou mais com o livro, não faria nenhum esforço para o acabar, nem para não o acabar, deixaria isso ao critério do seu autor e sentiu-se mais livre do que nunca. Caminhou mais um pouco sem destino, sem a certeza de onde se encontrava ao certo, até que viu um restaurante de aspecto pouco asseado que lhe confirmou que não fazia a mínima ideia de onde estava, mas a visão fez o seu estômago suplicar e acabou por entrar. Comeu demoradamente, durante a refeição nem se apercebeu que os seus pensamentos tinham vagueado bem longe do seu livro, pensou que se sentia muito mais à vontade naquela espelunca do que nos restaurantes caros que costumava frequentar, pensou na sua infância, questionou-se porque nunca tinha saído do país, pensou que já tinham passado meses desde a última vez de tinha lido um livro, pensou em mil outras coisas deixando a sua mente vaguear livremente. Depois de acabar o café e o cigarro, bebeu o resto de vinho no copo de um trago. Deixou uma boa gorjeta e apanhou um táxi para casa, apercebendo-se pelo preço, que estava muito mais longe do que alguma vez tivera deambulado nos seus habituais passeios pela cidade. Assim que entrou em casa descalçou os sapatos, pegou no primeiro livro da sua pilha “a ler” e leu durante horas, parando de vez em quando para saborear a paz interior que sentia.
Lone estava sentado numa mesa no canto do bar sujo e cheio de fumo e viram-se assim que o escritor entrou, Lone acenou e o escritor aproximou-se puxando uma cadeira. Se vieste dizer-me que não vale a pena resistir, estás a gastar o teu tempo, já passei essa fase. Disparou o escritor. Como deves calcular, eu sei que já passaste essa fase, e é exactamente por isso que aqui estou. Vim dizer-te que o autor está muito satisfeito contigo, considerou-te o melhor até agora. Respondeu calmamente Lone enquanto desviava os olhos do copo para fitar o escritor. Devo ficar radiante? Perguntou sarcasticamente o escritor, mas sem conseguir evitar de se sentir algo especial. Podes sentir o que quiseres, mas há mais, vais ter um privilégio único até agora, ele quer que o conheças.
- Ele quer que eu o conheça…
- Sim, serás o primeiro, e quem sabe, o último.
- Mas tu conhece-lo não é?
- Eu não sou como tu, eu sou apenas um instrumento, uma extensão dele. Este encontro serviu apenas para não seres apanhado de surpresa.
- E o que me vai acontecer depois?
- Vais ter que guardar as tuas questões para ele.
- Mas onde, e quando, e como?
Assim que a última palavra se dissipou, um raio de sol atingiu-lhe o rosto fazendo-o contrair-se num esgar. Tinha adormecido no sofá outra vez e o seu corpo ressentia-se de duas noites mal dormidas. Enquanto ganhava coragem para se levantar, reconstituiu várias vezes o diálogo com Lone com receio de se esquecer, como habitualmente acontecia com os seus sonhos e deu por si questionando-se como se podia preparar para tal encontro. Sem conseguir encontrar uma resposta, sentiu-se um fantoche, o que despoletou um sentimento latente de revolta. Estou a ficar doido, pensou enquanto o diálogo com Lone ressoava no fundo da sua mente, completamente doido! Estou a viver uma fantasia e estou a deixar-me ir. Não! Não vou deixar isto afectar-me, se é a loucura a chegar, pelo menos vai ter luta! Vou acabar o meu livro e pôr esta história imbecil para trás das costas! Nunca mais quero sequer pensar no nome Stark Lone. Foi aqui que reparou que já estava a gritar bastante alto. Sem pensar mais, sentou-se à secretária e escreveu, escreveu como nunca, sentia que era a caneta que comandava a sua mão e não o contrário. Perdeu a noção do tempo enquanto os dias passavam e as páginas se amontoavam.
A casa era imponente, um verdadeiro palácio! As portas enormes, as mais altas já vira, abriram-se como se não tivessem peso e quando entrou e pisou o chão de mármore sentiu que o seu próprio corpo ficava leve, tão leve que parecia flutuar. Deu por si numa monstruosa biblioteca sem saber se tinha aberto a porta ou passado através dela. Uma sala comprida até perder de vista, ao longo de cujas paredes, estantes até ao tecto armazenavam mais livros do que alguma vez tinha visto juntos, pareciam estar ali todos os livros do mundo. Ao fundo da sala vislumbrava uma luz ténue da qual se foi aproximando. Ao passar pelas estantes a sua mente enchia-se de tantas vozes que era impossível compreender qualquer uma delas, à medida que avançava, uma das vozes começou a destacar-se até que conseguiu perceber a palavra Bem-vindo. Levantou o olhar e lá estava Lone, trazia uma expressão de genuíno contentamento. É hoje o grande dia! Exclamou. Afinal pouca gente tem a oportunidade de conhecer o seu criador. Um gesto de Lone encaminhou-o através das portas duplas que davam acesso a uma sala que, embora o fizesse sentir-se minúsculo, proporcionava uma inundante paz de espírito. Senta-te e descontrai, sugeriu Lone, ao que o escritor correspondeu, sentando-se numa das convidativas poltronas. Enquanto se afundava, sentiu que o seu corpo se dissipava, sentiu-se etéreo. Fechando os olhos por um momento deu por si sentado perante uma paisagem verdejante. Era certamente o sítio mais belo que jamais vira e transbordava calma e plenitude. Ouvia o gorgolejar de um ribeiro ao longe, e ao voltar o olhar na direcção do som reparou que não estava sozinho. Era ele, o seu autor! Embora, ao contrário do que estava à espera, o seu autor se apresentasse como uma pessoa bastante vulgar, sentia nele uma familiaridade tal, que era como se estivesse a olhar para si próprio; como se nunca o tendo visto antes, o tivesse conhecido toda a vida.
- Estou muito orgulhoso de ti, superaste todas as minhas expectativas! Chegaste mais longe do que qualquer outro antes.
- Obrigado, acho eu, fico muito satisfeito, mas e agora?
- Agora já cumpriste o teu propósito, o livro acabou.
- Vou portanto morrer, deixar de existir.
- Pelo contrário, tornar-te-ás imortal! Deixarás de existir como te conheces, mas tornar-te-ás um conceito, viverás para sempre!
- É um conceito complicado, existir para sempre quando na realidade não se existe?
- E o que é a realidade? Não estás aqui a falar comigo? Não tens a consciência, as memórias, o passado que te dei? A realidade é relativa, tu existes na realidade que criei para ti, tão real como qualquer outra. Mas nem mesmo a realidade é imutável, e a tua está prestes a mudar.
Não sabia como as palavras do seu autor faziam sentido para si, mas a verdade é que parecia que estava a ouvir verdades absolutas, logicamente correctas. Sabia que não podia fugir ao seu destino, mas a verdade é que nem sequer lhe ocorreu querer fazê-lo, sentia-se finalmente realizado pela primeira vez na sua existência. Todas as questões e dúvidas que tinha anteriormente desvaneciam-se e a sensação de dever cumprido preencheu-o.
Estou pronto! Exclamou decididamente. O autor esticou a mão, o escritor esticou a sua. Passaram ainda vários dias até a mulher-a-dias encontrar o corpo sem vida do escritor jazendo sobre a sua obra-prima.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Bananas X
Ontem encontrei o Antunes. Já não o via há anos! Dizer que está na mesma levaria a pensar que mantém o espírito jovem, mas a verdade é que ele já tinha era o espírito velho antes! O Antunes é daqueles gajos que deve ter nascido já com 20 anos, (desconfiem sempre de um gajo que atravessa a faculdade sem apanhar uma borracheira!) o curioso é que naquela altura, a super-responsabilidade dele era mais motivo de chacota do que outra coisa, mas ele lá se manteve firme nas suas convicções e ontem já não consegui gozar com ele como outrora; surpreendentemente algumas dessas convicções faziam agora sentido! Consegui controlar o susto inicial e até fiquei contente por me aperceber que cresci, afinal, se ele se conseguir manter assim, só quando eu tiver uns 90 anos é que não vou conseguir evitar levá-lo a sério!
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Bananas IX
Coitado do Magalhães! O que é que ele viu naquela gaja? Ela era uma verdadeira cabra para ele e, mesmo após vários anos, ele continuava a responder com incrível placidez. Nunca o vi dar um murro na mesa, nem sequer levantar a voz. Quem é que o imaginava capaz daquelas atrocidades?
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Bananas VIII
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Mas porque é que já mais ninguém gosta disto?
Nem os senhores da RTP usam já músicas deles para o genérico do telejornal…
domingo, 14 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Bananas VII
Ganda maluco, o Almeida! O que ele comia de gajas! Verdadeiro passarão! Estava lá tudo, o jogo de cintura, o sorriso assimétrico, o profissional franzir de sobrancelha. Era um espectáculo vê-lo trabalhar! Cámones então era mato, e além do mais, dava aulas de psicologia feminina a muito chotôr! Pois, casou, vem uma menina, outra menina, lá decidiram tentar uma última vez e vêm gémeos! Duas meninas! Há gajos com azar! Pois é verdade que os há, a mulher, muito abalada com a situação toda, numa atitude de desespero decidiu fugir com um possante mancebo cabo-verdiano, trabalhador temporário da obra em frente, deixando-o com as quatro piquenas. Mas sabem como é o Almeida, ele conhece as mulheres e está certo que ela volta quando lhe passar a depressão pós parto.




