quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Outra vez a merda do aborto...

Há pelo menos duas coisas que me chateiam neste assunto, e nem sequer vou falar no facto desta lei ser uma hipocrisia, que é. Uma delas é a lei em si. Se a lei considera que aquele conjunto de células é um ser humano, se há premeditação e intenção, porque é que o aborto não é tratado como um homicídio qualificado? Mas se calhar a lei não é assim tão “religiosa”. Outra coisa que me chateia, e muito, é o facto dos senhores do “não” acharem que toda a gente tem que se reger pela sua visão das coisas. Ninguém lhes vai obrigar a fazer abortos se a despenalização for avante! Porque é que hão-de querer impor a sua opinião aos outros? Eu vou votar “sim” e não tem absolutamente nada a ver com a minha posição em relação ao aborto. Vou votar assim porque acho que é uma questão na qual cada um deve agir segundo a sua consciência, quem é contra pode continuar a ser contra e quem precisa já não tem que ir a Espanha ou a um vão de escada qualquer. Será que a gente do “não” não compreende que não evita nenhum aborto? E mesmo que evitasse não estaria só a contribuir para que existissem ainda mais crianças indesejadas e desacompanhadas por este nosso país? Será que não era melhor abortar em vez de matar os filhos por anos de negligência e maus-tratos? Senhores do “não”, já vimos do que certos pais são capazes. Isto leva-me a crer que estes senhores que defendem o “não”, são pessoas que não estão preocupadas com o bem-estar dos outros, nem sequer com a defesa da vida, mas sim em impor a sua noção de certo e errado a toda a gente.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Diálogos

- Faz-me confusão que, tendo tu já mais de trinta anos, os teus pais não saibam que fumas.

- Já reparaste que, quando passas muito tempo com uma pessoa, é como se ela deixasse de ter corpo? Deixa de ser bonita ou feia, gorda ou magra; passa a ser apenas aquela pessoa. Deixamos até de perceber diferenças físicas.

- Porque é que fazes isso? Decorre um momento de silêncio em que estamos com os nossos pensamentos e, quando eu digo alguma coisa, tu ages como se eu não tivesse falado e dizes outra coisa qualquer. Eu sei que deve ser na sequência do que estavas a pensar, mas não é simpático ignorares totalmente o que eu disse.

- Desculpa, é completamente instintivo. Mas eu ouvi o que disseste, sobre os meus pais não saberem que eu fumo. Acho que já passei a idade de lhes dizer.

- É verdade, quando te habituas a ver uma pessoa, ela deve passar para outra região qualquer da memória. Mesmo que inicialmente aches seja bonita ou feia, acabas por deixar de perceber isso bem. É aquela pessoa e pronto, o aspecto físico deixa de ter significado.

- Outra coisa é o toque. Não sei se sentes isso, mas a sensação das primeiras vezes que cumprimentas uma pessoa com contacto físico, um aperto de mão ou um beijinho, muda com a frequência do contacto. Acho que no limite, será como se fosses tu próprio a tocar-te. A minha teoria é que para um casal que já esteja junto há várias décadas, a sensação do toque do outro será a mesma do próprio.

- Acho que nunca passa a idade de se ser sincero. E a verdade é que eles são bem capazes de já saber, ou pelo menos desconfiar.

- Pois, isso é capaz de ser tudo verdade, mas tu nunca mais vais ter a sensação de fumar um cigarro às escondidas.

- Eu acho que cada pessoa tem algo como uma assinatura energética única que é minimamente perceptível ao toque. E sim, acho que é um fenómeno semelhante. Quando te habituas à assinatura energética de uma pessoa começas a senti-la menos.

- Acho que faz bastante sentido.

- Pois é... Nunca mais...

- ...

- ...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Vida

Barco à deriva,
Ao sabor das ondas,
À mercê dos ventos,
Entregue às correntes.
O barqueiro invoca todas as suas forças,
Estoicamente, agarra-se ao leme,
Mas é uma minúscula embarcação.
Que pode ela fazer contra a força dos elementos?
Que pode o barqueiro fazer?
Contra os demónios que o atormentam,
Contra os pensamentos que não o largam,
Contra as emoções que o arrebatam.
Fará o que pode,
Confiará na boa vontade dos gigantes.
Continuará agarrado ao leme.
Qualquer que seja a costa,
Qualquer que seja o porto,
A que os ventos o entreguem,
Render-se-á a seu talante,
Apenas pode tentar,
Tentar não naufragar.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Diálogo

- Estás a dormir?

- ...

- Estás, não estás?

- ...

- Não faz mal, é quando consigo falar melhor contigo. Gosto muito de ter estes momentos para falar contigo. Acho que conseguimos mesmo estabelecer uma ligação, um entendimento.

- ...

- É isso. Sabes, tenho andado um bocado farto de tudo. Não ando deprimido nem nada, só um bocado desanimado. E já sei o que estás a pensar, ficas logo a pensar que já não te amo ou qualquer coisa assim. Não é nada disso, acho que, apesar das nossas divergências, conseguimos fazer a coisa resultar e estou muito satisfeito com o que construímos. O que me apetecia era mudar de vida, mudarmo-nos para outro sítio, para o campo, talvez...

- ...

- Eu sei, eu sei, tens muito medo das mudanças, mas eu preciso tanto delas, não consigo aguentar muito tempo a ter dias sempre todos iguais, ano após ano. E além do mais, estamos na era da comunicação. Ir viver para outra cidade, ou até mesmo para outro país, não é a o que era. Agora é muito fácil manter o contacto com as pessoas de quem gostamos. A província... apetecia-me mesmo deixar a cidade. Ir viver para uma aldeiazita recôndita num canto qualquer lá para o Norte. Viver da terra e tal.

- ...

- Não precisas de dizer, eu sei que iamos sentir falta dos concertos, da cultura, do cais... mas podíamos sempre vir passar um fim-de-semana ou umas férias a Lisboa. Já imaginaste? A paz, as estrelas, os grilos, o ar puro... o verde... Acho que não sentiria falta de nenhuma comodidade, cada vez estou mais desligado delas. Aliás, tenho a certeza que iamos chegar à conclusão de que não precisamos da grande maioria das coisas sem as quais achamos que não conseguiriamos viver felizes.

- ...

- Pelo menos não estás já a arranjar argumentos sem sentido, é uma das razões que faz com que seja muito mais fácil falar contigo nestas circunstâncias, parece que entendes melhor as coisas, que a conversa é muito menos tortuosa. Pelo menos não vens logo com as tuas ideias preconcebidas e os teus estereotipos, com a tua mania de que o mundo tem que ser exactamente aquilo que o teu discernimento te permite inferir dele. E fico muito contente por não estares já a destruir a minha ideia. Até acho mesmo que, já que não te estás a opor, devíamos vender a casa e comprar um terreno na província. Plantarmos a nossa horta, tudo biológico, claro, até podíamos ter uma cabra para dar leite...

- ...

- Já nos estou a imaginar, a passar os serões envolvidos pelos cheiros da natureza, ver a Lua aparecer por detrás do monte, com os cães e os gatos à nossa volta. Eu podia escrever, tu podias fazer aquelas esculturas horríveis e inúteis que tanto gostas de fazer, e a vida seria boa. Não é um belo pensamento?

- ...

- Nem imaginas como fico contente por não discordares. Está decidido então, amanhã pomos a casa à venda e vou começar a procurar um terreno com uma casita para comprarmos. Agora só espero que amanhã não me venhas com as tuas mudanças de opinião da noite para o dia!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Definição de ... enxergar


v. tr.,
ver a custo, com dificuldade;
entrever;
divisar;
avistar;


fig.,
pressentir
;
adivinhar;
perceber;
entender.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Piada triste

É curioso como conseguimos achar hilariantes coisas que na vida real seriam muito tristes. O que eu deliro com as cenas do Basil Fawlty, quando debita mentiras atrás de mentiras, tapando umas com as outras; ou aquela cena do George Constanza quando está a fazer o teste de QI, em que todas as evidências estão contra ele e ele continua a mentir, vale tudo menos admitir a verdade, isso nunca! Mas na vida real não tem absolutamente piada nenhuma estarem a mentir-nos descaradamente.
Outra cena que talvez tivesse piada seria um elemento de um casal professar o seu amor pelo outro e em resposta receber desconfiança. Acho que até seria cómica uma frase do tipo "achei muito estranha a tua intervenção, pareceu-me apaixonada demais...", mas na realidade não tem mesmo graça.
É estranho acharmos piada a coisas tão tristes.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Sentimentos

"A mais conhecida das recomendações de Espinosa no que respeita a viver uma vida bem vivida consistia numa prescrição dupla: um sistema de comportamento ético e um estado democrático. Mas é evidente que não pensava que obedecer a regras éticas e obedecer às leis de um estado democrático fosses suficientes para atingir as formas mais elevadas de contentamento, a alegria sustenida que, para ele, se confunde com a liberdade e com a salvação humana. A minha impressão é que a maior parte dos seres humanos de hoje também não acha suficiente essa dupla prescrição. Pretendemos que a vida nos dê qualquer coisa que vai para além de uma conduta moral e legal, para além das satisfações do amor, da família, das amizades e da boa saúde, para além das recompensas que resultam do trabalho (satisfação pessoal, aprovação dos outros, honra, dinheiro), para além da indulgência dos prazeres privados e da acumulação de posses e para além da identificação com um país ou com a humanidade. Muitos seres humanos requerem também qualquer coisa que envolva uma certa clareza sobre o significado da vida. Esta necessidade, articulada com nitidez ou de forma confusa, pouco importa, consiste num anseio de conhecer uma origem e um destino, de onde viemos e para onde vamos, e de esclarecer a finalidade que a nossa vida pode ter para além da existência imediata.
Nem todos os seres humanos têm tais necessidades. Aquilo de que um ser humano precisa para viver feliz varia consideravelmente com a personalidade, inquisitividade e circunstâncias socioculturais, já para não falar nas diferenças que têm a ver com a idade e com o tamanho da conta bancária. A juventude dá-nos pouco tempo para apreciar as limitações da condição humana, e a riqueza encobre muitas dessas limitações. E para quê pedir mais que juventude, saúde e boa fortuna, dirão alguns? Mas, para aqueles que reconhecem um tal anseio, vale a pena perguntar por que razão querem atingir qualquer coisa que não parece particularmente fácil e pode até nunca ser atingida. Por que razão são os tais clareza e conhecimento extras assim tão desejáveis?
Podíamos começar a resposta dizendo que o tal anseio é um traço profundo da mente humana. Este traço está enraizado no desenho do cérebro humano e no genoma que permite o desenvolvimento desse cérebro, como os traços profundos que nos levam, com grande curiosidade, a explorar sistemáticamente o nosso próprio ser e o universo que nos rodeia, os mesmos traços que nos impelem a construir explicações para os objectos e situações desse universo. A origem evolucionária do anseio é inteiramente plausível, mas é necessário evocar um outro factor para perceber a razão por que a natureza humana incorporou esse traço. Creio que esse outro factor estava já presente nos primeiros seres humanos, tal como está presente hoje em dia. A sua consistência tem a ver com o poderoso mecanismo biológico que lhe está por trás: o mesmo esforço natural de auto-preservação que Espinosa articula tão transparentemente como uma essência dos nossos seres, o conatus, é posto em acção quando somos confrontados com a realidade do sofrimento e, especialmente com a realidade da morte, real ou antecipada, nossa ou daqueles que amamos. A perspectiva de sofrimento e morte compromete o processo homeostático de quem os confronta. A procura de auto-preservação e do bem-estar responde a este compromisso como uma tentativa de evitar o inevitável e regressar assim ao equilíbrio. É uma tentativa árdua que nos leva a procurar estratégias compensatórias para a homeostasia perdida. A partir do momento em que reconhecemos essa situação desenvolve-se em nós um profundo pesar.
Uma vez mais, nem todos os seres humanos reagirão deste modo, por uma razão ou por outra, numa altura da vida ou noutra. Mas os seres humanos que reagem da forma que descrevi, quer consigam ou não resolver o impasse e recuperar o equilíbrio, reconhecem a dimensão trágica desta situação, bem como o facto de que é exclusivamente humana.
Tanto quanto a consigo entender, esta situação resulta, em primeiro lugar, do facto de termos sentimentos - não apenas emoções, mas sentimentos -, em particular os sentimentos de empatia, através dos quais tomamos conhecimento da nossa simpatia emotiva natural para com os outros. Nas circunstâncias apropriadas, a empatia abre as portas ao pesar. Em segundo lugar, a situação resulta de dois dons biológicos, a consciência e a memória. Partilhamos consciência e memória com outras espécies, mas não há dúvida que a consciência e a memória atingem um grau e uma sofisticação extraordinariamente grandes nos seres humanos. No sentido estrito da palavra, a consciência significa a presença de uma mente com um si, mas, em termos práticos, a palavra significa qualquer coisa mais. Com a ajuda da memória autobiográfica a consciência permite-nos ter um si enriquecido pelas recordações da nossa própria experiência individual. Quando enfrentamos cada novo momento da nossa vida, como seres conscientes, influenciamos esse momento com as circunstâncias das alegrias e tristezas passadas, bem como as circunstâncias imaginárias do nosso futuro antecipado, essas circunstâncias futuras que, presumivelmente, nos trarão mais alegrias e mais tristezas.
Se não fosse este nível tão alto de consciência humana, nunca haveria angústia notável, agora ou no amanhecer da humanidade. Aquilo que não sabemos não nos pode ferir. Se tivéssemos o dom da consciência mas não nos tivesse sido dada a memória, também não teríamos qualquer angústia. Aquilo que sabemos, no presente, mas somos incapazes de colocar no contexto da nossa história pessoal, apenas nos pode ferir no presente. É a combinação destas duas benesses, a consciência e a memória, bem como a sua abundância, que causam o drama humano e que conferem a esse drama o seu estatuto trágico. Felizmente para nós, esses mesmos dons são também a fonte da alegria sem limites e da glória humana que lhe corresponde. Felizmente que viver uma vida bem examinada é também um privilégio e não apenas uma maldição. Nesta perspectiva, qualquer projecto de salvação humana - qualquer projecto capaz de tornar uma vida examinada numa vida feliz - deve incluír meios para resistir à angústia causada pelo sofrimento e pela morte, meios para suprimir a tristeza e para a fazer substituir pela alegria. A neurobiologia da emoção e do sentimento diz-nos, em termos bem sugestivos, que a alegria e as suas variantes são preferíveis à tristeza e às suas variantes, que a alegria leva mais facilmente à saúde e ao florescer criador. Não parece haver aqui qualquer equívoco: devemos procurar a alegria por decreto assente na razão, mesmo que a procura pareça tola e pouco realista. Para aqueles que não têm fome e que não vivem sob um regime opressivo, é necessário compreender que estar vivo é um privilégio."
in Ao encontro de Espinosa, Manuel Damásio


Acha o Sr. Damásio, e na minha opinião faz todo o sentido, que todos os mecanismos que conseguímos que evoluíssem no nosso cérebro humano, mais precisamente o sentimento a que ele chama "si" (self), foram despoletados pelo instinto natural de auto-preservação, presente em todos os seres, até mesmo nos unicelulares que, coitaditos, nem sequer podem sonhar em ter um sistema nervoso.
Ou seja, toda a nossa consciência e engenho humanos, não foram mais do que ferramentas que a evolução nos ofereceu para melhor nos preservarmos. Para melhor atingirmos o que todos os seres viventes procuram: o bem-estar. Mais que a simples neutralidade, não estar bem nem mal, todos os seres procuram o conforto.
Pergunto-me se a natureza não terá errado no nosso caso. Creio que a um nível mais primitivo o sentimento de si terá sido uma óptima ferramenta para não só sobreviver, como encontrar o bem-estar. Acho no entanto, que o nível de evolução que atingimos já não nos ajuda tanto a atingir tal meta. Estamos no ponto em que a consciência associada à memória já nos trazem mais pesar que alegria. Estamos no ponto em que começámos a achar que a ignorância é uma benção ("Aquilo que não sabemos não nos pode ferir").
Gosto de acreditar que é um passo necessário para o que virá depois, que temos que passar por isto para evoluír mais além. Até ao ponto de ser realmente possível para um ser humano, atingir a plenitude. É pena é que para isto tenhamos, eventualmente, que evoluír para além dos sentimentos.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Memória

Trocar de telemóvel é sempre uma experiência algo traumática. Ter que arranjar espaço na memória do cartão para todos os contactos que estão na memória do telefone é angustiante. É um misto de sentimentos, quase como reviver o passado. Há os fáceis, relações profissionais antigas, que são eliminadas com a maior ligeireza, números de pessoas que já não faço a mais pequena ideia quem sejam, que apesar de provocar uma sensação estranha, também são apagados com bastante tranquilidade. O pior é quando chegam aquelas pessoas que, apesar de ter perfeita consciência que nunca lhes vou telefonar e que, provavelmente até já apagaram o meu número da lista, não consigo deixar de sentir que estou a apagar uma parte do meu passado, que estou a apagar completamente uma pessoa da minha vida. É verdade que, se não tivesse que rever os meus contactos, nunca mais me iria lembrar que tais pessoas existiam e que uma vez se cruzaram comigo; mas mesmo não estando na minha memória, estavam lá, na memória daquele cartãozinho, e apagá-los daí é o mesmo que eliminá-los completamente da minha vida.
Há que encaixar que a vida não nos permite ter um número ilimitado de amizades, e saber cultivar as que temos. E eu dou-me por muito contente por as que ela me permite ter serem do melhor que há!
Seja este post uma homenagem a todos os que foram apagados da memória do meu cartão SIM e a todos os que não precisam de lá estar. Bem hajem!

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Palmas!

Palmas para aquele que largou tudo e foi para Amesterdão perseguir a sua carreira como tocador (solista!) de digeridoo (ainda lá deve estar, com a sua cartola para os trocos... e que belos sons tira ele do instrumento!).
E já agora... algumas para aqueles que lá foram e o único museu que visitaram foi o de instrumentos de tortura.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Irreal

Sou irreal, surreal,
Não pertenço ao mundo real
Nem sei se realmente existo
Ou se apenas sou transparente,
Invisível a olho nu…

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Compreensão

Será assim tão difícil distinguir a timidez da antipatia?
Será talvez difícil se não tivermos o (bom) hábito de nos colocarmos no lugar de outra pessoa antes de a julgarmos ou criticarmos. Eu até compreendo que, se uma pessoa não nos cumprimenta ou não estabelece um diálogo, o instinto será considerarmos a pessoa antipática e anti-social. No entanto, se fizermos o exercício de nos colocarmos na pele dessa pessoa, acho que não será complicado descobrir outras possíveis razões para a aparente anti-sociabilidade. Uma das quais a timidez.
Falo desta questão em particular porque creio ser por vezes vítima dela; mas a verdade é que, de forma geral, se antes de julgarmos alguém pela nossa perspectiva, tentarmos fazê-lo da perspectiva de quem estamos a julgar, fará com que o nosso julgamento não seja tão tendencioso. Se uma pessoa faz qualquer coisa que nos parece absurda, antes de a rotularmos como absurda, devemos pelo menos tentar compreender o que leva uma pessoa a fazer algo que nos parece tão absurdo. Acredito que na maioria das vezes chegaremos à conclusão que, se calhar, a atitude nem foi assim tão descabida. Numa palavra: compreensão.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Pergunto-me... #2

Lá está ele outra vez! Se eu tivesse tendência para a paranóia diria que me persegue, mas sei que não. A razão pela qual o encontro aqui em vez do local habitual é exactamente a mesma que também me faz estar aqui: é Domingo e o outro café está fechado. E se o encontro sempre que vou ao café não é porque me persiga, a razão é muito mais simples: ele está sempre lá.
Agora que aparentemente deixou de beber álcool fico ainda mais intrigado quando decido observá-lo. Não que ache errado, até acho muito bem que tenha deixado de beber álcool, mas deixa-me mais dúvidas sobre o que o traz aqui. Sobre o que o leva a passar a vida sozinho no café.
Inquieto, demonstrando alguma ansiedade. Esse sentimento absurdo que nos faz querer apenas fazer o que não estamos a fazer, estar onde não estamos, embora nunca nos elucide sobre o que queremos fazer ou onde queremos realmente estar.
Talvez por ter consciência que é apenas um sentimento absurdo que não se esvai por fazermos outra coisa ou irmos para outro sítio, fica ali, agitando nervosamente os pés, como quem ouve musica mentalmente, sozinho.
Porque é que ele, sendo já bem conhecido no sítio, quase que fazendo já parte da decoração, não fala com ninguém?
Porque é que não traz um livro? Porque é que não lê um jornal? Porque é que se limita a existir ali?
Pergunto-me o que é que pode esvaziar assim a vida de um homem.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Religião = Discriminação

Será possível que não haja nenhuma religião que não discrimine as mulheres? Não consigo compreender como é que elas conseguem submeter-se a isso. Como é que ainda não surgiu uma religião alinhada com os nossos tempos. E não me venham com as tretas do budismo porque também nunca vi uma monja budista!

Oh malfadado ópio do povo!
Oh miserável conforto das massas que embruteces o ser humano!
Oh cegueira maldita que estagnas o mundo!
Desprezo-te com todo o meu espírito, viva ele eternamente ou morra com o meu corpo!

terça-feira, 9 de maio de 2006

Orgulho

Deve ser das coisas mais difíceis na vida. Bom, isso e talvez retirar sozinho e sem anestesia a chave que abre a máscara mortífera que o psicopata nos colocou, chave essa que se encontra alojada por trás do nosso olho... Desculpem, vi o Saw II há muito pouco tempo... Falo de sermos mais fortes que o nosso orgulho. É mesmo muito difícil conseguirmos ser mais fortes que o nosso orgulho, mas o facto de ser difícil só traz mais mérito a quem consegue. Eu compreendo que sentirmo-nos humilhados ou injustiçados nos corroa por dentro, mas acho que só temos a ganhar se conseguirmos ultrapassar estes sentimentos sem nos submetermos à vontade do nosso orgulho. Pensem naquilo de que já nos privámos, que já sofremos, que já fizemos sofrer os outros, nas atitudes absurdas que já tivemos por causa do orgulho. Não teria sido melhor se tivéssemos tido a capacidade de o vencer? Não teríamos sido muito mais felizes? Não nos teríamos sentido melhor connosco próprios? Pessoas melhores, mais sensatas? Eu sei que não é fácil ignorar aquela vozinha que nos diz que estamos a ser tansos, que toda a gente vai pensar que somos uns totós. Mas o que é que interessa o que os outros pensam se soubermos ter agido da forma mais decente e racional? Não nos mostramos pessoas melhores se soubermos dar o braço a torcer e não permitirmos que o nosso orgulho nos impeça de reconhecer que errámos?
Notoriamente esta questão está intimamente ligada ao factor imagem. Há pessoas para quem a imagem é tudo e o facto de alguém ficar a pensar que são parvos ou fracos (mesmo até que seja verdade) é insuportável. No entanto não creio ser necessário converter-se ao budismo (se bem que mal não faria) para compreender que essa atitude é primitiva. Basta olhar para a humanidade e verificar que as sociedades mais "civilizadas" são aquelas em que as pessoas começaram a despender cada vez menos energia a defender aquilo a que muitas vezes erradamente se chama honra e que não passa de puro orgulho. E se quiserem comprovar basta ofenderem um árabe e um europeu do norte e verem a diferença.
Há uma velha história chinesa que ilustra esta questão que vou tentar abreviar por palavras minhas.
Viveu em tempos um grande e respeitado espadachim que um dia, num beco, encontra um brutamontes que não conhecia a sua fama. O brutamontes decidiu meter-se com o espadachim humilhando-o, naquela atitude que os brutamontes têm que os faz sentir mais confiantes e seguros. Disse-lhe que se quisesse passar, teria que o fazer por baixo das suas pernas. O espadachim, apesar de exímio guerreiro e de saber que numa questão de segundos deixaria o brutamontes estendido no chão, talvez até morto, não achou que a defesa do seu orgulho justificaria um conflito. Passou por debaixo das pernas do brutamontes e seguiu caminho, satisfeito por ter provado a si mesmo que a força do seu carácter era superior à força do seu orgulho.
É claro que o brutamontes se sentiu muito poderoso e que ficou a pensar que o espadachim era um verdadeiro banana. Mas alguém me consegue explicar porque é que o espadachim se devia importar com isso?

Nota: Não quero, de maneira nenhuma, insinuar que consigo vencer sempre o meu orgulho. No entanto faço por isso e lá vou conseguindo uma vez por outra...

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Um ápice

Foi um ápice.
Não sei ao certo quanto tempo foi.
Se dias, semanas ou até meses.
Agora parece-me que foi um instante.
Infinitamente pequeno intervalo de tempo
Ínfimo momento… um ápice!

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Pergunto-me...

Será possível, pelo menos teoricamente, que toda a Humanidade, que todo e qualquer ser humano deste planeta consiga ser feliz ao mesmo tempo?
Ou será que a felicidade de uns implica sempre e inevitavelmente a infelicidade de outros?
Se calhar é mesmo como diz aquela musica, o sonho de um homem é o pesadelo de outro...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Sem título

Não se encontra a liberdade no cano de uma arma.
Nunca haverá paz pelo impacto seco de um percutor atingir uma cápsula de sofrimento, impelindo um projéctil através de músculo, osso e vísceras.
Não haverá harmonia pela violência, e a felicidade, essa nunca se obterá pela vileza.