sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Uma lufada de ar fresco

É sempre uma lufada de ar fresco encontrar a velhota da cadeira de rodas quando deixo a criança no infantário. Faz-nos tão bem encontrar pessoas que aparentemente teriam mais razões para estar descontentes com a vida e, pelo contrário, transbordam alegria.
A primeira vez que reparei nela tinha encontrado uma pessoa amiga e, com um sorriso aberto e genuíno disse: “Desculpe não me levantar…”. Foi suficiente para ficar bem-disposto o resto do dia.
Da última vez que a vi, com a sua alegre simpatia, meteu-se com o pequeno a dizer-lhe que também tinha um carrinho, e que o dela até tinha buzina. Parece que há pessoas que são incapazes de ver a vida de forma pessimista, incapazes que qualquer sentimento de auto-comiseração. Provavelmente as únicas que conseguem ser plenamente felizes, e sempre nos vão dando uma ajudinha.
Obrigado senhora da cadeira de rodas!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Testosterona

Ontem vinha eu para o trabalho e há uma carrinha que passa em sentido contrário e buzina. Não sei porque buzinou, nem sei se foi para mim ou para o gajo que ia à minha frente, só sei que ele parou por uns segundos e num ápice faz inversão de marcha e vai feito doido atrás do gajo da carrinha. Quanta testosterona é preciso ter no sangue para se fazer uma coisa destas? Faz-me mesmo confusão como é que alguém se dá ao trabalho de largar tudo para ir defender o seu orgulho porque levou uma buzinadela, ou porque levou com “o dedo”, ou até porque lhe chamaram isto ou aquilo. Fico satisfeito por ser uma situação cada vez menos comum nas nossas estradas, mas há aí povo que talvez só lá vá com um tratamento hormonal…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Fundo do Baú III

Também havia lá este, não sei bem o que é que quer dizer, nem sequer se está acabado, mas é definitivamente o melhor dos meus poemas que contêm a palavra 'porém'! Não serei, pelo menos, novamente acusado de tentar alterar a História, era assim que estava no fundo do baú, é assim que fica!

Enganadora é a luz do dia que faz da vida uma sombra recortada
Só a noite é lúcida, porém o sono acaba sempre por vencê-la
Por isso a trocamos pelo sonho, cobrindo a nudez crua da verdade com o diáfano manto da fantasia
Melhor que a escura realidade onde os sentimentos são pardos
Mas sempre o nascente sol cobre novamente a vida com a sua máscara de luz
Distorce formas e emoções, enganando os nossos olhos com as mais vivas e reluzentes cores.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Afiar as garras - Um ano de Tertúlia dos Néscios

Pois é verdade. Esta nossa tertúlia de néscios fez um anito! Parabéns para nós! :) (o post vem atrasado, mas sexta foi um dia complicado…)
E pronto, não há muito mais a dizer, a não ser que a criação deste blog foi um grande passo para desenvolver o espírito criativo e desatrofiar um bocado.
Lixo? Sim, certamente haverá por aqui muito, mas também não acredito que seja só lixo, e, independentemente de ser ter escrito aqui alguma coisa de jeito ou não, este ano de tertúlia foi, pelo menos, excelente para “afiar as garras”.
Gostava de aproveitar também este post comemorativo do primeiro ano de Tertúlia dos Néscios para convidar os visitantes a intervir, deixando aqui os vossos comentários sobre este ano de blog. Sede implacáveis!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

A minha aranha

Há já vários meses que vive uma aranha no meu espelho retrovisor. Só a vi umas duas ou três vezes, mas pelas alterações e inúmeras reconstruções na teia sei que ela lá anda. Na última vez que lavei o carro, que curiosamente foi a primeira (e que foi uma canseira e que já nem se nota…), lá consegui não a violentar e lá continua ela. Não me estou a desculpar de nada, admito até que o meu carro provavelmente estaria igualmente imundo se a aranha não estivesse lá, mas não consigo confiar na preocupação que os senhores lavadores de carros possam ter pelo bem-estar da minha aranhita. Além do mais solicitar que tivessem o cuidado de não matar a aranha seria considerado, no mínimo, excêntrico. Lavagens automáticas estão, naturalmente, fora de questão... Vamos lá ver se vem uma chuvada...

A verdade!

A verdade, sempre a verdade, toda, toda!
Não à negação, não à falsidade,
Nunca a mentira, por mais confortável que seja
Seja inofensiva ou piedosa,
Seja branca, branca suja ou cor-de-rosa.
Antes a dor penetrante da realidade!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Ode triunfal

É curioso como o mesmo texto consegue dizer-nos coisas tão distintas em fases diferentes da nossa vida. Estava eu ontem a pensar em engrenagens quando me lembrei de um poema de Fernando Pessoa, ou mais especificamente de Álvaro de Campos, que me ficou gravado na memória pela curiosa conjunção de dois factores, o facto de estar no livro de português de um ano qualquer e o facto de ter um colega que trocava os rr pelos gg. Quem ler o poema, que deixarei abaixo, compreenderá... Ó gódas, ó engguenagens, g-g-g-g-g-g etegno! Foi de facto um belo momento. No entanto lê-lo hoje, passados uma porrada de anos (porra... tantos...), foi uma experiência completamente diferente... e não me apetece desenvolver.

Ode triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e o futuro.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!

Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeia, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas e trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Evolução

Lá passei mais uma fase importante da minha vida! Após alguma evolução intelectual no sentido de tentar compreender as pessoas em vez de as julgar, achei que começava a compreender as mulheres. Muito contente com o meu progresso como pessoa, tenho o prazer de anunciar que atingi mais um patamar da vida. Acho mesmo que atingi uma fase de grande maturidade em que as ilusões se desvanecem. Não compreendo as mulheres!!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Human Behavior

"If you ever get close to a human
And human behaviour
Be ready to get confused
There's definitely no logic
To human behaviour
But yet so irrestible
There's no map
To human behaviour
They're terribly moody
Then all of a sudden turn happy
But, oh, to get involved in the exchange
Of human emotions is ever so satisfying
There's no map
And a compass
Wouldn't help at all
Human behaviour "


Human behaviour

bjork

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Os ratos

Ontem fui pela primeira vez mandado parar pela guarda. O senhor agente foi muito simpático, a bela da continência, os documentos por favor, tive que esventrar o porta-luvas para encontrar o papel da inspecção, mas tudo estava a correr bem, pensava eu. Felicitei-me por ter colocado minutos antes um CD de Trovante, o senhor agente pareceu-me fazer parte do “povo simples”, usando a terminologia do senhor professor doutor Aníbal, estava certo que tinha marcado pontos. Certamente se eu tivesse deixado o CD de Devil Doll teria sido logo catalogado como delinquente e teria um tratamento de acordo. Agradeci mentalmente ao piqueno por espalhar brinquedos no carro, sempre dá aquele aspecto de pai de família, o homem não vai querer passar-me uma multa correndo o risco de estar a tirar o pão da boca das crianças, ponderava eu enquanto o simpático agente dava a volta ao carro, examinando cuidadosamente os selos expostos no pára-brisas.
- O senhor sabe que lhe falta um médio? Ainda por cima o do lado esquerdo. Sabe que não pode circular assim?
- Falta? Perguntei eu com ar espantado. Pois não me tinha ainda apercebido, são coisas que acontecem... Retorqui perguntando-me quando é que ele dizia qualquer coisa como "Pronto, então não se esqueça que tem que tratar disso. Boa viagem".
Contra as minhas expectativas, o senhor agente não me mandou seguir, em vez disso foi novamente para a frente do carro e aconselhou-me a desligar e ligar novamente as luzes, acto que foi respondido com um abanar de cabeça da parte dele. Lá me decidi a sair do carro, dei uns piparotes no farol dizendo:
- Sim, de facto falta-me um médio, tenho que tratar disto...
- Se o conseguir pôr a funcionar... Respondeu o senhor agente.
Foi aí que a dura verdade me atingiu! Ele ia mesmo multar-me! Debaixo daquele jeito simpático estava, qual exterminador, uma pessoa implacável, pensei. Creio ter tido a reacção normal na situação, ou seja, desatei ao murro ao farol com todas as forças do meu ser e eis que se faz luz!
- Sargento, hoje não nos safamos! Disse, com um sorriso genuíno, o senhor agente para o seu superior
- Então mas nós somos polícias ou mecânicos? Perguntou o sargento, também com relativa boa disposição. Pronto, se reuniu condições para circular, pode seguir.
Ainda ficámos os três um bocado na galhofa a desfrutar a situação, mas curiosamente o senhor agente parecia deveras satisfeito, quase tanto como eu, satisfação que eu compreendi quando me devolveu os documentos dizendo:
- Você teve sorte, não era por mim, mas ali o sargento não perdoa, ia mesmo ter que o autuar. Mas já é o segundo que mandamos parar com falta de um médio e o outro também se safou da mesma forma, disse de uma forma que deixava perceber que estava muito contente com o facto. Agradeci, ao senhor agente e ao São Cristóvão e, com uma calorosa despedida o senhor agente parou o trânsito para eu entrar e segui viagem.
Afinal parece que sempre há ratos bacanos!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Combater fogo com fogo

Mas qual é a lógica de combater fogo com fogo, se eu quero combater o fogo é porque não concordo com a sua existência. Não será então um paradoxo servir-me de algo que vai contra as minhas convicções? Não me torna igual àquilo que pretendo combater?
Existe um post nesta nossa tertúlia que nos faz aparecer numa pesquisa por “olho por olho dente por dente” e curiosamente temos vários hits através dela. Porque é que esta pesquisa é tão efectuada? Não sei ao certo a resposta, mas tenho a seguinte teoria: A maioria das pessoas que efectua a pesquisa em questão pretende provar a outrem que, de facto, a famigerada frase está mesmo na bíblia, numa tentativa de, adivinho, justificar o facto de se reger, erradamente na minha opinião, por tal máxima. Parece-me o mesmo paradoxo, combater uma coisa que não estamos de acordo recorrendo exactamente a essa coisa. Se eu acho mal que me tirem um olho também deveria achar mal ser eu a tirá-lo, e o facto de me vingar não me traz o meu olho de volta. Então se não estamos de acordo não deveríamos, antes de combater o alvo da nossa discórdia, preocupar-nos primeiro em não nos tornarmos iguais àquilo que repugnamos. Se eu sou contra a violência não posso combatê-la com mais violência, não só pelo facto de estar a fomentar um processo iterativo que só gera cada vez mais violência, mas também por uma questão de coerência, sou contra logo não uso.
Adicionalmente também não me parece muito sensato orientar a vida segundo dogmas que se aceitam cegamente por estarem escritos num livro, principalmente quando o livro já foi escrito há milénios e que naturalmente já se encontra desenquadrado da sociedade, mas aparentemente ainda faz estrago.
Será que existem pesquisas por “dar a outra face” ou “amar o próximo” com igual frequência? Duvido. Talvez este post até o consiga provar...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Viver

Há pessoas que estão à espera da reforma para viver. Há outras que, sortudas, encontram a felicidade na monotonia do quotidiano. Outras ainda, mesmo continuando a respirar optam por morrer.
A rotina não me consegue fazer feliz e não posso estar à espera da reforma porque o mais provável é vir a passá-la morto. Preciso de novas experiências, de conhecer pessoas novas, que me inspirem ideias novas, tenho fome de viver, de ver outras paisagens, ouvir outros sons, cheirar diferentes atmosferas e experimentar sensações novas, emoções novas!

Edit on 11/01/06@14:56

Depois de reler o post, tendo em conta a natureza tortuosa do funcionamento do cérebro feminino, nomeadamente um cujas encruzilhadas de raciocínio conheço muito bem, parece-me por bem deixar um esclarecimento:
"conhecer novas pessoas" não tem qualquer cariz romântico, a ideia que pretendo transmitir é que, quer se tornem grandes amigos quer desapareçam da nossa vida tão fugazmente como aparecem, todas as pessoas nos ensinam algo, nem sempre agradável, sobre a vida, ou seja, a meditação não chega, "conhecer novas pessoas" é fundamental para crescer como ser pensante.
(tenho uma amiga que ia adorar a pontuação Saramaguista desta frase)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Eterno

Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d'Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e salto, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

(letra e música de Pedro Barroso in CD «Longe daqui», 1990)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Homens - Capítulo 1

Em contraste com o quase inaudível cumprimento do homem que não se sente bem em lado nenhum, a que ninguém respondeu, o característico cumprimento do homem que ninguém leva a mal “Cambada de filhos-da-puta!” foi retorquido com uma calorosa saudação geral. Entrou como se fosse o dono do sítio e, piscando cumplicemente o olho ao homem que nunca tem opinião, foi sentar-se na mesa do homem que não se sente bem em lado nenhum.
- Então, como é que te sentes hoje?
- Agora que falas nisso… Não me estou a sentir muito bem aqui, vou só beber o café e vou-me logo embora.
Pediu o café ao empregado, que nessa noite era o homem que acha que deus foi assassinado por extraterrestres, que o serviu prontamente. Não foi preciso mais de meio minuto para o homem que não se sente bem em lado nenhum beber o café e sair deixando uma moeda em cima da mesa.
Com um ar triunfante, o homem que ninguém leva a mal levantou-se, deu a volta ao elefante em mármore, de tamanho real, que ocupava o centro da sala e foi sentar-se na mesa do homem que nunca tem opinião, onde também estava o homem que só fala com frases de doze sílabas.
- Porque é que tu implicas com o homem? Disse o homem que só fala com frases de doze sílabas.
- Eu não tenho culpa que ele seja assim. Respondeu o homem que ninguém leva a mal.
- Acho que não havia necessidade. Há muita coisa para te divertires, e muitas delas sem chateares ninguém!
- Tá bem, tá bem. Eu não chateio mais o homem. Também já está a perder a piada. Ó palhaço, disse dirigindo-se ao homem que acha que deus foi assassinado por extraterrestres, traz-me lá meio bagacito.
Nisto entrou o homem que começa todas as frases com “pá…”, e, ao chegar à mesa onde estavam o homem que ninguém leva a mal, o homem que só fala com frases de doze sílabas e o homem que nunca tem opinião, disse no seu jeito próprio:
- Pá… Ainda bem que vos encontro, o homem que imagina coisas mirabolantes vai dar uma festa esta noite e estamos todos convidados. Pá… Vocês sabem que as festas dele são sempre de arromba!
- Por mim vamos já para lá, isto hoje está uma seca, nem sequer ligam a fonte. Disse o homem que ninguém leva a mal, ao que o homem que nunca tem opinião respondeu com um encolher de ombros.
O homem que só fala com frases de doze sílabas concordou pleonasmicamente, terá dito qualquer coisa como “Sim, eu acho que devemos ir embora” ou “Concordo que devemos ir já para lá” e saíram todos despedindo-se do homem que acredita que deus foi assassinado por extraterrestres, cada um à sua maneira.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Ilusão


Se é que ainda era preciso, cá está mais uma prova que o "ver para crer" não é inteligente.
Há uma miríade de dimensões que escapam aos nossos olhos e não é descabido afirmar que o que os nossos olhos vêm não é a realidade. Embora pareça a olho nu, observando as coisas ao nível atómico verifica-se, por exemplo, que a matéria não é contínua, entre os nossos átomos existe espaço. Segundo consta, se se removesse esse espaço a serra de Sintra caberia numa colher de chá, naturalmente pesando o mesmo. Qual é então a realidade real? A matéria contínua como a vemos ou a matéria descontínua como um microscópio electrónico a vê? Que cada um escolha a que preferir, mas é inegável que há muito mundo para além dos nossos sentidos.

Segundo o mail onde vinha a imagem este desenho foi criado por Phillippe G. Schyns e Aude Oliva da Universidade de Glasgow.

Observem as imagens sentados à distância normal do monitor, o Sr. Raiva está à esquerda e a Sra. Calma está à direita. Agora levantem-se do lugar e afastem-se para trás uns metros. Alguma diferença? Arte e ciência de mãos dadas!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Natal

Pois é verdade, está aí o Natal outra vez. Nem consigo saber ao certo o que é que eu mais gosto no Natal, agrada-me bastante o consumismo desenfreado, o acotovelar nas lojas, a enfatização das diferenças sociais das crianças através dos presentes, mantendo-os na ilusão que tudo depende da maneira como se comportam.
Mas acho que para decidir mesmo o que eu mais gosto nesta quadra teria que escolher entre o facto de poder competir com a família e amigos a ver quem é que dá a prenda mais cara e o facto de ser a época em que faço questão de me preocupar com os menos favorecidos para poder ignorá-los o resto do ano sem peso na consciência.
Viva o Natal!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Fundo do Baú II

Até sonetos há por lá! Ganda curte! :)


Somos muitos, multidão
Corremos os cantos da Terra
Sem espada na nossa mão
A paz é a nossa guerra

Com a palavra combatemos
Derrubamos qualquer muro
Não recuamos, não vacilamos
E avançamos pelo futuro

Somos vento, tempestade,
Fervor, euforia, paixão
Impelidos pelo amor à verdade

Mais que cidadãos do mundo
Cidadãos do universo
Cidadãos do espaço profundo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Fundo do Baú

Descobri, não sei bem como nem porque estava no sítio onde o descobri, um papel onde tinha escrevinhado já há algum tempo (impossível saber quanto porque, lamentavelmente, esqueço-me sempre de datar estas coisas, ainda bem que o blog faz isso por nós) um poema. Curiosamente não me pareceu tão estúpido como certamente terá parecido na altura e isto fez-me ir ao fundo do baú ler algumas coisas escritas no passado. Da mesma forma, e não sem alguma estranheza, encontrei mais uns poemas dos quais já nem tinha qualquer recordação, e que até me agradaram (embora não tenha resistido em dar-lhes um retoque). Assim, nasce esta rubrica "Fundo do baú".
Cá vai um:

Gostava de saber pegar
nas emoções que em mim fervilham
e com elas encher pautas
de sublimes sinfonias que brilham
muito fáceis de tocar

Gostava de saber encher
a alvura de uma tela vazia
com a cascata de sentimentos
que às vezes em demasia
percorre todo o meu ser

Gostava de saber transformar
nas páginas de um belo romance
toda a alegria de viver
e talvez assim descanse
este animal que não sei domar

Gostava de saber criar
poemas inflamados,
que dessem descanso por fim
aos pensamentos exacerbados
que há dentro de mim
e que não consigo sossegar

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Personagens #2 - O Figueiredo

O Figueiredo era o sargento encarregue do funcionamento do refeitório naquela instituição que, apesar de ter feito de mim um homem, não vai ver lá filho meu. Contrastava um coração bondoso com uma mente tresloucada e na verdade era um porreiro, toda a gente o tratava por tu e sabia que podia contar com ele.
Além do seu passatempo de columbófilo selvagem (era o Figueiredo aparecer e todos os pombos das redondezas convergiam para lá, e ai de quem fizesse mal a algum!), o que o fez ficar famoso foi a sua tendência para projectar, com uma pontaria mortífera, o que quer que estivesse ao seu alcance quando via alguém a fazer uma traquinice. Ora, como disse, o Figueiredo geria o refeitório e o que estava normalmente ao seu alcance eram víveres, tendo preferência pelos bolos e pacotes de leite ou sumo. Era fantástico ver o seu talento em acção, quando alguém insuspeito cometia uma travessura e, como que vindo do nada, um pacote de leite o atingia e, naturalmente, explodia molhando toda a gente num raio de vários metros, factor que não tinha a mínima importância para o Figueiredo, danos colaterais, devia pensar para ele, o importante é cumprir a missão. Este talento era já tão famoso que os mais dados aos desportos radicais gozavam com ele de propósito para na fracção de segundo seguinte tentarem desviar-se do projéctil, que nunca passava a mais de um palmo, aniquilando por vezes inocentes incautos. Bem hajas Figueiredo, contigo não havia refeições monótonas!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Manuel Alegre

Por acaso andava para escrever um post sobre o Manuel Alegre, entretanto recebi este texto do Manuel Monteiro que, algo desconcertantemente para mim, devo dizê-lo, se aproxima bastante do que eu queria dizer, portanto olha, menos trabalho para mim.

VOLTAR A SONHAR
Por Manuel Monteiro

«Sejamos realistas exijamos o impossível»
Depois pode vir o exército a polícia as forças todas do número e da norma podem cercar-nos por todos os lados, intimar-nos com fogo
ou pior ainda: horários disciplina regras e obrigações.
Manuel Alegre, Che

Lê-se na Bíblia, no livro do Apocalipse: “Sede frios ou sede quentes porque eu vomitarei os mornos”. Não gosto de políticos titubeantes. Não gosto de políticos que nunca ousaram algo na antítese do politicamente correcto. Que nunca ousaram o impossível. Não gosto de políticos que acham que não há diferenças entre a esquerda e a direita.
A coragem e a insubmissão de Manuel Alegre temperadas com a dose cavalar do seu espírito democrático e do seu amor à liberdade devolvem-me um brilhozinho nos olhos para o combate político.
Manuel Alegre, deputado recordista do número de vezes que ousou votar contra o seu próprio partido, tem sido um olhar permanentemente vigilante da liberdade e da democracia, elevando a sua voz de barítono sempre que necessário.
Ao contrário de outros, esteve sempre do lado da democracia e da liberdade, contra as censuras azuis e vermelhas, contra os despotismos de direita e de esquerda.
Ao contrário de outros, não se limitou a ser uma mera oposição, uma mera voz de protesto, participando também na esfera do poder para construir algo positivo.
Gosto de ver que ainda há quem acredite que a junção das palavras “político” e “sério” não constitui um oxímoro e que a política ainda pode ser a arte de mudar o mundo para melhor. Gosto de ver que ainda há quem lute pelo sonho de uma sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna mesmo nas condições mais adversas. Mesmo sem o dinheiro e sem os caciquismos dos aparelhos partidários. Porque é bonito ver tanta gente a voltar a lutar por ideais.
Seria bonito ter um Presidente da República-Poeta cuja alma não dança apenas com números e que ainda por cima quer pôr as pessoas a aprender a lei suprema do país – a Constituição - nas escolas; que almeja combater a iliteracia; e que propõe ao país um modelo de desenvolvimento cujo alavancamento não sejam os baixos salários mas a aposta no capital intelectual.
Estou cansado, mental e fisicamente exausto de tanto ouvir o discurso gasto e bafiento de que primeiro precisamos de crescer para depois distribuir. Porque é que nunca em país algum, fosse qual fosse o seu patamar de crescimento, se admitiu em determinada altura que se poderia (finalmente!) redistribuir?!...
Hoje como ontem, aqui em Portugal como no resto da Europa, é sempre altura de nos preocuparmos com o crescimento económico, descurando as desigualdades. Sempre, sempre, sempre. Não nos iludamos: por mais que cresçamos nunca ouviremos dizer que agora é altura de nos preocuparmos com a pobreza e a miséria. E é por isso que as desigualdades e a exclusão social vão grassando. E é por isso que me agradou tanto ouvir o Manuel Alegre dizer que “A melhor distribuição da riqueza é uma pré-condição para o desenvolvimento”.
Oscar Wilde escreveu que um mapa que não contemplasse a Utopia não seria digno de um só olhar. Sonho com um Portugal de todos. Imagino-o com toda a força e intensidade. E nele vejo Manuel Alegre a Presidente.