sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Arte #1

O odor fétido que pairava no local invadiu as narinas do recém-chegado assim que acordou. Revolveu-lhe imediatamente o estômago e colocou-lhe na face uma expressão de extrema náusea. Acabas por te habituar ao cheiro, disse uma voz feminina, se precisares de vomitar, tenta usar aquele canto. O recém-chegado levantou a cabeça e vislumbrou a origem da voz. Era uma mulher de meia idade cujas feições, dada a fraca iluminação, não conseguiu distinguir bem, percebendo apenas que era extremamente magra. Com um grande esforço, o recém-chegado elevou o torso, ficando sentado no chão. Semicerrou os olhos numa tentativa de distinguir o contorno da mulher e arregalou-os ao parecer-lhe que não tinha pernas! Estava sentada no chão, encostada a uma parede e, agora que os seus olhos se tinham já habituado à penumbra, percebia facilmente que o seu corpo acabava pouco mais de um palmo abaixo da cintura.

Onde estamos? Perguntou debilmente. E porque é que cheira tão mal? Onde estamos não sei, respondeu a mulher com uma desconcertante calma, mas bem que podemos estar no inferno, concluiu voltando a encostar a cabeça à parede. O cheiro é uma consequência natural da falta de condições sanitárias, mas vai custando cada vez menos suportá-lo.

Com um esforço quase sobre-humano para controlar o medo, o recém-chegado perscrutou o local, fracamente iluminado pela parca luz que entrava por uma clarabóia junto ao tecto. Não conseguiu perceber se o ténue brilho provinha do luar ou de um candeeiro da rua, mas permitiu-lhe distinguir mais três pessoas que pareciam dormir no chão, junto à parede do seu lado direito.

Mas o que é que se passa? Porque é que estamos aqui? A última coisa que eu me lembro é de estar a aproximar-me da porta da minha casa e sentir uma dor aguda. Depois disso só me lembro de acordar aqui. O nervosismo do recém-chegado quase impedia as suas palavras de saírem de forma inteligível. Desculpa, mas estou muito cansada, respondeu a mulher sem pernas, sabes, continuou com a mesma fleuma, ele não nos dá muito para comer. Tenta dormir, terás muito tempo para tentar obter respostas para todas as tuas questões. Não queria ser incomodativo, desculpou-se o recém-chegado, mas, como é que consegues manter essa calma? Perguntou perplexo. Ganho alguma coisa em enervar-me? Perguntou a mulher, em resposta. Não, respondeu, de facto não, mas… Amanhã, interrompeu a mulher, amanhã…

Resignado, o recém-chegado encostou-se à parede e tentou descontrair. Torrentes de pensamentos açulavam-lhe a mente e assolavam-lhe a presença de espírito, cada um mais assustador que o anterior e não conseguiu conter as lágrimas. A noite foi passada em constante luta contra os pesadelos que teve acordado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ainda o Ernesto

Almocei ontem com o Ernesto. Já não o via há algum tempo. Está um homem novo, até os olhos brilham de outra forma! Diz que já está noutra. Que cresceu, amadureceu e que as carnes vermelhas já não o fascinam. Diz que encontrou finalmente o verdadeiro e genuíno amor. Tem numa relação estável com um presunto de Barrancos e diz que nunca tinha tido sexo com tal categoria. E a verdade é que se lhe vê a satisfação estampada na cara. Este Ernesto é um prato, é mesmo um daqueles tipos tão decentes que merece mesmo ser feliz. Está até a pensar em mudar-se para o Canadá para poderem casar. Estou tão contente por ele…

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Outra vez o Ernesto

Coitado do Ernesto, anda tão triste. Diz que queria ter relações mais duradouras, mas que, apesar de todos os seus esforços, ao fim de algum tempo as coisas estragam-se e começam a cheirar mal. Tenho mesmo pena dele. É que é um gajo que se vê que tem muito amor para dar e é desolador acompanhar estas desilusões. Eu ainda lhe propus que a congelasse, mas ele diz que ela depois fica demasiado fria na cama.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Ernesto

Para mim o Ernesto não deixa de ser um tipo normal. Tem as suas particularidades, claro, mas quem as não tem? É amigo do seu amigo e isso é que interessa. É daqueles tipos de quem é difícil não gostar. Um gajo sentimental, afável, sempre a fazer-nos rir, um porreiraço! O que cada um faz na privacidade do seu lar não é da conta de ninguém, e eu até acho que há ali amor. Que diferença é que me faz que ele esteja perdidamente apaixonado por uma peça do pojadouro? Não deixamos de fazer as nossas cartadas em casa dele por causa disso, já sabemos que não podemos mexer naquele frigorífico e corre tudo bem.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Curtas

È o fazer
È o dar sem pensar em receber
È o prometer e cumprir
È o não omitir
É o sentir
E perante os obstáculos é o nunca desistir

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Motivação

- E vai ela e diz: "mas esse é o meu botão!!!".
- ...
- "Esse é o meu botão!", não percebeste?
- Hã?
- Há algum problema com a tua comida? Porque é que estás a olhar assim para o prato??
- Estava aqui a ver se conseguia perceber a motivação de alguém que põe ervilhas no arroz...

Era tecnológica, my ass

Já temos maravilhas como salsichas de soja, hamburgers de tofu, até farinheiras vegetais… Mas ainda não é possível comer uma peça de fruta feita inteiramente de porco...

(já sei, e não, não planeio fazer carreira, mas que isto andava a precisar de uma idiotice, andava :)

SW - Momentos mais marcantes


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Brüno

Se aquilo for mesmo verdade, o gajo tem mais tomates que o Charles Bronson e o Chuck Norris juntos...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Peça ou Será estúpido?

Não consigo, estou demasiado nervoso, disse o jovem actor, porque é que a primeira cena a sério da minha vida tinha que ser logo um monólogo? Eu também não sei o que é que o encenador viu em ti para achar que este papel tinha que ser teu, mas alguma coisa há-de ter sido, respondeu o segundo actor. Mas o teatro está cheio, e eu não consigo parar de tremer, continuou o jovem actor, como é que eu alinhei nisto? Pois que agora é tarde demais para te acobardares, respondeu o segundo actor com alguma aspereza, aceitaste a responsabilidade, agora tens que cumprir. Vais ver que depois de passarem aqueles momentos iniciais de pânico, a coisa começa a fluir, continuou em tom paternalista, entra no personagem e dá tudo de ti. E no fim… os aplausos, meu caro… quando sentires os aplausos vais querer fazer isto até morrer. Não há sensação que se compare a uma ovação de pé. Agora, vai-te a eles e ajuda-nos a conseguir uma esta noite! Concluiu, numa derradeira tentativa de encorajar o jovem actor a enfrentar a multidão, enquanto o empurrava para o palco.

Assim que a força provocada pelo empurrão desapareceu, num movimento súbito e instantâneo, o jovem actor inspirou e colocou-se muito direito. Já não tremia. Deu duas voltas ao palco, olhando, empertigado, a audiência. Por fim, parou na frente do público e, com uma postura algo napoleónica, começou.

Quem sois vós? Todos vós? A que pensais vir aqui assistir? Teatro? Não, nada disso, pois que não será teatro que vereis. Vereis vida, meus caros, vereis vida desenrolar-se perante os vossos olhos. Vereis pessoas boas, ou talvez não, pessoas más, ou que tiveram apenas azar. Conseguireis saber onde se escondem os Messias? Onde se escondem os Judas? Podeis, ingenuamente, pensar que sim, mas eu garanto-vos que não, meus caros, não sabereis. Preparai-vos, pois os momentos que se seguem poderão mudar as vossas vidas. Poderão tornar-vos novas pessoas e, àqueles que não conseguirem deixar hoje esta sala mais ricos e preenchidos, nada mais posso fazer senão comiserar-vos.

Boquiabertos, o encenador e os outros actores assistiam à cena a partir dos bastidores. O que é que aquele maluco está a fazer? Perguntou, atónito, o segundo actor. Nada daquilo está no guião! Ei, estou a falar contigo! O encenador virou os seus olhos aguados para o outro actor e fitou-o por alguns segundos antes de responder. Genial, disse, emocionado, eu sabia que havia qualquer coisa de especial naquele miúdo. Senti-o mas minhas entranhas. Genial… Repetiu enquanto dirigia novamente a sua atenção para o palco, no momento em que o jovem actor terminava o seu monólogo e que, como que movida por um impulso comum, toda a platéia aplaudia intensa e copiosamente. Com uma vénia suave, em que quase só o seu pescoço se moveu, o jovem actor saiu de cena, transformando-se novamente na pessoa que era antes de ter pisado o palco.

Os seus olhos transbordavam temor quando encontraram os do encenador. Desculpe, não sei o que me deu, disse, envergonhado. Nem acredito que estejas a pedir-me desculpa? Retorquiu o encenador. Foi brilhante, continuou, olha, disse enquanto levantava o braço direito e mostrava ao jovem actor os seus pelos eriçados. Eu vi um brilho especial nos teus olhos, mas nunca pensei que pudesse significar tanto, prosseguiu, visivelmente emocionado. Eu nunca faço isto, mas vamos já alterar os planos. Vou ser eu a representar os teus papéis nas outras cenas e tu vais só entrar entre cada uma delas e improvisar. As pernas do jovem actor fraquejaram e os seus olhos arregalaram-se. Desculpe, mas acho que não consigo, disse o jovem actor com a voz trémula, não tive qualquer controle sobre mim quando estava no palco, não tenho nenhuma garantia de que possa voltar a correr bem. Não te preocupes, respondeu, tranquilizador, o encenador, tu nasceste para isto! Tenho a certeza que vai correr maravilhosamente. Só tens que entrar em cena e vais ver que tudo acontece naturalmente. Bom… Vou dar o meu melhor, respondeu, hesitante, o jovem actor. A cena está a terminar, prepara-te, disse, energicamente, o encenador, quando o último sair do palco, tu entras. Agora, vá! Muita merda, muita merda! Sem pensar, o jovem actor reagiu às palavras que lhe eram dirigidas e invadiu o palco.

Seguiu a orla do palco, fixando os olhos do maior número de espectadores que conseguiu. Ao chegar ao extremo oposto parou por alguns momentos, deu meia volta e começou a falar enquanto percorria a trajectória inversa.

Preparai-vos, meus caros. Preparai-vos para, quando daqui sairdes, enfrentar um novo mundo. Ver novas formas, novas cores. Ver as pequenas coisas da vida com outros olhos. Reparar em pormenores que nunca antes havíeis reparado e compreender a sua importância. Preparai-vos para navegar dentro das vossas próprias mentes, onde fareis mirabolantes viagens de descoberta, onde vos deparareis com o vosso centro, a vossa medula, com o vosso verdadeiro ser. Aí, vereis com clareza o belo e o horrendo, o sublime e o banal, o bem e o mal. Tornar-vos-eis pessoas, pessoas reais e plenas, em vez de vulgares seres humanos. Sei que viestes à procura de algo, de algo magnificente. Pois encontrareis. Não tenhais dúvidas que, se abrirdes as vossas mentes e os vossos corações, encontrareis. Concluiu enquanto abria os braços e deixava a cabeça cair para trás.

Quando o jovem actor se retirou do palco, deparou-se com o encenador de lágrimas nos olhos. Fenomenal, disse-lhe, tens verdadeiramente um dom. Abençoado seja o dia em que entraste neste teatro. Um talento como o teu não se encontra muitas vezes na duração de uma vida. O jovem actor limitou-se a, envergonhado, fixar os olhos no chão. Nem me conheço, disse entre dentes. Não, retorquiu prontamente o encenador, agora é que te estás finalmente a conhecer. Eu compreendo que não pareça, mas aquele és tu. Aquela pessoa que ali esteve está dentro de ti, é parte integrante de quem és. Acredita! Temos agora a última cena, continuou, mas eu quero que entres ainda outra vez depois dela. O público quer mais de ti, tenho a certeza. Quando a cena acabar, entras e fazes a conclusão.

Quando chegou o momento, o jovem actor caminhou lentamente palco adentro, de olhos no chão, acariciando o queixo com um ar pensativo. Quando chegou ao centro do palco, parou, de costas para o público. Será? Disse, introspectivo. Será que foi hoje? Continuou. Será mesmo que foi hoje? Repetiu enquanto se virava e encarava a audiência. Foi hoje que todos partilhámos um momento único, sublime, elevado? Sinto as vibrações, a energia no ar. Sinto as sinergias que acredito terem o poder de nos metamorfosear, transformando-nos em algo mais que meros humanos. Acreditem, meus caros, que hoje sim; hoje aconteceu algo grandioso, majestoso! Todos os nossos corações foram tocados e os nossos horizontes alargados. Acreditem, meus caros, acreditem que nunca mais seremos os mesmos. Acreditem! Concluiu enquanto baixava a cabeça e cruzava as mãos sobre o peito. Permaneceu imóvel naquela posição, de olhos novamente postos nas tábuas puídas do chão. O pano desceu e o público, como que impelido por uma força invisível que o repeliu das cadeiras, levantou-se de imediato e irrompeu num titânico aplauso. Ouviam-se “bravo” inflamados. O êxtase era quase palpável na atmosfera.

O encenador soluçava convulsivamente e as lágrimas escorriam-lhe face abaixo. Obrigado, disse ao jovem actor, entre dois soluços. Obrigado por me teres proporcionado este dia, estas emoções. Sinto que foi o dia mais intenso da minha vida e sim, já não sou o mesmo. Sinto que vou mesmo ver o mundo de outra forma. Acredito! Eu acredito! O jovem actor corou instantaneamente. Eu não sei de onde saiu tudo aquilo, disse, sentia que não era eu quem controlava as minhas acções. Não consigo explicar, mas foi como se, ao pisar o palco, me transformasse automaticamente noutra pessoa. Aquele não era um personagem, respondeu o encenador enquanto tentava recuperar a compostura, era o teu âmago. Hoje nasceste. Hoje, todos nós nascemos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Curtas

As minhas nuas nas tuas
Deixam sulcos, deixam marcas
Fazem fendas, abrem rachas
Contam histórias de viagens

segunda-feira, 11 de maio de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

È um Senhor !!!

http://www.youtube.com/watch?v=Y7VZlzEMaCk

O Olho

Era manhã cedo, estava ainda meio ensonado e não dei qualquer importância à pequena protuberância que senti no crânio enquanto me secava depois do banho. Era na parte lateral, mas suficientemente atrás para não a conseguir ver ao espelho. Uma borbulha, pensei na altura, e não liguei mais. Passados alguns dias, ao passar a mão pela cabeça, voltei a senti-la, parecia maior. Estranhei. Não me doía, mas aparentava estar a crescer. Há-de passar, pensei desta vez, com o meu inato optimismo.

Quando, passada mais de uma semana, voltei a reparar na protuberância, agora já algo do tamanho de um caroço de cereja, uma ponta de preocupação começou a instalar-se. Sempre odiei ir a médicos e só recorro a eles mesmo em casos de manifesta necessidade, por isso resisti à opção e decidi observar mais atentamente o desenvolvimento da situação. Nos dias seguintes, pela observação mais minuciosa do fenómeno, apercebi-me que realmente continuava a crescer e, no espaço de mais uma semana, a protuberância cresceu até ao tamanho de uma pequena azeitona.

Ainda numa posição de resistência a recorrer a um clínico, decidi recorrer à Sílvia, a minha barbeira, como eu lhe chamava, conseguindo uma espécie de tranquilidade infantil, considerando que já estava a recorrer a ajuda profissional. A tranquilidade durou pouco tempo, já que a opinião profissional da Sílvia, depois de observar a protuberância, foi que devia procurar um médico. Pedi que me cortasse o cabelo muito curto, de forma a poder observar melhor o alto.

Em casa, com a ajuda de dois espelhos, a protuberância pareceu-me muito maior do que aparentava ao senti-la com a mão. Ao contrário do que eu pensava, era já algo com um tamanho próximo de um berlinde, mas, na minha atitude normal de desleixo, achei que só parecia muito maior porque tinha agora o cabelo extremamente curto.

Só quando, passados mais alguns dias, calhou enrolar-me com a Ana que, ao pegar-me na cabeça para afundar a minha cara entre os seus seios, gritou assustada, dando um salto para trás, é que finalmente achei que era mesmo imperativo recorrer a ajuda médica. Mexeu-se, disse, horrorizada. É natural, estava a crescer, respondi atónito, já o tinhas sentido antes e nunca reagiste assim. O que é que se passa, perguntei com genuíno espanto. Não é isso, estúpido, respondeu com aquele tom que me fazia adorar quando me chamava aquilo, o alto na cabeça, mexeu-se! A sério, perguntei desconfiado, tens a certeza? Juro-te, senti nitidamente isso a mexer, e foi muito atrofiante. Desculpa lá mas isso cortou o clima e acho que vou andando, disse meio envergonhada, tens mesmo que ir mostrar isso a um médico. Vestiu a camisola à pressa e saiu, visivelmente transtornada. Já não era apenas um alto na cabeça, era algo que começava a interferir com a minha vida, e logo com uma parte que eu prezava bastante. Algo revoltado, decidi que teria mesmo que fazer alguma coisa. Quando, ao apalpar a protuberância, senti também algo a mover-se lá dentro, tive que recorrer a todo o meu sangue-frio para não entrar em pânico. Apesar disso, achei que não podia esperar mais e fui direito ao hospital.

Pois, de facto creio nunca ter visto nada assim, disse o médico, eu diria que era um quisto se não fossem estas pregas na pele que atravessam a protuberância, vamos fazer uma tomografia para podermos ver por dentro. Aguarde aqui um momento, por favor, concluíu enquanto saia para partilhar o caso com um colega. O outro médico entrou e observou-me também. Tem mais alguma coisa assim no resto do corpo, perguntou-me. Não, respondi, é só aí. Siga-me então, vamos fazer o exame.

Aguardava algo ansioso na sala de espera quando entrou o primeiro médico que me tinha examinado. Vinha com um ar algo espantado, o que me provocou algum temor. Faça favor, disse-me enquanto estendia a mão na direcção da sua sala. Entrei, ele entrou a seguir a mim, estendeu novamente a mão, agora na direcção da cadeira e eu sentei-me. O médico observou novamente o meu crânio por alguns momentos e sentou-se também. Depois de uma breve pausa, durante a qual me olhou com alguma estranheza, provocando-me um arrepio na coluna vertebral, quebrou o desconfortável silêncio. É um olho, disse algo bruscamente. Um olho?? Repeti perplexo. Sim, um olho, confirmou, e deixe-me que lhe diga que, em mais de trinta anos de medicina, nunca vi nada assim. Apesar da estranheza do caso, continuou, nem eu nem os colegas a quem pedi aconselhamento achamos que a situação representa algum perigo para a sua saúde, pelo que não pensamos haver razão para alarme. Faremos mais alguns exames e depois podemos discutir as suas opções, sendo que será provável a possibilidade de extracção cirúrgica. Numa questão de segundos imaginei-me um mutante metido numa sala de análise, observado através de um vidro por um magote de cientistas e a ideia assustou-me. Obrigado doutor, disse muito depressa enquanto me levantava, muito obrigado por tudo, voltei a dizer enquanto atravessava a porta em passo acelerado. Ainda o ouvi a pedir-me para esperar, mas não parei até chegar ao carro, onde me meti lestamente, voltando para casa.

Em casa, fiz o meu exame minucioso. Apalpei, olhei, e era nítido que o médico tinha razão, as pálpebras eram já perfeitamente distinguíveis, era mesmo um olho! Algo desnorteado, senti-me fraquejar com o choque e decidi que precisava de descansar. Pensaria no que fazer no dia seguinte.

Quando acordei, nos minutos em que lentamente recuperava a consciência, a minha mente conseguiu enganar-me fazendo-me pensar que toda a história do olho não tinha passado de um sonho, mas, não sei se ao recuperar a razão ou ao passar a mão pela cabeça, a realidade atingiu-me. Era real. Algo assustado, dirigi-me ao espelho e, novamente com a ajuda de outro pequeno espelho, observei demoradamente aquela coisa. O coração quase me saía pela boca quando o olho se abriu! O susto fez-me largar o pequeno espelho que se desintegrou no chão. Foda-se, mais azar, era mesmo o que eu precisava, consegui ainda pensar antes do pavor se apoderar de mim, ao sentir que efectivamente o olho se mexia. Sentia inequivocamente o olho a mexer-se na minha cabeça. Não era, no entanto, uma sensação desagradável, era apenas estranha. Ainda impulsionado pelo pânico, fiz rapidamente um penso com gaze e colei-o na cabeça, tapando o olho. Sentei-me na cama, tentei acalmar-me e pensar no que iria fazer, mas rapidamente se começou a apoderar de mim um estranho desconforto. Não era nada de muito incomodativo, era apenas uma sensação geral levemente desagradável da qual não conseguia perceber a origem e acabei por ignorá-la. Ainda sem saber o que fazer, voltei ao espelho e retirei o penso. Instantaneamente o desconforto desapareceu, tornando claro que se devia ao facto do olho estar tapado. Peguei no caco maior de entre os pedaços do outro espelho que se espalhavam pelo chão e tentei ver o olho. Senti as pernas a fraquejar ao vislumbrar o olho a mover-se freneticamente, olhando parar todo o lado como que tentado perceber o que se passava à sua volta. Mais uma vez o choque me fez largar o pedaço de espelho, que se dividiu em inúmeros pedaços ainda mais pequenos ao atingir o chão.

Abri a água e deixei a banheira encher enquanto varri cuidadosamente os cacos do espelho que se tinham projectado para todos os lados. Deitado na banheira, deixei os músculos descontraírem-se na água quente e, de uma forma semi-deliberada, decidi manter-me em negação em relação à minha condição e fazer a minha vida normalmente. Sequei-me, vesti-me, voltei a tapar o olho com o penso e saí para comer qualquer coisa. O desconforto voltou, comprovando que era provocado pelo tapar daquele estranho olho, mas eu resisti-lhe. Tomei o pequeno-almoço e decidi passear um pouco enquanto fumava um cigarro, mas, apesar de não ser muito desagradável, não conseguia abstrair-me do constante desconforto. Continuei, no entanto, a achar que conseguia continuar a minha vida normalmente. Diria às pessoas que tinha uma ferida ou qualquer coisa assim e viveria normalmente.

Assim fiz. Continuei a minha vida, mas com uma diferença, estava sempre ansioso para ir para casa e poder retirar o penso e fazer desaparecer aquele desconforto. Em casa, depois de ter reposto o espelho partido, passava bastante tempo a observar o estranho olho. Movia-se, parecia mesmo observar o que nos rodeava, mas eu não conseguia ver por ele, era como se fosse independente de mim. Comecei a aceitar que não poderia continuar a viver assim, lembrei-me do episódio com a Ana e percebi que mais tarde ou mais cedo este estranho fenómeno iria ter impactos negativos na minha vida. Apesar disso, mantinha alguma resistência em recorrer a ajuda clínica, não queria ser um objecto de pesquisa, e muito menos ser visto como uma aberração. Para recorrer a médicos, tem que ser numa perspectiva de remover isto sem mais demoras nem exames, pensei enquanto observava o olho na sua aparente azáfama de absorver tudo o que conseguisse visualizar. Estranhamente, senti que não me deveria precipitar, que o aparecimento do estranho apêndice visual poderia trazer-me algum benefício e que poderia via a arrepender-me. Por alguns momentos fantasiei com a ideia de passar a conseguir ver através daquele olho e achei que a possibilidade tinha potencial. Decidi continuar a observar o desenvolvimento do fenómeno antes de tomar uma decisão.

Os dias foram passando e comecei a aperceber-me que, de certa forma, estava a deixar que aquele olho manipulasse a minha vida. Sempre que estava fora de casa, so pensava em voltar para poder retirar o penso e acabar com aquela estranha sensação desconfortável. Tinha também bastantes reservas em partilhar a minha situação com mais alguém, já que achava muito provável que me vissem como algo grotesco. Estava cada vez mais sozinho e um dia obriguei-me a tomar uma decisão. À noite, sentado na cama, prometi a mim mesmo que no dia seguinte procuraria um médico que me extraísse aquilo. Esforcei-me por afastar a sensação de que poderia ainda ter alguma vantagem em ter um olho na parte posterior da cabeça dizendo a mim próprio que tal teria o amargo preço de me tornar, para sempre, uma aberração. Decidido, deitei-me e tentei dormir.

Abri os olhos e a claridade invadiu-me as retinas. Sentia-me estranhamente bem. Estiquei os braços e espreguicei-me vagarosamente. Com uma inspiração profunda, elevei-me e sentei-me na cama. Apercebi-me que, de facto, me sentia maravilhosamente, tanto física, como psicologicamente. Levei a mão à cabeça e fiquei quase eufórico ao perceber que não sentia lá nada de anormal. Passou! Pensei, radiante, Passou! Levantei-me pleno de energia, mas o meu queixo caíu quando olhei para a cama. Ainda meio coberto pelo lençol, estava o que aparentava ser um corpo vazio. Era eu! Era a minha casca vazia que jazia na cama, com um enorme buraco na cabeça.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Curtas

Mãos que tropeçam
Mãos que me agarram
As mãos que me calam quando me rasgam e me prometem o êxtase final

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Hoje, só porque posso, apeteceu-me publicar isto

Nebel - Rammstein

Sie stehen eng umschlungen
Ein Fleischgemisch so reich an Tagen
Wo das Meer das Land berührt
Will sie ihm die Wahrheit sagen

Doch ihre Worte frisst der Wind
Wo das Meer zu Ende ist
Hält sie zitternd seine Hand
Und hat ihn auf die Stirn geküsst

Sie trägt den Abend in der Brust
Und weiß dass sie verleben muss

Sie legt den Kopf in seinen Schoß
Und bittet einen letzten Kuss

Und dann hat er sie geküsst
Wo das Meer zu Ende ist
Ihre Lippen schwach und blass
Und seine Augen werden nass

Der letzte Kuss ist so lang her
Der letzte Kuss, er erinnert sich nicht mehr


http://www.youtube.com/watch?v=2JOdaDMrzeQ

terça-feira, 21 de abril de 2009

Curtas

A boca que me envolve e resolve que sou sua
Me mistura e revolve numa espiral de loucura
Que me abafa e amordaça a dor e o prazer

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sonhos

Mais uma para o meu piteco.

 

Quem é que esteve na sala dos sonhos? Perguntou o enorme zurbalino com a sua voz grave e possante. Os parrecos entreolharam-se com ar interrogativo durante alguns instantes e, alguns deles encolhendo os ombros, voltaram todos a face na direcção do zurbalino. Alguém roubou um sonho, continuou o zurbalino antecipando a pergunta óbvia, e ninguém sai daqui enquanto não se descobrir quem foi. Contagem! Disse em tom autoritário. Numa reacção imediata, todos os parrecos se colocaram lado a lado em fila. Um! Disse o primeiro parreco enquanto dava um leve piparote na nuca do companheiro ao seu lado. Dois! Disse o segundo, imitando o gesto. Todos os parrecos cumpriram na sua vez, até que o último gritou alto: noventa e nove! Noventa e nove? Repetiu, admirado, o zurbalino. Falta um! Quem?? Gritou. Alguns instantes depois, durante os quais os parrecos voltaram a entreolhar-se, eis que aparece o que faltava, a apertar as calças. O que é que se passa? Já não se pode ir à casa de banho? Perguntou desconfiado ao aperceber-se que todos os olhares incidiam em si.

Afinal parece que estão cá todos, disse o zurbalino, pondo fim ao burburinho que se tinha instalado. O que eu sei é que antes do meu intervalo todos os sonhos estavam no sítio, continuou, caminhando vagarosamente entre os parrecos, e quando voltei, faltava um! Levantou a voz em tom dramático ao terminar a frase. Eu sou um zurbalino compreensivo, continuou, sei que uma sala repleta de sonhos é uma tentação, mas vocês têm que perceber que um sonho não serve para nada se não soubermos o que fazer com ele. Espero que quem o tirou compreenda isso e vou dar-lhe uma oportunidade de se arrepender. Vou dar uma volta até lá fora e espero que, quando voltar, o sonho esteja novamente no sítio. Se isso acontecer, eu esqueço toda a questão, concluiu enquanto dava meia volta e se retirava. Nenhum dos parrecos se mexeu até ao regresso do zurbalino, que, com um visível esforço para manter a calma disse: já vi que o sonho não foi restituído, terei que adoptar medidas mais drásticas. Vocês, parrecos, são muito previsíveis, e não será nada difícil elaborar um método para descobrir qual de vocês é que tem um sonho que não lhe pertence, disse o zurbalino em tom ameaçador, mas a verdade é que não tinha qualquer ideia sobre como fazê-lo. Todos de volta ao trabalho, ordenou, e ninguém sai daqui até eu voltar! Depois de alguns momentos de desorganização, todos os parrecos retomaram os seus lugares e continuaram o seu labor. Com um suspiro, o zurbalino recolheu-se para a sala dos sonhos para pensar numa solução.

Sentado na sua cadeira, como que em busca de inspiração, o zurbalino contemplou os sonhos, meticulosamente organizados nas prateleiras que revestiam todas as paredes. O que é que torna um parreco com um sonho diferente dos restantes? Perguntou, em voz alta, a si mesmo. Haverá certamente uma forma de o detectar, continuou, mas já sem verbalização. De repente, os seus olhos frontais brilharam. É isso, disse levantando-se energicamente, e é tão simples. Basta-me perguntar-lhes o que desejam, certamente o que tiver o sonho vai dizer algo mais elaborado que os outros. Seguro do sucesso da sua ideia, entrou de rompante na oficina dos parrecos, com um sorriso algo maquiavélico. Quero todos em fila para falar com vocês um a um, disse alto. Numa questão de segundos, todos os parrecos estavam alinhados e prontos para o interrogatório. Perguntou a cada um o que desejava e desmoralizou ao receber de todos praticamente a mesma resposta. Todos os parrecos responderam que a única coisa que desejavam era trabalhar na fábrica de sonhos. Frustrado, o zurbalino voltou para a sua sala sem proferir outra palavra.

Menosprezei-o, pensou, já sentado na sua cadeira, ele percebeu que se denunciaria se fosse sincero e respondeu o que sabia que devia responder. Não estou a lidar com um parreco normal… Claro que não estou a lidar com um parreco normal, disse para si, reprimindo-se, a um parreco normal não lhe ocorreria roubar um sonho, estou a lidar com um degenerado, e descobri-lo vai ser um verdadeiro desafio. Tenho que pensar noutra solução. É isso! Disse o zurbalino, saltando da cadeira. Um parreco normal não tem aspirações, mas um que deseja ter um sonho terá de certeza. Vou montar-lhe uma armadilha, anuncio a criação do cargo de líder dos parrecos e ele de certeza que não vai resistir, pensou, com um semblante algo malévolo.

Com ar casual, o zurbalino dirigiu-se à oficina e afixou, falsamente desinteressado, o aviso que tinha composto para servir de isco à sua armadilha. Ficou à espreita e, quando verificou que os parrecos se dirigiam ao aviso, voltou para a sua sala com um sorriso triunfante. É uma questão de tempo até te apanhar, disse o zurbalino num murmúrio, enquanto se sentava. Só me resta esperar, pensou satisfeito. As horas passaram e nenhum dos parrecos apareceu. É mais inteligente que eu pensava, disse, irritado, o zurbalino, falando sozinho. Ou então menosprezei o poder do sonho que ele levou, também pode ser isso, continuou em voz alta, como se estivesse de facto a dialogar consigo próprio e esperasse uma opinião. É isso, a um parreco com um sonho verdadeiro não deve parecer minimamente apelativo ser o líder dos parrecos. Não posso mesmo menosprezar nem este parreco, nem o poder de um sonho. Se calhar estou a dar demasiada importância a isto, talvez o melhor seja não fazer nada e esperar que ele se denuncie. Ele não há-de conseguir resistir para sempre ao poder do sonho e, quando tentar alguma coisa, eu apanho-o. Com este pensamento, o zurbalino deixou-se afundar na cadeira e tentou descontrair. Passando casualmente o olhar pelo monitor que mostrava a oficina, reparou que, enquanto todos os restantes trabalhavam concentrados, um dos parrecos olhava distraidamente para o infinito. Rapidamente o parreco voltou ao trabalho e deixou de se distinguir dos demais, mas algo se iluminou na mente do zurbalino. Porque é que nos matamos a pensar em formas elaboradas e complicadas de resolver os nossos problemas quando a solução normalmente nos surge quando não nos estamos a esforçar para isso? Ponderou o zurbalino. E a verdade é que as soluções normalmente são extremamente simples, mas a nossa tendência para complicar impede-nos de chegar a elas, continuou, bastava-me observar os parrecos à procura de um ar sonhador, tão simples como isso. A verdade é que nunca tinha visto qualquer utilidade neste monitor, nunca tinha tido qualquer tipo de problema com os parrecos, disse para si próprio em jeito de desculpa, e por isso nem me ocorreu usá-lo. Manteve o olhar na imagem e, confirmando a sua teoria, aquele parreco voltou a passar alguns instantes a olhar para o infinito, como que embrenhado em pensamentos. Satisfeito, o zurbalino dirigiu-se à oficina e, subtilmente, disse àquele parreco que fosse até à sua sala e que esperasse por ele, pois precisava de lhe falar. O parreco retirou-se obedientemente e o zurbalino perdeu alguns momentos a informar os outros parrecos que a situação estava resolvida e que podiam retomar o trabalho sem se preocuparem mais com a questão do sonho roubado. Quando se dirigia para a sua sala, meditando sobre a melhor maneira de lidar com o prevaricador, eis que só consegue vislumbrar ao longe o parreco ladrão a sair a correr da sua sala com todos os sonhos que conseguia carregar. Correu o mais que podia, mas o seu corpo volumoso não o permitiu apanhar o parreco antes de este chegar ao pátio. O que é que estás a fazer? Gritou o zurbalino. Sabes que não tens por onde escapar. Quem disse que eu quero escapar, respondeu, seguro, o parreco, eu só quero soltar os sonhos. Soltá-los?? Repetiu, atónito, o zurbalino, porque é que alguém quereria fazer uma coisa dessas? Para que eles possam chegar a qualquer pessoa, retorquiu muito depressa o parreco. Mas isso é uma estupidez, continuou, algo aflito, o zurbalino, é um desperdício gastar um sonho em alguém que não o vai usar devidamente. Quem és tu para saber se alguém merece um sonho ou não? Perguntou o parreco de forma cortante. E mesmo que não se use devidamente, mais vale ter um sonho que não se usa do que não ter nenhum. Nem sei porque estou a debater isto contigo, disse rispidamente o zurbalino, não tens por onde fugir, portanto entrega-me os sonhos e eu serei benevolente. Podes apanhar-me a mim, respondeu o parreco em tom desafiador, mas pelo menos estes sonhos serão livres de ser encontrados por qualquer pessoa, quer saiba o que fazer com eles ou não. Dito isto, o parreco começa a correr à volta do pátio, soltando os sonhos que flutuavam para longe. Não! Gritou o zurbalino enquanto, trôpego, corria na tentativa de os apanhar. Depois de soltar todos os sonhos, o parreco retirou do bolso aquele que tinha roubado inicialmente. Gostava muito de ficar contigo, disse ao sonho, mas já que eu não sou livre, tu podes sê-lo, faz alguém feliz, gritou enquanto o libertava. O sonho, em vez de flutuar para longe como os outros, começou a crescer, a crescer, até que acabou por envolver o parreco e ambos levantaram vôo. O parreco não conseguiu segurar uma genuína gargalhada ao ver o zurbalino lá em baixo a praguejar, agitando um dos seus braços, de punho fechado no ar. Passados alguns momentos, derrotado, o zurbalino deixou cair os braços e deixou-se ficar a ver o parreco, envolto no seu sonho, a afastar-se cada vez mais, até desaparecer no horizonte para nunca mais ser visto.

terça-feira, 14 de abril de 2009

E ela

E ela chora
E ela adora
E ela adora chorar
E ela coitada
E ela deitada
E ela adora que todos a vejam estar para ali a soluçar

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Excerto da Balada

"Agora voltavam a sentir a tempestade. Verdade, o vendaval andava lá fora, e era como se os dois, assim nus e no meio dos destroços de roupa espalhados pelo chão, tivessem sido levados pela água e pelas trevas para um território secreto à margem do pavor e do tempo."


José Cardoso Pires - "Balada da Praia dos Cães"

The lost adventures of Bill & Ted... Finally re-found!

A three-legged dog trying to take a poop? That's the radest thing we've seen all day!

http://nl.truveo.com/The-Lost-Adventures-Of-Bill-and-Ted-Episode-513/id/532111920

http://www.owensworld.com/flashmovies/categorie-8-1.htm


:D

Starbucks...sucks


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Hilarious #4 & #5

Must really be my lucky day... :


Hi my new friend!

I only wished to write to you the letter and to tell as in general my letter got to you! First I would like to speak a little about myself my name is Nadejda to me 29 years I live in Russian Federation to Kazan. All the others my data and a photo in the appendix to the letter data which is called (my_data_full). I was in International Dating Agency and to me advised yours e-mail the address I do not know whence they him took but they gave me yours e-mail that I could have acquaintance to you. And I only wanted that you have spent about 10 minutes both looked my a photo and my data and received from you the answer you would like to have acquaintance to me or you only would not like this? Tell to me I so only the nobility it much would like. Also I shall wait much your answer. I started to search the man as to me very alone and 29 years and I do not have man if you wish to begin with me correspondence or easier to begin acquaintance tell to me your answer. I shall wait much! I hope your new friend well I hope that I can become for you friend Nadejda!

Can you send me you photo and story life on my e-mail:
nadejdalove2009@gmail.com
P. S. My photo and all data are in archive.

------------------------------------------------

Hello
My name is: Olga I from Russia city: Perm It washing a photo To me 27 years and I very much would like to find second half for very serious relations To me have told that on the Internet is possible will get acquainted with the good person for an opportunity creation of family.
At me a lot of familiar which have got acquainted on the Internet with men have left abroad because loved each other I very much would like to create family.
I not when was not married and I have no children.
But me of it therefore very much would be wanted try to find the man of the dream I very much would wish to be friends of you and if it is pleasant to you washing a photo write to me I shall necessarily answer you and to this I shall be very glad.
I very much to wait the letter from you
At us very much a big difference in time but I shall try to speak with you as it is possible is more often

Write to me only to my personal e-mail:
ladwertana@gmail.com

It is a lot of kisssssYours Olga

Hilarious #3

Like I show my structure to anyone... Harmonous figure? People in Harmon must love that...


Greetings my lonely friend!!! I Saw your structure today, and it has very strongly interested me!!!! So I have decided to write to you! I would like to get acquainted very strongly with you, for following our firm communications! You as can look at my structure. I think that that it as can interest you! For our first acquaintance I to you to tell it is a little about myself. To me of 29 years. I have a harmonous figure, I learn me with sports and I to conduct a healthy way of life. I shall tell to you more about myself in my first letter to you!!! If my structure of you was interested also by you to want to have with me to correspond that you could write to me on my letter box:. I cannot answer on this web-page of acquaintances to you as I understand here poorly. The best around of much if you will write to me on my electronic address!!

Thus I can answer precisely to you! My friend, I very much hope me, that you can write to me the letter to my personal e-mail:
daryafilli@yahoo.co.uk
! Then I shall write to you more about me and to send you my photo!!! I wish you good afternoon with intimate greetings your new girlfriend Darya !!

Hilarious #2

Rather pretty and rather mature...


Hello friend!

This morning, I have received love the Internet dispatch, from the unknown person to me the addressee. In the given letter, it was spoken about love relations between people. In the list e-mail addressees, I have seen your address. I long thought before writing to you.

I will tell slightly about myself. My name is Mariya. I am 30 years old. I can tell about myself that i am interesting woman with good character, sense of humor, opens in dialogue. I search for serious relations and I will be happy to learn you closer. I don't think that the age and appearance is so important though I am rather pretty. The most important what is inside you and how do you feel about the life.
I know this life from many sides and I am rather mature already to know how to make a man happy. I am interested in acquaintance with you. I have no children, but I want to have children from correct men sometime soon. I search for serious relations and I will be happy to learn you closer. It will be fine if we can exchange some letters and photos. What you search in the woman Tell more about a place where do you live. I will look forward to hearing from you. Ask any questions which interest you. Write me back and I will tell more about me, my life and send me photos. I don't know if you answer me or not. But why not to try? I will regret if not to try. I think we should use every chance to find our happiness. Life is too short to use it only for thinking and dreaming.

Write me your E-mail or please write me only to my personal e-mail: telkasuper@gmail.com I still hope for your reply. Have a good day!!!!!!!

I will finish here. Waiting for the answer with impatience.
Mariya.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Agostinho da Silva

"Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Milhões de homens, porém, no mundo actual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça. No tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropóide superior, nem olhava o desenho. Imagem nos veio acompanhando pela História fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. Imagem o cerca. Veja. Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense."

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

quinta-feira, 2 de abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Era uma vez...

Era uma vez uma menina tão triste, tão triste mas tão triste que quando chorava não caíam lágrimas…mas cinzas

Curtas

Esta espera que te espera e que na espera das vontades desespera.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Jogo

E é assim que termina a minha história, disse o velho enquanto unia as pontas dos dedos de uma mão às dos da outra, fitando silenciosamente o rapaz à espera de um comentário. O rapaz recostou-se na cadeira, acariciando o queixo enquanto olhava pensativo para a estatueta representando Tangaroa, que repousava numa pequena mesa encostada à parede por trás do velho. Depois de uma inspiração mais profunda que ofereceu às suas narinas o agradável odor do papel envelhecido, encontrou o olhar do seu velho amigo e quebrou o silêncio que se tinha instalado. Nem sei o que dizer, é de facto uma história impressionante, inspiradora até. Como sei que tem bagagem para que eu possa ser perfeitamente sincero e directo consigo, continuou, vou sê-lo: tenho reservas sobre a veracidade de certas partes. Não que ache que me está a mentir, mas estou inclinado para acreditar que o passar dos anos já tenha distorcido um pouco os acontecimentos na sua memória. Sou levado a crer que a história está, digamos, fantasiada. Consigo compreender que tenhas essa opinião, respondeu o velho sem alterar a sua postura nem o seu semblante calmo e seguro de si, é de facto difícil de acreditar, mas garanto-te que estás enganado, tudo aconteceu exactamente como te contei. Mesmo a parte da sereia? Perguntou o rapaz com ar desconfiado. Sim, mesmo essa parte, retorquiu o velho, mas até pensava que houvesse outras partes mais inacreditáveis para ti. Há outras igualmente inacreditáveis, respondeu prontamente o rapaz, mas essa em particular pareceu-me demasiado mitológica para ser mesmo verdade. Muita gente viveu episódios como esse, continuou o velho, mas a grande maioria não se recorda. O canto delas inebria e impede-nos de guardar memórias sobre o que acontece enquanto estamos sob o seu efeito, e por isso é que ninguém acredita que existem. Eu, apesar do feitiço, consegui vê-la como ela realmente era e lembrar-me depois. E porque é que consigo foi diferente? Perguntou o rapaz, levantando uma sobrancelha. A isso não posso responder-te porque não faço a menor ideia, retorquiu o velho, projectando o queixo para a frente, dou-me apenas por satisfeito por poder recordar o momento. Outra parte que me deixa pouco crédulo é a do navio fantasma, continuou o rapaz, parece tão saído daquelas lendas marítimas. Antes de responder, o velho, como que procurando orientação, ou talvez apenas reunindo vagar, passou os olhos pela tela na parede à sua direita, que representava Calypso, serenamente repousando sobre as águas. Como é que achas que surgiram as lendas? Perguntou. Eu aceito que as lendas possam ter algum fundamento real, mas não consigo acreditar que sejam completamente verídicas. Apesar de poderem ser baseadas em acontecimentos autênticos, acabaram por transformar-se em alegorias, retorquiu rapidamente o rapaz, é por isso que lhes chamam lendas. Eu sei o que vi, respondeu rispidamente o velho, vi e senti. Quando avistámos o barco à deriva, sem ninguém, pensámos que era o nosso dia de sorte, mas depressa percebemos que assim não era. Como te contei, eu e muitos de nós começámos a receber pancadas vindas de trás e nunca víamos ninguém quando nos virávamos, e houve mesmo alguns que viram estranhas aparições. E como te disse também, quando, ao percebermos que algo de muito errado se passava e que não seria boa ideia tentar salvar o barco, decidimos voltar, faltavam dois dos nossos companheiros e nunca mais os vimos. Dois bons marinheiros desapareceram sem deixar rasto, e não me parece que tenham tido um destino agradável. Nem sequer pudemos entregar os seus corpos ao mar! Achas que eu ia inventar isto?? Apesar da aparente calma, uma ponta de ira brilhou nos olhos do velho. Não sei se mais algum de nós ainda está vivo, mas não fui o único a testemunhar isto. Todos vimos o barco, e todos o deixámos misteriosamente de ver ao afastarmo-nos apenas algumas dezenas de metros. Depois de ambos perderem alguns momentos perscrutando o intrincado motivo floral que percorria os limites do tecto, o velho baixou a cabeça e, arqueando as sobrancelhas, continuou. Também não acreditas no monstro, não é? Perguntou, mostrando já algum agastamento. Pois… Respondeu, hesitante, o rapaz. Olha, disparou o velho já visivelmente irritado, eu tenho estofo para que sejas sincero comigo, mesmo quando não acreditas em mim, mas pelo menos devias encarar a minha história com a mente aberta, e pelo que vejo, a tua mente é uma caixinha minúscula. É como se tivesses umas palas nos olhos que só te deixam olhar em frente. Espero que a idade te consiga trazer alguma abertura, concluiu o velho recostando-se na cadeira enquanto desviava o olhar do rapaz e o passeava pelas centenas de livros que se alinhavam nas estantes à sua esquerda. Não o queria ofender, desculpou-se o rapaz. E não ofendeste, respondeu prontamente o velho em tom de enfado, apenas me exauriste a paciência, portanto cala-te e joga!

terça-feira, 24 de março de 2009

Are we there yet?

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Já estamos perto?

- Não.

- Olha, não achas que já chega?

- Não.

- Mas eu acho, portanto não perguntas mais isso. Está bem?

- Sim.

- Obrigado.

- Ainda estamos longe?

Curtas

E quando ela o viu sussurrou…
e não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal

sexta-feira, 20 de março de 2009

Monodiálogo #7

- Foda-se!! Finalmente te encontro! O que é que estás a fazer aí sentado no canto?...

- Nada...

- Então anda daí, caralho, o pessoal já anda um bocado à nora e a perguntar por ti.

- Não me apetece, deixa-me estar.

- Mas... O que é que se passa contigo?

- Nada. Tudo... Estou cansado. Só quero estar um bocado sozinho.

- Mas, porque é que vieste para aqui? Este sítio está sujo e estragado, já ninguém cá vem. E sabe-se lá o que andará por aí escondido nas sombras... Além do mais, o pessoal anda à mesmo à rasquinha para fazer uma festa. Anda tudo a precisar de se divertir. E tu sabes que sem ti não dá.

- Vocês não precisam de mim. Podem divertir-se na mesma.

- Sabes perfeitamente que isso não é verdade. Se não estiveres lá acaba por ser tudo uma farsa, estaríamos todos a enganar-nos. Sempre foste a alma da festa e ficamos todos um bocado perdidos sem ti.

- Vocês conseguem, eu sei que sim.

- Mas, mas... Tu não nos podes fazer isto! Nem sequer te faz bem ficar aqui. As coisas não vão correr nada bem. E o que é que eu digo ao pessoal?

- Diz-lhes que não se preocupem, que eu apareço mais tarde ou mais cedo. Mas agora deixa-me só deitar aqui um bocado, estou tão cansado...

- OK, pronto, fica para aí, se é o que queres, mas tenho que ser sincero contigo e mencionar que me enojas.

quinta-feira, 19 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

Unha volta e un poema

Vai unha volta, unha volta e un poema
unha cantiga, a cantiga dunha nena
vai un xantar, un xantar, unha conversa
un pensamento, pensamento con talento

Vai o teu beixo, o teu beixo nun silencio
unha palabra, a palabra desexada

E agora que sae o sol
o teu nome xa se ve
agora que sae o sol
ti tamén es

Vai a esquecida, a esquecida e nomeada
unha sentenza, a sentenza que ti fagas
vai o teu dito, o teu dito cun sorriso
unha quimera, a quimera dunha espera.

Foi unha volta, unha volta e un poema
unha cantiga, a cantiga dunha nena,vou despedirme, despedirme cunha flor
vou despedirme, cunha flor de cor de ron


BERROGÜETTO

terça-feira, 17 de março de 2009

Presenças #10

Noite após noite esperei pela aparição. Não conseguia dormir mais que dez ou quinze minutos sem acordar sobressaltado, com a sensação de que não estava sozinho, mas nunca passava de uma malévola partida da minha imaginação.
A espera foi-se tornando cada vez mais atroz. Deixei de conseguir ficar deitado e passava as noites frenético, a andar de um lado para o outro no quarto. Vamos a isso! Estou disposto a fazer o que quiseres! Gritei uma noite à escuridão, rendido, no apogeu do meu desespero. Senti um longo arrepio ao ouvir a voz. Não sinto em ti uma verdadeira vontade de te tornares algo mais do que és, algo superior, disse a voz, não me serves assim. Mas eu quero, quero mesmo, sinto que é o meu propósito, supliquei, estou aqui à tua mercê. Não, retorquiu a voz, enganei-me, não és tu quem eu procurava. Não, não! Gritei, mas só o vazio do meu quarto lá estava.
Fiquei desolado, destroçado. Tinha sido tudo em vão. Perguntei-me se não seria mesmo este o objectivo da entidade, destruir-me. Pensei que devia ter dado mais atenção às palavras da crioula, mas já não tinha qualquer controle sobre mim. Morri por dentro. Arrastava-me de um lado para o outro e deixei completamente de conseguir dormir.
Passado muito tempo, numa das noites que passava sentado na cama a olhar para o infinito, senti o odor acre que tinha deixado de acompanhar a entidade. Arregalei os olhos e com um violento golpe de rins fiquei de joelhos na cama. A um palmo da minha cara estava o rosto do espectro. Sim, ouvi numa voz sibilante, agora estás pronto, chegou o momento de sermos um, disse a entidade com um faiscar nos olhos. Não compreendi o que quereria dizer com aquilo, mas estava já num ponto em que não tinha qualquer poder sobre mim. Era já algo de sub-humano, uma mera casca vazia, um simples corpo antropomórfico que por dentro não abrigava nada, não existia já em mim qualquer sentimento, qualquer vontade. Limitei-me a fixar os brilhantes olhos da entidade e acenar com a cabeça em consentimento. O corpo disforme da aparição começou a expandir-se à minha volta, como um abraço fatal. Abri os braços e entreguei-me, mas, quando esperava que tudo acabasse, eis que algo embate em mim e me projecta alguns metros para trás. Atónito, olhei para a entidade e consegui apenas ver um par de olhos tristes a desaparecer no que seria o seu corpo. Numa questão de segundos, com um grito indescritível que nunca poderia ser deste mundo a entidade retorceu-se e desapareceu numa ténue nuvem de fumo negro. Sentado no chão compreendi. O velho cão tinha-me salvado. Não sabia de quê, mas naquele momento acreditei que se tinha sacrificado para me proteger de um destino inimaginavelmente cruel.
Nunca mais tive qualquer experiência ou contacto com outras realidades, mas nunca mais fui o mesmo. Nunca mais consegui recuperar qualquer tipo de emoção, nem preencher o vazio que me tornei.
Este é o meu testemunho, o que deixo para a posteridade. A única marca que ficará de mim neste plano de existência. Nunca saberei o que realmente teria acontecido se o velho cão não tivesse intervindo. Custa-me acreditar nisso, mas não sei se teria tido um destino ainda mais miserável. Não sei nada. É tarde demais para mim, mas para dar algum propósito a este meu legado, deixo uma lição que não é minha: Nunca percas o controlo do teu fado.

Presenças #9

Algumas noites depois, tempo durante o qual me senti cada vez mais frágil e debilitado, presenciei a entidade a materializar-se perante os meus olhos. Sem que eu dissesse nada, uma voz na minha cabeça começou finalmente a explicar-me alguma coisa sobre o que me estava a acontecer. Preciso de um elo de ligação a este mundo, disse, a minha realidade é insuportável para mim, só existe mágoa e miséria lá e eu preciso de sair. Existem entidades na vossa realidade que têm uma sensibilidade especial que lhes permite aperceberem-se de nós, mas é muito difícil encontrar alguém que consiga realmente comunicar com um de nós, como estamos a fazer neste momento. Por isso te escolhi. Mas, escolheste-me para quê? Perguntei já algo impaciente. Essa tua característica permite-me ligar-me a ti de forma permanente. Ficar aqui indefinidamente. Permite-me afastar-me do sofrimento que é viver na minha dimensão. Serás a minha âncora nesta realidade. Respondeu a entidade, mantendo a boca imóvel, mas colocando uma expressão que me inspirou comiseração. O que é que eu tenho que fazer? Perguntei com uma ponta de desconfiança. Nada, respondeu prontamente a entidade, só tens que querer.
Pareceu-me que as últimas palavras se mantiveram no ar por alguns momentos juntamente com o brilho que já considerava normal, quando a figura desapareceu, mas desta vez ficou também uma sensação de vazio em mim que não consegui compreender. Segundos depois de tudo se ter desvanecido, ouvi um ganido que se transformou num longo uivo. Pareceu entrar-me pelo diafragma e espalhar-se por todo o meu corpo fazendo os meus pelos eriçarem-se. Olhei para o canto e vi os olhos tristes que esperava ver. Vi-os descrever uma circunferência e desaparecer, como se o velho cão se tivesse enroscado no chão e fechado os olhos. Tive vontade de sair da cama e aproximar-me dele, mas não consegui encontrar coragem suficiente.
Deitado, pensei sobre o que a entidade me tinha dito. Ponderei se quereria ajudá-la, porque teria ficado com aquela sensação quando se foi embora. Comecei a aperceber-me que não tinha propriamente controle sobre a questão. Percebi que apesar de reconhecer que corria um risco e que talvez não tivesse muito a ganhar com isso, não conseguia deixar de querer. Não conseguia fazer desaparecer a vontade de estabelecer aquela ligação com uma realidade alternativa. Escolhe o teu caminho sem nunca deixares que o teu discernimento seja toldado pelas entidades. A frase soou na minha cabeça na voz da africana. O meu discernimento não está toldado, apenas não acho que esteja em perigo, respondi a mim próprio, além do mais, acho também que não tenho nada a perder.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Curtas

Quando anoitecer, esperarei por ti
Encontrar nos – emos e irei te abraçar e sentir o teu cheiro que tanta falta me faz
Não vou prometer que não vou chorar e que as minhas lágrimas não te inundarão
Se calhar vamos ficar abraçados num abraço eterno e profundo e depois
Irei aninhar-me junto a ti e sentir o teu corpo quente, que sempre me aqueceu nas noites frias

Curtas

Agarro – me ao que me sai de dentro
Tudo o resto leva o vento

sexta-feira, 13 de março de 2009

Curtas

Quero que sintas e que deixes sentir
Quero que sofras e que deixes sofrer
Quero que te descubras e que te deixes descobrir
Quero que queiras…

Curtas

As lágrimas que escorrem da tua face
Sinto-as tão fúteis e falsas
Aquilo que sai em catadupa da tua boca
É um discurso ensaiado até ao mais ínfimo pormenor
(o espelho já o deve saber de cor)
Sabes, um dia alguém me disse que as árvores morrem de pé...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Curtas

Deixa que eu beba o teu sangue e as tuas lágrimas
Lamber as tuas feridas, do teu corpo em sangue
Enrosco-me em ti e deixo que me descubras
Sinto que estás dentro de mim
De corpo e alma

Curtas

E gritou, gritou até os pulmões explodirem
Como que para expulsar o veneno que tinha deixado entrar dentro da sua alma…

Monodiálogo #6

- Estás a ouvir isto?
- Claro. O Stop dos Plasmatics. Grande Wendy! Que o deus dos degenerados a tenha.
- Não percebes?? É o universo a querer dizer-nos alguma coisa!
- Não... Isso é só aquela cena de interpretarmos sempre as coisas de forma pessoal.
- Pois... Deve ser... Hum... E agora Marillion, The web... Que dizes?
- Same shit.
- Ok, pronto...
- ...
- Acho que esta acabou de lixar a tua teoria. Prisioners of the damned, Plasmatics outra vez! Quais são as probabilidades?
- Realmente... No meio de quase mil músicas só temos umas sete ou oito de Plasmatics... As probabilidades de ter saído outra eram mínimas...
- Pois é, pá! É o que eu te digo, não há nada que seja realmente aleatório. O universo aproveita tudo para comunicar connosco, nós só temos que estar atentos. Nada disto é à toa.
- Mas... Prisioners of the damned? Não estou a ver onde é que isto se encaixa...
- As mensagens do universo nem sempre são claras, mas de certeza que há significado.
- O que virá a seguir?...
- Olha... Tornados...
- Bom... Que o universo se foda. Vou desligar esta merda.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Curtas

O sangue que escorre da tua boca
Purifica a minha alma

Freaks

Have you ever met a lady, screaming angst potential?
Have you ever dreamed of romance, no matter how experimental?
Have you ever felt an alien drifting back into your hometown?
Did you think you were buying safety when you bought that piece of ground?

She said all the best freaks are here
She said all the best freaks are here, please stop staring at me
So I said all the best freaks are here
All the best freaks are here, please stop staring at me

Have you ever woke up, sweating in the middle of the night?
You search the darkness and youre scrambling for the light
Have you ever walked down the street, heard bootsteps following you?
Dont worry my son, youve got the spook squad looking after you

He said all the best freaks are here
He said all the best freaks are here, please stop staring at me
So I said all the best freaks are here
All the best freaks are here, please stop staring at me, stop staring at me

Airport terminal, patiently waiting on the last call
You feel the eyes burn the back of your head
Sign the autograph, get out of the picture, gonna have the last laugh
Feel the whispers as you head for the plane
Stop staring at me

Love and linen sheets seem so very far away
You save your pennies and you buy another day
But after all its only hide and seek, just another game
Theres so much fun to be had when youre living with a name

All the best freaks are here, all the best freaks are here
Please stop staring at me, all the best freaks are here
All the best freaks are here, please stop staring at me
Oh, stop staring at me, oh, stop staring at me

They said all the best freaks are here
All the best freaks are here, please stop staring at me
All the best freaks are hereAll the best freaks are here, please stop staring at me

http://www.youtube.com/watch?v=AdbxK9-ygfQ&feature=related



Marillion - Freaks

Presenças #8

Durante as noites seguintes acordei várias vezes e olhava esperançado para os pés da cama, apenas para não encontrar nada. Ficava depois algum tempo acordado a questionar-me porque razão tinha passado a desejar que acontecesse aquilo que até há pouco tempo atrás só queria que acabasse. Porque seria que, apesar do temor, queria agora que a entidade aparecesse. Começava a achar que não era apenas uma questão de curiosidade, que algo em mim acreditava que aquele ser tinha algo de extrema importância para me transmitir, uma informação de carácter vital que eu tinha mesmo que obter. Dava por mim a acordar de noite e instintivamente perguntar à escuridão se lá estaria alguém e cheguei mesmo a temer pelo meu equilíbrio psíquico, se é que ele existia. Durante muito tempo, tanto o meu olhar como as minhas palavras esbarraram no vazio.

Mas uma noite, ao abrir os olhos, deparei-me com aquele rosto mesmo em frente ao meu, como se a entidade estivesse ajoelhada junto à minha cama a observar o meu sopor. Sem controlo, dei um salto e fiquei sentado no fundo da cama olhando, atónito, a figura, na qual pensei ter conseguido distinguir uma expressão de desilusão. No segundo seguinte já me enchia de vergonha por verificar que ainda não conseguia controlar o meu medo. Espera! Gritei ainda, mas a entidade já se desvanecia, deixando aquele brilho no sítio onde estavam os seus olhos, que me provocava longos arrepios na coluna vertebral. A desmoralização atingiu-me como um raio, com tal violência que pareceu disparado pela própria Fulgora. Estava revoltado comigo próprio, tinha tido a minha oportunidade e perdi-a por causa do meu medo inconsciente. Agora, voltava ao ponto de não saber se teria outra, agravado pelo ressentimento.

Deixei de conseguir dormir. Passava as noites a pensar no que a entidade quereria de mim, se a voltaria a ver. Por vezes parecia-me ver um vulto a atravessar a escuridão, mas quando olhava melhor, não estava lá nada. Falava com a penumbra na esperança que a minha voz conseguisse atravessar a barreira da minha realidade. Sentia-me enegrecer por dentro, que uma parte de mim definhava de dia para dia e que acabaria inevitavelmente por morrer.

Passado algum tempo, quando já não tentava nada e me limitava a passar as noites imóvel na cama, deitado de costas a olhar fixamente para um ponto no tecto, na esperança que a fadiga me fizesse perder a consciência, vejo o rosto, estranho mas já familiar, materializar-se perante os meus olhos. O medo voltou, a pulsação acelerou, mas consegui controlar-me o suficiente para falar. Não te vás embora, consegui dizer com a voz trémula e quase a falhar-me. A face sorriu, um sorriso entre o infantil e o cruel. A mancha negra e disforme que completava a entidade apareceu também e tornou-se quase palpável. Desceu suavemente até ficar como que de pé ao fundo da cama, limitando-se a olhar para mim mantendo aquele sorriso que me fazia temer que destruísse tudo o que tinha conseguido para afastar o terror.

O que queres de mim? Perguntei depois de alguns momentos a ganhar coragem. O sorriso do espectro tornou-se paternalista. Foste escolhido, ouvi, mas a sua boca manteve o sorriso e não se mexeu. Escolhido para quê? Questionei, algo na dúvida se a voz que ouvia seria mesmo a entidade a falar comigo ou se, pelo contrário, seria apenas a minha imaginação. Tudo a seu tempo, ouvi, enquanto o sorriso da figura se abria grotescamente provocando-me verdadeiro pavor. Mantém-te sereno, que tudo se revelará, ouvi ainda antes da aparição se começar a esfumar. Como é que posso manter-me sereno? O que queres de mim? E porque é que me aterrorizas assim??? Diz-me! Perguntei à atmosfera, já que era óbvio que a entidade já não estava lá.

Ainda com a pulsação extremamente acelerada, perguntei-me porque quereria saber o que a entidade queria de mim. Porque seria que apesar do horror que me provocava, eu alinhava na história. O medo é uma ferramenta de auto-preservação, disse a mim próprio, devia talvez dar-lhe mais crédito, talvez seja o meu subconsciente a tentar avisar-me. Foi então que algo me distraiu.

Ao fundo, no canto do quarto, vi dois círculos de luz ténue. A minha pele arrepiou-se e senti um formigueiro na parte de trás da cabeça. Perscrutei a escuridão e percebi que era um par de olhos que reflectiam a quase inexistente luz que um diminuto quarto minguante proporcionava. Não sei se por, apesar de tudo, ainda manter alguma crença nas explicações normais ou se por mera negação, o meu primeiro pensamento foi que um gato vadio me teria entrado pela janela, mas algo atingiu o meu cérebro e me fez divisar que havia algo de familiar naqueles olhos. Após alguns segundos identifiquei-os sem qualquer dúvida. Eram os olhos do cão que tinha visto no caminho de regresso da casa da crioula! O mesmo olhar desolado que tinha visto nesse dia. Tentei em vão encontrar uma explicação para a presença do cão no meu quarto e o pavor que eu pensava estar já controlado voltou. Mais uma vez, o pânico me fez cobrir completamente com o cobertor, mas desta vez sei que não fechei os olhos até vislumbrar a luz solar. Quando percorri o quarto já iluminado pelo dia, não vi nada de anormal.

terça-feira, 10 de março de 2009

Prefácio do livro "O Homem que plantava árvores"

“Para que um carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de o poder observar em acção durante longos anos. Se essa acção for despojada de todo o egoísmo, se o princípio que a orienta for de uma generosidade sem exemplo, se se estiver absolutamente certo de que a pessoa não procurou recompensa e alguma forma, e que, ainda por cima, deixou neste mundo marcas visíveis, podemos então dizer, sem receio de nos enganarmos, que estamos perante um carácter inesquecível.”



Jean Giono
O Homem que plantava árvores

segunda-feira, 9 de março de 2009

Curtas

Apareces vindo do nada
E pergunto-te onde estiveste
Nada me dizes, sorris
E abraças-me para sempre

sexta-feira, 6 de março de 2009

Curtas

Triste é o dia em que nós nos abandonamos e
deixamos de ser quem somos para nos transformarmos em monstros
Nos deixamos ludibriar por assombrações, perversas e cruéis
Do nosso gémeo mau
Aquele que é louco, e repugnante e
Que quando nos apercebemos que não somos este
Queremos arrancar pele e alma
E de tanto nos rasgarmos e magoarmos
Percebemos que a demência é passageira e que a serenidade irá ocupar o seu lugar
Para dar lugar ao Homem

Curtas

Quero escrever nas páginas do teu corpo uma história sem fim
E percorrer com os meus dedos as páginas de ti

quinta-feira, 5 de março de 2009

Presenças #7

Passaram vários dias sem que nada de estranho tenha acontecido. Tive momentos em que desejei que o espectro tivesse aparecido, já que aliado ao medo estava também uma espécie de curiosidade mórbida, queria saber porque tudo aquilo me estava a acontecer. Pensei que o medo é sempre provocado pelo desconhecimento, que assim que o enfrentasse, assim que passasse a conhecer aquilo que temia, todo o medo desapareceria naturalmente. Mas ao fim de algum tempo comecei a achar que talvez tudo tivesse já terminado, ou até que poderia ter sido uma manifestação da minha mente, uma qualquer espécie de demência leve e temporária.
Todas estas ideias se dissiparam quando uma noite, não sei se por acaso ou por outra razão, acordei. Ao aperceber-me que o dia ainda não tinha nascido, fiquei satisfeito por poder continuar a dormir e virei-me para o outro lado. Enquanto me aninhava para continuar o meu sono, que já começava a conseguir ser novamente sossegado, uma sensação estranha fez-me abrir outra vez os olhos. Senti o meu coração parar por alguns instantes para depois disparar num ritmo desenfreado. A entidade estava lá, aos pés da minha cama. Só conseguia vislumbrar um vulto mas sabia que era ela. Respirei fundo e tentei acalmar-me. Estava a conseguir controlar o medo, mas quando a cabeça da aparição rodou e sua face, quase desprovida de feições, ficou virada para mim, quando os seus enormes olhos brilhantes encontraram os meus, todos os meus esforços ruíram e só consegui cobrir-me completamente com o cobertor e enroscar-me em posição fetal. Durante algum tempo ouvi o que só poderia ser a sua voz. Murmurada, parecia não vir de dentro do meu quarto, mas de um qualquer sítio longínquo, chegando já transtornada aos meus ouvidos. Lembrei-me do que a crioula me tinha dito sobre outras realidades e tive a certeza que era verdade. Não sabia ao certo porquê, mas tinha a certeza que aquela voz não podia vir deste mundo. Não conseguia perceber o que dizia, mas pareceu-me ter distinguido as palavras "aqui" e "sempre", mas pode muito bem ter sido imaginação minha, já que encolhido debaixo do cobertor apenas me chegava um sussurro imperceptível.
Pensei na africana e ouvi a sua voz na minha cabeça, suave e reconfortante. Nem tudo é o que parece, ouvi nitidamente na minha cabeça pela voz da negra e isso conseguiu transmitir-me alguma fleuma. Ponderei se pela sua voz melodiosa, estaria a minha mente a reviver o diálogo, como acontece com músicas que gostamos e que estão tão indelevelmente impressas nos nossos cérebros que conseguimos mesmo ouvi-las dentro da nossa cabeça, ou se não seria mesmo a africana a enviar-me uma mensagem telepática. Pensei que não lhe tinha dito absolutamente nada acerca do meu problema e que ela parecia saber de tudo. Talvez soubesse também o que me estava a acontecer no momento. Ocorreu-me depois que a minha tia lhe teria contado tudo pelo telefone, que seria apenas por isso que eu não tinha precisado de dizer nada e que provavelmente a pessoa não teria poderes tão especiais. Independentemente da origem da sua voz na minha cabeça, a verdade é que teve um efeito extremamente calmante e quando me apercebi, já a luz de um dia de sol atravessava, inexorável, a barreira têxtil que a separava dos meus olhos.
Sem saber se tinha adormecido ou apenas ficado absorto e imerso nos meus pensamentos, puxei devagar o cobertor até ao nariz e espreitei para fora. Estava sozinho. A luz inundava todos os cantos e ao sentir o calor no rosto senti-me cheio de energia, alegre até. Achei que tinha vencido o temor, que não tinha qualquer razão para o pânico que tinha sentido durante a noite. Acreditei que não iria mais fugir ou esconder-me. Se a entidade voltasse, iria enfrentá-la como quem deve enfrentar o seu destino, de olhos nos olhos, sem medo. Iria tentar saber o que queria de mim, tinha que saber. Uma ponta de melancolia tentou contrariar a minha boa disposição ao ocorrer-me que a entidade poderia nunca mais aparecer, que poderia nunca vir a saber.

Curtas

E com um movimento rápido
Rasguei-lhe a garganta…

Surprise! you're dead!

Ha ha! open your eyes
See the world as it used to be when you used to be in it
When you were alive and when you were in love
And when I took it from you!
It's not over yet You don't remember?
I won't let you forget
The hatred I bestowed
Upon your neck with a fatal blow
From my teeth and my tongue
I've drank and swallowed, but it's just begun
Now you are mine
I'll keep killing you until the end of time
Surprise! you're dead!
Guess what? It never ends... The pain, the torment and torture, profanity Nausea, suffering, perversion, calamity
You can't get away


Surprise! you're dead!
Faith No More

quarta-feira, 4 de março de 2009

Presenças #6

O canto dos pássaros, logo pela primeira luz da madrugada, acordou-me. Calmamente abri os olhos e gelei instantaneamente ao vislumbrar uma figura que pairava à minha frente a cerca de um metro do chão. Conseguia distinguir um rosto de feições simples, mas o corpo não passava de uma massa disforme e ondulante. Além dos seus grandes olhos, pouco mais se distinguia que uma pequena fenda que identifiquei como sendo uma boca. No entanto, apesar de atemorizante, a figura tinha uma estranha beleza. Uma beleza que conseguiu transmitir-me tranquilidade e aos poucos consegui recuperar a calma e controlar o medo. Deixei-me ficar deitado no sofá, a observar a estranha aparição, sem saber se se teria já apercebido que eu tinha acordado. Depois de terem passado o que me pareceu cerca de dez ou quinze minutos, estremeci ao ver o rosto da figura esboçar o que me pareceu um sorriso. Levantei a cabeça para ver melhor mas no segundo seguinte a figura já não estava lá. Pareceu-me que, no entanto, ainda se manteve durante perto de um minuto, um brilho arrepiante no local onde estavam os olhos da aparição, que me destruiu toda a tranquilidade que tinha conseguido adquirir.
Tentei recuperar a compostura. Desta vez não iria conseguir fazer-me acreditar que tinha sido apenas um sonho, tinha a certeza que estava perfeitamente acordado. Ponderei que, na realidade, não me tinha ainda acontecido nada que me tivesse feito pensar que estaria realmente em perigo. O medo que sentia era pelo desconhecimento do que me estava a acontecer, pela estranheza dos fenómenos, e pensei que talvez não tivesse razões muito válidas para o ter. Se a entidade, para usar o termo da crioula, me quisesse fazer mal, já tinha tido varias oportunidades. Lembrando-me das palavras da enorme africana, disse a mim próprio que o facto de ainda não me ter prejudicado, não implicava que tivesse boas intenções, mas achei que o terror que os fenómenos me inspiravam não teria muita razão de ser e decidi tentar controlá-lo. E talvez nem fosse difícil, porque por muito estranho que pareça, a verdade é que, começava a ficar algo habituado. Ponderei se teria coragem para tentar comunicar.

Curtas

Fecha os olhos
Deixa que eu entre
Sentes, o sabor?
Doce
Vou percorrer cada pedaço de ti
Suave
Vais deixar que eu me entranhe, no labirinto dos teus desejos
Rasgo-te a pele devagar
Um fio de sangue escorre
Não acordes
Deixa que a escuridão se alimente de ti
E plante na tua alma , o ódio

Curtas

Acossada,
Soltei toda a minha frustração em ti
Rasguei-te com as minhas garras
Odiei-te com todas as minhas forças
Bebi todo o teu sangue
Suguei todas as tuas forças e a tua alma
Para depois morrer em ti saciada...

terça-feira, 3 de março de 2009

Presenças #5

Mantivemo-nos em silêncio até que a minha atenção foi atraída por um cão deitado no passeio, não muito grande, mas bastante robusto. O focinho era curto o pelo malhado de castanho sobre branco. Estava deitado a roer qualquer coisa. Conforme me aproximei, a desconcertação fez o meu queixo e os meus braços caírem enquanto instintivamente inclinava o corpo para a frente. O cão tinha amputada a pata anterior direita e estava a roer o seu próprio osso! A minha reacção fez o cão levantar a cabeça e consternei-me ao ver uma profunda tristeza no seu olhar. A minha tia puxou-me pelo braço dizendo-me para não me distrair, enquanto acelerava o passo e depressa chegámos de volta a casa dela.

Espero que leves esta história muito a sério e que não te esqueças do que ela te disse, proferiu apenas, circunspecta, antes de se despedir de mim. Obrigado tia, foi a única coisa que lhe consegui dizer enquanto lhe dava um leve beijo na face enrugada.

No caminho de volta para casa debati-me comigo próprio. Por um lado, sabia que o que me estava a acontecer era real, mas apesar disso tinha uma grande dificuldade em acreditar na conversa da africana sobre entidades e realidades paralelas. No entanto, se era verdade o que a crioula tinha dito sobre a forma de me proteger, bastava que não fizesse nada estúpido e não teria problemas.

Já sentado no sofá, pensei que afinal a minha visita à estranha mulher não tinha contribuído em nada para que deixassem de me acontecer o que eu vou apenas chamar episódios. Respirei fundo e, enquanto me deixava afundar, revi a minha situação. Apercebi-me que enquanto estive em casa da crioula, parecia que a minha razão tinha entrado num estado latente. Na altura, tudo o que ela me dizia soava perfeitamente certo. Como se estivesse a absorver algo real e incontestável a um nível elementar da minha consciência. As suas palavras tinham entrado em mim sem qualquer influência do meu raciocínio. Mas enquanto as minhas pálpebras se fechavam achei que, apesar de interessante, a minha visita à africana não tinha sido uma grande ajuda.

Senti a consciência a regressar pelo olfacto. Ainda de olhos fechados, senti o meu corpo arrefecer ao reconhecer o odor. O pânico começou a apoderar-se de mim e impediu-me de abrir os olhos. Não sei quanto tempo passou, mas pareceu uma eternidade. Não há nenhuma razão para teres medo, disse uma voz sussurrada. O susto pôs-me de pé numa fracção de segundo, agora com os olhos bem abertos. Nada. A noite de lua cheia entrava pela janela iluminando fracamente a casa, que permanecia tranquila e vazia como sempre. Já não sentia o cheiro. Deixei-me cair de volta no sofá e decidi assumir que tinha sido só um pesadelo.

Curtas

Este frio constante que me assola a alma e o corpo
Este Inverno permanente, que vêm de dentro
E me congela os sentidos
Preciso do nosso fogo, para me ajudar a despertar

Presenças #4

Fizeste muito bem em procurar ajuda, corres um grande perigo. A surpresa fez-me endireitar as costas e colocou-me uma expressão de estupefacção. Apesar da envergadura da mulher, a sua voz era suave e doce, quase melodiosa. Falava com uma pronúncia perfeita, certamente estaria cá há muito tempo, talvez até tivesse mesmo nascido cá e por uma fracção de segundo ponderei, algo envergonhado, sobre o facto de eu desconhecer uma cultura tão diferente da minha, que existe tão perto e há tanto tempo. Senti que a sua elocução me percorria todo o corpo. Apesar do aviso que continha, provocou-me uma quase inebriante sensação de paz. Tive a certeza que podia confiar nela e absorvi as suas palavras como se me alimentassem a alma. Meu querido, continuou, há pessoas que são mais sensíveis às entidades do outro lado. Isso pode ser um grande poder, se o souberes controlar, mas traz também uma enorme ameaça. Se deixares que se apoderem de ti, podem fazer-te cometer actos terríveis! Para já, não há muito que eu possa fazer para te ajudar, senão alertar-te para o teu dom, ajudar-te-á a manter o controle. Mas, que entidades são essas, do outro lado? Perguntei, depois de ter a certeza que não a interromperia. Fantasmas? Pessoas que já morreram? Acrescentei. Depois de inspirar fundo, a mulher continuou. A maioria das pessoas pensa, ou faz mesmo questão de pensar, que esta é a única realidade que existe, mas não é. Existem outras. Há quem lhes chame planos de existência, mas o que lhes chamamos não é o importante, o importante é que elas existem e nós temos que reconhecer a sua existência para nos podermos proteger. Assim como nesta realidade existem pessoas boas e más, nas outras também é assim. Existem entidades tão plenas de vileza que são capazes de tudo para cumprir qualquer objectivo sombrio que tenham.

Fiquei alguns momentos em silêncio, a assimilar o que tinha ouvido e algo surpreendido com a eloquência da mulher. Apesar de ser muito céptico em relação a coisas não reconhecidas pela ciência, não consegui imaginar nenhuma explicação lógica que me permitisse refutar a existência de outros planos de existência. O que devo então saber? Perguntei. Além de saberes e reconheceres que existem coisas que não conseguimos explicar, apenas tens que te manter sempre consciente das tuas decisões, escolhe o teu caminho sem nunca deixares que o teu discernimento seja toldado pelas entidades, respondeu a mulher, dando especial ênfase às palavras sempre e nunca. Parece-me fácil, e até pode ser que seja uma entidade boa, disse eu com leveza. Pois parece, mas nem tudo é o que parece, retorquiu algo bruscamente e abriu um pouco mais os seus olhos negros, fazendo-me perceber que, apesar das suas palavras parecerem uma frase feita, falava muito a sério. A porta da minha casa estará sempre aberta para ti, mas eu não conseguirei ajudar-te se tu próprio não te ajudares também, acrescentou em jeito de conclusão enquanto cruzava as mãos em cima da barriga.

Segundo percebi pela reacção da minha tia, que se levantou prontamente, tudo estaria dito e era o momento de sairmos. A minha tia despediu-se com uma subtil vénia com a cabeça. Só depois me apercebi que não tinha trocado uma única palavra com a africana. Eu fi-lo com um agradecimento algo hesitante e saímos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Curtas

Apetece-me partir tudo
Apetece-me escavacar-te todo, e engolir os teus cacos para serem meus
Vão rasgar-me por dentro, e vou sangrar
Estou dormente, não sinto
Esta calma aparente assusta-me
È agora
Há sangue pelo chão, bocados de ti
Dou uma gargalhada e banho-me no teu sangue e na tua alma

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

de profundis amamus

...serve o presente para informar que, caso notem uma ausência mais acentuada da minha pessoa, nos próximos tempos, não se apoquentem.

O mais certo é estar a foder.

Obrigado e passem bem :)

Curtas

Sabes que o que sinto mais falta, é do teu cheiro.
Sim, o cheiro.
O cheiro da tua pele, o cheiro a ti.
Está entranhado em mim, nas minhas narinas.
Cheira a brisa do mar, ao cheiro da terra molhada, ao cheiro do pão acabado de fazer com a manteiga a derreter, ao cheiro do vinho que ainda está no pipo…
Esse cheiro que me faz lembrar a palavra (a)mar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Curtas

Muitos o dizem poucos o sentem.
Por isso nos abraçamos com angústia.
Pois todo o homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale.

Charles Darwin ao som de Pearl Jam

E como no dia 12 de Fevereiro nasceu Charles Darwin, e me esqueci de postar o assinalar da efeméride.
Espero que ninguém se incomode eu postar um dia depois e ao som de Pearl Jam, com o
“Do the evolution”.

"Do The Evolution"

Woo..I'm ahead, I'm a man
I'm the first mammal to wear pants, yeah
I'm at peace with my lustI can kill 'cause in God I trust, yeah
It's evolution, baby
I'm at piece, I'm the man
Buying stocks on the day of the crash
On the loose, I'm a truck
All the rolling hills, I'll flatten 'em out, yeah
It's herd behavior, uh huh
It's evolution, baby
Admire me, admire my home
Admire my son, he's my clone
Yeah, yeah, yeah, yeah
This land is mine, this land is free
I'll do what I want but irresponsibly
It's evolution, baby
I'm a thief, I'm a liar
There's my church, I sing in the choir:(hallelujah, hallelujah)
Admire me, admire my home
Admire my son, admire my clones'
Cause we know, appetite for a nightly feast
Those ignorant Indians got nothin' on me
Nothin', why?
Because... it's evolution, baby!
I am ahead, I am advanced
I am the first mammal to make plans, yeahI
crawled the earth, but now I'm higher
2010, watch it go to fire
It's evolution, baby
Do the evolution
Come on, come on, come on

Pearl Jam

http://www.youtube.com/watch?v=FS69fuCOhTM

O video também está muito bom