É impressionante a demonstração de presença das nossas forças de segurança nestes últimos dias. Pergunto-me onde estará toda esta gente quando o People que é preciso proteger não é Very Important...
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Personagens #3
Depois de ver aquele audaz mancebo que foi à televisão mostrar a sua habilidade a comer vidro, dei por mim a recordar, não sem alguma nostalgia, algumas das pessoas mais particulares, vulgo cromos, da zona onde cresci.
Saltou logo à mente o Vitinha, que também, no seu estado normal de consciência alterada, à minha frente deglutiu parte de um copo de imperial. Acho que estava chateado com qualquer coisa e, creio que sentiu necessidade de demonstrar quão desequilibrado realmente era. A verdade é que o Vitinha não era um profissional nesta arte, tinha sido uma ideia do momento e ainda guardo a imagem dele, a sangrar abundantemente das gengivas enquanto, com um ar alienado, mastigava o pedaço que faltava ao copo que tinha na mão.
Na sequência do Vitinha veio a recordação do Pedro Metálico. Grande maluco, o Pedro. Um dia projectou uma pedra da calçada através da montra do café, na vã tentativa de acertar no Morto. Só que o alvo estava na terceira mesa e só por sorte não partiu a cabeça à coitada da rapariga que estava na primeira. Tudo porque o Morto tinha manifestado a sua opinião sobre heavy metal. Ele nem era uma pessoa violenta, a culpa era das substâncias… E o Pedro metia tudo o que lhe aparecesse à frente.
A última vez que o vi, notoriamente sob o efeito de um qualquer estimulante, foi a correr de cabeça contra um contentor do lixo.
Deixo-lhes aqui a minha homenagem e o meu agradecimento por terem ajudado a tornar a minha adolescência tão mais interessante.
Saltou logo à mente o Vitinha, que também, no seu estado normal de consciência alterada, à minha frente deglutiu parte de um copo de imperial. Acho que estava chateado com qualquer coisa e, creio que sentiu necessidade de demonstrar quão desequilibrado realmente era. A verdade é que o Vitinha não era um profissional nesta arte, tinha sido uma ideia do momento e ainda guardo a imagem dele, a sangrar abundantemente das gengivas enquanto, com um ar alienado, mastigava o pedaço que faltava ao copo que tinha na mão.
Na sequência do Vitinha veio a recordação do Pedro Metálico. Grande maluco, o Pedro. Um dia projectou uma pedra da calçada através da montra do café, na vã tentativa de acertar no Morto. Só que o alvo estava na terceira mesa e só por sorte não partiu a cabeça à coitada da rapariga que estava na primeira. Tudo porque o Morto tinha manifestado a sua opinião sobre heavy metal. Ele nem era uma pessoa violenta, a culpa era das substâncias… E o Pedro metia tudo o que lhe aparecesse à frente.
A última vez que o vi, notoriamente sob o efeito de um qualquer estimulante, foi a correr de cabeça contra um contentor do lixo.
Deixo-lhes aqui a minha homenagem e o meu agradecimento por terem ajudado a tornar a minha adolescência tão mais interessante.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Eu...
Há quem pondere se uma árvore que caia no meio da floresta fará barulho, se não estiver lá ninguém para ouvir. Quem pondere quem somos, de onde vimos, para onde vamos e porquê. Há até quem pondere se um gato fechado dentro de uma caixa opaca não estará num terceiro estado de existência, que não vivo nem morto. Eu… Eu tenho ponderado se um problema continua a sê-lo se não nos lembrarmos dele.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Receita para fazer um Herói
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne, Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
Reinaldo Ferreira
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne, Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
Reinaldo Ferreira
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
And everybody sings ba ba ba da...
"But its hard to get by when your arse is the size Of a small country"
:)
http://www.youtube.com/watch?v=TiBI3A2WcrE
:)
http://www.youtube.com/watch?v=TiBI3A2WcrE
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Sorrir
Sempre que a oiço faz-me sorrir e desato a cantar a plenos pulmões como se não houvesse amanhã :)
"...Can I play with madness
Can I play with madness
The prophet stared at his crystal ball
Can I play with madness
Theres no vision there at all
Can I play with madness
The prophet looked and he laughed at me
Can I play with madness
He said you're blind too blind to see..."
http://www.youtube.com/watch?v=QLvBwPOjZWI
"...Can I play with madness
Can I play with madness
The prophet stared at his crystal ball
Can I play with madness
Theres no vision there at all
Can I play with madness
The prophet looked and he laughed at me
Can I play with madness
He said you're blind too blind to see..."
http://www.youtube.com/watch?v=QLvBwPOjZWI
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Simple pleasure psychadelic delicious
"You said, hey, nature boy, are you looking at me
With some unrighteous intention?"
Esta anda em loop...
http://uk.youtube.com/watch?v=l05j8hNiCjk&locale=en_GB&persist_locale=1
With some unrighteous intention?"
Esta anda em loop...
http://uk.youtube.com/watch?v=l05j8hNiCjk&locale=en_GB&persist_locale=1
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
terça-feira, 2 de outubro de 2007
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
On Repeat

There is nothing to see here people keep moving on
Slowly their necks turn and then they're gone
No one cares when the show is done
Standing in line and its cold and you want to go
Remember a joke so you turn around
There is no one to listen so you laugh by yourself
I heard it's cold out, but her popsicle melts
She's in the bathroom, she pleasures herself
Says I'm a bad man,
she's locking me out
It's cause of these things, it's cause of these things
Let make a fast plan, watch it burn to the ground
I try to whisper, so no one figures it outI'm not a bad man, I'm just overwhelmed
It's cause of these things, it's cause of these things
The crowd on the street walks slowly, don't mind the rain
Lovers hold hands to numb the pain,
Gripping tightly to something that they will never own
And those by themselves by choice or by some reward
No mistakes only now you're bored
This is the time of your life but you just can't tell
She Wants Revenge - These Things
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
A verdadeira história da arca de Noé
Matias, vem a Mim!!!
Estou a ir, Senhor, estou a ir.
Matias!!! O mundo está cada vez mais imundo. Vou fazer um format a isto!!!
Um format, Senhor?
Sim!!! Vou lançar um dilúvio sobre a Terra que eliminará todos os animais. E tu vais ser o meu backup!!!
Backup, Senhor?
Sim!!! Construirás uma arca que consiga abrigar a tua família e um casal de cada espécie animal, para repopularem a Terra depois do format.
Uma arca? Um casal de cada espécie?... Senhor...
Sim!!! Uma arca e um casal de cada espécie!!!
Mas Senhor, de todas as espécies???
Sim!!! De todas as espécies!!!
Mas Senhor... incluindo os insectos? São tantos, e nem sempre é fácil distinguir os sexos.
Hum... Pronto!!! Esquece os insectos!!! Eles logo voltam a evoluir, todos sabemos que nem que quiséssemos nos conseguíamos ver livres deles.
Certo Senhor. Mas... e os seres unicelulares, as bactérias, micróbios em geral?
Micróbios?... Não me tinha lembrado desses... Quem me mandou criá-los tão pequenos?... Pronto, esquece também os micróbios, eu depois crio-os outra vez!!!
Tudo bem, Senhor. Mas... Vai ser um bocado complicado apanhar alguns. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos rinocerontes. Como é que eu vou convencer um casal de rinocerontes a entrar na arca?
Matias!!! Desafias as minhas ordens??? Farás o que for preciso!!!
Claro Senhor, claro! Mas a arca terá que ser gigantesca, vai demorar um bocado a construír. E vai ser complicado manter os leões afastados das gazelas...
Terá o tamanho que for preciso, Matias!!! É a vontade do teu deus!!!
Claro, claro. Mas Senhor, Não faria mais sentido construíres tu a arca, já que és omnipotente, e tal?
Matias!!! Estás a esgotar a minha paciência!!! Construirás a arca!!! Cumprirás tudo o que estou a mandar-te fazer!!!
Certíssimo, Senhor. Tudo bem, não é preciso exaltarmo-nos.
Agora vai, Matias!!! Cumpre a vontade do teu criador!!!
Senhor... Estou aqui com uma ideia... Se calhar é estúpida, mas... Não seria infinitamente mais fácil criares as espécies de novo depois do format? Agora, com a experiência até fazias isso em bem menos que sete dias. E a mim é capaz de ainda me demorar um bocado fazer isso tudo.
ZAP!!!!!!
...
Noé, vem a Mim!!!
Estou a ir, Senhor, estou a ir.
Matias!!! O mundo está cada vez mais imundo. Vou fazer um format a isto!!!
Um format, Senhor?
Sim!!! Vou lançar um dilúvio sobre a Terra que eliminará todos os animais. E tu vais ser o meu backup!!!
Backup, Senhor?
Sim!!! Construirás uma arca que consiga abrigar a tua família e um casal de cada espécie animal, para repopularem a Terra depois do format.
Uma arca? Um casal de cada espécie?... Senhor...
Sim!!! Uma arca e um casal de cada espécie!!!
Mas Senhor, de todas as espécies???
Sim!!! De todas as espécies!!!
Mas Senhor... incluindo os insectos? São tantos, e nem sempre é fácil distinguir os sexos.
Hum... Pronto!!! Esquece os insectos!!! Eles logo voltam a evoluir, todos sabemos que nem que quiséssemos nos conseguíamos ver livres deles.
Certo Senhor. Mas... e os seres unicelulares, as bactérias, micróbios em geral?
Micróbios?... Não me tinha lembrado desses... Quem me mandou criá-los tão pequenos?... Pronto, esquece também os micróbios, eu depois crio-os outra vez!!!
Tudo bem, Senhor. Mas... Vai ser um bocado complicado apanhar alguns. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos rinocerontes. Como é que eu vou convencer um casal de rinocerontes a entrar na arca?
Matias!!! Desafias as minhas ordens??? Farás o que for preciso!!!
Claro Senhor, claro! Mas a arca terá que ser gigantesca, vai demorar um bocado a construír. E vai ser complicado manter os leões afastados das gazelas...
Terá o tamanho que for preciso, Matias!!! É a vontade do teu deus!!!
Claro, claro. Mas Senhor, Não faria mais sentido construíres tu a arca, já que és omnipotente, e tal?
Matias!!! Estás a esgotar a minha paciência!!! Construirás a arca!!! Cumprirás tudo o que estou a mandar-te fazer!!!
Certíssimo, Senhor. Tudo bem, não é preciso exaltarmo-nos.
Agora vai, Matias!!! Cumpre a vontade do teu criador!!!
Senhor... Estou aqui com uma ideia... Se calhar é estúpida, mas... Não seria infinitamente mais fácil criares as espécies de novo depois do format? Agora, com a experiência até fazias isso em bem menos que sete dias. E a mim é capaz de ainda me demorar um bocado fazer isso tudo.
ZAP!!!!!!
...
Noé, vem a Mim!!!
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
AG8STO
"One of the signs of passing youth is the birth of a sense of fellowship with other human beings as we take our place among them."
Virginia Woolf
http://www.youtube.com/watch?v=Lraipq2FMkg
A Perfect Day Elise
P J Harvey
Virginia Woolf
http://www.youtube.com/watch?v=Lraipq2FMkg
A Perfect Day Elise
P J Harvey
quinta-feira, 12 de julho de 2007
O Caracol - Capítulo 4
Nessa noite sonhei que estava num enorme corredor estranhamente iluminado. Caminhava olhando para ambos os lados, quando noto alguém à minha frente. Acelero o passo para apanhar a pessoa, que caminhava no mesmo sentido, permitindo-me apenas ver as suas costas encurvadas. Aproximo-me e abordo-a tocando-lhe o ombro. Ao deparar-me com o seu rosto assustadoramente hediondo, os olhos esbugalhados pela ausência de pálpebras, no lugar do nariz tinha apenas dois buracos disformes e a ausência de lábios permitia ver os seus dentes afiados e caoticamente dispostos, acordei com um espasmo, como se o medo me tivesse feito saltar imediatamente de volta para a realidade.
Ao virar a cabeça e ver a esfera que tinha tirado do bolso no dia anterior e colocado em cima da mesa-de-cabeceira, lembrei-me imediatamente da louca história do Caracol. Pensei logo que o sonho teria sido originado por ela, tinha ficado com aquilo no subconsciente e não era nada de estranho que tivesse sonhado com coisas esquisitas. Ter percebido isto não conseguiu evitar que tivesse ficado com uma certa inquietude, que me esforcei por ignorar.
Estava a sair de casa quando me apercebi que ao voltar ao quarto para me vestir, instintivamente peguei na esfera e guardei-a no bolso. Achei curioso, parecia que a esfera é que tinha querido vir comigo e, mesmo não acreditando minimamente que aquilo fosse mais que uma mera esfera de aço, a verdade é que senti uma estranha sensação de segurança ao tê-la comigo.
O dia decorreu normalmente. A inquietude acabou por sucumbir, vítima da distracção, e foi só quando voltava para casa que, ao ver ao longe uma velhota vestida com cores muito berrantes, que as coisas transcenderam ligeiramente o banal. Ao aproximar-me comecei a distinguir a sua maquilhagem ridiculamente excessiva. Quase não havia parte do seu rosto que não estivesse pintada, os lábios e as maçãs do rosto estupidamente vermelhos e o branco que ia desde as suas pálpebras até às sobrancelhas, que não eram feitas de pelos, mas sim grosseiramente pintadas a lápis, fariam inveja a qualquer palhaço, achei particularmente piada ao facto de os lábios não estarem pintados até aos cantos da boca, o batom chegava apenas a três quartos do lábio, para cada lado, e o restante estava coberto pela mesma camada de base que cobria o resto do rosto, fingindo assim uma boquinha minúscula que fazia a velhota parecer uma horripilante boneca. Automaticamente lembrei-me da advertência do Caracol e, ao questionar por uma fracção de segundo a se a velhota não seria um deles, senti-me extremamente idiota por ter-me instintivamente sossegado pensando que não poderia ser porque a esfera não estava a reagir.
A tua imbecilidade é inacreditável, disse silenciosamente para mim mesmo, como é que é possível estares a deixar-te influenciar pela história parva de um louco, sim, está bem, ser louco é uma coisa dúbia e bastante relativa, mas a verdade é que sabes que a história é completamente absurda, continuei, não me vais dizer que acreditas naquilo. Não, não acredito, respondi-me, acredita que não acredito, mas um gajo não controla os pensamentos, não tive qualquer controle sobre o que pensei ao ver a velhota, automaticamente me lembrei do Caracol, quanto a isso não posso fazer nada. Mas se te lembraste é porque a história te ficou na cabeça, continuei, argumentando comigo mesmo, tu se calhar não queres acreditar, mas acho que qualquer coisa lá no nosso âmago acredita, acho que caso contrário não estaríamos sequer agora a discutir isto. Não acredito nada, a história só ficou na cabeça pela incomunidade da cena toda, só porque foi tudo muito estranho, só isso. Tudo bem, só estou curioso sobre quão cedo iremos ter esta conversa outra vez, e já agora, embora faça sentido, se considerarmos que “comunidade” também pode significar a característica daquele que é comum, não sei se “incomunidade” existe...
O resto do dia decorreu, obviamente, sem lapsos, e de noite sonhei novamente que estava no corredor da noite anterior, mas desta vez não havia monstros.
Ao virar a cabeça e ver a esfera que tinha tirado do bolso no dia anterior e colocado em cima da mesa-de-cabeceira, lembrei-me imediatamente da louca história do Caracol. Pensei logo que o sonho teria sido originado por ela, tinha ficado com aquilo no subconsciente e não era nada de estranho que tivesse sonhado com coisas esquisitas. Ter percebido isto não conseguiu evitar que tivesse ficado com uma certa inquietude, que me esforcei por ignorar.
Estava a sair de casa quando me apercebi que ao voltar ao quarto para me vestir, instintivamente peguei na esfera e guardei-a no bolso. Achei curioso, parecia que a esfera é que tinha querido vir comigo e, mesmo não acreditando minimamente que aquilo fosse mais que uma mera esfera de aço, a verdade é que senti uma estranha sensação de segurança ao tê-la comigo.
O dia decorreu normalmente. A inquietude acabou por sucumbir, vítima da distracção, e foi só quando voltava para casa que, ao ver ao longe uma velhota vestida com cores muito berrantes, que as coisas transcenderam ligeiramente o banal. Ao aproximar-me comecei a distinguir a sua maquilhagem ridiculamente excessiva. Quase não havia parte do seu rosto que não estivesse pintada, os lábios e as maçãs do rosto estupidamente vermelhos e o branco que ia desde as suas pálpebras até às sobrancelhas, que não eram feitas de pelos, mas sim grosseiramente pintadas a lápis, fariam inveja a qualquer palhaço, achei particularmente piada ao facto de os lábios não estarem pintados até aos cantos da boca, o batom chegava apenas a três quartos do lábio, para cada lado, e o restante estava coberto pela mesma camada de base que cobria o resto do rosto, fingindo assim uma boquinha minúscula que fazia a velhota parecer uma horripilante boneca. Automaticamente lembrei-me da advertência do Caracol e, ao questionar por uma fracção de segundo a se a velhota não seria um deles, senti-me extremamente idiota por ter-me instintivamente sossegado pensando que não poderia ser porque a esfera não estava a reagir.
A tua imbecilidade é inacreditável, disse silenciosamente para mim mesmo, como é que é possível estares a deixar-te influenciar pela história parva de um louco, sim, está bem, ser louco é uma coisa dúbia e bastante relativa, mas a verdade é que sabes que a história é completamente absurda, continuei, não me vais dizer que acreditas naquilo. Não, não acredito, respondi-me, acredita que não acredito, mas um gajo não controla os pensamentos, não tive qualquer controle sobre o que pensei ao ver a velhota, automaticamente me lembrei do Caracol, quanto a isso não posso fazer nada. Mas se te lembraste é porque a história te ficou na cabeça, continuei, argumentando comigo mesmo, tu se calhar não queres acreditar, mas acho que qualquer coisa lá no nosso âmago acredita, acho que caso contrário não estaríamos sequer agora a discutir isto. Não acredito nada, a história só ficou na cabeça pela incomunidade da cena toda, só porque foi tudo muito estranho, só isso. Tudo bem, só estou curioso sobre quão cedo iremos ter esta conversa outra vez, e já agora, embora faça sentido, se considerarmos que “comunidade” também pode significar a característica daquele que é comum, não sei se “incomunidade” existe...
O resto do dia decorreu, obviamente, sem lapsos, e de noite sonhei novamente que estava no corredor da noite anterior, mas desta vez não havia monstros.
quarta-feira, 11 de julho de 2007
segunda-feira, 2 de julho de 2007
O Caracol - Capítulo 3
Bom… disse eu para quebrar o silêncio, pousando a caneca e sacudindo as calças num movimento espontâneo, já se faz tarde, tenho que ir andando. Olhou para mim com estranheza, estava certamente perdido nos seus pensamentos e não estava habituado a ser interrompido. Então e o que é que vais fazer agora que sabes de tudo, perguntou o Caracol. Hum… não sei bem… vou precisar de algum tempo para pensar nisto tudo e organizar as ideias, respondi hesitante, a verdade é que não planeava fazer nada, nem sequer me tinha ocorrido alterar o que quer que fosse na minha vida por causa da mirabolante história daquela pessoa tão peculiar, excepto talvez contar prazenteiramente o acontecimento aos amigos. Fica pelo menos mais atento, disparou rispidamente o Caracol, eu sei que já tenho alguma experiência, mas também não é assim tão difícil perceber quando está para acontecer um lapso, continuou, aquele velho de boné e patins em linha era demasiado óbvio, e aquele cego, acrescentou repentinamente, foge dele a sete pés, ou àqueles que tiveres, porque certamente ninguém terá sete pés, nem sei porque se diz isto, três, vá lá, quatro, em quem nasça com defeitos físicos, mas sete pés é uma estupidez, parou por momentos perdido em pensamentos até que, apercebendo-se que, ao contrário do costume, não estava sozinho, continuou, vê-se logo que aquilo não é um cego normal, muito cuidado com o cego! Sem querer ofender, retorqui suavemente, mas se vou estar a desconfiar de cada coisa estranha que vejo na rua, passo a vida desconfiado, e eu nem sequer sou uma pessoa desconfiada, terminei com um sorriso amarelo, para aligeirar o ambiente; ainda estava com algum receio que o homem desatasse a disparatar, como costuma acontecer com algumas destas pessoas que têm formas de pensar diferentes do que é comum. Acho que já não preciso disto, continuou como se falasse sozinho enquanto tirava do bolso um objecto envolto num trapo, posso dar-ta se prometeres que tentas salvar alguém se presenciares outro lapso, é o mínimo que podes fazer para retribuir. O que é, perguntei. Encontrei-a num sítio onde eles costumam andar, reparei que reage à sua presença vibrando e aquecendo ligeiramente, muito ligeiramente, disse enquanto abria o trapo e retirava uma esfera com cerca de três centímetros de diâmetro, aparentemente daquelas dos rolamentos, que pedíamos nas oficinas quando éramos pequenos. Prometes, perguntou enquanto me estendia o objecto. Não sabia muito bem o que fazer, não fiquei muito empolgado com a ideia de fazer aquela figura e não gostava nada de fazer promessas vãs, mas lá prometi e aceitei a oferta. Para demonstrar algum interesse, perdi algum tempo a observar minuciosamente a esfera, e de facto fiquei surpreendido com a sua perfeição, não tinha qualquer mácula ou sujidade e o reflexo era perfeito, era também bastante leve. Envolvi-a num lenço e guardei-a cuidadosamente, sempre observado pelo seu anterior proprietário. Obrigado, acho, espero que me seja tão útil como foi a ti, mas há ainda uma questão que me escapa, qual é o objectivo deles, perguntei censurando-me logo de seguida, devia era estar a tentar livrar-me daquele filme e ainda estava a dar conversa. Não posso ter a certeza, respondeu, suponho que queiram ocupar a nossa realidade ou qualquer outra coisa assim maléfica, se quiseres aparece cá outro dia e discutimos isso, é sempre bom debater, e confesso que gostei muito de poder partilhar isto com alguém, já quase nem me lembrava de como era ter alguém com quem conversar. Senti alguma pena, por muito que se aprecie a solidão, há sempre momentos em que nos apetece falar com alguém que responda. Perdendo o ímpeto de me ir embora, deixei-me ficar mais um pouco. Sem saber o que dizer e não querendo continuar com a história deles, fiz um comentário inútil sobre meteorologia que saiu muito pouco natural. Não sei se foi por perceber que já só lá estava movido por pena ou se queria realmente ficar sozinho, o Caracol estendeu-se preguiçosamente no saco-cama. Está na minha hora, levanto-me sempre muito cedo, já sabes, se quiseres aparecer para conversar de vez em quando, serás bem-vindo, disse-me em jeito de despedida. Pois, retorqui algo atrapalhado, aquela do tempo tinha saído mal, foi uma futilidade estúpida, uma pessoa que nunca conversa com ninguém não estaria certamente interessada em debater o estado do tempo, também tenho que ir andando, até um dia destes então, e obrigado pelo chá, estava… diferente. Até à próxima, e cuidado, eles andam aí! Tive que me virar de imediato para disfarçar e abafar uma gargalhada, nunca tinha ouvido aquela frase dita tão a sério, e o efeito foi exactamente o oposto, não consegui evitar achar piada. Sem me virar para que não percebesse a minha boa disposição, limitei-me a acenar e afastei-me tentando reviver mentalmente e manter na memória todo aquele curioso episódio, enquanto sentia, com a ponta dos dedos, o volume da esfera no meu bolso, como que para me certificar que tinha mesmo sido real.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
O Caracol - Capítulo 2
Fez um gesto com uma mão para que me aproximasse, enquanto me estendia, com a outra, uma caneca de chá, ao qual tinha já previamente adicionado uma generosa dose do bagaço que guardava com reverência dentro do saco, que, no fundo, continha a sua casa. O xarope para a tosse, chamou-lhe. Aproximei-me e, recolhendo a caneca que me era dirigida, sentei-me no chão à sua frente, como uma criança que espera uma história. Vagarosamente levou a caneca à boca e, sorvendo ruidosamente um trago, respirou fundo com um suspiro, como se tomasse fôlego para a revelação que iria partilhar.
Sabes, começou com um ar grave, nem todas as pessoas são realmente pessoas. Não são realmente pessoas, perguntei com falso espanto, sei que muitas pessoas não são realmente humanas, mas sempre pensei que fossem todas pessoas. Pois não são, retorquiu, muitas delas já deixaram de o ser e são agora um deles, tu também serias se eu não te tivesse salvado, acrescentou arregalando os olhos. E não penses que a pessoa fica lá presa e que pode voltar, continuou, não, a pessoa perde-se para sempre, fica apenas o seu corpo, a casca. A alma, ou consciência ou aquilo que lhe quiseres chamar, que era a pessoa, morre, e de lá ninguém volta. Pois, disse eu pausadamente, isso é muito curioso, mas continuo sem saber quem é que eles são afinal. Para ser sincero, respondeu, não sei exactamente o que eles são, nem de onde vêm, se de outro planeta, de outro tempo ou até mesmo de outro plano de existência, mas posso garantir-te que existem, e são cada vez mais, exclamou. Mas como é que sabes isso, e falaste há bocado de um "lapso", de que é que estavas a falar, perguntei rapidamente. Há já muito tempo que os ando a observar, recomeçou depois de outra inspiração mais profunda, tudo começou quando, por acaso, assisti a um lapso, como eu lhe chamo, que é quando eles se reúnem para arranjar mais corpos. Pelo que já vi, continuou após uma pausa para um gole de chá, eles precisam de reunir-se em grande número para criar condições para que outros deles possam invadir os corpos dos coitados que lá estiverem que ainda não sejam deles. Eu assisti a um desses lapsos e sobrevivi, não sei como nem porquê, mas a verdade é que sobrevivi e fiquei a saber que eles existiam. Então... mas como é que foi, perguntei já com alguma curiosidade genuína. Eles vão-se juntando, ficam muito imóveis e com os olhos muito abertos; quando são suficientes algo acontece que automaticamente mata toda a gente à volta, respondeu elevando a voz, imaginas o meu pavor quando vejo toda a gente, excepto os que estavam feitos estátuas, a cair no chão ao mesmo tempo. E quando os vi todos novamente a levantar-se, perguntou retoricamente já visivelmente empolgado, claro que fiquei completamente petrificado, deixei-me estar quietinho que nem um rato, daqueles que ficam muito quietos, porque também os há bastante irrequietos, pensando bem... acho que até é a grande maioria... porque é que se dirá que se fica quieto que nem um rato... os ratos não são assim tão parados... acho que fica melhor é dizer que fiquei quieto que nem um caracol. Não consegui evitar abrir um sorriso ao ouvir a divagação, obviamente também achava que o termo se adaptava muito mais. Fiquei ali, quietinho como um caracol, disse retomando o discurso sem aparentar ter reparado no aumento da minha boa disposição, e vi-os todos levantar-se, acenar com a cabeça aos outros e saíram todos juntos. Isso é uma história e peras, respondi, à espera que continuasse. Desde aí tenho tentado salvar algumas pessoas, mas foste a primeira que consegui, todas as outras resistiram e acabaram mortas, disse com ar triste. Quem as pode censurar, se calhar não te vês ao espelho há muito tempo, pensei, mas, então e eles nunca te apanharam, foi o que da minha boca apenas se ouviu. Já tentaram, uma vez vieram atrás de mim até quase aqui, mas assim que chegaram perto da nespereira, era vê-los a correr como o diabo da cruz, exclamou com uma ponta de alegria. Também não sei ao certo porquê, mas há algo nas nespereiras que eles não suportam. Não sei se é o cheiro, ou algum químico que elas emanam, mas foi o que me salvou naquele dia e me tem mantido a salvo até hoje. Parece estúpido, não é, perguntou, a nossa única arma conhecida contra eles ser uma nespereira. Limitei-me a responder com um encolher de ombros, não achava que a questão da nespereira fosse tão mais absurda que o resto da história, achei até que se enquadrava. Absurdo mas verdade, continuou acariciando carinhosamente o tronco da nespereira, esta árvore salvou-me a vida, e desde esse dia tenho vivido aqui. Sem saber bem o que dizer, permiti-me alguns momentos de silêncio para saborear a extraordinária história do Caracol.
Sabes, começou com um ar grave, nem todas as pessoas são realmente pessoas. Não são realmente pessoas, perguntei com falso espanto, sei que muitas pessoas não são realmente humanas, mas sempre pensei que fossem todas pessoas. Pois não são, retorquiu, muitas delas já deixaram de o ser e são agora um deles, tu também serias se eu não te tivesse salvado, acrescentou arregalando os olhos. E não penses que a pessoa fica lá presa e que pode voltar, continuou, não, a pessoa perde-se para sempre, fica apenas o seu corpo, a casca. A alma, ou consciência ou aquilo que lhe quiseres chamar, que era a pessoa, morre, e de lá ninguém volta. Pois, disse eu pausadamente, isso é muito curioso, mas continuo sem saber quem é que eles são afinal. Para ser sincero, respondeu, não sei exactamente o que eles são, nem de onde vêm, se de outro planeta, de outro tempo ou até mesmo de outro plano de existência, mas posso garantir-te que existem, e são cada vez mais, exclamou. Mas como é que sabes isso, e falaste há bocado de um "lapso", de que é que estavas a falar, perguntei rapidamente. Há já muito tempo que os ando a observar, recomeçou depois de outra inspiração mais profunda, tudo começou quando, por acaso, assisti a um lapso, como eu lhe chamo, que é quando eles se reúnem para arranjar mais corpos. Pelo que já vi, continuou após uma pausa para um gole de chá, eles precisam de reunir-se em grande número para criar condições para que outros deles possam invadir os corpos dos coitados que lá estiverem que ainda não sejam deles. Eu assisti a um desses lapsos e sobrevivi, não sei como nem porquê, mas a verdade é que sobrevivi e fiquei a saber que eles existiam. Então... mas como é que foi, perguntei já com alguma curiosidade genuína. Eles vão-se juntando, ficam muito imóveis e com os olhos muito abertos; quando são suficientes algo acontece que automaticamente mata toda a gente à volta, respondeu elevando a voz, imaginas o meu pavor quando vejo toda a gente, excepto os que estavam feitos estátuas, a cair no chão ao mesmo tempo. E quando os vi todos novamente a levantar-se, perguntou retoricamente já visivelmente empolgado, claro que fiquei completamente petrificado, deixei-me estar quietinho que nem um rato, daqueles que ficam muito quietos, porque também os há bastante irrequietos, pensando bem... acho que até é a grande maioria... porque é que se dirá que se fica quieto que nem um rato... os ratos não são assim tão parados... acho que fica melhor é dizer que fiquei quieto que nem um caracol. Não consegui evitar abrir um sorriso ao ouvir a divagação, obviamente também achava que o termo se adaptava muito mais. Fiquei ali, quietinho como um caracol, disse retomando o discurso sem aparentar ter reparado no aumento da minha boa disposição, e vi-os todos levantar-se, acenar com a cabeça aos outros e saíram todos juntos. Isso é uma história e peras, respondi, à espera que continuasse. Desde aí tenho tentado salvar algumas pessoas, mas foste a primeira que consegui, todas as outras resistiram e acabaram mortas, disse com ar triste. Quem as pode censurar, se calhar não te vês ao espelho há muito tempo, pensei, mas, então e eles nunca te apanharam, foi o que da minha boca apenas se ouviu. Já tentaram, uma vez vieram atrás de mim até quase aqui, mas assim que chegaram perto da nespereira, era vê-los a correr como o diabo da cruz, exclamou com uma ponta de alegria. Também não sei ao certo porquê, mas há algo nas nespereiras que eles não suportam. Não sei se é o cheiro, ou algum químico que elas emanam, mas foi o que me salvou naquele dia e me tem mantido a salvo até hoje. Parece estúpido, não é, perguntou, a nossa única arma conhecida contra eles ser uma nespereira. Limitei-me a responder com um encolher de ombros, não achava que a questão da nespereira fosse tão mais absurda que o resto da história, achei até que se enquadrava. Absurdo mas verdade, continuou acariciando carinhosamente o tronco da nespereira, esta árvore salvou-me a vida, e desde esse dia tenho vivido aqui. Sem saber bem o que dizer, permiti-me alguns momentos de silêncio para saborear a extraordinária história do Caracol.
Chop Suey!
Wake up,
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die, Die,
Wake up,
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
Here you go create another fable
You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
Hide the scars to fade away the shakeup,
You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
In my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
Father, Father, Father, Father,
Father/ Into your hands/I/commend my spirit,
Father, into your hands,
Why have you forsaken me,
In your eyes forsaken me,
In your thoughts forsaken me,
In your heart forsaken, me oh,
Trust in my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die,
In my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die.
SYSTEM OF A DOWN
Chop Suey!
Grab a brush and put a little (makeup),
Grab a brush and put a little,
Hide the scars to fade away the (shakeup)
Hide the scars to fade away the,
Why'd you leave the keys upon the table?
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You wanted to,
Grab a brush and put a little makeup,
You wanted to,
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You wanted to,
Why'd you leave the keys upon the table,
You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die, Die,
Wake up,
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You wanted to,
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You wanted to,
I don't think you trust,
In, my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
In my, self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die
Father, Father, Father, Father,
Father/ Into your hands/I/commend my spirit,
Father, into your hands,
Why have you forsaken me,
In your eyes forsaken me,
In your thoughts forsaken me,
In your heart forsaken, me oh,
Trust in my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die,
In my self righteous suicide,
I, cry, when angels deserve to die.
SYSTEM OF A DOWN
Chop Suey!
quarta-feira, 27 de junho de 2007
O Caracol - Capítulo 1
A velha ébria cambaleava pelo passeio. A cada cinco ou seis passos parava, encostava-se ao muro e dava um gole na sagres de litro que trazia envolta num saco de plástico. Creio que o saco servia para disfarçar, e quem sabe não resultaria caso ela não fosse a praguejar sonoramente com o mundo, atraindo a atenção de toda a gente.
Distraí-me a olhar para o velhote, seguramente já bem acima dos sessenta, que, com o seu boné da moda, deslizava descontraidamente na paisagem sobre um par de patins em linha e quando dei por mim estava envolto num mar de gente que se deslocava no sentido inverso. Já quase a sufocar, acelero o passo, abrindo caminho pelo magote e quando me vi livre, encostei-me ao pilar a recuperar o fôlego. Levantando lentamente os olhos do chão, comecei a ver uma bengala de cego, continuando a levantar a cabeça, senti um nó na garganta ao fixar o olhar nos olhos do cego, abertos, completamente brancos! No meio daquele vazio, pareciam olhar para mim, para dentro de mim! Enquanto o arrepio descia pela coluna vertebral já eu corria em direcção à escada como quem foge do demo. Aliviante, uma visão fez-me deixar de sentir que teria, sem querer, atravessado um qualquer portal mágico e aterrado no meio de um filme surrealista.
Era o Caracol. Foi a alcunha que lhe coloquei por andar sempre com aquele saco enorme às costas, que deveria provavelmente conter todas as suas posses materiais. Via-o todos os dias, depois do almoço, quando dava uma volta para fumar um cigarro. Sempre com a casa às costas, como eu gostava de dizer a mim próprio, e com o seu ar pensativo, que de estúpido não tinha nada! Entretinha-me a pensar o que levaria no saco, imagino que pelo menos não tivesse lá uma tesoura, dado o tamanho da barba, que já com o cabelo misturado, lhe chega a meio do peito. Tinha adquirido uma simpatia por ele, que foi consolidada na única vez que se dirigiu a mim, com extrema educação para que, encarecidamente, lhe facultasse um cigarro. O que faria ali a esta hora, pensei.
Perante o meu ar aturdido ao perceber que se dirigia a mim, limitou-se a murmurar que tínhamos que sair dali enquanto me puxava pelo braço. Perplexo, deixei-me levar e só ao fim de algum tempo é que percebi que ainda murmurava. Qualquer coisa relacionada com o facto de ter tido que me salvar. Só abrandou quando chegámos a um beco, onde finalmente me olhou fixamente nos olhos. Não podia deixar-te ali, disse, estava mesmo quase a haver um lapso. Alguém que lá estivesse que não fosse deles, já deve estar morto. Quando disse "deles" a sua voz ficou trémula e, num acto instintivo encolheu a cabeça para dentro dos ombros enquanto olhava para ambos os lados. Quem são eles, perguntei. Shhhhh, ainda não estamos seguros, eles podem ouvir-nos.
Não sabia se seria pelo meu fascínio por aqueles a quem a sociedade apelida de loucos, por terem uma forma de pensar diferente do que é comum, mas a verdade é que me sentia impelido a alinhar na história. Mais até que impelido, parecia que nem o conseguiria evitar. Sei de um sítio seguro, disse o Caracol, enquanto me pegava novamente pelo braço e me levava a passo acelerado para uma qualquer parte incerta.
Visivelmente mais tranquilo, apontou-me um monte de tijolos quando chegámos. Era um beco entre três prédios muito antigos, com uma entrada estreita e um espaço relativamente amplo onde havia uma nespereira de tamanho considerável. Sentei-me nos tijolos enquanto olhava à volta, surpreendido pelo asseio do local.
Bom, disse, trago aqui jantar, hoje já não saio. E pousando o saco no chão, sem dizer mais nenhuma palavra, ante o meu olhar intrigado, começou por retirar um toldo. Preso a duas cavilhas estrategicamente colocadas nas paredes e com outra ponta amarrada na nespereira, rapidamente o toldo se transformou numa tenda. Não é que o Caracol trazia mesmo a casa às costas, pensei sorrindo. Continuou o seu afazer, retirando também um saco-cama, um daqueles pequenos fogões de campismo e um saco mais pequeno, que continha alguns víveres e pequenos utensílios de cozinha. Estendeu o saco-cama, colocou o fogão onde, pela marca no chão era notório ser o seu sítio e, retirando um pequeno púcaro, colocou ao lume uma porção de água obtida de um garrafão habilmente escondido a um canto. Efectuou todo o processo com bastante calma, nem parecia o mesmo de há momentos atrás e, como se se tivesse esquecido que eu ali estava, sem proferir uma palavra. Limitei-me também a observá-lo até que, por fim, retirando uma saqueta de chá, quebrou o silêncio dizendo: Vou fazer-nos um chazinho para ajudar a descontrair. Aqui estamos a salvo, é como se estivéssemos invisíveis para eles. E vai dizer-me quem são eles agora, perguntei. Sim, sim, respondeu, é preciso é ter calma, conto-te tudo durante o chá, e podes tratar-me por tu. Já agora, acrescentou, queres com ou sem cheirinho? Pode ser com, respondi com um sorriso cúmplice. O seu rosto contorceu-se num esgar que interpretei como um sorriso, o primeiro e único que o vi esboçar.
Distraí-me a olhar para o velhote, seguramente já bem acima dos sessenta, que, com o seu boné da moda, deslizava descontraidamente na paisagem sobre um par de patins em linha e quando dei por mim estava envolto num mar de gente que se deslocava no sentido inverso. Já quase a sufocar, acelero o passo, abrindo caminho pelo magote e quando me vi livre, encostei-me ao pilar a recuperar o fôlego. Levantando lentamente os olhos do chão, comecei a ver uma bengala de cego, continuando a levantar a cabeça, senti um nó na garganta ao fixar o olhar nos olhos do cego, abertos, completamente brancos! No meio daquele vazio, pareciam olhar para mim, para dentro de mim! Enquanto o arrepio descia pela coluna vertebral já eu corria em direcção à escada como quem foge do demo. Aliviante, uma visão fez-me deixar de sentir que teria, sem querer, atravessado um qualquer portal mágico e aterrado no meio de um filme surrealista.
Era o Caracol. Foi a alcunha que lhe coloquei por andar sempre com aquele saco enorme às costas, que deveria provavelmente conter todas as suas posses materiais. Via-o todos os dias, depois do almoço, quando dava uma volta para fumar um cigarro. Sempre com a casa às costas, como eu gostava de dizer a mim próprio, e com o seu ar pensativo, que de estúpido não tinha nada! Entretinha-me a pensar o que levaria no saco, imagino que pelo menos não tivesse lá uma tesoura, dado o tamanho da barba, que já com o cabelo misturado, lhe chega a meio do peito. Tinha adquirido uma simpatia por ele, que foi consolidada na única vez que se dirigiu a mim, com extrema educação para que, encarecidamente, lhe facultasse um cigarro. O que faria ali a esta hora, pensei.
Perante o meu ar aturdido ao perceber que se dirigia a mim, limitou-se a murmurar que tínhamos que sair dali enquanto me puxava pelo braço. Perplexo, deixei-me levar e só ao fim de algum tempo é que percebi que ainda murmurava. Qualquer coisa relacionada com o facto de ter tido que me salvar. Só abrandou quando chegámos a um beco, onde finalmente me olhou fixamente nos olhos. Não podia deixar-te ali, disse, estava mesmo quase a haver um lapso. Alguém que lá estivesse que não fosse deles, já deve estar morto. Quando disse "deles" a sua voz ficou trémula e, num acto instintivo encolheu a cabeça para dentro dos ombros enquanto olhava para ambos os lados. Quem são eles, perguntei. Shhhhh, ainda não estamos seguros, eles podem ouvir-nos.
Não sabia se seria pelo meu fascínio por aqueles a quem a sociedade apelida de loucos, por terem uma forma de pensar diferente do que é comum, mas a verdade é que me sentia impelido a alinhar na história. Mais até que impelido, parecia que nem o conseguiria evitar. Sei de um sítio seguro, disse o Caracol, enquanto me pegava novamente pelo braço e me levava a passo acelerado para uma qualquer parte incerta.
Visivelmente mais tranquilo, apontou-me um monte de tijolos quando chegámos. Era um beco entre três prédios muito antigos, com uma entrada estreita e um espaço relativamente amplo onde havia uma nespereira de tamanho considerável. Sentei-me nos tijolos enquanto olhava à volta, surpreendido pelo asseio do local.
Bom, disse, trago aqui jantar, hoje já não saio. E pousando o saco no chão, sem dizer mais nenhuma palavra, ante o meu olhar intrigado, começou por retirar um toldo. Preso a duas cavilhas estrategicamente colocadas nas paredes e com outra ponta amarrada na nespereira, rapidamente o toldo se transformou numa tenda. Não é que o Caracol trazia mesmo a casa às costas, pensei sorrindo. Continuou o seu afazer, retirando também um saco-cama, um daqueles pequenos fogões de campismo e um saco mais pequeno, que continha alguns víveres e pequenos utensílios de cozinha. Estendeu o saco-cama, colocou o fogão onde, pela marca no chão era notório ser o seu sítio e, retirando um pequeno púcaro, colocou ao lume uma porção de água obtida de um garrafão habilmente escondido a um canto. Efectuou todo o processo com bastante calma, nem parecia o mesmo de há momentos atrás e, como se se tivesse esquecido que eu ali estava, sem proferir uma palavra. Limitei-me também a observá-lo até que, por fim, retirando uma saqueta de chá, quebrou o silêncio dizendo: Vou fazer-nos um chazinho para ajudar a descontrair. Aqui estamos a salvo, é como se estivéssemos invisíveis para eles. E vai dizer-me quem são eles agora, perguntei. Sim, sim, respondeu, é preciso é ter calma, conto-te tudo durante o chá, e podes tratar-me por tu. Já agora, acrescentou, queres com ou sem cheirinho? Pode ser com, respondi com um sorriso cúmplice. O seu rosto contorceu-se num esgar que interpretei como um sorriso, o primeiro e único que o vi esboçar.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Paleta
- Não percebo porque sentes a necessidade de me vires com essas tangas.
- Que tangas? Porque é que dizes que são tangas?
- Não é preciso levar à letra. Não quer dizer que seja mentira no seu sentido mais estrito, mas essa é a história que se contaria a qualquer um. Devo referir que é comigo que estás a falar?
- Se fosse outro nem sequer haveria história.
- Acredito. Mas já que há história, podes aproveitar para abrir a guarda e contar a história como ela é. Revelares realmente o que estás a sentir.
- Mas é o que eu estou a fazer. Não tenho culpa que não acredites.
- Não é uma questão de acreditar ou não. Volto a dizer que não estou a falar de mentira, estou a falar de genuinidade.
- Genuinidade?
- Sim. Percebe-se facilmente quando uma pessoa não está a ser genuína, e às vezes nem é preciso conhecê-la bem. Então, quando se conhece a pessoa, percebe-se facilmente quando é que ela está a “dar a paleta”, como se costuma dizer. Há pessoas que são genuínas por natureza, outras são-no apenas com aqueles com quem se sentem mesmo à vontade, mas acho que tu não o és com ninguém. E a questão é que não percebo a necessidade de “dares a paleta” comigo, sabes perfeitamente que eu não te vou julgar.
- Mas como é que sabes que não estou a ser genuíno? Se achas que nunca o fui contigo não podes saber a diferença.
- É daquelas coisas que se percebe. Percebe-se quando as pessoas tiram a máscara. Nota-se.
- Mas nota-se como?
- Bom… esquece lá isso…
- Ok, tudo bem. Vou mas é pedir mais duas.
- Que tangas? Porque é que dizes que são tangas?
- Não é preciso levar à letra. Não quer dizer que seja mentira no seu sentido mais estrito, mas essa é a história que se contaria a qualquer um. Devo referir que é comigo que estás a falar?
- Se fosse outro nem sequer haveria história.
- Acredito. Mas já que há história, podes aproveitar para abrir a guarda e contar a história como ela é. Revelares realmente o que estás a sentir.
- Mas é o que eu estou a fazer. Não tenho culpa que não acredites.
- Não é uma questão de acreditar ou não. Volto a dizer que não estou a falar de mentira, estou a falar de genuinidade.
- Genuinidade?
- Sim. Percebe-se facilmente quando uma pessoa não está a ser genuína, e às vezes nem é preciso conhecê-la bem. Então, quando se conhece a pessoa, percebe-se facilmente quando é que ela está a “dar a paleta”, como se costuma dizer. Há pessoas que são genuínas por natureza, outras são-no apenas com aqueles com quem se sentem mesmo à vontade, mas acho que tu não o és com ninguém. E a questão é que não percebo a necessidade de “dares a paleta” comigo, sabes perfeitamente que eu não te vou julgar.
- Mas como é que sabes que não estou a ser genuíno? Se achas que nunca o fui contigo não podes saber a diferença.
- É daquelas coisas que se percebe. Percebe-se quando as pessoas tiram a máscara. Nota-se.
- Mas nota-se como?
- Bom… esquece lá isso…
- Ok, tudo bem. Vou mas é pedir mais duas.
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