quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Boa noite

Espero que ao receberes a minha carta, não fiques ainda mais perdido no meio de nós.
Não quero que te sintas a entorpecer, nem quero que chores.
Quero principalmente que gostes de ti.
Tu tens uma força imensa que está à espera adormecida, tens que acreditar em ti.
Eu sei que não é fácil chegar até ti neste momento, deitado nessa cama de hospital à espera que alguém te acorde desse sono tão profundo e bem pior que a morte.
Todos os dias te escrevo uma carta para que te lembres de como eras, mas sinto-te a definhar de dia para dia, e vou morrendo todos os dias contigo.
Por vezes na esperança de ver um piscar de olho, nesse teu corpo cheio de nada, falo-te de coisas para que te possas lembrar como eras.
Lembras-te quando num dia de Março fizeste uma grande proeza ao subir ao cimo da torre da Igreja para tocares o sino? Lembras-te como ficaste contente?
E a velha que ia a passar te lançou um olhar de reprovação?
E tu que fizeste?
Voltaste a tocar o sino, sem medo de ninguém.
Tu eras assim.
Vou deitar-me e pensar em ti, e amanhã voltarei a escrever-te.
Boa noite, meu amor
Um beijo

Apetece-me

Apetece-me foder.
Assim, sem mais delongas.
Apetece-me e pronto!
Gostaria de te encontrar a meio de um corredor, e de te querer tanto que as minhas pernas ficassem bambas.
Ver-te a olhar para mim e sentir que já não nos conseguimos controlar…
Encostar-te à parede e sufocar-te em beijos, agarrar-te e morder-te e roçar-me em ti e que no meio do turbilhão de emoções, de braços de mãos, de pernas, de sexos, de bocas…
saciar a fome que mata, e nos deixa zonzos e, perdidos e, e…
Nos mata outra vez quando chegámos ao orgasmo para nos sentirmos vivos outra vez.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Desvarios de uma mente perturbada ou o que sou?

Não sou eu quando digo caralho (porque toda a gente que me conhece sabe que eu não falo assim)
Não sou eu que escrevo poemas eróticos ou pseudo eróticos (porque toda a gente que me conhece acha que eu nunca poderia ter escrito isso)
Não sou eu que choro (porque toda a gente sabe que eu sou um coração empedernido e nunca me viram chorar)
Não sou eu quando digo que me apetece foder (porque toda a gente sabe que eu só faço amor)
Não sou eu quando digo que me apetece fumar uma ganza (porque toda a gente que me conhece sabe que eu nunca fumei ganzas)
Não sou eu que me passo da cabeça (porque toda a gente que me conhece sabe que eu sou uma pessoa que não sou nada impulsiva)
Não sou eu quando digo que me preocupo (porque toda a gente que me conhece sabe que eu me estou a cagar para os outros)
Não sou eu que nunca chego atrasada a nenhum compromisso (porque toda a gente sabe que eu sou pontualíssima)
Não sou eu que sou franca e honesta (porque toda a gente sabe que eu sou uma cabra fria e calculista)

Presenças #2

Lembrei-me de uma velha tia, entendida nestas questões mais obscuras e decidi procurá-la. Mesmo que não me pudesse ajudar, pelo menos sentiria o alívio de partilhar o meu problema com alguém, que sabia que me levaria a sério sem colocar logo a hipótese da demência.
Depois de uma genuína manifestação de júbilo por me ver passado tanto tempo, a velhinha rapidamente se apercebeu que algo estranho se passava e a sua expressão rapidamente mudou para revelar consternação. Pegou na minha mão direita com a sua mão esquerda e, apoiada com a outra mão numa tosca bengala, conduziu-me para a sala e convidou-me a sentar. Durante alguns momentos limitámo-nos a permanecer em silêncio, ordenando as memórias que a visão um do outro fizeram reviver. A minha tia era já bastante idosa na última vez que a tinha visto e não estava muito diferente do que eu me lembrava. Muito magra, com a roupa tão branca como o seu cabelo, arranjado num imaculado carrapito, como sempre a conheci. Pareceu-me apenas mais pequena, mas suponho que seria eu que estava maior. Conta-me tudo, disse quebrando o silêncio. Contei. Ela ouviu tudo atentamente sem proferir uma palavra, limitando-se a, com um ar grave, acenar lentamente com a cabeça. Quando terminei a minha história, depois de uma pausa, consegui sentir algum alívio quando a velhota disse que conhecia alguém que talvez fosse capaz de me ajudar. Depois de um telefonema em que parecia tentar que eu não percebesse o que dizia, durante o qual me olhava austeramente, inclinou a cabeça na direcção da porta.
Depois de percorrer sítios onde nunca antes tinha estado, entrámos por um bairro, provavelmente clandestino, de ruelas estreitas e quase labirínticas. Apenas numa ocasião, passámos por um pequeno grupo de pessoas, de ar sombrio, que conversavam num recanto. Quando nos viram, pararam de falar e limitaram-se a seguir-nos com os olhos. Quando já estávamos de costas para eles, um arrepio na coluna vertebral dizia-me que os seus olhos ainda estavam fixos em mim e cheguei mesmo a ter algum receio que nos pudessem fazer mal, mas ao verificar a atitude decidida mas tranquila da minha tia, percebi que nenhum mal nos aconteceria. Era quase desconcertante a força que aquela velha e pequena senhora emanava.
Por fim, chegámos a uma porta que se destacava de todas as outras. Estava quase completamente coberta com estranhos símbolos gravados na madeira e senti um calafrio ao ver presa no centro uma fita negra que prendia a pata mumificada de um pequeno animal, que não consegui identificar. Com um ritmo lento, a minha tia bateu quatro vezes com o nó do seu encurvado dedo médio da mão esquerda. A porta abriu-se mas ninguém apareceu. Apesar de estar quase certo de que foi apenas uma somatização provocada pela minha imaginação, senti de facto, assim que a porta se abriu, algo que apenas consigo descrever como uma onda de energia emanando do local . O meu coração palpitava num misto de nervosismo e curiosidade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Curtas

Uma vez alguém me disse que o que importa é o que se escreve e o que se quer dizer...

Dúvida

Cu não leva acento...
Mesmo para aquelas pessoas que tem um cu bem acentuado?

Genuíno

Genuíno…
São as minhas mamas e o meu cu…e outras coisitas mais!

Presenças #1

Começou com o som constante de passos atrás de mim. Ao princípio, como para qualquer outra pessoa, era uma situação perfeitamente normal, seria alguém que vinha a caminhar atrás. Mas não agora, já me aconteceu vezes suficientes para achar que há muito mais probabilidades de não encontrar ninguém atrás de mim, apesar do som dos passos ser perfeitamente distinguível e, embora isso possa já ser impressão minha, seja até perceptível a presença de alguém. Ficaria extremamente feliz se fosse tudo uma questão de impressão, impressão que alguém me segue, mas e o som? O som dos passos é inconfundível e não sou o único que já ouviu. Alguns dos meus amigos também já partilharam comigo o arrepiante fenómeno e acho até que foi isso que afastou de mim a maioria deles. E como é que eu os posso censurar? Se me pudesse libertar disto com a facilidade com que eles podem, provavelmente já o teria feito também. Já dura há algumas semanas, e apesar de já não me surpreender, não consigo evitar o arrepio que me percorre a coluna vertebral quando acontece.
Piorou muito quando começou o cheiro. Mais recentemente, pouco depois de começarem os passos, envolve-me e invade-me as narinas um cheiro acre. Nas primeiras vezes chegava mesmo a dar-me vómitos, mas acabei por me conseguir habituar minimamente. Lá tentava continuar com a minha vida, fazendo um esforço para ignorar tudo isto, mas quando um dia ouvi nitidamente uma voz, não consegui mais. "Preciso de um favor teu", disse a voz. Calma, segura, perfeitamente nítida e vinda de lado nenhum. Apesar de já esperar não encontrar ninguém, olhei em volta como que suplicando uma explicação. Nada. O pavor instalou-se. A respiração parou. Os olhos esbugalharam-se. Os músculos contraíram-se e petrificaram. Só o coração teimava em contrariar o estado de latência do resto do corpo, debatendo-se violentamente contra o esterno como um lunático que se debate violentamente contra o colete de forças que o restringe. Lentamente consegui caminhar até um sítio onde me pude sentar e recuperar do susto.
Pensei que não podia continuar em negação sobre o que me estava a acontecer, isso não me iria ajudar a lidar com a situação. Mas fazer o quê? Ajuda para quê? Apesar de ter começado a aceitar a minha condição, não sabia o que podia fazer para a resolver. Nunca dei qualquer crédito a esoterismos, espiritismos ou exorcismos, e continuava a descartar a hipótese de que o fenómeno estaria relacionado com este tipo de crenças, mas depois de ouvir a voz mais algumas vezes, sempre depois de começar a ouvir os passos e sentir o odor, comecei a abrir-me a outras perspectivas.

Flash


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

1 texto e 1letra de musica

Gostava tanto que estivesses aqui.
Como eu gostava...

So, so you think you can tell Heaven from Hell blue skies from pain,
Can you tell a green field from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?
And did they get you to trade your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?
How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year,
Running over the same old ground.
What have you found?
The same old fears.
Wish you were here.

Pink Floyd
Wish you were here

Curtas

E quando ele lhe revelou o fim, ela pode finalmente mandar entrar os enfermeiros que traziam o colete de forças.

Soft Sh(c)ore

O pescador adorava sair com o seu barco e navegar ao sabor da maré.
Todos os dias, logo pela manhã bem cedo ia para a praia e partia para o mar sem hesitar.
O vento a bater – lhe na cara, o suave embalar das ondas, era tudo o que precisava.
Parava sempre de pensar quando estava no mar.
Num dia bravo e de grande tormenta, ditou a sorte do pescador, não pensou e foi para o mar.
Não se sabe ao certo o que se passou, os destroços do barco deram à costa mas o corpo nunca se encontrou.

Por lapso

Ontem quando puliquei a letra da música Pillow of your bones esqueci-me de mencionar o autor da dita.
Chris Cornell é o autor.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Curtas

Deixo-te sozinho e sento-me no meu canto.
Sinto a alma a enferrujar, quero fugir e não posso.
Vou lentamente derretendo, transformando-me num liquido que vai
escorrendo pelo chão da sala.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Curtas

E quando os olhos dela lhe falaram em francês, ele percebeu:
"Je t'aime beaucoup... pas du tout"

Diabetic

John: Oh, I see you're a diabetic.
Me: Yes...
John: I am too! (big smile)
Me: Cool... Wanna go make out or something?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Am I Inside

Loneliness it shadows me, quicker than darkness
Crawls to the surface of my skin, visibly surrounded by it
Black is all I feel, so this is how it feels to be free
Surrounded by empty souls, artificial courage used
And because so, once was mine
I walk this maze alone
Black is all I feel, so this is how it feels to be free
The man's beside himself, man's below himself
Man's behind himself, Am I inside myself
Chaos and hate shadow me, pain it fills me up
Only one thing makes me feel, missing better half of me
Black is all I feel, so this is how it feels to be free
The man's beside himself, man's below himself
Man's behind himself, Am I inside myself
Chaos and hate shadow me, hate it fills me up
Only one thing makes me feel, missing better half of me
Black is all I feel, so this is how it feels to be free
The man's beside himself, man's below himself
Man's behind himself, Am I inside myself


Alice In Chains

Fumicios

palerma

adj. e s. 2 gén.,
pessoa parva;
imbecil;
idiota;
tolo;
néscio.

Curtas

A miséria apodera-se da solidão
Assim como o faminto pelo pão
E nesta junção sem que haja perdão,
A miséria solta a sua escuridão

Garras de morte saindo da imensidão,
Conseguem destruir toda a razão.

Mente destruída, coração empobrecido
Território conhecido para a destruição.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quando estou só reconheço

Quando estou só reconheço

Se por momentos me esqueço

Que existo entre outros que são

Como eu sós, salvo que estão

Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou

Verdadeiramente só,

Sinto-me livre mas triste.

Vou livre para onde vou,

Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida

Devidamente entendida

É toda assim, toda assim.

Por isso passo por mim

Como por cousa esquecida.


Fernando Pessoa

Pop Up

Será que o que nos dá asco nos outros é o que vemos reflectido no espelho?

Monodiálogo #5

- Deixa-me sair daqui! Tens que me deixar sair!!

- Sair?? Sair de onde?

- Daqui, da tua cabeça!

- Da minha cabeça? Desculpa lá, mas se estás na minha cabeça é porque é onde deves estar. Não me parece que haja cá nada a mais.

- A sério, eu não sou de cá. Nem sequer sei como é que vim aqui parar.

- Realmente acho que nunca te tinha visto por aqui... Mas eu também não conheço toda a gente que cá mora.

- Acredita em mim, eu não pertenço aqui!

- Tens mesmo a certeza? Não queres pensar um bocado sobre o assunto? Eu sei que isto por aqui é um bocado estranho e desorganizado, às vezes parece que ninguém se entende cá dentro, mas eu acho que depois de te habituares até vais gostar.

- Não quero! Deixa-me ir embora, por favor!

- Pronto, está bem, vai.

- Obrigado... E... Como é que eu faço isso?

- Não sei, mas também não é um problema meu, pois não? Ó palhaço!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

As verdades dentro de mim

Uma mui querida amiga enviou-me hoje dois pequenos poemas (versões traduzidas) que, para também de vez em quando publicar alguma coisa de jeito, vou deixar aqui para a posteridade.

Novas Direcções – Doris Warshay

Quero viajar até onde puder,
Quero alcançar, da minha alma, o prazer,
E transformar as limitações que conhecer
E sentir-me, em mente e espírito, crescer;
Quero viver, existir, "ser", enfim,
E escutar as verdades dentro em mim.


Some day – James Kavanaugh

Um dia ir-me-ei embora
E serei livre
E deixarei aos estéreis
A sua estéril segurança.
Partirei sem endereço previsto
E atravessarei algumas regiões áridas
Para aí deixar o mundo.
Depois vaguearei, livre de preocupações
Como um Atlas desempregado.


Eternal Search of Balance

So many times i've been on the edge
Already have been there before
How many seasons shaded off the brightness
Of what i should've remembered most
The difference exists in fiction
Who knows where and when
Between the search of what is essential
And the point to where i am
Time is not equal
And i am bigger than everything that came before
So many words becoming alive
In an eternal search of balance
There's too much noise around here
And space tries to disjoint me
With two concepts for one single sound
Could you ever keep the best
Time is not equal
And i am bigger than everything that came before
So many words becoming alive
In an eternal search of balance
And there's so many words becoming alive
In an eternal search of balance

Blind Zero

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Interpretação

- Uma das coisas que me faz gostar de escrever é o facto de me permitir perceber as abissais variações de interpretação de um texto por diferentes pessoas que, na minha opinião na grande maioria dos casos, passa muito longe do que se passava na cabeça do autor quando o escreveu. Digo-te mais, até acho que muito poucos dos grandes filósofos, ou grandes pensadores, como lhes quisermos chamar, quando escreveram as suas obras mais emblemáticas, não estavam minimamente a pensar nas mirabolâncias que se ensinam sobre o que o autor queria realmente dizer ao escrever aquilo. Mas eu, ao contrário do Forrester, divirto-me quando verifico que interpretam um texto meu de uma forma completamente diferente do que eu estava a pensar quando o escrevi.

- Compreendo. Mesmo sem escrever, conseguimos ter noção disso ao ler o mesmo texto em diferentes momentos da nossa vida. O mais provável é percebermos uma mensagem diferente, normalmente associada ao que estamos a viver.

- É isso. Temos sempre a tendência de interpretar as coisas de forma pessoal, reflectir o que lemos naquilo que somos.

- Ou talvez o contrário, reflectir o que somos naquilo que lemos...

- Pois, ou isso... E depois há outras questões que me surgem em relação a isto...

- Como por exemplo?...

- Tipo... Será que comer uma africana pode ser considerado interpretar?...

Fumícios

parvoíce
s. f.,
acto ou dito de parvo;
qualidade ou estado de parvo;
demência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Butterflies in my belly

http://www.youtube.com/watch?v=Wv1HX80u5x4

Curta # 2

Desejos escondidos
Á espera de serem descobertos
Procura a carne
Morde o desejo
Sente o sabor da descoberta, que até então velada
Rompe das entranhas do teu ser
Entre carícias e dor
Desejo e lágrimas
Sente a dor do toque
Que electriza o teu corpo
E faz com que tudo se apague e ao mesmo tempo permaneça no eterno
Dos corpos e das vontades

Curta # 1

Entra pela porta, penetra na minha alma, devora o meu corpo, faz-me sentir viva.
Quando os olhos ensanguentados e duros me olharam com tanta paixão, eu soube que todo o sofrimento que tínhamos vivido se tinha dissipado na escuridão da noite.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aviso

Toda a gente está a olhar para o infinito, no entanto a pessoa continua a falar. Debita frases arrastadas que não fazem qualquer sentido para mim. Enquanto a sua voz caía para o plano de fundo da minha mente, tornando-se um mero murmurar imperceptível, perguntei-me quais seriam as suas motivações.
Voltei a mim. Instintivamente olhei nos seus olhos e estremeci. Era um aviso. Nítido! Os seus olhos avisavam-me de algo, mas de quê? Não tive a sensação que fosse necessariamente algo negativo, algum cataclismo, mas tive a certeza absoluta que algo grande iria acontecer. Estaria a pessoa consciente do aviso ou seria, pelo contrário, algo involuntário? As questões apareciam na minha mente como se o meu cérebro fosse um ilusionista a tirar cartas do éter. Quem era? Porquê? Quando? O que deveria eu fazer?
O que é que estás a tentar dizer-me? As palavras saíram-me dos lábios sem qualquer controlo da minha parte. A pessoa fez uma pausa, mas rapidamente continuou o seu devaneio com frases que nada me diziam. A sua voz voltou ao plano de fundo, mas desta vez mantive o meu olhar fixo no seu, como que perguntando silenciosamente aos seus olhos o que tinham de tão importante para me transmitir. Para mim o tempo tinha parado. O meu corpo imóvel não denunciava o turbilhão que fervilhava dentro de mim enquanto a minha mente procurava freneticamente uma resposta no fundo do seu olhar. Então percebi, tive a minha resposta, tão clara como a luz que projectava círculos no chão à minha volta como que vinda de um qualquer outro plano de existência. O que vi nos seus olhos não era mais que o reflexo dos meus.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Vampiros

- Avô, a mãe disse que os vampiros não existem...

- Foi?

- Sim. Disse que eram mito... qualquer coisa. Que era tudo inventado.

- Tens que perceber que há muitas coisas que a tua mãe não sabe, essa é uma delas. Os vampiros existem.

- Mesmo??

- Mesmo. Há criaturas pérfidas que se escondem nos cantos escuros. Esperam, esperam, até que alguém passa, fixa os seus olhos e fica perdido sob o seu controlo. Depois, alimentam-se sugando toda e qualquer emoção que a pessoa tenha e deixam-na uma mera casca vazia.

- Que medo, avô... Como é que nos podemos defender deles?

- Protege as tuas emoções, petiz, são o que tens de mais precioso! Constrói um muro à sua volta, o mais alto e resistente que conseguires!

- Vou tentar... E isso chega?

- Nunca há garantias. Há-os tão poderosos que basta um olhar para que o muro que construíste desabe por completo e fiques impotente e indefeso, à sua mercê!

- Então... O que posso fazer mais?

- Quando passares por um sítio escuro, se te parecer que viste um par de olhos brilhantes vidrados em ti, foge! Corre o mais depressa que conseguires e não olhes para trás!!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cosmocópula

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras


O corpo é praia
a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.


Natália Correia

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

And now...

Ladies and Gentlemans...

The Cure

"The Dragon Hunters Song"

http://www.youtube.com/watch?v=NzxSa4ZULBw

Apetecia-me mesmo...

ouvir esta hoje, mas não a tenho :(

ESBORRE

Chupa aqui,
Chupa aqui,
Chupa aqui,
Chupa aqui,

Chupa aqui no meu sorvete construtivista!

Esboorrr!
Esborrr!Esborrr!Esborrr!Esborrr!Esborr!

I was looking for a reason,
Just a reason to survive!
I was looking for a pretti lady


Pop Dell' Arte

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Alva


"Mil anos do mesmo sangue num passado sem fronteiras
O fumo das chaminés nas memórias das aldeias
...
E há tanto calor humano ao redor de uma fogueira
À lareira vinho tinto, requeijão, broa caseira"

(Paulo Bragança - Sou Galego)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Monodiálogo #4

- Ouve lá, tu não vês que estás a ser totalmente manipulado?

- Tu outra vez?... Tu não percebes nada. Nem parece que és de cá! Eu é que o estou a manipular de forma a que pense que me está a manipular a mim.

- Mas, o que é que te garante que és tu quem está a manipular?

- Porque sou eu que tenho consciência do quadro geral. Percebo perfeitamente o jogo que ele está a tentar fazer e estou a usar isso de forma a que seja eu a controlar a cena toda sem que ele perceba.

- Mas, como é que sabes que não é ele que te está a manipular de forma a que penses que és tu que o manipulas de forma a pensar que é ele que te manipula a ti?

- Cala-te, ó palhaço!!

Sem titulo 00

Será que uma mentira justifica outra mentira ?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Monodiálogo #3

- Porque é que passas tento tempo a olhar para o fogo? És capaz de estar aqui horas... só a olhar para o fogo.
- Tu por aqui? Não me parece que seja uma situação para tu apareceres.
- Não posso aparecer só para conversar um bocado?
- Está bem, mas não te habitues!
- E então? Porque é que achas que é?
- Sei lá! Sou pirómano. É como se estivesse a observar uma coisa viva, que sente, com... alma...
- Como as pessoas?
- Não, claro que não! O fogo é algo que, apesar de seguir determinados princípios e de ter um comportamento algo regular, tem sempre o potencial de te surpreender completamente e fazer algo totalmente inesperado. Tens uma ideia, mas nunca sabes ao certo o que esperar dele.
- Pois, como as pessoas.
- Eu já sabia que era um erro deixar-te sair quando não és preciso. Não, não é nada como as pessoas. O fogo é puro!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Hilarious

Foi um prazer, pessoal. Armenia, here I go! :)

Hello. Please do not be surprised this message is not spam mailing.
You probably will be very surprised that I write you a letter. But yesterday, I was surprised, too, when my e-mail address, came a letter, which said about love, about the feelings among people. The main motto of this letter was the phrase «Looking for love and you will be happy». I liked the letter. In the list of e-mail address, I saw your e-mail and decided to write to you. Perhaps you are looking for love? Maybe this letter - the fate? I do not know how the man who sent me the letter, hear my personal e-mail. But I think it is not important. The most important thing is that now I can write you a letter. You know, I want you to learn more. But first, I want to tell a little about me. My name is Sona. I'm from Armenia. I am 27 years old. I have never been married and have no children. I am pretty, quiet, kind and sociable girl. I would be interested to talk with you and know you closer. I compose their communication with the primary objective - creating serious relationships. Relations without deception, without any games. I want to find this man who can love and respect me. I hope that you just want to find their love? I believe in romantic relationships, appearance and age is not the most important thing. The most important thing is that people know how to love and respect on this! I have different hobbies and interests, among them - sports, cooking, reading, music. Of particular interest to me a matter of housekeeping, cleaning the house. I like to experiment in the kitchen. I love animals. I am leading a healthy lifestyle. I do not smoke nor drink alcohol. My new friend, can you tell me about you? I want you to learn more. The following letters, I will tell you about me, in more detail.

I give you my e-mail address:
shahbsona@gmail.com

Of course, I will send you a lot of my photos, of whom you know my life. In my photo showing all the moments of my life - joy, muse, and even in some sad moments. I eagerly await your response will be. I really want you to learn more. Please do not forget about me. Your new friend from Armenia, Sona.

2009

Faz-me alguma confusão esta cena toda dos votos de boas festas e felizes anos novos. De receber mensagens de pessoas com quem ainda não tinha trocado uma única palavra durante o ano. Suportado pelo argumento de não ser cristão, lá me safo de não desejar feliz natal a ninguém, mas para os votos de feliz ano novo, já não dá. Embora me pareça que esta história é toda para compensar o facto de termos passado o ano sem dizer às pessoas que gostamos delas, e não achando que alguém terá um ano pior por falta dos meus votos, vou alinhar, até porque eu gosto das pessoas. De algumas, pelo menos...

Tende um excelente 2009, pois sois todos altamente! :)

E quem não vier cá ler isto... Não vou ao ponto de dizer que não merece um bom 2009, mas... viesse.

Tinha decidido não ter resoluções de ano novo, mas esta manhã já arranjei algumas:
1 - Comprar um guarda-chuva. Dá bastante jeito para ter no carro;
2 - Não escrever mais posts realistas como este, só ficção.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Novidades

Josefiiiina!! Ainda bem que te encontro! Tenho novidades fresquinhas que até te vão eriçar os pelos da pássara, Josefina! Então, diz-se que a Carlota, a filha do homem do talho, que se conta que anda enrolado com a viúva que mora no prédio do lado, aquela que mora mesmo ao lado da Hortênsia, que, coitada, parece que finalmente percebeu que o filho é gay quando ele apareceu com um amigo africano enorme, vestido de tirolês, para dormir lá em casa, quem viu foi a Mariana, que coitada, também não pode falar muito, com os dois filhos na droga, até se diz que já se andam aí a vender em casas de banho públicas para pagar o vício, que deve ser coisa de família já que o que se fala por aí é que a irmã dela também ataca e até já ouvi que recebe deficientes em casa, família desgraçada, pior mesmo só a do Chico da mercearia, eu não vi nada, mas o que se diz é que anda a pôr os cornos à mulher com um velho gordo e peludo, que, coitada, passa os dias a embebedar-se com os outros velhos naquela tasca onde se conta que até se vende droga, até me disseram que uma noite a viram sair de lá agarrada a três marmanjos, todos a cair de bêbedos, não foi vista durante três dias e agora parece que só bebe de pé ao balcão, coitada, eu não sei é como é que ela paga a conta do vinho, quer dizer, saber até sei, até deve ser por isso que está a começar a ficar sem cabelo à frente, e nem vou entrar em pormenores sobre os filhos, coitados, entregues assim à avó, que fuma que nem uma besta do inferno e, desde que o marido se atirou da janela para não a ouvir mais, coitado, devia era tê-la atirado a ela, anda nua pela casa, coitados, vão ser de certeza uns traumatizados e andar por aí a pegar fogo aos próprios genitais e esventrar pequenos animais, está grávida e não sabe quem é o pai!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ritual

- Eu sabia, eu sabia! Porque é que eu vou na tua conversa?
- Calma, calma. Isto resolve-se.
- Tenho que te lembrar que foi esse tipo de atitude que nos pôs nesta situação? Se não fosse essa onda do "vai correr tudo bem" não estávamos agora aqui.
- Até podes ter razão, mas desesperar também não vai ajudar em nada.
- Não estou a desesperar. Estou apenas a descarregar a minha raiva. Onde é que eu estava com a cabeça para te deixar convencer-me a alinhar contigo nisto?
- Preciso de mencionar que fizeste tudo de livre vontade?
- De livre vontade porque tu me garantiste que não podia correr mal! Eu bem que perguntei se o ritual era seguro, se não havia a possibilidade de acontecer algo assim. E o que é que tu disseste? Que era tranquilo, que era tão simples que nada poderia correr mal.
- Pois...
- Pois! E eu, infantil, alinhei. Que besta que sou...
- Pronto, tens razão, o ritual não era assim tão seguro. Podemos ultrapassar essa fase e concentrar-nos em sair daqui?
- Por agora sim, mas não penses que o assunto vai ficar por aqui.
- Bom... Não vejo grande alternativa senão tentar o ritual outra vez...
- A minha vontade agora era desancar-te, não repetir o ritual, mas infelizmente tens razão. Não deve haver outra maneira.
- Vamos lá então?
- Dá-me uns momentos para me mentalizar. Senão, com a sede com que te estou, vai correr ainda pior de certeza.
- ...
- ...
- Então?
- Não estou mesmo com nenhuma inspiração para isto. Mas tem que ser, não é?
- Pois... Vá, põe-te lá na posição.
- Seja... Assim?
- Sim, não está mal, dobra só mais um bocadinho os joelhos... Isso, perfeito. Agora eu ponho-me aqui...
- Calma, calma, assim não vai dar!
- Dá, tens só que passar a perna para este lado.
- Isto vai correr mal outra vez...
- Cuidado, cuidado!
- Merda!!! Onde é que estamos agora?
- Realmente começo a achar que isto não foi das minhas melhores ideias...
- Achas? Não sei porquê?...
- Em vez de fazeres comentários sarcásticos, que tal colocares-te outra vez na posição para tentarmos de novo?
- Pois... Que remédio, não é? Mas eu ainda me vou vingar disto.
- Sim, sim, depois logo te vingas, mas por favor concentra-te agora.
- Vá, já estou em posição, despacha-te lá com isso.
- Pronto, já está, podes passar para a segunda posição. Calma, devagar...
- Vá, despacha-te mas é com isso!
- Não me pressiones! Agora ponho a perna aqui... Já está... Falta pouco, aguenta agora a posição um bocadinho... Pronto, já está!
- Parece tudo normal... Acho que resultou. Faz o favor de te afastares de mim e acho que o melhor é mesmo não falares comigo durante algum tempo.
- Mas...
- Mas??
- Mas, agora já temos alguma prática... Tenho a certeza que agora correria tudo bem...

This is hardcore - Pulp

For You ;)

http://br.youtube.com/watch?v=eoEFVVBdZRY

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Movimento perpétuo

Lá está o velhote. Esquelético e encurvado, sempre no mesmo banco do jardim. Horas esquecidas num movimento lento e repetitivo, aparentemente perpétuo, a atirar pedaços de pão para um chão onde nem um único pássaro pousa. Parte-me o coração, vê-lo ali, estoicamente, dia após dia, e nem um pássaro. Sento-me ao seu lado e fico alguns momentos em silêncio a desenhar mentalmente constelações com os inúmeros pedaços de pão abandonados pelo passeio. Se calhar migraram. Digo eu em jeito de piada, para quebrar o gelo. Quem? Pergunta o velhote sem alterar a sua postura nem o seu movimento eterno. Os pássaros. Respondo. Que pássaros? Pergunta o velho com um laivo de genuína surpresa na voz, continuando sempre na sua posição encurvada e sem nunca virar a cabeça na minha direcção. Pois. Digo eu, já com algumas dúvidas se teria sido boa ideia tentar falar com o velhote. Porque continua então a atirar o pão? Pergunto. Para os pássaros. Responde tranquilamente o velhote. Mas, não existem pássaros! Exclamei. O velho levanta a cabeça, roda-a na minha direcção e fita-me com os seus olhos completamente brancos. E eu existo? Perguntou-me enquanto me pegava na mão e a colocava sobre o seu peito onde não se sentia qualquer pulsar. Olho em frente, os pássaros juntam-se no passeio. Tiro um pedaço do pão que tenho na mão e, num movimento perpétuo, lanço-o às aves que se amontoam no chão à minha frente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Pesadelo 1/?

Acorda querido, já é tarde, disse uma doce voz. Só mais um bocadinho... AAARGH!!! Quem és tu? O que és tu??? O homem saltou da cama em terror. Ofegante, encostado à parede, tentou organizar os seus pensamentos. Tentou lembrar-se de uma explicação para, na sua cama, estar uma horrenda e aterrorizante criatura, mas não conseguiu. Não estava a ser fácil raciocinar com aquele ser estranho mesmo ali a olhar para si com os seus olhos de pupilas disformes, mas não achou que fosse isso que o estivesse a impedir de formular uma explicação. Era um pesadelo, só podia ser um pesadelo. Respirou fundo e tentou acalmar-se. Isto é um sonho, não é real, disse para si mesmo. O que é que não é real, perguntou a criatura. O homem limitou-se a fitá-la incrédulo. Questionou-se onde teria a sua mente ido buscar uma criatura tão medonha. Era como se tivessem envolvido com um enorme polvo, arroxeado e viscoso, o esqueleto de um chimpanzé mutante, com inúmeros braços e pernas. Naquilo que eventualmente se podia considerar a cabeça, havia apenas um par de enormes e estranhos olhos. A voz parecia sair de uma série de orifícios em redor da cabeça e a parte inferior do corpo estava ainda coberta com o lençol, pelo que poderiam ainda haver mais surpresas.

Querido, estás a assustar-me, disse a criatura. Estou a assustar-te? Estou a assustar-te??? Só podes estar a gozar comigo! Eu tenho é que acordar! Ao terminar a frase, o homem deu uma violenta palmada na sua própria face. Não percebo porque é que te estás a comportar assim. Apesar da aparência repelente, a voz da criatura era doce e melodiosa. Ao aperceber-se que a única alteração na situação que a palmada tinha conseguido era uma dor na bochecha e um apito no ouvido, o homem percebeu que não ganharia nada em manter-se em negação em relação ao que lhe estava a acontecer. Olha, desculpa lá, mas eu não sei o que me está a acontecer. Não sou de certeza quem tu pensas e não sei sequer onde estou. Enquanto proferia a última frase, o homem olhou em volta para pela primeira vez se aperceber da peculiaridade do local onde se encontrava. Era mais que óbvio que não era a sua casa, mas também não era nada que alguma vez tivesse já visto. A arquitectura parecia extra-terrestre, em todo o quarto não era visível uma única linha recta, todas as formas eram curvas e retorcidas. Acho que posso assumir que não pretendes fazer-me mal, continuou, mas eu preciso de saber o que se está a passar. Eu também gostava de saber o que se está a passar, disse a criatura num tom trinado, acordas, olhas para mim e parece que viste um bicho estranho, ao menos pensa nos meus sentimentos. Está a desviar a atenção para os seus sentimentos, para o seu problema, pensou o homem, posso pelo menos assumir que é uma fêmea. Mas eu nem me lembro de me ter deitado com uma fêmea, e mesmo que estivesse extremamente bêbedo, acho que nunca me deitaria com uma fêmea destas. Ela parece conhecer-me, mas isto não pode estar a acontecer, só posso estar a sonhar. Mas porque é que ela não tira aqueles olhos estranhos de mim? Olha, disse tremulamente o homem, eu percebo que isto também não seja fácil para ti, mas tens também que compreender que é um choque acordar na cama de alguém que não é humano. Humano? O que é isso? Perguntou a criatura. Eu sou um humano, um ser da espécie humana, respondeu o homem. Olha, eu não sei o que se passou durante a noite, mas o que estás a dizer não faz sentido nenhum. Nem percebo o que é que queres dizer com isso de humano. Aparentemente não te lembras, mas juraste-me amor e fidelidade eternos. A criatura continuou o seu discurso, mas a mente do homem acabou por divagar. Começou por ponderar a melhor forma de fugir daquela repulsiva criatura, que aparentemente tinha exigências para si. Pensou em fugir a correr do quarto, mas o facto de não saber o que poderia encontrar do outro lado fê-lo vacilar. Bem que as minhas irmãs me tinham dito que eras maluco, mas ou liguei? Não, claro que não, e casei contigo na mesma, para um dia me acontecer isto. A última frase dita pela criatura fê-lo desviar-se dos seus pensamentos. Desculpa lá, disse o homem dirigindo-se à criatura, mas não te parece estranho teres casado com um ser de outra espécie? Achas tudo isto normal? Tu ficaste mesmo demente, retorquiu a estranha criatura, que história é essa de seres de outra espécie? Ah, agora já não és da minha espécie, é isso? Tanto que me avisaram e apesar disso, aqui estou eu, a ouvir destas. Para o que eu haveria de estar guardada. Mas, continuou o homem, já olhaste para ti e já olhaste para mim? E tu já fizeste isso, perguntou a criatura. A frase atingiu o homem como um raio. De facto não tinha ainda olhado para si e a ideia de poder ver uma criatura igual à que estava à sua frente petrificou-o. Fitou as pupilas disformes da criatura durante alguns momentos com verdadeiro temor no rosto. Depois, muito lentamente levantou a mão. Mais lentamente ainda, baixou a cabeça para olhar para a sua mão e gelou ao ver um tentáculo. Não, não pode ser, disse em pânico, o que é que me fizeram? Só te peço que tenhas calma, disse a estranha criatura demonstrando algum temor, qualquer que seja o problema, nós havemos de o resolver. Qualquer que seja o problema, nós havemos de o resolver? Repetiu ironicamente o homem. Eu sou um ser humano, não sou esta coisa! Como é que propões resolver isso? Disparou o homem. Sinceramente não sei como vamos resolver isto, disse tristemente a criatura, o que eu sei é que quando nos deitámos éramos um casal e eu nunca tinha ouvido essa palavra que estás sempre a dizer. Agora estás a dizer-me que não és quem eu conheço e partilho a vida há tanto tempo, não podes querer que eu saiba o que fazer. A única coisa que posso fazer, e fiz, é dispor-me a ajudar-te a resolver o problema. As palavras da criatura quase comoveram o homem. Assumindo que o que dizia era verdade, não passava também de uma vítima desta história, que ainda tinha a esperança não passar de um terrível pesadelo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Writer's block

O macaco sentou-se na sua almofada e olhou lúgubre para o seu tratador e amigo, enquanto este tirava a maquilhagem com a ajuda das lágrimas que escorriam. É sempre desolador ver um palhaço a chorar, mas aquele não era um palhaço qualquer. Era a única pessoa que poderia considerar família. A única pessoa que realmente alguma vez se tinha preocupado consigo desmoronava-se à frente dos seus olhos e o macaco não fazia a mais pequena ideia do que fazer. Ainda com a cara meio esborratada, o palhaço fitou no espelho o reflexo do seu único amigo e esforçou um sorriso. Deixa lá, não te preocupes comigo, isto passa, disse. O macaco limitou-se a baixar a cabeça. Mais tarde ou mais cedo isto teria que acontecer, continuou o palhaço, além do mais já estou velho, algum dia teria que arrumar a peruca. O macaco voltou a levantar a cabeça, olhando o seu amigo com tal tristeza que não foi preciso abrir a boca para que soubesse como se sentia. Estamos ultrapassados, continuou o palhaço, sem saber muito bem se falava com o seu fiel amigo, se consigo próprio. O macaco respondeu com um guincho estridente. O quê, perguntou o palhaço, reinventarmo-nos? Não achas que estamos um bocado velhos para isso? Os miúdos agora não acham piada a trambolhões e tartes na cara. Agora, algo que não meta sangue e desmembramentos não tem piada nenhuma. O macaco emitiu uma série de ruídos enquanto esbracejava freneticamente. Eu também sinto isso, respondeu o palhaço, sei a minha idade mas também acho que ainda tenho muito para dar, sinto-me, no entanto, desenquadrado, antiquado. O macaco deu um único guincho enquanto estendia o dedo indicador na direcção do palhaço. Sim, já sei, reinventarmo-nos, retorquiu o palhaço, mas como? O macaco abriu os braços e soltou uma sequência de grunhidos. Tens razão, respondeu o palhaço, estamos na era da comunicação, quem não está na internet não existe. Hum... É isso... É isso!!! É isso que eles querem, não é? Então tê-lo-ão. Depois de proferir a última sílaba, o palhaço manteve um sorriso tão maquiavélico que fez o macaco estremecer...

Foi aqui que a coisa deixou de fluir, e quando a coisa não flui não há nada a fazer. Por isso, se alguém quiser, pode pegar a partir daqui. Até se pode fazer aquele jogo estúpido de quando éramos putos de cada um inventar uma parte da história, e tal :)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

1093

- Alípio, para mim chega, nunca mais vou esfregar o pernil de porco com aquela mistura de alho e ervas, com uma pitada de pimenta e paprika.

- O quê?

- O pernil, Alípio! O pernil!!!

- O que é que tem o pernil?

- Nunca mais terá o tempero a que sempre estiveste habituado.

- Não?! Mas... Sem alho e ervas e uma pitada de pimenta e paprika tudo é mais insípido... Porquê Genoveva, porquê???

- Porque estou farta Alípio. Porque nunca mereceste uma pitada que fosse da pimenta ou da paprika. Porque sempre tomaste o tempero como garantido sem nunca, nunca mostrares que tivesse qualquer tipo de importância para ti.

- Mas, mas...

- Acabou Alípio, o pernil não terá mais alho. Não terá mais ervas, nem pimenta, nem paprika. Muito menos terá o equilíbrio perfeito entre todos os ingredientes que eu conseguia só para ti.

- Ai é? Ai é? Então podes esquecer aquelas amêijoas à Alípio. Nunca mais lamberás os dedos a escorrer aquele molho fenomenal. Não, as amêijoas não terão mais coentros. Não terão mais a quantidade de jindungo perfeita para ti!

- Ó Alípio, já não fazes essas ameijoas há mais de dez anos...

- Então e tu? Quando é que foi a última vez que fizeste aquele empadão de arroz que eu venero? Quando é que foi a última vez que te deste ao trabalho de escolher a carne certa, de a desfiar em vez de a picar, de fazer o molho mesmo picante como eu gosto? Quando??? Acho que já nem me lembro do sabor.

- Porque não dás valor, Alípio. Porque enfardas tudo como um porco! Porque me fazes duvidar se vale a pena o esforço. Às vezes penso que mais valia dar-te feijoada todos os dias, e não era daquela que tanto gostas, em que desfaço uma farinheira no molho para ficar mesmo ao teu gosto, não. Era feijoada de lata, daquela cheia de couratos!!!

- Ai... Que já sinto aqui o olho a tremer... Então e tu? Dás valor a alguma coisa? Na minha última folga, chegaste a casa e tinhas o jantarinho feito. Um peixinho no forno inventado exclusivamente para ti. Eu sei que lhe chamei peixe MacGyver e não peixe Genoveva, mas foi só porque tive que trabalhar com o que tinha à mão. Mas foi criado para ti, cada ingrediente que colocava era contigo em mente. A cebola tinha a tua cara, o manjericão cheirava a ti. Cheguei até mesmo a pensar que um dos cournichons que espetei no peixe tinha a tua silhueta. Tudo, tudo a pensar em ti. E tu... tu chegaste a casa de trombas, emborcaste mais vinho que peixe e quando eu cheguei com o café, aquele café com o toque de canela que tu adoras, com a quantidade certa de açúcar, já estavas tu a dormir no sofá e eu tive que passar o resto do serão sozinho. Que valor deste tu ao manjericão? Ao pimento vermelho? Àquela colher de maizena que diluí no molho para que ficasse mais aveludado como tu gostas? Que valor? Diz-me!

- Sabes, esta conversa está mesmo a abrir-me o apetite...

- A mim também... Hum... Tirinhas de porco panado com molho agridoce, daquele que só eu sei fazer para ti...

- Uff, Alípio... Espetadinhas de lulas, daquelas que eu faço com extra pimento, e aquele molho de manteiga com piri-piri e salsa e limão...

- Oh, Genoveva...

- Oh, Alípio...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Monodiálogo #2

- Então, como é que vai isso?

- ...

- Porque é que estás com essa cara de espanto? Nunca tinhas conversado contigo próprio?

- Sim, muitas vezes... Mas isto é ridículo!

- Não sei porque há-de ser ridículo. É a mesma coisa.

- Não é bem a mesma coisa. Nos outros diálogos que tenho comigo, sou eu quem decide o que é dito. E não me parece que esteja a decidir o que tu dizes.

- Isso é porque eu não sou o teu consciente. Mas sou na mesma tu.

- És o meu subconsciente?

- Algo do género. Se quisermos ser mesmo específicos, sou aquilo que existe na tua mente entre o inconsciente e o subconsciente, mas um bocado mais para o lado do subconsciente. Ali mais para o lado do inconsciente mora o meu irmão, mas ele não gosta muito de aparecer.

- OK... Então e... O que te traz aqui?

- Venho alertar-te para a batalha que se avizinha.

- Batalha?

- Sim, uma batalha de cujo desfecho depende a tua liberdade de pensamento.

- Explica lá isso melhor...

- Até há pouco tempo viviamos cá todos em perfeita harmonia. Toda a gente fazia a sua parte e se dava bem. Mas o equilíbrio começou a desaparecer quando alguns de nós decidiram tentar assumir um controlo total. Acredita que não queres que consigam, não ias gostar daquilo em que te tornariam.

- Mas... Nós, quem?

- Nós, tu. Ou pensas que uma pessoa é algo uno, indivisível? Nada disso, tu és o produto resultante da conjugação das inúmeras entidades que constituem a tua mente.

- Isto parece-me mais um produto resultante de todas as drogas que consumi na década passada.

- Pensa o que quiseres. O importante é que fiques do nosso lado, que o teu consciente fique sempre do lado do pensamento livre e nunca te passes para o outro lado. Podemos contar contigo, soldado?

- Yessir!!! Defenderei o pensamento livre com toda a minha sanidade mental!

Requiem pela paixão

- É fodido, o destino. Chega a ser cruel, o filho da puta. Se um gajo é amorfo e só curte estar em casa a ver o futebol e a beber cerveja, tem uma gaja que se farta de queixar que ela não lhe liga nenhuma e que não a leva a fazer nada. Mas um gajo que curta viver mais intensamente tem sempre que se apaixonar por uma gaja apática e anti-social que não alinha em nada. Foda-se...

- Estás num daqueles dias, não é?

- É como se o amor fosse uma obra-prima de um grande artista, sublime. Só que em determinado momento alguém rouba a merda do quadro e deixa lá uma imitação. Para os observadores casuais é como se tudo estivesse igual, para quem passa e olha parece genuíno, mas um conhecedor percebe facilmente a diferença pelos pormenores. Distingue, às vezes nos detalhes mais insignificantes, que não é o traço do mestre, que só pode tratar-se de uma imitação. Neste ponto o conhecedor tem um leque de opções, em que a negação é uma das mais populares, para quê ir à procura do original se a imitação está tão bem feitinha?

- Diz-me lá uma merda. Ela não te fode a cabeça, pois não? Quando vamos beber copos e chegas tarde, ela não te fode a cabeça. Apesar de não querer sair, não te fode a cabeça se tu saíres, mesmo que só chegues no dia seguinte. Não é?

- É.

- Então? Porque é que estás tão fodido?

- Porque é mais que óbvio que isso não me chega, meu. Eu quero sentir aquela cena que nos faz vibrar, que nos faz andar estupidamente bem dispostos, num estado constante de euforia, como num rush de adrenalina permanente, que nos faz sentir que podemos podemos fazer qualquer coisa, que somos donos do mundo, que conseguiríamos desviar a órbita da Terra se isso fizesse a outra pessoa feliz!

- Meu... ... Cai na real...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Explorar o Inconsciente

A palavra do centro: este exercício utiliza pistas a partir de palavras contidas na mente consciente como forma de alcançar o material guardado no inconsciente. Escreva oito palavras no topo de uma folha de papel - podem ser quaisquer palavras, mas não devem formar uma frase. Em seguida, escreva outras oito palavras no fundo da página. Regresse ao topo e pense numa palavra que ligue de algum modo as duas primeiras palavras escritas no papel. Se essas palavras forem "árvore" e "lama", por exemplo, poderá escolher "raiz" como palavra de ligação. Passe para as duas palavras seguintes e continue a estabelecer ligações, trabalhando fila a fila, alternadamente, a partir do topo e do fundo da página. A certa altura, acabará por descobrir uma palavra situada ao centro (ver diagrama). Que significado tem para si essa palavra central ? Passe algum tempo a considerar essa palavra - será importante!


Fonte: http://www.di.ubi.pt/~paraujo/Curiosidades/ConscienteInconsciente.htm

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Vi-me

Hoje vi-me. Vi-me com o dobro da idade. Senti orgulho, mas também uma pontinha de comiseração. Nem sei bem o que pensar...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Anões de Circo ou Irreal Surreal

- Não, não, não! Errado!! Isso não faz qualquer sentido!
- Mas… Isto é ficção, tudo é possível…
- Claro que tudo é possível, desde que faça sentido.
- Então, mas não disseste nada sobre a parte em que o personagem desenha uma cara num saco de papel e depois tem um diálogo com ele. O saco responde-lhe e tu não reclamaste.
- Claro que não reclamei, isso faz sentido.
- Um saco de papel a falar faz sentido?
- Sim.
- Então porque é que a gravidade da Terra começar a aumentar e o pessoal começar a ficar todo atarracado não faz?
- Um diálogo com um objecto inanimado pode ser visto como uma introspecção, e mesmo que seja literal, embora não seja provável, quem sabe não é possível, em determinada circunstância, um saco de papel responder-te?
- Então e não será possível, embora muito pouco provável, que a gravidade da Terra aumente desenfreadamente?
- Não.
- Porquê?
- Bom, além da questão física de que para aumentar a gravidade teria que aumentar a massa e que essa matéria extra teria que vir de algum lado, que faz com que não faça qualquer sentido e que seja impossível, é estúpido.
- Estúpido? Isso é um termo técnico? Belo mentor que me saíste…
- Eu estou a fazer o que é suposto, estou a ensinar-te. E sim, é um termo técnico. Agora se não consegues perceber uma questão desta simplicidade, acho que vai ser um longo e tortuoso caminho.
- Pronto! Está bem, a gravidade da Terra não aumenta, ninguém fica pequeno, é o anão que começa a crescer de uma forma inexplicável. Que tal?
- Olha, estás a ver? Isso já faz sentido. E não é, de todo, absurdo.
- Uff…

O anão começou a aperceber-se que algo estava a acontecer quando, ao deitar-se, reparou que os seus pés tocavam no fundo da cama. No dia seguinte confirmou o que já calculava, tinha crescido mais de dez centímetros. Enquanto, radiante, se olhava ao espelho, não conseguiu evitar um pulo de alegria…

- Ahem, ahem…
- O que foi agora?!
- Eu não sei se isto vai resultar… Por acaso ocorreu-te que se um anão adulto reparasse que estava a crescer, o mais provável seria ficar preocupado? Ainda por cima o teu anão trabalha num circo, o seu emprego depende de ser anão. Fará sentido que ele fique radiante por estar a crescer? Além do mais, toda a gente sabe que os anões têm uma enorme dificuldade em saltar.
- Argh! Isto é ficção, é suposto ser surreal. O meu anão pode muito bem ficar contente e até mesmo saltar como uma gazela!
- Surreal não é o mesmo que irreal. E ainda há o facto de ser estúpido.
- Acho que tens razão no facto de isto se calhar não vir a resultar…

Enquanto, preocupado, se olhava ao espelho, ponderou sobre como a sua vida se alteraria se crescesse até uma altura normal. Ficou apreensivo por achar que as alterações não seriam positivas.
No circo, o contorcionista sem pernas…

- Porque é que estás a assobiar assim?
- Por acaso imaginaste o que estás a escrever?
- Mais ou menos.
- Pois, mais ou menos não chega. O que tu queres não é que quem ler consiga visualizar a cena?
- Sim… acho que sim…
- Então como é que achas que isso vai resultar se nem tu a imaginaste?
- Cada um que imagine à sua maneira.
- Está bem, isso não é necessariamente errado, mas imagina lá um contorcionista sem pernas.
- Estou a imaginar. O que é que tem?
- Não te parece um bocado estúpido? Um gajo sem pernas a fazer contorcionismo. O que é que ele tem para contorcer?
- Pode ser um bocadinho de humor inglês.
- Não te metas nisso, pá. Ainda nem rastejar sabes e já queres correr? Escreve lá a tua historieta e deixa-te de tentar ter piada.
- Sim, mestre.

No circo, o contorcionista sem braços reparou que o anão não estava bem. Então Zé, estás cá com uma cara. O que é que se passa? Perguntou o contorcionista. Nem sei bem o que se passa, só sei que nos últimos dias cresci mais de dez centímetros. Respondeu o anão. O contorcionista abriu muito os olhos. A sério? Não te esqueças que, aconteça o que acontecer, tu vais ser sempre tu, independentemente da altura que tenhas, ok? Não queremos cá crises de identidade. E já sabes, desde que não seja para um abraço ou para uma palmada nas costas, podes contar comigo.

- Muito bem, gostei. Focar a questão da identidade. Faz sentido. E um bocadinho de humor português também não ficou mal, não senhor. Verei uma luz no fundo do túnel?
- Importas-te?
- Desculpa.

Obrigado Rogério, és um bom amigo. Dá cá mais cinco!

- Não abuses!

- ...

Os dois riram com gosto. Era o que o anão realmente precisava, de uma boa gargalhada. Sabes Rogério, esta é uma das coisas que mais gosto em ti, a capacidade de te divertires com os teus problemas. Quando conseguimos fazer isso é como se deixassem de ser problemas. Disse o anão. Quais problemas? Respondeu o contorcionista com um sorriso gozador. Imagina lá, por exemplo, eu dizer ao Flávio qualquer coisa como “Então Flávio, estás fino?”. Riram durante mais alguns minutos. Estou a ver onde queres chegar. Pois, contigo sei que posso estar à vontade, sem ter que estar com atenção ao que digo. Se a minha cara não ficasse à altura dos teus genitais, até te dava um abraço! Mais algumas gargalhadas depois, chegou a hora de pegar ao trabalho e cada um foi para o seu sítio.

- Nada mau, nada mau. As piadas já estão a ficar um bocadinho forçadas, mas não está nada mau. Se calhar é dos uísques que já bebi, mas até está com graça. Então e o que é que vai acontecer agora? Como é que vais transformar a ideia de pôr o anão a crescer num enredo, numa mensagem?
- Não faço a menor ideia. Isto não é nada do que eu tinha pensado inicialmente.
- Ainda bem! Lição número um, a nossa criatividade não está no consciente mas sim no subconsciente. Quando pensamos muito na história e nos esforçamos para que seja complexa e profunda, o mais provável é sair algo frio e artificial. O melhor é começar simplesmente a escrever sem pensar muito nisso e é aí que as coisas saem realmente profundas. Tens que deixar que seja o subconsciente a decidir o rumo das coisas.
- Ok, vamos lá ver…

Quando o anão acordou, assustado, verificou que para caber na cama estava praticamente em posição fetal. Horrorizado, saiu da cama para constatar que durante a noite o fenómeno se tinha agravado. Estava praticamente com o dobro da altura!

- Pronto, já estamos a descambar outra vez para a estupidez…
- Olha, sabes que mais?
- Que mais?

O anão foi crescendo, crescendo. Quando atingiu um metro e setenta arranjou emprego num banco. The end.

- Até amanhã.
- Até amanhã.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Há sempre alguém

Dos ensaios em casa do Bigodes, naquele prédio inacabado que foi ocupado por famílias pobres como a dele; da minha velha guitarra rosa choque, sempre a desafinar, e que agora está para lá num canto, coitada, como um testemunho silencioso daqueles tempos tão barulhentos; da pinta das poses de palco, em que o guitarrista tinha que tocar com a guitarra o mais abaixo possível e o baixista o mais acima possível; das excursões matinais de Sábado, a pé até à escola de música onde o Celestino nos aturava com infindável paciência; até da péssima ideia de ensaiar na Sociedade Recreativa Cabo-Verdiana, com as janelas pejadas de pequenos africanos, já que os grandes estavam todos lá dentro a assistir e que, muito curiosamente, foi a única vez que um solo de improviso me saiu realmente bem, só que a confusão ao fim, em que até porrada houve, nos fez desistir, mas graças a isso fiquei sempre tido como um virtuoso naquela comunidade; do nosso primeiro e último concerto na garagem do Chouriço, em que o povo cantou tão alto que nem sequer se conseguia perceber quão mal tocávamos e que foi, portanto, um sucesso; da Minhoquinha; da Morte; do Salvador Dali... Ah, saudade...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Magia 1/4

E agora, senhoras e senhores, para o meu próximo número vou precisar de um preservativo e de um voluntário. Por razões diversas, os olhos de toda a gente na plateia ficararam esbugalhados. Calma, ha ha, estava a brincar em relação ao preservativo, vou precisar só de um voluntário, ou quem sabe até uma voluntária. Porque não, por exemplo... a menina! Aquela menina tão engraçada de óculos, você, de camisola côr-de-rosa e gancho no cabelo. Sim, você, não se acanhe, suba para o palco, e também não precisa de ter medo, estará segura nas minhas mãos, disse o velho ilusionista com o seu melhor sorriso.

Hesitante e pouco à vontade, Maria subiu os três degraus já gastos que facilitavam o acesso ao palco. Uma salva de palmas para a nossa corajosa voluntária, senhoras e senhores, continuou o prestidigitador enquanto encaminhava Maria para dentro do baú recentemente trazido pela sua assistente. Assim que fecha a tampa do baú com Maria lá dentro, num ápice, pega numa enorme espada e trespassa-o. O público estremeceu, não de assombro pelo acto, já que toda a gente da plateia tinha já visto centenas de truques destes, mas apenas pela brusquidão. O prestidigitador continuou frenético e ao fim de menos de meio minuto já o baú estava cravejado com perto de uma dezena de espadas. O público respondeu ao abrir de braços do prestidigitador com um pouco efusivo aplauso, que este retribuíu com uma vénia excessivamente teatral. Com um gesto, o artista pediu silêncio, o público acatou, entra o rufar da tarola enquanto o prestidigitador começa a retirar as espadas e termina com um toque de pratos no momento em que o velho artista abre o baú e um bando de pombas sai a esvoaçar. O público irrompe em aplauso, muito provavelmente mais pela simpatia e pela carismática figura do velho ilusionista do que pela espectacularidade do número.

Peço desculpa, senhoras e senhores, começou o prestidigitador, mas isto não correu bem como era esperado. Estava a contar ver sair do baú a nossa voluntária, mas isso não aconteceu. Peço alguns momentos de silêncio para tentar recuperá-la, senão poderá ficar para sempre perdida no limbo. A maioria das pessoas do público entrou na brincadeira e fingiu preocupação. O ilusionista voltou a fechar o baú, recitou uma ladaínha numa língua que aparentava ser latim, voltou a abri-lo e, ao som daquele pequeno excerto musical, vulgarmente conhecido como tcha-ran, eis que sai Maria do baú, algo envergonhada, entre balões e serpentinas. Foi a apoteose do espectáculo! Os falsamente expectantes espectadores, paternalistas, aplaudiram sonoramente de pé. O velho artista desfez-se em vénias e por fim apresentou a sua assistente - certamente a sua mulher que, embora provavelmente já não lhe ficasse tão bem como antes, ainda era bem capaz de estar a usar o mesmo fato de lantejoulas de quando tinha iniciado a sua carreira, vinte ou trinta anos antes - para que tivesse também o seu momento de protagonismo sob os focos do palco. Em conclusão, o artista agradeceu a presença dos espectadores e convidou-os a voltar. Estes calmamente começaram a abandonar o velho teatro enquanto o ilusionista guiava Maria pela mão até às escadas que a permitiam descer do palco. Muito obrigado pela sua participação, disse, e deixe-me que lhe diga que eu não acredito que seja o acaso que leva ao meu palco os voluntários para os meus números. Acho que as pessoas acabam a participar nos meus truques por uma razão, uma razão superior, continuou, devo também avisá-la que é possível que haja efeitos secundários, mas não se preocupe, não correrá qualquer risco, concluiu o ilusionista com o seu simpático e permanente sorriso. Maria franziu a sobrancelha ao ouvir as palavras do velhote, mas rapidamente se tranquilizou pensando que aquilo ainda faria parte do número, para manter a ilusão e a fantasia. Despediu-se cordialmente do simpático prestidigitador e dirigiu-se para a porta onde Joaquim já a esperava.

Aquilo não enganou ninguém, até uma criança percebe que o baú tem um fundo falso e que aquilo se faz com os alçapões que há no palco, disse Joaquim enquanto caminhavam até ao carro. Era de facto verdade. Era também verdade que os truques já estavam bastante vistos e ultrapassados. O espectáculo não deixava de ser divertido, mas em termos de ilusionismo já não conseguia competir com os novos talentos, que tinham a tecnologia do seu lado e conseguiam deixar o público estupefacto. Sim, respondeu distraidamente Maria, não tem grande truque. Assim que ele fechou a tampa do baú, alguém me tirou de lá por um alçapão e fiquei debaixo do palco até ser altura de voltar para o baú. No entanto... Foi estranho. Estranho como? Não sei bem explicar, mas parecia que, apesar de tudo, havia ali magia. Magia? Repetiu Joaquim colocando o seu sorriso jocoso que ela tanto odiava. Nem sei porque me dou ao trabalho de falar contigo sobre estas sensações estranhas que tenho. Pronto, não fiques chateada, sabes que me custa compreender essas coisas. A mim também. Achas que compreendo? É um feeling... Mas não quero falar mais sobre isso.

Ninguém proferiu mais nenhuma palavra e estavam já a meio caminho de casa quando Maria avista ao longe, à beira da estrada, o que lhe parece ser um grupo de anões. A estupefacção foi total quando, ao aproximar-se, verificou que eram sete, todos tinham barretes vermelhos e transportavam pás e picaretas. Joaquim reparou na sua boca aberta de espanto e perguntou o que se passava. Maria respondeu que nada se passava, sabia perfeitamente que se lhe dissesse que tinha visto sete anões à beira da estrada, a única coisa que conseguiria era ser gozada durante vários dias.

O resto da viagem decorreu em absoluto silêncio. Normalmente incomodava-a a capacidade de Joaquim para suportar o silêncio, mas não desta vez.

Chegados a casa, Maria apercebe-se de um enorme vulto sobre o telhado, se não soubesse que não existiam, teria achado ser um dragão. Depois de, incrédula, esfregar os olhos, viu o vulto levantar vôo com um par de asas semelhantes às dos morcegos, mas que achou serem demasiado pequenas para permitirem um animal daquele porte voar. Ainda com a perplexidade espelhada na cara, desta vez conseguiu coragem para perguntar a Joaquim se tinha visto alguma coisa. Este, com um ar intrigado, respondeu que não.

Assim que entraram em casa, Maria deixou-se instintivamente cair sobre o sofá. Pensou no ilusionista e no que este lhe tinha dito e achou que estava a ser vítima de sugestão. O ambiente do espectáculo e o que o velho artista lhe tinha dito, associados à sua susceptibilidade e alguma fadiga estavam a fazer a sua mente pregar-lhe partidas. Era isso, de certeza!

Percebendo a sua apatia, Joaquim voltou a perguntar o que se passava, se se sentia bem. Maria desculpou-se com o cansaço, disse que depois de um banho relaxante e de uma noite bem dormida estaria recuperada. Despediu-se e subiu a escada de madeira que dava acesso ao primeiro andar e começou a preparar o seu banho.

Estava tranquilamente deitada na banheira quando a sua visão periférica detectou movimento. Quando olhou nessa direcção teve apenas tempo para ver uma cauda de aspecto réptil desaparecer por debaixo do armário das toalhas. Involuntáriamente soltou um grito que alertou Joaquim. Num ápice, Joaquim irrompe pela casa-de-banho. Está ali um bicho enorme, disse Maria quase em estado de choque, atrás do armário. Joaquim olhou-a incrédulo, mas vendo a sua expressão, sem proferir qualquer palavra, dirigiu-se ao armário. Assim que o afastou, Maria teve que usar toda a sua força para conseguir manter a compostura. Estava uma porta atrás do armário! Uma pequena porta! Pela ausência de reação, facilmente se apercebeu que Joaquim não a via e não hesitou na decisão de não dizer nada. Não vejo bicho nenhum, disse ele desinteressadamente, deves tê-lo imaginado. Maria já não sabia o que dizer e acabou por responder afirmativamente para fechar o assunto.

Deitou-se e tentou descontrair, tarefa que foi dificultada pelas pequenas criaturas brilhantes que esvoaçavam pelo quarto e completamente impossibilitada pela visão de uma enorme aranha a subir pela parede. Puxou os cobertores para que lhe cobrissem completamente a cabeça e voltou a pensar no velho ilusionista e no que este lhe tinha dito. Achou que as visões teriam que estar relacionadas com ele, talvez a tivesse hipnotizado. Lembrou-se então que ele lhe tinha dito para não se preocupar pois não corria qualquer risco. Esta memória conseguiu tranquilizá-la um pouco, mas só conseguiu dormir quando Joaquim foi para a cama.

Magia 2/4

Assim que abriu os olhos, sem qualquer controle da sua parte, lembrou-se da pequena porta por detrás do armário da casa-de-banho. O silêncio dizia-lhe que Joaquim tinha já saído. Algo hesitante, pé ante pé, dirigiu-se para a casa de banho e parou a olhar desconfiadamente para o armário enquanto mordiscava nervosamente a unha do dedo médio da mão direita. Cautelosamente aproximou-se e tentou espreitar por trás do armário mas não conseguia ver nada. Encheu-se de coragem e afastou finalmente o armário da parede e o seu coração disparou ao ver a porta. Simples, de madeira visivelmente envelhecida, apenas com um orifício a servir de puxador e tão pequena que mesmo de gatas teria alguma dificuldade em passar. Tentou acalmar-se recordando o velho ilusionista. Pensou que se estivesse mesmo sob alguma forma de hipnose, a porta seria apenas uma alucinação, que se a tentasse abrir deparar-se-ia com uma parede. Aproximou-se devagar e depois de, sem sucesso, ter tentado vislumbrar algo através do orifício, aproximou o dedo, confiante que constataria que tudo não passava de uma ilusão e que o dedo embateria na parede. Quando o dedo atravessou o buraco, um formigueiro subiu-lhe pela coluna vertebral e com um movimento brusco retirou a mão. Começava a duvidar dos seus sentidos, sabia perfeitamente que nunca tinha ali existido nada e no entanto lá estava a porta. Ponderou alguns minutos depois do que, resoluta, empurrou a porta com força e deu um passo atrás. A luz do outro lado era muito ténue e não permitia distinguir muito, mas aparentava ser uma gruta. Não correrá qualquer risco, não correrá qualquer risco, repetiu mentalmente as palavras do prestidigitador enquanto se espremia através da pequena porta.

O medo começou a ceder à beleza do local. Estava numa enorme galeria do que parecia ser uma gruta, o tecto era altíssimo, no entanto, as formações rochosas não se assemelhavam a nada que tivesse já visto em qualquer outro sítio. As estalagtites e estalagmites tinham formas retorcidas e cresciam em todas as direcções, as poças e pequenos lagos no chão formavam padrões intrincados e a luz ambiente, da qual não conseguia perceber a origem, apresentava suaves variações de côr. É impossível este sítio existir, disse alto e a sua voz ecoou pelo espaço reverberando estranhamente nas paredes. Estava tão maravilhada com o local que já não se preocupava minimamente se era real ou não.

Curiosa e decidida a explorar as redondezas, atravessou a galeria e seguiu por um túnel que a conduziu a outra galeria mais pequena onde um lago de água borbulhante libertava um exótico e agradável aroma. Ouvia ao longe sons de animais, alguns que julgou serem de morcegos, mas havia outros que não conseguia identificar com nenhum animal que conhecesse. Seguiu por túneis e galerias, tentando memorizar o caminho para o regresso e acabou por chegar a um espaço onde, como se estivesse fundido com a própria rocha, vislumbrou um muro que não podia ser natural. Uma parede de blocos de pedra geométricos e ordenados que pareciam nascer da base rochosa. Aproximou-se cautelosamente mas gelou ao ouvir ruído por trás de si. Virou-se e quase desmaiou ao deparar-se com uma gigantesca criatura, algo como um ogre saído de uma qualquer história fantástica, que bramia um pau aproximadamente do tamanho de Maria. Sem sítio por onde escapar, ao ver a criatura elevar o pau acima da cabeça, Maria pensou que os seus dias terminariam ali, mas, como que caído do céu, ou neste caso do tecto, eis que com um sonoro relinchar aparece um imponente cavaleiro, de cavalo branco e armadura resplandecente, empunhando uma enorme espada. Vai-te, vil criatura, não te atrevas a importunar essa doce donzela, disse o cavaleiro. Maria, apesar do pânico, conseguiu ainda ruborizar nas maçãs do rosto e esboçar meio sorriso. A criatura hesitou, mas rapidamente decidiu que a parca refeição que Maria proporcionaria não valia o risco e acabou por se retirar, desajeitado, a correr. O cavaleiro desmontou e, colocando um joelho no chão, a espada à sua frente com a ponta também no chão e as mãos sobre a extremidade do punho, apresentou-se com reverência. Obrigado por me ter dado a honra de a defender, melíflua donzela, disse. Maria corou integralmente e lá conseguiu dizer, sem gaguejar muito, que ela é que devia estar agradecida. Permita-me que a transporte para a segurança, continuou o cavaleiro, esta masmorra não é um lugar adequado para uma dama, principalmente uma tão bela e formosa. Se é que tal era possível, Maria ficou ainda mais vermelha, mas instintivamente entrou na onda. Fico-lhe eternamente grata, gentil senhor, foi verdadeiramente uma sorte ter aparecido tão nobre e bravo guerreiro para me salvar das garras daquele monstro infame. Não é mais que o meu dever, bela senhora, com a sua permissão, disse ainda o cavaleiro enquanto, sem qualquer esforço, pegava em Maria pela cintura e a colocava sobre o dorso do cavalo. Montou depois por detrás dela e com um quase imperceptível toque dos seus calcanhares, o cavalo seguiu a passo até à pequena porta.

Está entregue, bela senhora, atravesse e estará em segurança, disse o cavaleiro quebrando o silêncio. Desmontou, e com extrema suavidade retirou Maria do cavalo e colocou-a no chão. Probo senhor, como poderei agradecer tal obséquio, perguntou Maria que, sem medo e sem questionar a realidade dos acontecimentos, conseguia já estar a divertir-se com a situação. O cumprimento do meu dever de proteger os inocentes é agradecimento mais que suficiente, doce donzela. Com a sua licença, continuou enquanto voltava a montar o seu imponente corcel, retiro-me em busca dos fracos e dos oprimidos. Mais uma vez obrigada, espero que os nossos caminhos se voltem a cruzar, disse ainda Maria enquanto se acercava da pequena porta. Nada é impossível, respondeu o cavaleiro ao mesmo tempo que dava meia volta. Depois desapareceu para dentro da gruta e Maria espremeu-se de volta através da pequena porta.

Magia 3/4

Estás particularmente bem-disposta hoje, disse Joaquim ao jantar, enquanto se servia. É verdade, retorquiu Maria, não sei bem porquê, mas sim, estou. Tenho pena, mas hoje não vou poder usufruir da tua boa-disposição, combinei ir ver o jogo com o pessoal. Tudo bem, não faz mal, eu não me importo de estar bem-disposta sozinha, disse Maria com um sorriso tão genuíno que fez Joaquim franzir uma sobrancelha. Passa-se alguma coisa, perguntou. Não, nadinha, respondeu Maria tentando controlar o contentamento por ter a possibilidade de fazer outra incursão pela pequena porta.

Poucos minutos depois de Joaquim sair, já Maria olhava ansiosa para a pequena porta. Não demorou mais que alguns instantes a, decidida, irromper porta adentro para descobrir que, ao contrário do que esperava, não estava na gruta onde tinha saído antes mas no que parecia ser um bosque. Olhou para trás e viu que a porta estava no tronco de uma grande árvore.

Também vieste para o baile, perguntou uma vozinha. Maria, intrigada, olhou à volta sem ver ninguém. Aqui em baixo. Maria olhou para baixo e abriu um enorme sorriso ao reparar num pequeno ouriço-cacheiro. Olá, eu sou a Maria, disse divertida. Que baile é esse, perguntou. Peço desculpa pela indelicadeza de não me ter apresentado, Osvaldo Riço, ao dispor. Muito prazer, respondeu Maria sem conseguir tirar da cara o sorriso incrédulo. Não vieste para o baile, perguntou o ouriço Osvaldo. Não, por acaso vinha só para passear, mas que baile é esse, não fui convidada, respondeu Maria tentando dar alguma tristeza às palavras. Que baile é esse, repetiu o ouriço atónito, que baile haveria de ser, o baile no bosque, naturalmente, e ninguém precisa de convite para o baile no bosque. Que bom, então adorava ir também. Calha bem porque já estamos atrasados, mas, se me deres boleia, com umas pernas desse tamanho de certeza que chegamos lá num instante. Vamos lá então, disse Maria enquanto, com muito cuidado, pegava no ouriço Osvaldo e seguia caminho. Pouco tempo depois, seguindo as indicações do ouriço, a música que começaram a ouvir disse-lhes que estavam perto.

Ao chegar à clareira onde estava a decorrer o baile os olhos de Maria arregalaram-se de um misto de estupefacção e euforia. Dezenas de animais dançavam alegremente ao maravilhoso som de uma banda de elfos e sátiros. Ficou literalmente paralisada de queixo caído a olhar para a fenomenal cena, que podia muito bem ter nascido da imaginação de La Fontaine.

Caros amigos, disse Osvaldo ao acercar-se do magote, temos hoje o raro privilégio da companhia de um humano adulto, peço-vos que a façam sentir acolhida, já deu para reparar que ela já não está habituada a estes bailes. Esta é a Maria, concluiu. Olá Maria, cumprimentaram em coro os animais. Olá a todos, retribuiu Maria, obrigado por me receberem neste vosso divertido baile. Vem, dança connosco, disse um urso estendendo-lhe a pata. Maria esticou a mão e num ápice deu por si numa roda, dançando alegremente com a miríade de animais que se divertia no baile. Muitas voltas depois, cansada, Maria saiu da roda e sentou-se encostada a uma árvore.

Então, estás a gostar? Maria virou a cabeça na direcção da voz. Uma enorme iguana descansava ao seu lado. Estou simplesmente a adorar, respondeu excitada Maria. Maria, não é? Sim. Chamo-me Isabel, e apesar de não ser muito de danças, não perco um baile no bosque, gosto da oportunidade de conversar com outros animais. Muito prazer, Isabel, deixa-me adivinhar, o teu apelido é Guana, certo? A iguana Isabel olhou-a espantada. Como é que sabes, perguntou desconfiada. Foi um palpite sortudo, respondeu alegremente Maria. Eu também estou a gostar muito de poder conhecer animais tão interessantes, continuou, desviando o assunto, está a ser um verdadeiro deleite. Sabes, é pena, mas não costumamos ter muitas visitas de humanos adultos, só as crianças é que normalmente cá vêm. Pois, é pena, mas tenho a certeza que muitos adorariam vir, só que não devem saber o caminho. Pois, eu já tinha ouvido dizer que os humanos têm uma péssima memória.

Apercebendo-se que tinha já perdido a noção do tempo que tinha passado, pediu licença à iguana Isabel e levantou-se. Muito obrigado caros amigos, disse dirigindo-se aos outros, foi verdadeiramente fantástico mas tenho que ir. Adeus Maria, até à próxima, responderam os animais em coro. Prometo que vou voltar, disse ainda Maria enquanto iniciava a curta caminhada de volta à grande árvore, onde atravessou a pequena porta de regresso.

Assim que acabou de voltar a encostar o armário à parede ouviu Joaquim a entrar. Mesmo a tempo, disse alegre para si própria. Maria, chamou Joaquim ao entrar em casa. Aqui, respondeu ela descendo as escadas, ainda com resquícios de estupefacção no rosto. O que se passa, porquê essa cara, perguntou ele. Maria teve uma enorme vontade de partilhar com Joaquim as suas experiências recentes, mas sabia que, não vendo nada do que ela via, nunca iria acreditar, mais, iria certamente pensar que não estaria boa da cabeça. Não se passa nada, está tudo bem. Joaquim não acreditou, mas não insistiu.

Magia 4/4

Quando os primeiros raios de luz solar investiram quarto adentro, Maria recuperou rapidamente a consciência e com ela veio a expectativa sobre o que a esperaria naquele dia, do outro lado da pequena porta. Olhou para o lado, Joaquim ainda dormia profundamente. Deve ser ainda muito cedo, pensou, posso ir dar uma espreitadela antes de ele acordar. Levantou-se cuidadosamente para não acordar Joaquim e foi directa à casa de banho.

A desilusão foi avassaladora quando afasta o armário e a porta não estava lá. Ficou ainda alguns minutos estática a olhar para a parede nua sem saber muito bem o que fazer. Aquela era a sua porta, a sua escapatória dos problemas do mundo real, precisava dela, porque é que já não estava lá, ponderou. Não se conformava com a situação, queria poder continuar a visitar aquele mundo paralelo, já lhe custava até imaginar a sua vida sem ele, seria monótona e difícil. Só havia uma coisa que poderia fazer, procurar o velho prestidigitador.

Descobriu onde e quando era o próximo espectáculo e compareceu. Esperou ansiosa, na última fila, pelo fim da apresentação em que o prestidigitador, como sempre, conseguia facilmente a simpatia do público através do seu carisma natural. Esta simpatia era amplificada pela incontornável evidência de que, quando estava no palco, cada gesto seu estava carregado de amor pelo que fazia, pela sua arte.

Quando, depois do inevitável aplauso de pé, os espectadores começaram a sair, Maria dirigiu-se ao artista. Lembra-se de mim, perguntou hesitante ao velho ilusionista. Claro que sim, minha cara, apesar da minha idade, nunca me esqueci de ninguém que tenha participado num dos meus números, respondeu, o que posso fazer por si? Num tom de quase súplica, Maria contou ao velho artista tudo o que tinha acontecido desde a última vez que o tinha visto, que ouviu tudo sem demonstrar qualquer surpresa. Por fim contou-lhe do desaparecimento da pequena porta e implorou-lhe que a fizesse voltar a aparecer. Com um sorriso paternalista, o velho ilusionista demorou alguns momentos a responder. Minha querida, a porta continua a existir, disse. E continua no mesmo sítio de sempre, aqui, prosseguiu o velho prestidigitador dando duas suaves pancadas no centro da testa de Maria com o dedo indicador, tens apenas que aprender a abri-la sem a minha ajuda.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Música

- Eh, olha lá ali o cromo.

- Escuta. Estás a ouvir? É maravilhoso.

- Não ouço nada, estava era a ver ali aquele marado descalço a tocar piano invisível.

- Fenomenal! Nunca tinha ouvido música tão sublime.

- Estás a gozar? Que música?

- O piano. Não ouves?

- Não, claro que não. E tu também não ouves nada e estás só a gozar com a minha cara.

- O teu problema é estares a tentar usar os ouvidos quando a música se ouve com o coração.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Coração Sertanejo

Não! Você não vai me destruí! Vociferou Anísia enquanto as lágrimas lhe escorriam copiosamente. Januário encolheu os ombros. Estava já habituado às cenas que as mulheres, que tinha ao longo do percurso que fazia com a sua manada, faziam. Eu lhe amo, sua boba. Mentiu. Me deixe seu cafageste, volta para suas vaca, vai. Januário virou calmamente as costas, montou o seu cavalo e partiu. Vida de boieiro sertanejo é fogo. Pensou. Tranquilizou-se depois pensando que as planícies até perder de vista o fariam esquecer Anísia quando lhe enchessem a alma, mas isso não aconteceu. Não conseguia perceber porquê, mas nada conseguia apagar da sua memória a última lágrima que vira Anísia verter. Porquê? Questionou-se. Pruque é que as mina se liga tanto a eu? Meu coração é do Sertão, não é de mulé! Disse a si próprio noutra vã tentativa de a fazer desaparecer da mente, mas não resultou. Via Anísia em todo o lado, nas nuvens, nas longínquas montanhas, chegava até a vê-la no olhar meigo das suas vacas. Isso num pode sê não! Rematou. Tenho que chegá depressa à próxima vila, os braço de Celina me vão fazê esquecê essa bobagem. Acelerou o passo da manada e levava já o coração mirrado quando bateu à porta de Celina.

Celina era a mãe de santo da vila, conhecida pelas suas famosas leituras de búzios e por frequentemente incorporar o espírito de Ayrton Senna, embora muitos pensassem que era tudo teatro. Ao contrário do que Januário esperava, Celina não o recebeu de braços abertos mas sim com um tição na mão e um olhar nada meigo. Sabe, me disseram que você tem mulé em tudo o que é lugá por aqui. Disparou. Ô gata, num fala bobagem. Cê sabe que é só você que eu amo. Mentiu novamente. Celina vacilou, mas quando Januário terminou a frase seguinte. As outra mina num siguinifica nada para mim. Já o tição viajava através da sala numa rota de colisão certeira com a sua testa, que só não acertou graças aos reflexos felinos de Januário. Eta mina é fogo, pensou, enquanto o instinto o levava a aproximar-se e dar-lhe uma sonora chapada. Cê viu que quase me partia a cabeça, sua jararaca? Gritou enquanto lhe aplicava mais uma palmada, desta vez na nuca. Quantas vezes tenho de lhe dizer? Se quisé pode ter meu corpo, mas meu coração é do Sertão. Ao acabar a frase, colocou-lhe a mão na parte de trás do pescoço e puxou-a firmemente para ele. O calor da sua pele e o másculo cheiro de suor misturado com bosta de vaca fizeram-na perder a força nas pernas e soltar um discreto suspiro. Estava quase a render-se ao corpo musculado de Januário quando reuniu todas as suas forças e, gritando impropérios, o conseguiu pôr fora de casa ficando a arfar de costas encostadas à porta enquanto uma lágrima rebelde lhe escorria pelo rosto.

Depois de várias cachaças na taberna local, encontrou finalmente conforto no colo de Rosana, a galdéria da vila. A bondade e compaixão de Rosana eram lendárias, já que, benemérita, era o consolo dos renegados e a companhia dos solitários velhinhos. Inté mais. disse Januário ajeitando o chapéu, depois de o desejo amplificado pela cachaça o ter feito entregar-se sofregamente à paixão. Rosana ficou calada, acariciando a zona ainda quente do lençol.

Januário partiu, rumo ao horizonte. A memória de Rosana desvanescia-se à medida que a sua manada investia pelo terreno. Anísia? Celina? Não sabia quem eram. O seu coração? Esse era só do Sertão.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tempus Fugit - Capítulo 1.2.2.2

Milhões de gigantescos escaravelhos com cabeças humanas! O pavor atingiu o seu máximo expoente quando o bando iniciou um vertiginoso vôo picado na sua direcção e conseguiu perceber que todos tinham a cara do Helmut Kohl!

Correu o mais depressa que podia, mas os seus perseguidores aproximavam-se. Um suspiro de semi-alívio surgiu das suas entranhas ao avistar ao longe o que parecia ser uma arma anti-aérea. Estranhamente conveniente, conseguiu ainda pensar enquando reuniu as suas últimas forças para um disparo final na corrida em direcção ao aparelho. O enorme reservatório acoplado ao engenho ter-lhe-ia provocado um sorriso, não estivesse a lutar pela sua vida. Quase não conseguia acreditar na sua sorte! Era um projector de coelhos, a arma conhecida mais eficaz contra escaravelhos gigantes, e parecia carregada.

Com um pulo quase felino sentou-se no engenho e apontou para o enxame. Apertou o gatilho e soltou instintivamente uma gargalhada quando os coelhos, projectados de rajada a alta velocidade e com um ritmo alucinante, começaram a atingir os escaravelhos. Embora não tenha conseguido atingir muitos dos seus atacantes - devido à fraca aerodinâmica do coelho, a precisão era um dos pontos fracos desta fascinante peça de artilharia - o factor surpresa foi fundamental. Os escaravelhos, claramente desorientados, começaram a perder o seu ímpeto e acabaram por dispersar.

Rejubilou. Torrentes de adrenalina ainda corriam nas suas veias e demorou até conseguir acalmar-se e parar de tremer. No entanto, a calma não durou muito tempo e a adrenalina voltou a subir ao avistar uma nuvem negra a formar-se no horizonte. Os escaravelhos reorganizaram-se e estavam de volta para uma segunda investida. Mais, vinham melhor preparados, munidos de envelhecidas sandes de carne enlatada, capazes de levar à náusea o mais bravo.

Assim que se apercebeu da nova ameaça, avaliou a sua situação numa fracção de segundo. O reservatório de coelhos estava a menos de um quarto e o ambiente iria ficar insuportavelmente nauseabundo, só lhe restava procurar abrigo. No segundo seguinte já estava novamente em marcha a alta velocidade, mas os escaravelhos eram muito mais rápidos e facilmente ganharam terreno. Todas as casas estavam em ruínas e certamente não aguentariam o ataque, mas conseguia ver por detrás das casas, uma enorme torre amarela que curiosamente parecia ter o formato de um colossal e hirto dedo médio. Correu para lá, mas o enxame estava já perigosamente perto.

Por uma infeliz fatalidade do destino, ou pela teoria do caos, como talvez alguns defendessem, quando o seu pé direito estava prestes a atravessar a arcada que anunciava a segurança, a força de Coriolis afectou a gravidade inversa exactamente da forma necessária para maximizar a inércia de uma sandes de carne enlatada, largada pelo escaravelho que se deslocava na linha que formava um ângulo de trinta e sete graus com a linha da sua trajectória, fazendo com que esta o atingisse na nuca com uma força tal que, violentamente projectado para a frente, aterrou atordoado de cabeça no chão.

Rapidamente surgiram dois pares de esqueléticas mãos com membranas interdigitais que o agarraram pela roupa e o puxaram mais para dentro. Não tinha ainda recuperado da desorientação quando uma das criaturas, que além dos volumosos lábios verdes não pareciam ter mais que uma fina e viscosa camada sobre a sua estrutura óssea, se aproximou e lhe deu duas vigorosas chapadas.

Paf, paf! Então pá? Ainda estás connosco ou não?

Esfregou os olhos e reconheceu as pessoas na sua frente. O que aconteceu, perguntou. Não faço a mínima ideia do que aconteceu, mas acho que da próxima vez é melhor meteres só um ácido.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tempus Fugit - Capítulo 1.2.2.1

O cenário era atemorizador. Uma gigantesca sombra fantasmagórica que, apesar de translúcida, permitia distinguir contornos, flutuava na sua direcção. Não conseguiu perceber se se tratava de uma única entidade ou se pelo contrário era um enorme grupo delas, para o seu cérebro apenas importou o facto de ser enorme e aterrorizante.

Correu enquanto pôde, mas cada vez que parava, pensando estar a salvo, a grandiosa sombra reaparecia sobre si. Rapidamente percebeu que era inútil. Esgotado, deixou-se ficar imóvel enquanto a sombra pairava sobre si. Quando esta começou lentamente a descer, abriu os braços numa atitude de entrega e deixou que esta o envolvesse por completo. Sentiu, impotente, a consciência a fugir-lhe enquanto os pés perdiam o contacto com o solo.

Acordou na sua cama. Tudo teria sido um sonho... O tempo nunca mais parou mas, curiosamente, nunca deixou de ter a estranha sensação de que não estava a viver a realidade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Tempus Fugit - Capítulo 1.2.1.2

Quem és tu? Perguntei. Quem sou eu? Tu é que devias saber. Eu nem sequer tenho nome. Respondeu. Ah, és tu... Mas tu não existes, o que é que estás aqui a fazer? Sei lá eu! A última coisa que me lembro é de um médico me injectar qualquer coisa, portanto isto deve ser outra viagem dentro da minha cabeça. E sabes quem eu sou... Sim, não sei como nem porquê, mas sim, sei. Curioso, muito curioso. Olha, a mim já nada me espanta, mas acho que isto se calhar é para me dar a oportunidade de te dizer que estou cansado, que já não me apetece mais. Acredita que compreendo perfeitamente, a mim também já me chateia um bocado, e nem está a sair grande coisa, mas acho que pelo menos pelo valor como exercício criativo, não devíamos desistir. Não sei quanto mais vou aguentar... Onde é que está o teu espírito? É o teu propósito, algo ao qual não podes escapar. É óbvio que tens razão, mas às vezes o ímpeto esmorece. Pedires-me para desistir é perfeitamente absurdo, tu és um sobrevivente! Agora vá, desanda daqui e cumpre o teu fado.

Abriu os olhos de repente, como se tivesse sido empurrado para a realidade. Era noite e tudo estava envolvido numa tranquila penumbra. Respirou fundo e tentou descontrair enquanto se lembrava do sonho que tinha tido. Questionou-se sobre o que significaria, se teria sido mesmo um sonho, já que estava tão vívido na sua mente como qualquer acontecimento real. Parecia tão real como a aprisionante inactividade do seu corpo. Ponderou sobre quem seria aquela pessoa. No sonho conhecia-a, mas não sabia quem era. Apesar disso, percebeu um ódio visceral, Não sabia porquê, mas odiava aquela pessoa. Um ódio tal que o assustou quase a um ponto de choque. Desisto, ouviste? As frases formavam-se no seu cérebro, vindas de um qualquer recanto do seu subconsciente. Para mim chega! Não sou o teu fantoche! A confusão aumentava, não sabia porque a sua mente parecia fora do seu controle, nem a quem se dirigia. Desisto! Tenho esse direito! A sensação de impotência era atroz. Era como se fosse um mero espectador enquanto a sua mente proferia iradas exclamações. Liberta-me, filho da puta! Liberta-me! Quem? Quem? Só podia ser aquela pessoa. Mas quem era? Porque a odiava assim?

Começou a recuperar o controlo da sua mente. Conseguiu tranquilizar-se lentamente, mas uma palavra permaneceu indelével, "desisto", a palavra acabou por ocupar todo o seu pensamento. Calmamente fechou os olhos. Concentrou-se no seu coração, visualizou-o na sua cabeça, tranquilamente, cada vez com maior detalhe. Passado algum tempo, era como se estivesse a olhar para dentro do seu peito. Via nitidamente o seu coração a pulsar, conseguia ver até os pequenos vasos que o irrigam. Concentrou então nele toda a sua força, toda a sua vontade, e ele parou.