terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bananas IV

01-02-2005

O que eu me divertia com o Silva! Era sempre a alma da festa! Sempre o mais teso de todos, provavelmente o recorde do mundo de copos cravados numa noite! Não pensem mal do Silva, para ele, cravar copos era uma arte! O segredo do seu sucesso era que não era um parasita, sempre que tinha dinheiro pagava também com alegria e boa disposição. Fui almoçar com ele ontem e, apesar de nos termos rido com fartura, algo parecia estranho. Só percebi quando veio a conta e ele fez questão de pagar só a parte dele, afinal só eu é que tinha bebido vinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bananas III

01-02-2005

O Pereira? Aquele cheio de papel, que quando tínhamos Simcas 1000 todos podres e afins já tinha grandes máquinas e cuja casa fazia inveja a muitas discotecas? Sim, lembro-me. Esse gajo dá-me pena, assim que saiu da escola entrou numa espiral descendente de psicoses e as últimas notícias que tenho dele é que meteu na cabeça que toda a gente se queria aproveitar da sua abundância e acabou por ir viver para um retiro para doidos ricos. Mas parece que o seu problema social está melhor, pelo menos mantém já uma relação de amizade bastante estável com uma das oliveiras do jardim.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Bananas II

01-02-2005

Lembram-se do Fernandes? Aquele atrofiado que nunca tinha posto um cigarro na boca? Sim, aquele, que, com a sua característica arrogância, se esforçava por fazer os fumadores mais fracos de espírito sentir-se estúpidos e inferiores. Pois, esse mesmo! Vi-o ontem a arrumar carros no Restelo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Bananas I

01-02-2005

Há que tempos eu nem sequer me lembrava do Marques! Sempre fomos muito amigos. Apesar da sua personalidade divertida fazer dele um óptimo e frequente companheiro de galhofa, sempre denotei uma certa mania das grandezas; à qual nunca dei muita importância. Pois é, parece que o negócio de bolas de golfe está a ir de vento em popa e ele agora já não conhece ninguém!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um dia escrevi isto

31-01-2005

- “Agasalha-te, deve estar frio”, disse ela num tom maternal que me fez ranger os dentes; respondi com uma onomatopeia e saí para a manhã bucólica de Outono. “Merda! Está um frio de rachar” murmurei enquanto a brisa gélida me lambia a face, “estou a ver que vai ser mais um daqueles dias!”. Meti-me no carro e segui até casa do X; ele já estava à porta, com o seu característico sorriso matinal de quem acorda com a melhor das disposições, eufórico com a vida. Como aquele sorriso me irrita! Todas as manhãs me apetece carregar a fundo no acelerador e deixar aquele sorriso envolto em fumo de escape e simplesmente fugir dele; mas não, ele não tem culpa de ser tão feliz, de achar perfeita a sua vidinha inútil.
- “Bom dia”, disse, como ser fosse uma verdade inegável;
- “Não sei o que é que ele tem de bom. Estamos aqui quando podíamos estar na cama, e ainda por cima está um frio insuportável!”;
- “Sabes, isto pode parecer idiota, mas eu gosto deste frio, faz-nos sentir vivos!”;
- “Tens razão!”;
- “O quê? Concordas?!”,
- “Sim, realmente parece idiota!”.
O resto da viagem até ao emprego decorreu em absoluto silêncio.
- “Almoçamos?”
- “Whatever!”
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- “Não sei porque é que suporto essa tua constante boa disposição! Se soubesses como me irrita...”,
- “Eu sei que te irrita, e, se queres mesmo saber, isso até me dá um certo gozo! Mas queres saber porque é que me suportas? É pela mesma razão que eu te suporto. Tu precisas de mim para não dares um tiro na cabeça, da mesma forma que eu preciso de ti para me manteres em contacto com a realidade. Ser um bom optimista não é tentar acreditar que o mundo é perfeito, mas sim ver a realidade de um ponto de vista positivo e construtivo. É engraçado, o meu optimismo irrita-te enquanto o teu pessimismo me diverte! Não achas que serias muito mais feliz se fosses mais como eu?”
- “E como é que propões que eu faça isso? Como é que eu posso pensar que existe um lado positivo no facto da ementa de hoje ser execrável, quando só de olhar para ela me apetece vomitar?”
- “Se calhar o segredo passa por reduzir o número de coisas que odeias e que te irritam.”
- “Não achas que é um bocado estúpido achar que uma pessoa pode controlar isso? Como é que eu faço para gostar de uma coisa de que não gosto?”
- “Bom, suponho que terás razão nisso, mas um bom começo seria não deixares as coisas que não gostas afectarem-te tanto. Obriga-te a, em vez de praguejar, tirar o melhor partido da situação. Em que é que o pessimismo te ajuda a resolver os problemas?”
- “Ajuda-me a estar preparado para o pior! Poupa-me desilusões”
- “E rouba-te a alegria!”
- “Qual alegria?”
- “A alegria de viver, de poder contemplar a beleza que nos rodeia, de amar!”
- “Vamos pedir que já estou a ficar enjoado!”
Pedi o que me pareceu mais suportável e ele pediu o mesmo.
- “Pergunto-me o que é que te terá feito ficar assim.”
- “O mundo não é um lugar belo, está cheio de humilhação e sofrimento. O ser humano não é humano, é o mais selvagem dos animais!”
- “Mas em que é que a tua postura ajuda? Quando passas por uma pessoa com fome e não tens nada para lhe dar, o que é que achas que ajuda mais a pessoa? Ofereceres um sorriso e umas palavras de conforto e esperança ou sentares-te ao lado dele ajudando-o a praguejar e maldizer o seu fado?”
- “Sabes, acho que a irritação que me provocas é no fundo inveja. A verdade é que eu admiro a tua visão da vida, e se pudesse ser como tu num estalar de dedos, não pensava duas vezes. Mas não consigo. Será patológico? Devo procurar ajuda profissional?”
- “Eu sou da opinião de que temos todas as capacidades necessárias de fazer a nossa auto psicanálise. Temos é que conseguir racionalizar as coisas e encarar e admitir para nós próprios os nossos defeitos, resistindo ao impulso natural da negação.”
- “Nunca vou conseguir!”
- “Às vezes acho que tu gostas de ser assim, que curtes a depressão. Tinhas razão, a comida foi uma desilusão! Amanhã será melhor!”
Contei até dez.
- “Querem vir jantar a nossa casa? É Sexta-feira, podemos ver um filme.”
- “Por mim tudo bem, vou falar com ela.”

Não sei se foi a conversa do almoço, mas curiosamente passei a tarde quase sem me irritar, se calhar já estou a ficar habituado à incompetência.
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- “Abres a porta? Devem ser eles.”
- “Tenho alternativa?”
Abri a porta e lá estava o sorriso aberto. No entanto desta vez transmitiu-me uma inexplicável sensação de calor. Deve ser do vinho que bebi enquanto fazia o jantar.
- “Boas! Entrem e ponham-se à vontade.”
Seguiu-se o habitual, e tratando-se do X, excessivamente caloroso, ritual de cumprimentos.
- “O jantar vai ser bacalhau pessimista!”
- “E estará bom?”
- “Dificilmente! Mas desde quando é que isso é um problema para ti?”
- “Não é. A comida é a parte menos importante do jantar. É preciso ajuda para alguma coisa”
- “Podem ir começando a pôr a mesa. A comida está quase pronta.”
Eles cumpriram e atacámos o bacalhau. Estava bom.
- “Então? Há novidades? Como é que vão as coisas?” Perguntou Y
- “A mesma merda de sempre!” Respondi antes que a W pudesse dizer algo.
- “Porque é que tens sempre que tentar estragar o ambiente?” Perguntou ela.
- “Não estava a tentar nada, simplesmente respondi honestamente.”
- “Pronto, pronto. Foi só uma daquelas perguntas standard. Não é preciso estarem já a chatear-se.”
- “É que esta atitude perante a vida começa a afectar-me os nervos. Está sempre tudo mal. Qual é o meu papel no meio disto? Se não sirvo para o fazer feliz, o que é que eu estou aqui a fazer?”
- “Sombra!”
“Eu estou a falar a sério! Isto está a esgotar-me as forças. Não quero tornar-me maníaco - depressiva! Como é que eu lido com esta merda?”
“Que tal calada?”
Ainda recebi um olhar fulminante antes de ela se ir fechar no quarto.
“Não estava a contar o tempo, mas parece-me que foi um novo recorde!”
“Isto diverte-te? Como tu não está feliz, tens que estragar a noite das outras pessoas?”
“Parece-me que, desta vez, até fui eu a ter a atitude mais cool.”
“Pois, tu só és cool quando estás a gozar com a estabilidade emocional das pessoas. Não vês que ela gosta de ti e quer ser feliz ao teu lado? Porque é que tu não deixas que os teus amigos te ajudem? Vou falar com ela.”

“É impressionante como vocês conseguem manter esta amizade há tanto tempo.”
“É mais uma relação amizade/ódio!”

“Deixa lá, não fiques assim”, confortou X.
“E fico como? Já não aguento as merdas dele!”
“Ele está a passar uma fase difícil. Eu acho que ele, no fundo, está revoltado por estar a ser obrigado a crescer, a ter responsabilidades e já não poder fazer o que lhe dá na cabeça.”
“Mas não é justo que gostar dele tenha um preço tão alto! Já tenho dúvidas que eu significo alguma coisa para ele”
“Eu acho que, de certa forma, ele te culpa, porque foste tu que fizeste tudo acontecer, foi ter-te conhecido que o fez avançar no seguimento normal da vida, casar, constituir família, e isso mostra o que significas para ele; e não acho que esteja arrependido, é só um problema de adaptação. Tenho a certeza que, com a tua ajuda, ele vai ultrapassar esta fase.”
“Mas eu não sei como agir. Acho que não cumpri as expectativas dele.”
“Porque é que não experimentas psicologia inversa? Quando ele está para desatinar, tu levas a coisa na boa e reages com extrema boa disposição, brinca com ele; mesmo que não resulte sempre evitas que a coisa descambe. Pensando nisso, acho que no fundo é como eu tenho conseguido ser amigo dele, embora o faça mais para o chatear.”

Forças malignas

Numa postura de combate às forças malignas ocultas, do efeito das quais a Tertúlia dos Néscios não haveria de estar isenta, vou voltar a publicar os textos que as referidas forças fizeram desaparecer. Mesmo aqueles que se tivesse escrito agora talvez não publicasse.
Assim, se alguém sentir aquela estranha sensação de dejá-vu, não precisa de ir logo a correr para a psicoterapia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Elasticidade/Independência

- Vi ontem uma cena impressionante na televisão. Um gajo que tem um espectáculo num bar em Ibiza que consiste em fazer uma auto-felação.

- Se eu conseguisse fazer isso não aturava metade das merdas que aturo…

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ensaio sobre uma merda qualquer

Ah, que maravilha! Este sol maravilhoso, este mar azul infinito. Plenitude… Isto é que é vida!

O homem que estava deitado na espreguiçadeira ergueu-se repentinamente. Foi como se o seu cérebro de repente tivesse começado a funcionar.

Mas… Onde é que eu estou? O que é que se passa?

Parecendo ter saído da selva por trás, uma jovem e bela rapariga, vestindo apenas uma saia de longas folhas, apareceu com um coco verde, do qual saía um par de vistosas palhinhas. A sua pele tinha um bronzeado carregado e o seu cabelo era longo e negro. A rapariga aproximou-se com um passo leve, ajoelhou-se junto da espreguiçadeira e, baixando a cabeça, estendeu ambos os braços. Incrédulo, o homem pegou no que lhe era entregue e a rapariga ergueu-se.

Sabes quem eu sou? Como ou quando cheguei aqui?

A rapariga limitou-se a dizer uma frase numa língua estranha e, com uma suave vénia e um sorriso, afastou-se, desaparecendo pela vegetação. Estupefacto, o homem não teve qualquer reacção. Limitou-se a desviar lentamente o seu olhar espantado do lugar por onde a rapariga tinha desaparecido até ao objecto nas suas mãos.

Bom, vamos lá ver… Sei quem sou, chamo-me Lapricínio Ramalho, sou técnico de canalização, tenho uma mulher, três filhos, dois rapazes e uma menina linda, moro num T3 em Xabregas… Bom… Parece que, tirando o facto que não saber o que estou aqui a fazer nem como cá cheguei, não estou amnésico. A não ser… Que eu não seja o Lapricínio Ramalho… Se calhar sou rico e não canalizador, e isto de estar a relaxar numa praia paradisíaca a beber de um coco com umas palhinhas todas paneleiras é normalíssimo… Não! Isso é absurdo! Eu sei que sou o Lapricínio Ramalho. Tenho é que descobrir como vim aqui parar.

Lentamente, quase desconfiado, o homem levantou-se. Com passos cuidadosos, como se se tentasse certificar que a fina areia que os seus pés nús pisavam era, de facto, real, acercou-se do mar. Olhou para o seu reflexo na água, levemente distorcido pela suave ondulação.

Sou eu. Fico mais descansado, pelo menos reconheço o meu rosto, caso contrário é que as coisas ficariam mesmo demasiado estranhas, mas já estava preparado para tudo. Deve ser impressão minha, mas pareço um bocado mais novo do que eu me lembrava de mim, mas pronto, sou eu. Será que isto confirma que sou o Lapricínio Ramalho? Se calhar não… Não é que eu não goste de ser o Lapricínio Ramalho, técnico de canalização, casado por amor e pai de três filhos, até gosto muito, mas… Epa, conseguia habituar-me a este clima…

Imerso nos seus pensamentos, o homem percorria a linha da costa, desfrutando nos pés a leve sensação refrescante que a água tépida proporcionava.

Acorda e controla-te, Lapricínio! Tens que descobrir alguém, civilização, um telefone para poderes ligar à tua mulher, alguma pista que te consiga fazer perceber alguma coisa. Organiza o raciocínio. O que quero saber? Onde estou? Quando cheguei? Porquê? Onde está a minha família? O que sei… Hum… Nada… Não é muito animador, mas pronto, não posso desmoralizar. E quem é que conseguia desmoralizar com uma paisagem destas?… Concentra-te, Lapricínio. Concentra-te!

Ao chegar ao fim da praia, o homem viu uma série de degraus toscos, ladeados por um corrimão artesanal feito com canas.

Civilização! Ou algo próximo disso. Menos mal. Mas não me parece que haja por aqui um telefone. Mas porque é que eu viria aqui sem a minha família?

O homem subiu os degraus e, no topo, atravessou um grupo de palmeiras jovens. Deu por si numa clareira onde, além de uma cabana de madeira, uma cadeira, uma pequena mesa com um guarda-sol feito de canas finas, estava uma rústica mesa de massagens e, ao lado, uma exótica mulher.

Deslumbrante. Simplesmente deslumbrante…

A mulher esticou o braço, dirigindo a mão aberta para a mesa de massagens e, como que telecomandado, o homem deitou-se de barriga para baixo. Após aplicar uma porção de óleo nas costas do homem, a mulher pousou o recipiente feito de casca de coco e, em silêncio, iniciou a massagem.

Porra, Lapricínio! Não podes ser assim. Ficaste tão embasbacado que se ela te tivesse dito para ladrar, tu tinhas ladrado. Controla-te, homem! Ela até te pode querer fazer mal, e tu, o que fazes? Ofereces-lhe as costas e tempo de sobra para escolher bem o sítio onde espetar a faca. Se bem que não parece nada que ela me queira fazer mal. Está a saber-me tão bem que nem me importo com a faca. Continua assim e podes espetá-la, que morro satisfeito. Claro! És tão otário, Lapricínio. Como é que não pensaste nisso antes? Só pode ser um sonho! Que fixe, é um sonho. Deixa-me é aproveitar, que já não deve faltar muito para a merda do despertador tocar. Desta vez vai ser ainda mais torturante que o normal, ter que sair da cama, mas macacos me mordam os tomates se vou deixar que isso estrague este sonho espectacular. Sim… Isso… Aí…

Como que movida por um sexto sentido, a mulher terminou a massagem no momento em que o homem parecia prestes a adormecer. A paragem despertou-o. Levantou a cabeça devagar, desentorpecendo o pescoço e olhou para a mulher. Esta sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente para a frente. Com uma expressão de deleite, o homem manteve o olhar na mulher enquanto esta se afastava.

Que silhueta… Que sonho maravilhoso. É, de certeza, o melhor sonho que já tive. Excepto talvez aquele em que conseguia voar, ou aquele em que conseguia ficar invisível, ou talvez também aquele… Mexe-te, otário! Um sonho destes e tu estás a desperdiçá-lo a divagar? Levanta-te, explora, aproveita!

O homem levantou-se e, enquanto decidia que direcção tomar, ouviu o toque de um telefone. Era a tradicional e inconfundível campainha de um telefone. Seguindo pelo caminho que o levava na direcção do som, foi-se embrenhando cada vez mais selva adentro, sempre seguindo o toque do telefone que, apesar da tortuosidade do percurso, cada vez parecia mais próximo.

Um telefone, no meio da selva, este sonho está a descair um bocado para o surreal. Também já gostei mais dele, se em vez de estar a deambular pela selva estivesse a ter um happy ending com a massagista seria tão melhor.

O homem continuou a seguir o som até se deparar com um estranho arbusto que lhe cortava o caminho. O toque do telefone parecia provir de detrás da peculiar vegetação.

O caminho cortado por um arbusto de ramos negros e bagas verde fluorescente? Será que isto tem algum significado subliminar? Não canses a cabeça a procurar significados ocultos em tudo, Lapricínio, é só um sonho marado. E o telefone no meio da selva a tocar por trás? Não deve ter voice mail activado, senão aquela menina simpática com quem gosto tanto de falar já tinha atendido a pedir para deixarem recado. Acho que posso esgueirar-me por entre estes dois ramos. Estas bagas são muito curiosas, até me apetecia comer uma.

O homem aproximou a pinça formada pelo indicador e o polegar da mão direita da brilhante baga mas, no instante em que lhe tocou, esta explodiu libertando uma pequena nuvem de gás verde fluorescente.

Olha. Giro. Isto afinal são pequenas bolhas de gás. Se isto está a sair do meu inconsciente, deve ter alguma significado, mas qual? Bom, vamos lá atender a merda do telefone que já me está a irritar, e para isso chega-me a vida real.

O movimento nos ramos do arbusto provocado pela passagem do homem fez rebentar quase todas as bagas cujo conteúdo deixou no ar um cheiro singular mas agradável, como uma extraordinária especiaria desconhecida. Ao chegar ao outro lado do arbusto deparou-se com uma pequena mesa redonda cuja única perna assentava no chão no que parecia tentar imitar a pata de uma ave, sobre a qual tocava incessantemente o procurado telefone. Era um enorme aparelho de aspecto muito antigo, branco com detalhes em dourado, sem qualquer fio visível. O homem, agastado pelo contínuo soar do telefone, atendeu prontamente.

- Tá lá? Quem é que fala?

- Filho, consegues ouvir-me, meu amor?

- Almerinda? És tu, querida?

- Não me deixes, por favor.

- Ninguém vai deixar ninguém, tem calma contigo. Onde é que estás?

- Eu não sei o que fazer sem ti. Volta para mim, tens que voltar para mim.

- Claro que volto! Podes começar por dizer-me onde estás. Isso ajudava.

- Não vou desistir de ti, ouviste? Não vou desistir!

- Estás parva, mulher? Já te disse que não há razão para essa angústia. Só tens que me dizer onde estás. Tás-me a ouvir?

- Se soubesses quanto eu te amo não me fazias isto. Se soubesses, voltavas para mim agora, neste instante.

- Mas tu estás a ouvir-me ou não? Eu estou a tentar voltar para ti, mais ou menos, mas este sonho está cada vez mais estúpido. Tou? Almerinda? Tou?

A voz do outro lado da linha transformou-se num lamento baixo e incompreensível. O homem continuou a tentar comunicar até concluír que não estava a ser ouvido pela outra pessoa. Frustrado, atirou o telefone de volta para o descanso.

Calma, Lapricínio, é só a porra de um sonho. Não era a Almerinda, era só uma manifestação do teu inconsciente. E por favor, não te ponhas agora a tentar interpretar, tens muito tempo para isso quando acordares. E agora? Estou no meio da selva sem saber o que fazer. Se calhar mais valia acordar. Que som é este agora? Tambores? Parece-me demasiado ritmado para não ser, mas claro que podem sempre ser coqueiros inteligentes ou algo do género.

Com alguma dificuldade em perceber a direcção de onde provinha o batuque, o homem tentou seguir uma linha recta, atravessando o mato que parecia afastar-se para lhe dar passagem. Algumas centenas de metros mais à frente, o homem encontra-se na orla de uma enorme clareira onde pôde vislumbrar a origem do som. Era uma tribo de indígenas, vistosamente decorados com plumas e pinturas berrantes. Mais de uma centena de homens dispostos em três fileiras, formando um semi-círculo, marcavam uma rápida e ribombante cadência com os seus tambores, ao ritmo da qual um velho, magríssimo, que aparentava ter mais que cem anos, dançava freneticamente.

O raio do velho mexe-se bem. Deve ter tomado uma daquelas mistelas para contactar com os deuses ou isso. Parece uma marionete.

A medo, o homem aproximou-se devagar e o seu sangue gelou quando, ao dar o passo que o colocava a uns vinte metros do grupo, em perfeita sincronia, todos os tambores se calaram e todos os olhares se dirigiram para ele.

Pronto, já te fodeste, Lapricínio. Nunca soubeste estar quieto no teu canto. Assim que o primeiro pegar numa lança, tu não vais assumir que isto é só um sonho e corres como se não houvesse amanhã, até porque pode não haver mesmo. Nunca morrer, mesmo que seja em sonhos, sempre foi o teu lema. Prepara-te…

O velho baixou-se lentamente e, com ambas as mãos, pegou numa taça de madeira que repousava aos seus pés. Elevou-se com a mesma lentidão e, esticando os braços, ofereceu-a ao homem. Com passos inseguros, o homem aproximou-se do velho e tentou evitar um esgar ao aproximar-se e inalar os vapores emanados pelo líquido verde e viscoso no interior da taça. Com um movimento brusco, o velho encostou a taça ao peito do homem, praticamente obrigando-o a aceitá-la. Ainda desconfiado, o homem elevou lentamente as mãos e permitiu que o velho nelas depositasse a sua oferenda. Baixou os olhos e fitou a beberagem de aspecto nada apetitoso.

Será que eles acham que eu sou um deus, como se vê às vezes nos filmes? Isso é que era… Mas podiam oferendar-me qualquer coisa mais apelativa.

O velho colocou as suas esqueléticas e enrugadas mãos à volta das do homem e dirigiu a taça que nelas repousava na direcção da boca deste. Movido por pouco mais que temor, com uma careta, o homem deu um trago na estranha bebida.

- Onde estou? O que é que aconteceu?

- Filho! Finalmente acordaste, meu amor!! Não saí do teu lado. Eu sabia que não me ias abandonar, Gervásio.

- Mas, mas… Quem és tu??

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Frontalidade

- Então, pronto, está combinado. Podes convidar os amigos que quiseres.

- Pois… Sabes… Não tenho assim muitos amigos…

- Não?? Porquê?

- Eu acho que está relacionado com a minha forma de ser. Tenho uma tendência para ser sincero que não consigo evitar.

- Mas… Isso é óptimo!

- Pode parecer, mas não é, de todo. As pessoas não apreciam realmente a sinceridade. Tenho-me apercebido que as pessoas preferem viver num mundinho próprio onde são perfeitas. E, embora toda a gente apregoe que valoriza muito a frontalidade, a verdade é que a grande maioria das pessoas abomina quem lhes mostre um defeito seu. Não só praticamente ninguém está preparado para admitir que tem defeitos, como toda a gente assume sempre que alguém que os aponte é um inimigo e só quer fazer-lhes mal.

- Se calhar tens razão…

- Pois. Comecei a perceber que afastava as pessoas, mas custa-me tanto não dizer o que penso. Vou aguentando, vou aguentando, mas, mais tarde ou mais cedo, sai-me tudo e pronto, lá se vai mais um relacionamento. E parece não haver grande relação entre a reacção e o tempo de relacionamento. Mesmo que já me conheçam há vários anos, há sempre a tendência para achar que, se lhes aponto algo feio, é para os prejudicar e rebaixar. E é particularmente triste porque, se eu me disponho a apontar alguma coisa é porque tenho consideração pela pessoa. É na perspectiva de que é normalíssimo ter defeitos e facetas sombrias na nossa personalidade e nunca tentando transmitir que, por isso, são piores que a pessoa do lado. Além do mais, as pessoas mudam, evoluem. Como é que podemos evoluir e atenuar um defeito se não admitirmos que o temos?

- Compreendo… Se calhar não estás a conhecer as pessoas certas, pessoas que dêem valor a isso.

- Deve haver tão poucas, que as probabilidades de as conhecer são ínfimas.

- Ah, eu não, eu aprecio mesmo muito a sinceridade e a frontalidade, é até das qualidades que mais valorizo numa pessoa.

- A sério?

- A sério.

- Mesmo?

- Mesmo!

- Ufa… Ainda bem. Estava aqui num esforço titânico para não te dizer que acho que esse corte de cabelo te fica horrivelmente. E essa camisola… Epa, por favor. Não tinhas nada mais feio no armário?

- Hum… Pois… Olha, recebi agora uma sms a dizer que a festa foi adiada. Eu depois digo-te a nova data. E… lembrei-me agora tenho um compromisso importantíssimo, tenho que ir andando.

- OK, tudo bem. Até à próxima, então.

- Sim, pois, até à próxima…

- Então não te esqueças de me dizer quando é a festa, afinal. OK?

- Claro, claro, fica descansado.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Devaneio

- Vestal.
- Vestal?
- Sim, vestal.
- Nunca perguntei isto numa entrevista, mas… você é do sexo masculino, certo?
- Sim.
- E “vestal” é a palavra que acha que melhor o define?
- Sim.
- Também nunca perguntei isto, mas… É virgem?
- Não.
- Pois. Creio que não consigo compreender a escolha dessa palavra. Se calhar estamos em contextos diferentes. A ideia que tenho é que a palavra “vestal” provém das antigas sacerdotisas da deusa romana Vesta e é usada figurativamente relacionada com pureza e castidade femininas, já que consta que estas sacerdotisas eram obrigatoriamente virgens.
- Sim, superficialmente é isso.
- Aprofunde então, por favor.
- Apesar de Vesta ter ficado relacionada com a castidade por causa das suas sacerdotisas, estava intimamente ligada ao fogo. O seu altar tinha uma chama permanente que nunca se podia extinguir. Esta chama estava relacionada com a origem da vida.
- Não sabia disso. Continue, por favor.
- Fogo, a origem da vida… Parecem-lhe coisas relacionadas com castidade?
- De facto, não.
- Pois. Vesta pode também ser vista como uma representação do aspecto sexual da criação. Existe portanto uma dualidade na palavra que escolhi.
- Talvez comece a compreender. Relacione então isso consigo e explique-me o porquê da escolha dessa palavra.
- Desculpe, mas o psicólogo aqui é o senhor. Explique você.
- Sou psicólogo, mas isto é uma entrevista de emprego, não é uma consulta.
- Não estou a pedir que me explique a mim. Só estou a dizer que perceber o porquê oculto da minha escolha de palavra é o seu trabalho.
- Certo. Da minha parte estamos despachados. Tem alguma questão que me queira colocar?
- Qual é a palavra que acha que melhor o define?
- Muito engraçado. Boa tarde, contactá-lo-emos nos próximos dias.
- Boa tarde.

- Então, que tal correu a entrevista.
- Bom, acho que consegui lixar qualquer hipótese de ficar com o emprego.
- Então, o que aconteceu?
- Já estava farto daquilo. Daquelas perguntas de merda, tipo “Qual acha que é a sua melhor qualidade? E o seu pior defeito?”. Deu-me para parvejar.
- O que é que disseste?
- Ele perguntou-me qual era a palavra que eu achava que melhor me definia.
- E tu?
- Disse “vestal”.
- Vestal? O que é que isso quer dizer?
- Vem das antigas virgens romanas que adoravam a deusa Vesta.
- Antigas virgens romanas? Fenomenal!!
- Foi a primeira palavra que me veio à cabeça. Depois tive que divagar um bocado para tentar dar-lhe algum sentido.
- Claro que ele ficou a pensar que eras completamente doido.
- Pois…
- Bom, esquece lá isso e falemos de coisas mais alegres. Como é que foi a cena ontem com a gaja?
- Nem me digas nada! Foi surreal, no mau sentido.
- Então? Que se passou?
- Para começar, depois de uma meia hora de conversa, já me estava a dizer que tinha uma fantasia de dupla penetração e a perguntar-me se eu não tinha um amigo que alinhasse.
- E tu, o que é que disseste?
- Tentei explicar-lhe calmamente que não me deixava confortável a ideia de ter o meu escroto a alguns centímetros de outro, correndo até o risco de haver contacto. Tentei que ela percebesse que seria estranho o relacionamento com um amigo depois de ter havido contacto físico entre os nossos escrotos. Que nunca mais conseguiríamos olhar um para o outro da mesma forma.
- E ela?
- Ela lá percebeu, ou pelo menos fingiu e não tocou mais no assunto.
- Então não foi muito mau…
- Não teria sido se tivesse sido só isso, mas depois de estarmos enrolados no sofá, ela diz-me que está com o período!
- Alto turn-off…
- Pois, mas o pior é que ela queria festa na mesma!
- E tu, o que é que fizeste?
- Tentei explicar-lhe calmamente que a menstruação não é sexy. Disse-lhe para ponderar porque é que, havendo tantas vertentes na pornografia, para todos os gostos, não se viam filmes com mulheres menstruadas.
- E ela?
- Ela lá percebeu, ou pelo menos fingiu e não tocou mais no assunto.
- E depois?
- Depois fez-me um broche e eu vim-me embora cheio de complexos de culpa.
- Pois, compreendo… Olha, o teu telefone está a tocar.
- Estou sim? Sim, é o próprio. Sim, com certeza. Certo, está combinado então.
- Novidades?
- Sim, era da empresa onde fui fazer a entrevista.
- A dizerem que não correspondias ao perfil que eles procuram?
- Não. A pedir-me para começar na segunda-feira.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Arte #7

O intenso cheiro a éter atirou o cérebro do recém-chegado para a consciência como se o tivesse empurrado da orla de um abismo. Ainda antes de abrir os olhos, apercebeu-se que os movimentos dos seus braços e das suas pernas estavam fortemente condicionados. Passados os quatro segundos que a sua mente demorou a compreender a totalidade da situação, arregalou os olhos. Viu-se nu, coberto apenas por um pequeno lençol com uma abertura rectangular sobre o esterno, de tornozelos e pulsos amarrados a uma fria mesa metálica. Além das três paredes brancas e despidas, conseguia ver apenas um candeeiro cirúrgico que parecia pairar sobre si.
Está aí alguém? Gritou passados poucos minutos. Isto é uma crueldade, vociferou, não sei quem tu és, mas nada te pode dar o direito de fazer isto às pessoas! Depois de alguns momentos de silêncio, os músculos do recém-chegado retesaram-se. O que eu vou fazer é dar um propósito superior à tua vida, disse uma voz que, apesar de perfeitamente inteligível, parecia provir dos confins da crosta terrestre, procurei-te durante muito tempo, não foi fácil encontrar um sujeito adequado, mas assim que senti a tua energia, soube que eras tu quem eu procurava. Ao contrário dos outros, senti que irias compreender, que és merecedor. O que é que me vais fazer, perguntou o recém-chegado com a voz trémula. Vais fazer parte de algo mais elevado, de algo sublime, respondeu, sibilante, a estranha voz. Mas eu não quero! Vociferou o recém-chegado. Não! Por favor, não me faças mal, choramingou, deixa-me ir embora. É por isso que abomino essa mesquinha espécie humana, por esse absurdo instinto de auto-preservação. Porque hão de dar tanta importância, ao ponto de rastejar e implorar, à vossa miserável existência face a coisas mais elevadas? O que importa a vida de um indivíduo? Que diferença vai fazer no mundo a tua morte? Nenhuma, absolutamente nenhuma. Que valor tem a tua vida face a algo etéreo e intemporal? Face a uma obra de arte? Nenhum, valor nenhum! Que animal de uma espécie dita inteligente e racional prefere sempre optar pela sua vida contra a possibilidade de contribuir para o mundo com algo infinitamente mais enriquecedor? A irritação na estranha voz subia de tom. Mas que raio de merda vai isto fazer pela humanidade, seu filho da puta? Gritou, irritado, o recém-chegado. Que merda vai a humanidade ganhar com essa aberração que estás a fazer? Arte, reles ser, arte, aquilo que existe com o único propósito de fazer sentir e pensar, respondeu a voz, algo capaz de nos fazer perceber a nossa insignificância. Revolta-me que, perante a possibilidade que te ofereço de contribuíres para a posteridade com algo realmente significativo, implores pateticamente pela tua indigente vida. É deplorável a existência de uma espécie tão mesquinha e abominável, terminou a voz, com um tom de verdadeiro asco. Mas eu contribuo, trabalho, produzo, argumentou o recém-chegado, cujo medo se ia, aos poucos, convertendo na mais pura ira, e até já arrisquei a vida por outros, já salvei a vida a várias pessoas! Infeliz verme, disse agressivamente a estranha voz, não consegues compreender o pauperismo de tais actos? Nem sequer sabes se tais pessoas o mereciam, talvez merecessem morrer, talvez só tenham prejudicado a sociedade no tempo adicional que cá andaram. Salvar uma pessoa não é mais que salvar uma formiga. É um esforço tão absurdo como o de tentar reimplantar no corpo uma célula que se desprendeu da pele. Que efeito terás na Humanidade? O que ficará dos teus feitos depois de desapareceres? Não vai ficar mais que uma ténue memória que rapidamente desaparecerá. O que eu te estou a oferecer é imortalidade. Compreendes, abominável ser? Um propósito e imortalidade!! Prova-me! Gritou o recém-chegado no píncaro da sua raiva. Prova-me que a minha morte vai fazer melhor que a minha vida. Quero uma prova! Uma prova? Repetiu a voz indiciando algum espanto. Concordo que mereces algum tipo de prova daquilo que defendo, mas não ta posso dar. A única prova possível seria veres a obra completa, mas isso é impossível, e seria impensável deixar-te vê-la inacabada. A não ser que… Após uma breve pausa, continuou. Está bem. Dado o nível da tua contribuição, parece-me apropriado. Prometo que vou dar-te o privilégio e a honra de seres o primeiro a ver o trabalho completo, o resultado final.
Não conseguiu compreender porquê, mas o recém-chegado apercebeu-se que o temor o tinha abandonado por completo. Terá havido algo no discurso deste monstro que, a um nível inconsciente, tenha feito sentido? Pensou. A ira tinha-se também desvanecido. Não tenho escolha, pois não? Disse calmamente. Não obteve resposta. Por uma fracção de segundo, sentiu a consciência a esvair-se.
Acorda, está pronta, ouviu alguém dizer suavemente. Durante os poucos segundos que levou a recuperar a consciência juraria ser a voz da sua mãe a chamá-lo para o pequeno-almoço, mas rapidamente se lembrou de onde estava. O recém-chegado abriu lentamente os olhos. Tinha uma almofada sob a cabeça que lhe permitia ver o que estava à sua frente. A sua visão começou por incidir nos tubos que, por entre grosseiras costuras, protuberavam do seu peito, bombeando o sangue que o mantinha vivo. Fraco, focou para mais longe e um agradável arrepio percorreu o seu corpo, seguido de uma intensa sensação de paz e plenitude. À medida que contemplava os detalhes da obra, a confortável sensação era pincelada com laivos de intensas emoções. Sentia-se cheio, vivo. Aos poucos a sua atenção foi-se concentrando no centro, onde, com um aspecto tão vívido como se continuasse dentro do seu peito, estava o seu coração. Todas as sensações e emoções se foram condensando num só sentimento que o recém-chegado apenas conseguiu identificar quando este se instalou por completo. Era orgulho que sentia, ardente orgulho. É maravilhoso, disse debilmente passados alguns momentos, obrigado, muito obrigado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Arte #6

Os olhos do recém-chegado não se fecharam mais de um minuto seguido naquela noite. Claro que têm como, pensou, se a vontade for verdadeira, arranja-se solução. Será que eu conseguiria? Perguntou-se enquanto alternava o olhar entre as várias formas que se espalhavam junto às paredes fracamente iluminadas. Visualizou-se a ajustar as suas mãos à volta do pescoço de cada um dos seus companheiros de infortúnio. Tentou imaginar os seus rostos a dar o último suspiro. Projectou na sua mente os rostos deploráveis de cada um dos homens à mercê das suas mãos e, perplexo, sentiu-se capaz. Pelas suas figuras lastimáveis, não era tão difícil encaixar um acto tão atroz como sendo movido por compaixão. Coitados, pensou, é triste, mas basta olha para eles para achar que a morte seria um favor. Desviando o olhar para o vulto mais próximo de si, imaginou de seguida o rosto da mulher sem pernas no momento em que a sua vida se esvaía. Achou que seria mais difícil, a calma que conseguia transmitir-lhe criou em si uma empatia que não existia com os demais. Apesar disso, achou que poderia conseguir, se tivesse a certeza que era esse o seu desejo. Quando o encardido rosto da rapariga apareceu na sua mente, rapidamente percebeu que seria muito mais complicado. Apesar de suja e desgrenhada, a sua aparência não suscitava o mesmo nível de comiseração que os outros. Era uma visão excessivamente infausta, sem dúvida, mas não tinha comparação com as miseráveis figuras dos outros. Bastou imaginar os seus olhos tristes à espera do seu irreversível fado para ter a certeza que não conseguiria, mesmo que ela o desejasse. Desejou ardentemente que ela não o quisesse até que o seu pensamento dispersou. E a minha hora, quando chegará? Meditou contemplando os primeiros raios de sol reflectidos nas inúmeras partículas de pó em suspensão no ar deletério.
Pouco tempo depois, como em todos os dias, o silêncio foi quebrado pelo ranger da portinhola. Como um funesto ritual, em resposta ao som, os vultos disformes começam a mover-se e a aproximar-se da porta. Cumprindo a sua parte, o recém-chegado imitou e regressou para junto da mulher com o medíocre pequeno-almoço de ambos.
Preferias morrer? Perguntou baixo à mulher, tentando que ninguém o ouvisse, mas reparou que o velho levantou rapidamente a cabeça, virando para si o ouvido direito. A mulher virou a cabeça devagar na sua direcção. Já tive dias em que aceitaria a morte de bom grado, mas tenho outros em que me sinto feliz por ela não ter chegado, disse, em tom normal e sem qualquer preocupação com quem ouviria. Quase instantaneamente, o velho virou as suas órbitas ocas na direcção dos dialogantes. Porquê a pergunta? Disparou o velho do outro lado da cela. Disseste-me que só não acabaste com a tua vida porque não tinhas como, respondeu o recém-chegado. Disse e repito, retorquiu o velho no seu constante tom amargo. Pois agora já tens como, respondeu secamente o recém-chegado, ainda queres? Não penses que és o Einstein por teres pensado nisso, continuou o velho no mesmo tom, eu já tive essa ideia há muito tempo, mas seria incapaz de pedir uma coisa dessas a alguém, de pedir a alguém que, por mim, carregasse para o resto da vida o peso de ter tirado a vida a outro ser humano. Lentamente, o velho levantou-se e, da mesma forma que o faria se os seus globos oculares ainda se encontrassem no sítio devido, atravessou o espaço e ajoelhou-se em frente do recém-chegado. Estás a voluntariar-te? Perguntou aproximando tanto o seu rosto do do recém-chegado que este se contorceu de náusea ao cheirar o hálito do velho. Sim, voluntario-me, respondeu o recém-chegado sem pensar. Se me garantires que é isso que queres, eu faço-o. Garanto-te que é o que quero, não tenho qualquer dúvida, respondeu prontamente o velho. E tu? Perguntou. Tens a certeza que és capaz? Tens consciência de que nunca mais serás o mesmo? De que esse momento nunca, nunca mais se vai esbater na tua memória? Que vai ficar sempre tão vívido, que vais ter vontade de fazer um furo na cabeça para que as memórias escorram para fora? Pareces saber bastante sobre o assunto, disse o recém-chegado com uma nota de sarcasmo na voz. Não é isso que estamos a debater, respondeu rispidamente o velho. Pois não, retrucou o recém-chegado quase com a mesma rispidez, e já te disse que o faço, que te faço esse favor. Não sei o que aconteceu no teu caso, continuou mais delicadamente, mas se eu o fizer será um acto de misericórdia e será assim que o momento ficará registado na minha memória. Se continuar sempre vívido, fará sentir-me bem lembrar-me que tive coragem suficiente para, movido por puro altruísmo, conceder esse obséquio a alguém, por ter estado à altura da situação e ter feito o que tinha que ser feito. Está bem, convenceste-me, respondeu o velho aparentando estar algo divertido com o discurso, estou à espera. Faço-te esse favor, disse o recém-chegado enchendo o peito, com a condição de haver um dia de reflexão. Isto vale para todos, continuou, levantando o tom de voz. Pensem bem no assunto e dêem-me a vossa resposta amanhã. Não sei onde vou conseguir forças, mas eu faço-o. Faço-o por compaixão para convosco, mas também porque é a única vingança que vos posso proporcionar. Ao terminar o seu discurso, olhando para o rosto triste da rapariga, quase imperceptivelmente, rodou a cabeça para ambos os lados.
Todos ficaram em silêncio virados para o recém-chegado por alguns momentos até que o homem sem braços quebrou a quietude. Eu também quero, disse, elevando o tom de voz mais do que seria necessário para que todos ouvissem. Eu também quero, repetiu mais baixo. Todos os rostos se viraram para si. Mesmo que ainda venha a sair daqui, que não acho que aconteça, que vida vou eu ter? Alguém aqui vai conseguir ultrapassar isto se conseguir sair daqui? Perguntou aos demais. Não, para mim chega, continuou, dirigindo-se ao recém-chegado, se me fazes o favor de não permitir que aquele ser abjecto continue a divertir-se a ver-me definhar, eu agradeço-te do fundo do meu coração. O recém-chegado acenou com a cabeça em consentimento e voltou-se para encontrar o olhar da mulher sem pernas. Eu vou pensar nisso, respondeu a mulher à pergunta não verbalizada.
Enquanto todos se abstraíam, meditando sobre o assunto que se tinha discutido, o recém-chegado acercou-se da rapariga. Tu não precisas de pensar no caso, disse-lhe baixinho, mas sabendo que o velho o ouviria, nunca to conseguiria fazer, não entras para o acordo. Porquê? Perguntou a rapariga. Porque há uma pequena hipótese de saíres daqui e ainda vires a ter uma vida normal, respondeu o recém-chegado. Olha para eles, continuou enquanto percorria o espaço com um movimento do braço direito, mesmo que saíssem daqui, as feridas físicas e emocionais tomariam sempre conta da sua vida, acredito que, para eles, a morte é mesmo a única libertação possível, mas não para ti. Eu não quero morrer, disse a rapariga, olhando fundo nos olhos do recém-chegado, o que eu queria, já que não posso sair daqui, era ficar cá sozinha contigo. O olhar da rapariga desviou-se para uma racha no chão ao proferir a última frase. Porquê comigo? Perguntou espantado o recém-chegado. Tens braços, retorquiu a rapariga, continuando a percorrer lentamente com o olhar a fenda no chão, não és repulsivo, não és mais velho que o meu pai… O recém-chegado deslizou suavemente as costas do indicador direito na face encardida da rapariga, que levantou o olhar para encontrar o seu. A decisão não é minha, disse, mas se ficarmos cá os dois sozinhos, eu não vou poder ser mais que um irmão mais velho para ti. A rapariga virou violentamente a cara para o outro lado e, com passos rápidos, foi sentar-se no canto oposto abraçando as pernas.
O resto do dia decorreu em silêncio. Com excepção do velho, que dormiu a maior parte do tempo, meditabundos, os restantes ocupantes mantiveram-se ensimesmados, provavelmente a pensar no que iria acontecer na manhã seguinte.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Arte #5

Após algumas dezenas de minutos, durante os quais cada um se manteve silenciosamente imerso nos seus próprios pensamentos, o recém-chegado acercou-se da parede onde o velho mantinha o seu registo e ficou estático a olhar para a serpenteante fila de riscos na parede. Trezentos e oitenta e sete, disse o velho, provocando algum espanto no recém-chegado por parecer ter lido a sua mente. Estás cá há trezentos e oitenta e sete dias? Perguntou abismado o recém-chegado. Sim, respondeu o velho, fui o primeiro. Estive vários meses aqui sozinho, continuou, e só não acabei com a minha miserável existência porque não tinha como. Agora já nem me preocupo, estou mentalizado para acabar aqui os meus dias, só espero que esteja para breve. As palavras do velho provocaram uma imensurável tristeza no recém-chegado, que lutava por não desmoralizar e manter uma réstia de optimismo. Deduzo que a rapariga foi a última pessoa a chegar antes de mim, especulou o recém-chegado em tom interrogativo. Sim, de facto deduzes bem, embora o facto que provavelmente te levou a essa dedução não o comprove, respondeu o velho. Como assim? Perguntou o recém-chegado. Ele já a veio buscar uma vez, mas aparentemente não lhe fez nada, explicou o velho, ou pelo menos é o que parece e é o que ela diz, se calhar fez-lhe alguma coisa que ela não quer dizer, continuou em tom ponderativo. Bom, pelo menos não lhe fez nada que salte à vista, ao contrário do que aconteceu com o resto de nós, concluiu, percorrendo a sua longa cicatriz com a ponta do indicador da mão direita. Depois recostou-se na parede e cruzou as mãos sobre o abdómen, como se se preparasse para dormir.
O recém-chegado deixou-se ficar alguns momentos em silêncio junto ao velho e aproximou-se depois da rapariga. Achas mesmo que ele não é humano? Perguntou com delicadeza. Não sei o que ele é, mas não acredito que um ser humano possa dar tão pouco valor à vida de outro, retrucou a rapariga. Pois, ainda és demasiado nova e ingénua, pensou o recém-chegado condescendentemente, mas limitou-se a acenar com a cabeça. E ele falou mesmo contigo? Sim, respondeu a rapariga com uma voz trémula, foi arrepiante. E o que é que ele te disse? Indagou o recém-chegado. Não me disse grande coisa, mas, apesar de não me ter feito mal, foi o suficiente para me deixar aterrorizada, respondeu a rapariga. Conta-me, pediu o recém-chegado.
A rapariga respirou fundo, endireitou as costas como que reunindo forças e começou. Nunca ninguém aqui o viu nem teve nenhum contacto com ele, além do que me aconteceu a mim. Ninguém sabe sequer se é só um, ou mesmo se é humano. Sou quem está cá há menos tempo depois de ti e, quando cheguei, ninguém sabia absolutamente nada do que poderia estar a acontecer. Só sabiam que havia manhãs em que, ao acordarem, faltava uma pessoa. Essa pessoa normalmente, sem ninguém também saber como, aparecia noutra manhã, vários dias depois… A rapariga fez uma pausa e desviou o olhar para o velho que dormitava. Naquele estado, continuou, enfiando a cara não mãos sem conseguir conter o choro. O recém-chegado afagou-lhe o cabelo sujo e dirigiu-lhe algumas palavras de conforto. Podes abraçar-me? Pediu a rapariga. O recém-chegado abriu os braços e ela, encaixando-se nele, encostou a cabeça ao seu peito e fechou os olhos.
Obrigado, disse ela, já recomposta, passado algum tempo. Não imaginas o que eu estava a precisar de um abraço. Tem um efeito quase milagroso, não achas? O recém-chegado limitou-se a murmurar uma interjeição afirmativa. A teoria geral é que libertam um gás anestesiante, disse a rapariga, retomando o assunto. Suponho que ninguém se surpreendeu quando, uma manhã, eu não estava lá, mas a minha história é diferente. Não acordei aqui, no mesmo estado que os outros. Então? Perguntou, curioso, o recém-chegado, como se estivesse esquecido que o que ouvia não era apenas uma história, mas sim uma cruel realidade onde estava também inserido. Acordei presa a uma espécie de mesa de operações, numa sala que parecia pertencer a um hospital antigo com um quase insuportável cheiro a éter. Pouco depois ouvi uma voz. Uma voz que não pode ser deste mundo, parecia que silvava e saia do fundo de um buraco. Causou-me verdadeiro pavor. O que é que ele disse? Perguntou o recém-chegado, cada vez mais empolgado. Essa é a parte mais estranha, pediu-me desculpa. O quê? Perguntou, incrédulo, o recém-chegado. Sim, respondeu a rapariga, foi perfeitamente educado e pediu-me desculpa porque eu não servia. Não servias? Porquê? E para quê? Indagou o recém-chegado. Não sei, respondeu a rapariga, além de pedir muita desculpa, ele só me disse que a matéria-prima tinha que estar imaculada e que eu não servia. Ainda bem, respondeu apenas o recém-chegado, sorrindo. Corada, desviando os olhos, a rapariga sorriu também.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Arte #4

Porque se referem sempre a “ele”, perguntou o recém-chegado, porque é que acham que é só uma pessoa? Nas poucas e curtas mensagens que já nos deixou escritas assina “Escultor”, respondeu a mulher, mas eu não acredito que ele consiga fazer tudo sem ajuda. Haverá de certeza outros que o ajudam, mas tudo aponta para que seja mesmo à mercê de apenas uma pessoa, humana ou não, que estamos. E o que diziam essas mensagens? Continuou, curioso, o recém-chegado. A mulher enfiou a mão por dentro da camisa suja e esfarrapada e retirou de lá dois pedaços dobrados de papel amarelado e entregou-os ao recém-chegado. Depois de alguns segundos a olhar para os pedaços de papel pousados na palma da sua mão, o recém-chegado pegou num deles e abriu-o. Estava encardido e emanava um cheiro estranho e desagradável. “Dignitários sois de grave prerrogativa” era o que estava escrito, notoriamente a aparo, numa letra extremamente cuidada e floreada. O papel amarelado e a letra manuscrita faziam a mensagem aparentar ter séculos de existência. Voltou a dobrar cuidadosamente o pedaço de papel e, com o mesmo cuidado, abriu o outro. “Compreendei a vossa fortuna” estava escrito na segunda nota, na mesma letra trabalhada. Escultor… O recém-chegado leu alto a palavra que assinava ambas as notas. Escultor… Repetiu para si próprio, dirigindo o olhar para a janela que deixava entrar alguns raios de sol. Dignitários sois de imensa prerrogativa? Compreendei a vossa fortuna? Que merda quer isto dizer? Perguntou o recém-chegado à atmosfera, em tom irritado. Pelo que percebo, ele ou vai recompensar-nos, ou acha que nos está a fazer bem, respondeu a mulher, sem nunca mostrar abalada a sua pacatez. Estás a ver o nível do filho da puta? Disparou o velho, do outro lado da cela. Ainda acha que nos está a fazer um favor, o grande pulha. Se queria ser decente, pelo menos dava-nos alguma escolha. Eu nunca disse que achava bem o que ele nos está a fazer, retorquiu a mulher, apenas elevando a volume da sua voz, mas mantendo no mesmo tom calmo, mas é por isto que acho que ele não nos está a fazer mal apenas para satisfazer um qualquer depravado desejo sádico. Não acho que o objectivo de tudo isto seja apenas fazer-nos sofrer. A última frase foi proferida mais suavemente e dirigida ao recém-chegado, que lhe retribuiu um olhar compreensivo.
O recém-chegado sentou-se ao lado da mulher sem pernas. Sabes, isto pode ser também uma forma cruel de brincar com as nossas mentes, com a nossa sanidade mental, disse baixinho. Claro que pode, respondeu a mulher quase de imediato, não penses que não coloco essa possibilidade, mas, como não tenho provas nem dessa, nem da outra hipótese, e já que não posso fazer nada, prefiro acreditar na que me é mais confortável.
Ele mostra-se, perguntou o recém-chegado, alguém já o viu? Não, respondeu o homem sem braços com a sua voz débil, quando vem buscar alguém, só nos apercebemos quando acordamos. Ele deve usar alguma coisa para nos pôr a dormir profundamente. É um vampiro, um monstro, disse a jovem rapariga, levantando a voz. Não há monstros ou vampiros, disse o velho com alguma irritação na voz, o que há é seres humanos capazes das maiores barbáries. Os monstros somos nós, os maiores monstros que cá andam, e basta conhecer um bocadinho da nossa história ou simplesmente ver as notícias para perceber isso. E a voz? Aquela voz não pode ser humana, gritou a jovem rapariga, roçando a histeria, dizes isso porque nunca lhe ouviste a voz. Ela foi a única com quem ele já falou, esclareceu o homem sem braços, dirigindo-se ao recém-chegado, não sabemos porquê.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A parte de dentro para fora

“Não é o que metemos dentro de nós que nos define, mas sim aquilo que sai de nós”, disse-me uma vez um amigo. Pessoa muito interessante, constantemente à procura de novas emoções, totalmente agarrado às drogas. Concordo. Acho que estava imerso em razão. É uma pena ter morrido tão jovem…

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Arte #3

A tua calma, apesar de conseguir contagiar um bocado, não deixa de ser desconcertante, disse o recém-chegado, sentando-se ao lado da mulher, como é que consegues estar sempre tão tranquila? Por acaso ganho alguma coisa em enervar-me, em andar em constante amargura? Perguntou pacatamente a mulher, inclinando a cabeça na direcção do velho ao proferir a última frase. Não, de facto não, respondeu o recém-chegado. Pois, continuou a mulher, não ganho nada e, como a forma como lido com a nossa situação não tem qualquer influência na realidade, acho que mais vale manter a calma e aceitar o destino. O que é que ele ganhou com a inconformidade? Concluiu olhando directamente para o velho. Nada, não ganhei nada, gritou o velho lá do fundo no seu quase constante tom agressivo, mas eu não escolho reagir assim, vocês falam como se fosse uma opção e não é. Achas que me faz sentir bem ter este turbilhão dentro de mim que só me deixa pensar nas atrocidades que faria ao filho da puta se o apanhasse? Perguntou amargamente o velho. Não faz, mas é o que me mantém vivo. E cada vez acredito mais que isso não é uma vantagem. Cada vez acredito mais que não ganho nada em manter-me vivo, mas não consigo controlar esta revolta. Se quiseres ter a amabilidade de partilhar o teu segredo, sou todo ouvidos, concluiu sarcasticamente. Não tenho um segredo, nenhuma fórmula mágica, respondeu a mulher com amabilidade, apenas racionalizo a situação e, ao perceber que não há nada que eu possa fazer para mudar a minha situação, conformo-me. É a forma como funciono, apenas isso. Não achas que esse conformismo está num patamar próximo da abjecta cobardia? Perguntou o velho no mesmo tom sarcástico. Não achas que isso é aquilo a que as pessoas chamam sangue de barata? O recém-chegado desviou rapidamente o olhar para o rosto da mulher na esperança de apanhar algum esgar repentino que lhe provasse que conseguia ter emoções. Desejou ver alguma expressão de desagrado face às palavras do velho, fá-lo-iam respeitá-la mais, já que também não concordava com tal apatia, mas isso não aconteceu. A mulher manteve-se impávida e esboçou até um sorriso ao responder. Se houvesse algo que eu pudesse fazer e eu tivesse esta atitude, sim, seria cobardia, sangue de barata ou aquilo que lhe quiseres chamar, disse, mas não havendo, parece-me mais uma postura inteligente do que cobarde. Tens alguma ideia? Perguntou, intrépida, a mulher. Se achas que há alguma coisa que eu possa fazer para nos ajudar, partilha, por favor. O velho grunhiu e virou-se de costas. Foi o que eu pensei, continuou, nesse caso acho que não tens argumentos para criticar a minha postura. Já que vou morrer, ao menos não vou viver todo o tempo que me resta até lá aterrorizada por isso. Acho até que já nada me aterroriza. Achas mesmo que não há absolutamente nada que possamos fazer? Perguntou, desalentado, o recém-chegado. Olha à tua volta, respondeu a mulher, e conta-me qualquer ideia que tenhas.

Após alguns minutos a percorrer a cela com o olhar, o recém-chegado compreendeu a mulher. Não havia nada. Nada que pudesse ser usado como arma, nada que permitisse a alguém acabar com a própria vida, nada. Invadido por uma tristeza avassaladora, deitou-se em posição fetal e ali ficou até finalmente adormecer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Arte #2

Conseguiu sentir algo semelhante a uma sensação de alívio quando, pouco depois dos primeiros raios de sol começarem a entrar pela pequena janela, os vultos disformes começaram a assumir formas humanas. A sensação foi abruptamente cortada quando as silhuetas se tornaram mais nítidas e o recém-chegado percebeu que algo não parecia normal.

Antes que pudesse processar as informações que o seu cérebro recebia das retinas, uma ranhura abre-se na desgastada, mas robusta, porta de ferro, através da qual um tabuleiro com alimentos foi introduzido no espaço. Lentamente, as figuras distantes aproximaram-se dele e pôde vê-los com revoltante detalhe.

O primeiro que, coxeando, se acercou do tabuleiro era um homem já de alguma idade. Apesar da sua deplorável condição o fazer parecer muito envelhecido, achou que não devia ter muito mais que cinquenta anos. Estava extremamente magro e o seu tronco nu apresentava uma grotesca e retorcida cicatriz que se perdia em direcção às costas. Conforme cambaleava na sua direcção, o recém-chegado deixou cair o queixo ao reparar nas sua órbitas ocas. Os olhos do homem tinham sido cuidadosamente extraídos, dando ao seu rosto a aparência de uma caveira. Quem poderia fazer uma coisa destas a alguém, pensou ainda por um instante antes do homem quebrar o silêncio. Estou a ver que temos mais um, disse roucamente, mas não ocorreu ao filho da puta pôr mais comida! Exclamou, virando o seu grotesco rosto na direcção do recém-chegado ao mesmo tempo que partia, o mais irmãmente que conseguiu, o pão em cinco pedaços. Não precisas de te assustar, eu sei que não tens culpa, acrescentou dirigindo-se ao recém-chegado como se tivesse percebido o temor nos seus olhos. Estamos todos no mesmo barco, concluiu enquanto se sentava mordiscando o seu pedaço de pão.

Quando o homem se calou, o recém-chegado desviou a sua atenção para as outras duas pessoas que se movimentavam. Uma encardida menina, que achou ter entre doze e catorze anos ajudava um homem mais velho a levantar-se. O homem teria algo entre trinta e quarenta anos, o seu estado sujo e subnutrido impedia uma estimativa com mais precisão. A aproximação permitiu confirmar o que a sua silhueta já tinha feito inferir, os seus braços tinham sido amputados. A rapariga ajudou-o a sentar-se e, recolhendo dois pedaços de pão, sentou-se junto dele dando-lho à boca enquanto comia o seu. No momento de silêncio que se seguiu, a rapariga, que não apresentava qualquer mutilação visível, dirigiu o seu olhar ao recém-chegado e nele, este viu a mais intensa comiseração. Estava quase a ir-se abaixo perante o triste fado que a cena e o olhar da rapariga deixavam adivinhar para si, quando uma voz o distraiu.

Então, conseguiste dormir? Podes trazer-me o meu pão, se fazes favor? Virou a cara na direcção da voz e confirmou que provinha da mulher sem pernas. A sua voz era doce, quase maternal e ficou surpreendido ao perceber que conseguiu transmitir-lhe algum alento. Claro, disse o recém-chegado enquanto se apoderava dos dois últimos pedaços de pão. Entregou um à mulher, que lhe sorriu, e deixou-se ficar, pensativo, a olhar para o seu. Não consigo comer, disse após alguns minutos, nauseado com o cheiro e com um nó no estômago causado pelo nervosismo. Com alguma dificuldade dividiu o seu pedaço de pão em quatro partes e distribuiu-as entre os demais que o receberam com um misto de espanto e gratidão.

Em silêncio, o recém-chegado percorreu as paredes com o olhar, várias áreas estavam gravadas com palavras que não conseguia ler de onde se encontrava e, aparentemente, havia quem estivesse a tentar manter um registo do tempo em que se mantinha cativo. O enorme número de toscos traços gravados nessa parede fizeram-no perder toda a esperança que ainda mantinha que o pesadelo não durasse muito. Continuando a sua observação, com um esgar enojado, cerrou os olhos ao deparar-se com o canto de onde provinha o fedor. É um pesadelo, é isso, é só um pesadelo e daqui a pouco vou acordar, pensou.

Deves ter perguntas. A voz retirou-o da sua catatonia e fê-lo abrir novamente os olhos. Provinha do homem sem braços que, apesar da amargura da sua voz, lhe dirigia um olhar empático. Sim, apesar de conseguir adivinhar algumas coisas, quero saber porque estamos aqui, porquê nós, quem é que nos mantém aqui presos, disse em tom algo suplicante. Bom, disse o velho, antecipando-se ao outro homem, os porquês também eu gostava de saber. Quem, continuou após pigarrear para clarear a voz, também não sabemos ao certo, sabemos apenas que é um filho da puta cruel e demente. Demente, sem dúvida, cruel, não sei, interveio a mulher sem pernas. Não acha que ele seja cruel? Perguntou o recém-chegado, olhando atónito para ela. Aqui tratamo-nos todos por tu, disse com a sua estranha calma, e não, não acho, pelo menos, que seja uma crueldade calculada ou propositada. Acho que somos algo como moscas que uma criança guarda dentro de um frasco, continuou, acho que ele não tem realmente consciência do mal que nos faz, qual criança que arranca as asas de uma mosca. Será cruel, de facto, mas não deixa de ser inocente, concluiu cruzando as mãos sobre o ventre. Ele não é humano, disse, aterrorizada, a jovem rapariga, que, assim que o recém-chegado virou para si a sua atenção, baixou a cabeça, olhando timidamente o chão, não é humano, repetiu num sussurro. Então o que é que ele é? Perguntou o recém-chegado à rapariga. Esta, levantou a cabeça apenas o suficiente para que os seus olhares se cruzassem e limitou-se a encolher os ombros. Seja humano ou não, para mim é um filho da puta, disse o velho enquanto se levantava para se dirigir à parede junto de onde tinha dormido e se dedicar a, pacientemente, adicionar, com a unha do polegar da mão direita, mais um risco à incontável fila que lá estava gravada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Arte #1

O odor fétido que pairava no local invadiu as narinas do recém-chegado assim que acordou. Revolveu-lhe imediatamente o estômago e colocou-lhe na face uma expressão de extrema náusea. Acabas por te habituar ao cheiro, disse uma voz feminina, se precisares de vomitar, tenta usar aquele canto. O recém-chegado levantou a cabeça e vislumbrou a origem da voz. Era uma mulher de meia idade cujas feições, dada a fraca iluminação, não conseguiu distinguir bem, percebendo apenas que era extremamente magra. Com um grande esforço, o recém-chegado elevou o torso, ficando sentado no chão. Semicerrou os olhos numa tentativa de distinguir o contorno da mulher e arregalou-os ao parecer-lhe que não tinha pernas! Estava sentada no chão, encostada a uma parede e, agora que os seus olhos se tinham já habituado à penumbra, percebia facilmente que o seu corpo acabava pouco mais de um palmo abaixo da cintura.

Onde estamos? Perguntou debilmente. E porque é que cheira tão mal? Onde estamos não sei, respondeu a mulher com uma desconcertante calma, mas bem que podemos estar no inferno, concluiu voltando a encostar a cabeça à parede. O cheiro é uma consequência natural da falta de condições sanitárias, mas vai custando cada vez menos suportá-lo.

Com um esforço quase sobre-humano para controlar o medo, o recém-chegado perscrutou o local, fracamente iluminado pela parca luz que entrava por uma clarabóia junto ao tecto. Não conseguiu perceber se o ténue brilho provinha do luar ou de um candeeiro da rua, mas permitiu-lhe distinguir mais três pessoas que pareciam dormir no chão, junto à parede do seu lado direito.

Mas o que é que se passa? Porque é que estamos aqui? A última coisa que eu me lembro é de estar a aproximar-me da porta da minha casa e sentir uma dor aguda. Depois disso só me lembro de acordar aqui. O nervosismo do recém-chegado quase impedia as suas palavras de saírem de forma inteligível. Desculpa, mas estou muito cansada, respondeu a mulher sem pernas, sabes, continuou com a mesma fleuma, ele não nos dá muito para comer. Tenta dormir, terás muito tempo para tentar obter respostas para todas as tuas questões. Não queria ser incomodativo, desculpou-se o recém-chegado, mas, como é que consegues manter essa calma? Perguntou perplexo. Ganho alguma coisa em enervar-me? Perguntou a mulher, em resposta. Não, respondeu, de facto não, mas… Amanhã, interrompeu a mulher, amanhã…

Resignado, o recém-chegado encostou-se à parede e tentou descontrair. Torrentes de pensamentos açulavam-lhe a mente e assolavam-lhe a presença de espírito, cada um mais assustador que o anterior e não conseguiu conter as lágrimas. A noite foi passada em constante luta contra os pesadelos que teve acordado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ainda o Ernesto

Almocei ontem com o Ernesto. Já não o via há algum tempo. Está um homem novo, até os olhos brilham de outra forma! Diz que já está noutra. Que cresceu, amadureceu e que as carnes vermelhas já não o fascinam. Diz que encontrou finalmente o verdadeiro e genuíno amor. Tem numa relação estável com um presunto de Barrancos e diz que nunca tinha tido sexo com tal categoria. E a verdade é que se lhe vê a satisfação estampada na cara. Este Ernesto é um prato, é mesmo um daqueles tipos tão decentes que merece mesmo ser feliz. Está até a pensar em mudar-se para o Canadá para poderem casar. Estou tão contente por ele…