terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Arte #5

Após algumas dezenas de minutos, durante os quais cada um se manteve silenciosamente imerso nos seus próprios pensamentos, o recém-chegado acercou-se da parede onde o velho mantinha o seu registo e ficou estático a olhar para a serpenteante fila de riscos na parede. Trezentos e oitenta e sete, disse o velho, provocando algum espanto no recém-chegado por parecer ter lido a sua mente. Estás cá há trezentos e oitenta e sete dias? Perguntou abismado o recém-chegado. Sim, respondeu o velho, fui o primeiro. Estive vários meses aqui sozinho, continuou, e só não acabei com a minha miserável existência porque não tinha como. Agora já nem me preocupo, estou mentalizado para acabar aqui os meus dias, só espero que esteja para breve. As palavras do velho provocaram uma imensurável tristeza no recém-chegado, que lutava por não desmoralizar e manter uma réstia de optimismo. Deduzo que a rapariga foi a última pessoa a chegar antes de mim, especulou o recém-chegado em tom interrogativo. Sim, de facto deduzes bem, embora o facto que provavelmente te levou a essa dedução não o comprove, respondeu o velho. Como assim? Perguntou o recém-chegado. Ele já a veio buscar uma vez, mas aparentemente não lhe fez nada, explicou o velho, ou pelo menos é o que parece e é o que ela diz, se calhar fez-lhe alguma coisa que ela não quer dizer, continuou em tom ponderativo. Bom, pelo menos não lhe fez nada que salte à vista, ao contrário do que aconteceu com o resto de nós, concluiu, percorrendo a sua longa cicatriz com a ponta do indicador da mão direita. Depois recostou-se na parede e cruzou as mãos sobre o abdómen, como se se preparasse para dormir.
O recém-chegado deixou-se ficar alguns momentos em silêncio junto ao velho e aproximou-se depois da rapariga. Achas mesmo que ele não é humano? Perguntou com delicadeza. Não sei o que ele é, mas não acredito que um ser humano possa dar tão pouco valor à vida de outro, retrucou a rapariga. Pois, ainda és demasiado nova e ingénua, pensou o recém-chegado condescendentemente, mas limitou-se a acenar com a cabeça. E ele falou mesmo contigo? Sim, respondeu a rapariga com uma voz trémula, foi arrepiante. E o que é que ele te disse? Indagou o recém-chegado. Não me disse grande coisa, mas, apesar de não me ter feito mal, foi o suficiente para me deixar aterrorizada, respondeu a rapariga. Conta-me, pediu o recém-chegado.
A rapariga respirou fundo, endireitou as costas como que reunindo forças e começou. Nunca ninguém aqui o viu nem teve nenhum contacto com ele, além do que me aconteceu a mim. Ninguém sabe sequer se é só um, ou mesmo se é humano. Sou quem está cá há menos tempo depois de ti e, quando cheguei, ninguém sabia absolutamente nada do que poderia estar a acontecer. Só sabiam que havia manhãs em que, ao acordarem, faltava uma pessoa. Essa pessoa normalmente, sem ninguém também saber como, aparecia noutra manhã, vários dias depois… A rapariga fez uma pausa e desviou o olhar para o velho que dormitava. Naquele estado, continuou, enfiando a cara não mãos sem conseguir conter o choro. O recém-chegado afagou-lhe o cabelo sujo e dirigiu-lhe algumas palavras de conforto. Podes abraçar-me? Pediu a rapariga. O recém-chegado abriu os braços e ela, encaixando-se nele, encostou a cabeça ao seu peito e fechou os olhos.
Obrigado, disse ela, já recomposta, passado algum tempo. Não imaginas o que eu estava a precisar de um abraço. Tem um efeito quase milagroso, não achas? O recém-chegado limitou-se a murmurar uma interjeição afirmativa. A teoria geral é que libertam um gás anestesiante, disse a rapariga, retomando o assunto. Suponho que ninguém se surpreendeu quando, uma manhã, eu não estava lá, mas a minha história é diferente. Não acordei aqui, no mesmo estado que os outros. Então? Perguntou, curioso, o recém-chegado, como se estivesse esquecido que o que ouvia não era apenas uma história, mas sim uma cruel realidade onde estava também inserido. Acordei presa a uma espécie de mesa de operações, numa sala que parecia pertencer a um hospital antigo com um quase insuportável cheiro a éter. Pouco depois ouvi uma voz. Uma voz que não pode ser deste mundo, parecia que silvava e saia do fundo de um buraco. Causou-me verdadeiro pavor. O que é que ele disse? Perguntou o recém-chegado, cada vez mais empolgado. Essa é a parte mais estranha, pediu-me desculpa. O quê? Perguntou, incrédulo, o recém-chegado. Sim, respondeu a rapariga, foi perfeitamente educado e pediu-me desculpa porque eu não servia. Não servias? Porquê? E para quê? Indagou o recém-chegado. Não sei, respondeu a rapariga, além de pedir muita desculpa, ele só me disse que a matéria-prima tinha que estar imaculada e que eu não servia. Ainda bem, respondeu apenas o recém-chegado, sorrindo. Corada, desviando os olhos, a rapariga sorriu também.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Arte #4

Porque se referem sempre a “ele”, perguntou o recém-chegado, porque é que acham que é só uma pessoa? Nas poucas e curtas mensagens que já nos deixou escritas assina “Escultor”, respondeu a mulher, mas eu não acredito que ele consiga fazer tudo sem ajuda. Haverá de certeza outros que o ajudam, mas tudo aponta para que seja mesmo à mercê de apenas uma pessoa, humana ou não, que estamos. E o que diziam essas mensagens? Continuou, curioso, o recém-chegado. A mulher enfiou a mão por dentro da camisa suja e esfarrapada e retirou de lá dois pedaços dobrados de papel amarelado e entregou-os ao recém-chegado. Depois de alguns segundos a olhar para os pedaços de papel pousados na palma da sua mão, o recém-chegado pegou num deles e abriu-o. Estava encardido e emanava um cheiro estranho e desagradável. “Dignitários sois de grave prerrogativa” era o que estava escrito, notoriamente a aparo, numa letra extremamente cuidada e floreada. O papel amarelado e a letra manuscrita faziam a mensagem aparentar ter séculos de existência. Voltou a dobrar cuidadosamente o pedaço de papel e, com o mesmo cuidado, abriu o outro. “Compreendei a vossa fortuna” estava escrito na segunda nota, na mesma letra trabalhada. Escultor… O recém-chegado leu alto a palavra que assinava ambas as notas. Escultor… Repetiu para si próprio, dirigindo o olhar para a janela que deixava entrar alguns raios de sol. Dignitários sois de imensa prerrogativa? Compreendei a vossa fortuna? Que merda quer isto dizer? Perguntou o recém-chegado à atmosfera, em tom irritado. Pelo que percebo, ele ou vai recompensar-nos, ou acha que nos está a fazer bem, respondeu a mulher, sem nunca mostrar abalada a sua pacatez. Estás a ver o nível do filho da puta? Disparou o velho, do outro lado da cela. Ainda acha que nos está a fazer um favor, o grande pulha. Se queria ser decente, pelo menos dava-nos alguma escolha. Eu nunca disse que achava bem o que ele nos está a fazer, retorquiu a mulher, apenas elevando a volume da sua voz, mas mantendo no mesmo tom calmo, mas é por isto que acho que ele não nos está a fazer mal apenas para satisfazer um qualquer depravado desejo sádico. Não acho que o objectivo de tudo isto seja apenas fazer-nos sofrer. A última frase foi proferida mais suavemente e dirigida ao recém-chegado, que lhe retribuiu um olhar compreensivo.
O recém-chegado sentou-se ao lado da mulher sem pernas. Sabes, isto pode ser também uma forma cruel de brincar com as nossas mentes, com a nossa sanidade mental, disse baixinho. Claro que pode, respondeu a mulher quase de imediato, não penses que não coloco essa possibilidade, mas, como não tenho provas nem dessa, nem da outra hipótese, e já que não posso fazer nada, prefiro acreditar na que me é mais confortável.
Ele mostra-se, perguntou o recém-chegado, alguém já o viu? Não, respondeu o homem sem braços com a sua voz débil, quando vem buscar alguém, só nos apercebemos quando acordamos. Ele deve usar alguma coisa para nos pôr a dormir profundamente. É um vampiro, um monstro, disse a jovem rapariga, levantando a voz. Não há monstros ou vampiros, disse o velho com alguma irritação na voz, o que há é seres humanos capazes das maiores barbáries. Os monstros somos nós, os maiores monstros que cá andam, e basta conhecer um bocadinho da nossa história ou simplesmente ver as notícias para perceber isso. E a voz? Aquela voz não pode ser humana, gritou a jovem rapariga, roçando a histeria, dizes isso porque nunca lhe ouviste a voz. Ela foi a única com quem ele já falou, esclareceu o homem sem braços, dirigindo-se ao recém-chegado, não sabemos porquê.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A parte de dentro para fora

“Não é o que metemos dentro de nós que nos define, mas sim aquilo que sai de nós”, disse-me uma vez um amigo. Pessoa muito interessante, constantemente à procura de novas emoções, totalmente agarrado às drogas. Concordo. Acho que estava imerso em razão. É uma pena ter morrido tão jovem…

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Arte #3

A tua calma, apesar de conseguir contagiar um bocado, não deixa de ser desconcertante, disse o recém-chegado, sentando-se ao lado da mulher, como é que consegues estar sempre tão tranquila? Por acaso ganho alguma coisa em enervar-me, em andar em constante amargura? Perguntou pacatamente a mulher, inclinando a cabeça na direcção do velho ao proferir a última frase. Não, de facto não, respondeu o recém-chegado. Pois, continuou a mulher, não ganho nada e, como a forma como lido com a nossa situação não tem qualquer influência na realidade, acho que mais vale manter a calma e aceitar o destino. O que é que ele ganhou com a inconformidade? Concluiu olhando directamente para o velho. Nada, não ganhei nada, gritou o velho lá do fundo no seu quase constante tom agressivo, mas eu não escolho reagir assim, vocês falam como se fosse uma opção e não é. Achas que me faz sentir bem ter este turbilhão dentro de mim que só me deixa pensar nas atrocidades que faria ao filho da puta se o apanhasse? Perguntou amargamente o velho. Não faz, mas é o que me mantém vivo. E cada vez acredito mais que isso não é uma vantagem. Cada vez acredito mais que não ganho nada em manter-me vivo, mas não consigo controlar esta revolta. Se quiseres ter a amabilidade de partilhar o teu segredo, sou todo ouvidos, concluiu sarcasticamente. Não tenho um segredo, nenhuma fórmula mágica, respondeu a mulher com amabilidade, apenas racionalizo a situação e, ao perceber que não há nada que eu possa fazer para mudar a minha situação, conformo-me. É a forma como funciono, apenas isso. Não achas que esse conformismo está num patamar próximo da abjecta cobardia? Perguntou o velho no mesmo tom sarcástico. Não achas que isso é aquilo a que as pessoas chamam sangue de barata? O recém-chegado desviou rapidamente o olhar para o rosto da mulher na esperança de apanhar algum esgar repentino que lhe provasse que conseguia ter emoções. Desejou ver alguma expressão de desagrado face às palavras do velho, fá-lo-iam respeitá-la mais, já que também não concordava com tal apatia, mas isso não aconteceu. A mulher manteve-se impávida e esboçou até um sorriso ao responder. Se houvesse algo que eu pudesse fazer e eu tivesse esta atitude, sim, seria cobardia, sangue de barata ou aquilo que lhe quiseres chamar, disse, mas não havendo, parece-me mais uma postura inteligente do que cobarde. Tens alguma ideia? Perguntou, intrépida, a mulher. Se achas que há alguma coisa que eu possa fazer para nos ajudar, partilha, por favor. O velho grunhiu e virou-se de costas. Foi o que eu pensei, continuou, nesse caso acho que não tens argumentos para criticar a minha postura. Já que vou morrer, ao menos não vou viver todo o tempo que me resta até lá aterrorizada por isso. Acho até que já nada me aterroriza. Achas mesmo que não há absolutamente nada que possamos fazer? Perguntou, desalentado, o recém-chegado. Olha à tua volta, respondeu a mulher, e conta-me qualquer ideia que tenhas.

Após alguns minutos a percorrer a cela com o olhar, o recém-chegado compreendeu a mulher. Não havia nada. Nada que pudesse ser usado como arma, nada que permitisse a alguém acabar com a própria vida, nada. Invadido por uma tristeza avassaladora, deitou-se em posição fetal e ali ficou até finalmente adormecer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Arte #2

Conseguiu sentir algo semelhante a uma sensação de alívio quando, pouco depois dos primeiros raios de sol começarem a entrar pela pequena janela, os vultos disformes começaram a assumir formas humanas. A sensação foi abruptamente cortada quando as silhuetas se tornaram mais nítidas e o recém-chegado percebeu que algo não parecia normal.

Antes que pudesse processar as informações que o seu cérebro recebia das retinas, uma ranhura abre-se na desgastada, mas robusta, porta de ferro, através da qual um tabuleiro com alimentos foi introduzido no espaço. Lentamente, as figuras distantes aproximaram-se dele e pôde vê-los com revoltante detalhe.

O primeiro que, coxeando, se acercou do tabuleiro era um homem já de alguma idade. Apesar da sua deplorável condição o fazer parecer muito envelhecido, achou que não devia ter muito mais que cinquenta anos. Estava extremamente magro e o seu tronco nu apresentava uma grotesca e retorcida cicatriz que se perdia em direcção às costas. Conforme cambaleava na sua direcção, o recém-chegado deixou cair o queixo ao reparar nas sua órbitas ocas. Os olhos do homem tinham sido cuidadosamente extraídos, dando ao seu rosto a aparência de uma caveira. Quem poderia fazer uma coisa destas a alguém, pensou ainda por um instante antes do homem quebrar o silêncio. Estou a ver que temos mais um, disse roucamente, mas não ocorreu ao filho da puta pôr mais comida! Exclamou, virando o seu grotesco rosto na direcção do recém-chegado ao mesmo tempo que partia, o mais irmãmente que conseguiu, o pão em cinco pedaços. Não precisas de te assustar, eu sei que não tens culpa, acrescentou dirigindo-se ao recém-chegado como se tivesse percebido o temor nos seus olhos. Estamos todos no mesmo barco, concluiu enquanto se sentava mordiscando o seu pedaço de pão.

Quando o homem se calou, o recém-chegado desviou a sua atenção para as outras duas pessoas que se movimentavam. Uma encardida menina, que achou ter entre doze e catorze anos ajudava um homem mais velho a levantar-se. O homem teria algo entre trinta e quarenta anos, o seu estado sujo e subnutrido impedia uma estimativa com mais precisão. A aproximação permitiu confirmar o que a sua silhueta já tinha feito inferir, os seus braços tinham sido amputados. A rapariga ajudou-o a sentar-se e, recolhendo dois pedaços de pão, sentou-se junto dele dando-lho à boca enquanto comia o seu. No momento de silêncio que se seguiu, a rapariga, que não apresentava qualquer mutilação visível, dirigiu o seu olhar ao recém-chegado e nele, este viu a mais intensa comiseração. Estava quase a ir-se abaixo perante o triste fado que a cena e o olhar da rapariga deixavam adivinhar para si, quando uma voz o distraiu.

Então, conseguiste dormir? Podes trazer-me o meu pão, se fazes favor? Virou a cara na direcção da voz e confirmou que provinha da mulher sem pernas. A sua voz era doce, quase maternal e ficou surpreendido ao perceber que conseguiu transmitir-lhe algum alento. Claro, disse o recém-chegado enquanto se apoderava dos dois últimos pedaços de pão. Entregou um à mulher, que lhe sorriu, e deixou-se ficar, pensativo, a olhar para o seu. Não consigo comer, disse após alguns minutos, nauseado com o cheiro e com um nó no estômago causado pelo nervosismo. Com alguma dificuldade dividiu o seu pedaço de pão em quatro partes e distribuiu-as entre os demais que o receberam com um misto de espanto e gratidão.

Em silêncio, o recém-chegado percorreu as paredes com o olhar, várias áreas estavam gravadas com palavras que não conseguia ler de onde se encontrava e, aparentemente, havia quem estivesse a tentar manter um registo do tempo em que se mantinha cativo. O enorme número de toscos traços gravados nessa parede fizeram-no perder toda a esperança que ainda mantinha que o pesadelo não durasse muito. Continuando a sua observação, com um esgar enojado, cerrou os olhos ao deparar-se com o canto de onde provinha o fedor. É um pesadelo, é isso, é só um pesadelo e daqui a pouco vou acordar, pensou.

Deves ter perguntas. A voz retirou-o da sua catatonia e fê-lo abrir novamente os olhos. Provinha do homem sem braços que, apesar da amargura da sua voz, lhe dirigia um olhar empático. Sim, apesar de conseguir adivinhar algumas coisas, quero saber porque estamos aqui, porquê nós, quem é que nos mantém aqui presos, disse em tom algo suplicante. Bom, disse o velho, antecipando-se ao outro homem, os porquês também eu gostava de saber. Quem, continuou após pigarrear para clarear a voz, também não sabemos ao certo, sabemos apenas que é um filho da puta cruel e demente. Demente, sem dúvida, cruel, não sei, interveio a mulher sem pernas. Não acha que ele seja cruel? Perguntou o recém-chegado, olhando atónito para ela. Aqui tratamo-nos todos por tu, disse com a sua estranha calma, e não, não acho, pelo menos, que seja uma crueldade calculada ou propositada. Acho que somos algo como moscas que uma criança guarda dentro de um frasco, continuou, acho que ele não tem realmente consciência do mal que nos faz, qual criança que arranca as asas de uma mosca. Será cruel, de facto, mas não deixa de ser inocente, concluiu cruzando as mãos sobre o ventre. Ele não é humano, disse, aterrorizada, a jovem rapariga, que, assim que o recém-chegado virou para si a sua atenção, baixou a cabeça, olhando timidamente o chão, não é humano, repetiu num sussurro. Então o que é que ele é? Perguntou o recém-chegado à rapariga. Esta, levantou a cabeça apenas o suficiente para que os seus olhares se cruzassem e limitou-se a encolher os ombros. Seja humano ou não, para mim é um filho da puta, disse o velho enquanto se levantava para se dirigir à parede junto de onde tinha dormido e se dedicar a, pacientemente, adicionar, com a unha do polegar da mão direita, mais um risco à incontável fila que lá estava gravada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Arte #1

O odor fétido que pairava no local invadiu as narinas do recém-chegado assim que acordou. Revolveu-lhe imediatamente o estômago e colocou-lhe na face uma expressão de extrema náusea. Acabas por te habituar ao cheiro, disse uma voz feminina, se precisares de vomitar, tenta usar aquele canto. O recém-chegado levantou a cabeça e vislumbrou a origem da voz. Era uma mulher de meia idade cujas feições, dada a fraca iluminação, não conseguiu distinguir bem, percebendo apenas que era extremamente magra. Com um grande esforço, o recém-chegado elevou o torso, ficando sentado no chão. Semicerrou os olhos numa tentativa de distinguir o contorno da mulher e arregalou-os ao parecer-lhe que não tinha pernas! Estava sentada no chão, encostada a uma parede e, agora que os seus olhos se tinham já habituado à penumbra, percebia facilmente que o seu corpo acabava pouco mais de um palmo abaixo da cintura.

Onde estamos? Perguntou debilmente. E porque é que cheira tão mal? Onde estamos não sei, respondeu a mulher com uma desconcertante calma, mas bem que podemos estar no inferno, concluiu voltando a encostar a cabeça à parede. O cheiro é uma consequência natural da falta de condições sanitárias, mas vai custando cada vez menos suportá-lo.

Com um esforço quase sobre-humano para controlar o medo, o recém-chegado perscrutou o local, fracamente iluminado pela parca luz que entrava por uma clarabóia junto ao tecto. Não conseguiu perceber se o ténue brilho provinha do luar ou de um candeeiro da rua, mas permitiu-lhe distinguir mais três pessoas que pareciam dormir no chão, junto à parede do seu lado direito.

Mas o que é que se passa? Porque é que estamos aqui? A última coisa que eu me lembro é de estar a aproximar-me da porta da minha casa e sentir uma dor aguda. Depois disso só me lembro de acordar aqui. O nervosismo do recém-chegado quase impedia as suas palavras de saírem de forma inteligível. Desculpa, mas estou muito cansada, respondeu a mulher sem pernas, sabes, continuou com a mesma fleuma, ele não nos dá muito para comer. Tenta dormir, terás muito tempo para tentar obter respostas para todas as tuas questões. Não queria ser incomodativo, desculpou-se o recém-chegado, mas, como é que consegues manter essa calma? Perguntou perplexo. Ganho alguma coisa em enervar-me? Perguntou a mulher, em resposta. Não, respondeu, de facto não, mas… Amanhã, interrompeu a mulher, amanhã…

Resignado, o recém-chegado encostou-se à parede e tentou descontrair. Torrentes de pensamentos açulavam-lhe a mente e assolavam-lhe a presença de espírito, cada um mais assustador que o anterior e não conseguiu conter as lágrimas. A noite foi passada em constante luta contra os pesadelos que teve acordado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ainda o Ernesto

Almocei ontem com o Ernesto. Já não o via há algum tempo. Está um homem novo, até os olhos brilham de outra forma! Diz que já está noutra. Que cresceu, amadureceu e que as carnes vermelhas já não o fascinam. Diz que encontrou finalmente o verdadeiro e genuíno amor. Tem numa relação estável com um presunto de Barrancos e diz que nunca tinha tido sexo com tal categoria. E a verdade é que se lhe vê a satisfação estampada na cara. Este Ernesto é um prato, é mesmo um daqueles tipos tão decentes que merece mesmo ser feliz. Está até a pensar em mudar-se para o Canadá para poderem casar. Estou tão contente por ele…

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Outra vez o Ernesto

Coitado do Ernesto, anda tão triste. Diz que queria ter relações mais duradouras, mas que, apesar de todos os seus esforços, ao fim de algum tempo as coisas estragam-se e começam a cheirar mal. Tenho mesmo pena dele. É que é um gajo que se vê que tem muito amor para dar e é desolador acompanhar estas desilusões. Eu ainda lhe propus que a congelasse, mas ele diz que ela depois fica demasiado fria na cama.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Ernesto

Para mim o Ernesto não deixa de ser um tipo normal. Tem as suas particularidades, claro, mas quem as não tem? É amigo do seu amigo e isso é que interessa. É daqueles tipos de quem é difícil não gostar. Um gajo sentimental, afável, sempre a fazer-nos rir, um porreiraço! O que cada um faz na privacidade do seu lar não é da conta de ninguém, e eu até acho que há ali amor. Que diferença é que me faz que ele esteja perdidamente apaixonado por uma peça do pojadouro? Não deixamos de fazer as nossas cartadas em casa dele por causa disso, já sabemos que não podemos mexer naquele frigorífico e corre tudo bem.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Curtas

È o fazer
È o dar sem pensar em receber
È o prometer e cumprir
È o não omitir
É o sentir
E perante os obstáculos é o nunca desistir

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Motivação

- E vai ela e diz: "mas esse é o meu botão!!!".
- ...
- "Esse é o meu botão!", não percebeste?
- Hã?
- Há algum problema com a tua comida? Porque é que estás a olhar assim para o prato??
- Estava aqui a ver se conseguia perceber a motivação de alguém que põe ervilhas no arroz...

Era tecnológica, my ass

Já temos maravilhas como salsichas de soja, hamburgers de tofu, até farinheiras vegetais… Mas ainda não é possível comer uma peça de fruta feita inteiramente de porco...

(já sei, e não, não planeio fazer carreira, mas que isto andava a precisar de uma idiotice, andava :)

SW - Momentos mais marcantes


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Brüno

Se aquilo for mesmo verdade, o gajo tem mais tomates que o Charles Bronson e o Chuck Norris juntos...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Peça ou Será estúpido?

Não consigo, estou demasiado nervoso, disse o jovem actor, porque é que a primeira cena a sério da minha vida tinha que ser logo um monólogo? Eu também não sei o que é que o encenador viu em ti para achar que este papel tinha que ser teu, mas alguma coisa há-de ter sido, respondeu o segundo actor. Mas o teatro está cheio, e eu não consigo parar de tremer, continuou o jovem actor, como é que eu alinhei nisto? Pois que agora é tarde demais para te acobardares, respondeu o segundo actor com alguma aspereza, aceitaste a responsabilidade, agora tens que cumprir. Vais ver que depois de passarem aqueles momentos iniciais de pânico, a coisa começa a fluir, continuou em tom paternalista, entra no personagem e dá tudo de ti. E no fim… os aplausos, meu caro… quando sentires os aplausos vais querer fazer isto até morrer. Não há sensação que se compare a uma ovação de pé. Agora, vai-te a eles e ajuda-nos a conseguir uma esta noite! Concluiu, numa derradeira tentativa de encorajar o jovem actor a enfrentar a multidão, enquanto o empurrava para o palco.

Assim que a força provocada pelo empurrão desapareceu, num movimento súbito e instantâneo, o jovem actor inspirou e colocou-se muito direito. Já não tremia. Deu duas voltas ao palco, olhando, empertigado, a audiência. Por fim, parou na frente do público e, com uma postura algo napoleónica, começou.

Quem sois vós? Todos vós? A que pensais vir aqui assistir? Teatro? Não, nada disso, pois que não será teatro que vereis. Vereis vida, meus caros, vereis vida desenrolar-se perante os vossos olhos. Vereis pessoas boas, ou talvez não, pessoas más, ou que tiveram apenas azar. Conseguireis saber onde se escondem os Messias? Onde se escondem os Judas? Podeis, ingenuamente, pensar que sim, mas eu garanto-vos que não, meus caros, não sabereis. Preparai-vos, pois os momentos que se seguem poderão mudar as vossas vidas. Poderão tornar-vos novas pessoas e, àqueles que não conseguirem deixar hoje esta sala mais ricos e preenchidos, nada mais posso fazer senão comiserar-vos.

Boquiabertos, o encenador e os outros actores assistiam à cena a partir dos bastidores. O que é que aquele maluco está a fazer? Perguntou, atónito, o segundo actor. Nada daquilo está no guião! Ei, estou a falar contigo! O encenador virou os seus olhos aguados para o outro actor e fitou-o por alguns segundos antes de responder. Genial, disse, emocionado, eu sabia que havia qualquer coisa de especial naquele miúdo. Senti-o mas minhas entranhas. Genial… Repetiu enquanto dirigia novamente a sua atenção para o palco, no momento em que o jovem actor terminava o seu monólogo e que, como que movida por um impulso comum, toda a platéia aplaudia intensa e copiosamente. Com uma vénia suave, em que quase só o seu pescoço se moveu, o jovem actor saiu de cena, transformando-se novamente na pessoa que era antes de ter pisado o palco.

Os seus olhos transbordavam temor quando encontraram os do encenador. Desculpe, não sei o que me deu, disse, envergonhado. Nem acredito que estejas a pedir-me desculpa? Retorquiu o encenador. Foi brilhante, continuou, olha, disse enquanto levantava o braço direito e mostrava ao jovem actor os seus pelos eriçados. Eu vi um brilho especial nos teus olhos, mas nunca pensei que pudesse significar tanto, prosseguiu, visivelmente emocionado. Eu nunca faço isto, mas vamos já alterar os planos. Vou ser eu a representar os teus papéis nas outras cenas e tu vais só entrar entre cada uma delas e improvisar. As pernas do jovem actor fraquejaram e os seus olhos arregalaram-se. Desculpe, mas acho que não consigo, disse o jovem actor com a voz trémula, não tive qualquer controle sobre mim quando estava no palco, não tenho nenhuma garantia de que possa voltar a correr bem. Não te preocupes, respondeu, tranquilizador, o encenador, tu nasceste para isto! Tenho a certeza que vai correr maravilhosamente. Só tens que entrar em cena e vais ver que tudo acontece naturalmente. Bom… Vou dar o meu melhor, respondeu, hesitante, o jovem actor. A cena está a terminar, prepara-te, disse, energicamente, o encenador, quando o último sair do palco, tu entras. Agora, vá! Muita merda, muita merda! Sem pensar, o jovem actor reagiu às palavras que lhe eram dirigidas e invadiu o palco.

Seguiu a orla do palco, fixando os olhos do maior número de espectadores que conseguiu. Ao chegar ao extremo oposto parou por alguns momentos, deu meia volta e começou a falar enquanto percorria a trajectória inversa.

Preparai-vos, meus caros. Preparai-vos para, quando daqui sairdes, enfrentar um novo mundo. Ver novas formas, novas cores. Ver as pequenas coisas da vida com outros olhos. Reparar em pormenores que nunca antes havíeis reparado e compreender a sua importância. Preparai-vos para navegar dentro das vossas próprias mentes, onde fareis mirabolantes viagens de descoberta, onde vos deparareis com o vosso centro, a vossa medula, com o vosso verdadeiro ser. Aí, vereis com clareza o belo e o horrendo, o sublime e o banal, o bem e o mal. Tornar-vos-eis pessoas, pessoas reais e plenas, em vez de vulgares seres humanos. Sei que viestes à procura de algo, de algo magnificente. Pois encontrareis. Não tenhais dúvidas que, se abrirdes as vossas mentes e os vossos corações, encontrareis. Concluiu enquanto abria os braços e deixava a cabeça cair para trás.

Quando o jovem actor se retirou do palco, deparou-se com o encenador de lágrimas nos olhos. Fenomenal, disse-lhe, tens verdadeiramente um dom. Abençoado seja o dia em que entraste neste teatro. Um talento como o teu não se encontra muitas vezes na duração de uma vida. O jovem actor limitou-se a, envergonhado, fixar os olhos no chão. Nem me conheço, disse entre dentes. Não, retorquiu prontamente o encenador, agora é que te estás finalmente a conhecer. Eu compreendo que não pareça, mas aquele és tu. Aquela pessoa que ali esteve está dentro de ti, é parte integrante de quem és. Acredita! Temos agora a última cena, continuou, mas eu quero que entres ainda outra vez depois dela. O público quer mais de ti, tenho a certeza. Quando a cena acabar, entras e fazes a conclusão.

Quando chegou o momento, o jovem actor caminhou lentamente palco adentro, de olhos no chão, acariciando o queixo com um ar pensativo. Quando chegou ao centro do palco, parou, de costas para o público. Será? Disse, introspectivo. Será que foi hoje? Continuou. Será mesmo que foi hoje? Repetiu enquanto se virava e encarava a audiência. Foi hoje que todos partilhámos um momento único, sublime, elevado? Sinto as vibrações, a energia no ar. Sinto as sinergias que acredito terem o poder de nos metamorfosear, transformando-nos em algo mais que meros humanos. Acreditem, meus caros, que hoje sim; hoje aconteceu algo grandioso, majestoso! Todos os nossos corações foram tocados e os nossos horizontes alargados. Acreditem, meus caros, acreditem que nunca mais seremos os mesmos. Acreditem! Concluiu enquanto baixava a cabeça e cruzava as mãos sobre o peito. Permaneceu imóvel naquela posição, de olhos novamente postos nas tábuas puídas do chão. O pano desceu e o público, como que impelido por uma força invisível que o repeliu das cadeiras, levantou-se de imediato e irrompeu num titânico aplauso. Ouviam-se “bravo” inflamados. O êxtase era quase palpável na atmosfera.

O encenador soluçava convulsivamente e as lágrimas escorriam-lhe face abaixo. Obrigado, disse ao jovem actor, entre dois soluços. Obrigado por me teres proporcionado este dia, estas emoções. Sinto que foi o dia mais intenso da minha vida e sim, já não sou o mesmo. Sinto que vou mesmo ver o mundo de outra forma. Acredito! Eu acredito! O jovem actor corou instantaneamente. Eu não sei de onde saiu tudo aquilo, disse, sentia que não era eu quem controlava as minhas acções. Não consigo explicar, mas foi como se, ao pisar o palco, me transformasse automaticamente noutra pessoa. Aquele não era um personagem, respondeu o encenador enquanto tentava recuperar a compostura, era o teu âmago. Hoje nasceste. Hoje, todos nós nascemos.