Queria só notar o facto de que, com bastante certeza, este nosso fantástico blog está bloqueado para a China continental!
Pois é, a China bloqueia o acesso a sites que contenham qualquer referência ao Falun Gong, inclusivamente a respectiva página da wikipedia (estive a ver agora mesmo a história da wikipedia e parece que desde o passado dia 20 todo o site está bloqueado!).
E agora, mesmo que mude o livro, já há um post com "Falun Gong" (duas vezes!) portanto lamentavelmente não conseguiremos chegar aos nossos irmãos chineses.
Talvez um dia...
quarta-feira, 26 de outubro de 2005
segunda-feira, 24 de outubro de 2005
Já que isto anda fraquito...
E na linha do último post do Prof. Baltazar, vou deixar aqui um texto muito bom que recebi por mail, de autor desconhecido e que tem por título: "Modernidades linguísticas depois do 25 de Abril", embora eu lhe tivesse chamado «Tenho uma família monoparental». Em todo o caso gostaria de sensibilizar os intervenientes de tão nobre tertúlia para privilegiarem sempre o texto original e inédito.
Cá vai:
Tem muito humor, observa bem a actualidade cultural portuguesa e não ofende ninguém. Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado! As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio doméstico". De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares da acção educativa". Os vendedores de medicamentos, inchados de prosápia, tratam-se de "delegados da propaganda médica". E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".
Os drogados transformaram-se em "toxicodependentes" (como se os consumos de cerveja e de cocaína se equivalessem!); o aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez"; os gangues étnicos são "grupos de jovens"; os operários fizeram-se de repente "colaboradores"; e as fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais". O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
Desapareceram outrossim dos comboios as classes 1.ª e 2.ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante. Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e terroristas; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo". Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável". Ainda há cegos, infelizmente, como nota na sua crónica o Eurico. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...) Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.
E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
À margem da revolução semântica ficaram as putas. As desgraçadas são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do quarto para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre o modo de expressão ou lhes imponha a terminologia nova. Os amantes do idioma pátrio, se o quiserem ouvir pleno de vernaculidade, que se dirijam ao bordel mais próximo. Aí sim,um pénis de 25 centímetros é um "car**** enorme" e nunca um sobredimensionado"; assim como dos impotentes, coitados, dizem elas castiçamente que "não levantam o pau", e não que sofrem de "disfunção eréctil".
Cá vai:
Tem muito humor, observa bem a actualidade cultural portuguesa e não ofende ninguém. Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado! As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio doméstico". De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares da acção educativa". Os vendedores de medicamentos, inchados de prosápia, tratam-se de "delegados da propaganda médica". E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".
Os drogados transformaram-se em "toxicodependentes" (como se os consumos de cerveja e de cocaína se equivalessem!); o aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez"; os gangues étnicos são "grupos de jovens"; os operários fizeram-se de repente "colaboradores"; e as fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais". O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
Desapareceram outrossim dos comboios as classes 1.ª e 2.ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante. Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e terroristas; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo". Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável". Ainda há cegos, infelizmente, como nota na sua crónica o Eurico. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...) Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.
E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
À margem da revolução semântica ficaram as putas. As desgraçadas são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do quarto para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre o modo de expressão ou lhes imponha a terminologia nova. Os amantes do idioma pátrio, se o quiserem ouvir pleno de vernaculidade, que se dirijam ao bordel mais próximo. Aí sim,um pénis de 25 centímetros é um "car**** enorme" e nunca um sobredimensionado"; assim como dos impotentes, coitados, dizem elas castiçamente que "não levantam o pau", e não que sofrem de "disfunção eréctil".
quinta-feira, 20 de outubro de 2005
A redacção que se segue foi escrita por um candidato numa selecção de Pessoal na Volkswagen. A pessoa foi aceite e seu texto esta a fazer furorna Internet, pela sua criatividade e sensibilidade.
Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sobo chuveiro até fazer chichi.Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo a caminhar pelo desconhecido.Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro.Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer.Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma árvore para roubar fruta, já caí de uma escada.Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi de minha casa para sempree voltei no instante seguinte.Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única.Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei para a piscina e não quis sair mais, já bebi whisky até sentir os lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei a meioda noite e senti medo de me levantar.Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas eraum "para sempre" pela metade.Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos eque a vida é um ir e vir permanente.Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração...
Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel: " - Qual é a sua experiência?"
Essa pergunta fez eco no meu cérebro. "Experiência.... "Experiência... "Será que cultivar sorrisos é experiência?
Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:" - Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???"
Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sobo chuveiro até fazer chichi.Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo a caminhar pelo desconhecido.Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro.Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer.Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma árvore para roubar fruta, já caí de uma escada.Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi de minha casa para sempree voltei no instante seguinte.Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única.Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei para a piscina e não quis sair mais, já bebi whisky até sentir os lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei a meioda noite e senti medo de me levantar.Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas eraum "para sempre" pela metade.Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos eque a vida é um ir e vir permanente.Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração...
Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel: " - Qual é a sua experiência?"
Essa pergunta fez eco no meu cérebro. "Experiência.... "Experiência... "Será que cultivar sorrisos é experiência?
Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:" - Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???"
quinta-feira, 6 de outubro de 2005
Três hurras para as estações!
Tenho sempre uma grande resistência em largar a t-shirt. Hoje já estavam uns pouco confortáveis 14 graus quando saí de casa, já está um bocado de frio quando saio do trabalho, mas algo cá dentro me obriga a resistir e só quando já se pode considerar sofrimento é que acabo por me render e levar um casaquito. Eu sei que há por aí resistentes maiores, tipo aquele ganda maluco (não vou mencionar nomes, mas ele sabe quem é) que usa calções em pleno Inverno. Não é uma tentativa de estender o Verão, é apenas inércia. Porque eu gosto realmente de todas as estações, gosto da mudança e embora muita gente ache uma imbecilidade, já tenho saudades do frio e da chuva. Adoro as cores do Outono, de estar no carro a ver a chuva a cair, ou estar em casa, quentinho e confortável, a ouvir o vento e a chuva a bater nas janelas, gosto do Inverno, de estar no quentinho, de os gatos se enfiarem dentro da cama, de acender uma lareira, de sentir o frio que nos mostra que estamos vivos. Da Primavera e do Verão nem vale a pena falar, gosto delas por todas as razões que toda a gente gosta, mas do que eu gosto mesmo é que haja estações!
terça-feira, 4 de outubro de 2005
Ser céptico
Eu, quando era mais jovem, pensava que era um céptico. Vejo agora que assim não era, eu tinha era uma mente muito limitada e assumia uma postura de, se não for cientificamente provado é porque não existe. Mas terá, por exemplo, o décimo planeta do nosso sistema solar começado a existir apenas quando o descobrimos? Não, eu não era céptico, agora é que sou, porque ser céptico não é negar mas sim questionar, é não aceitar dogmas como verdades absolutas e procurar fundamentar aquilo em que acreditamos, mas, não conseguir provar a existência de alguma coisa não prova a sua não existência. Acreditar piamente que algo não existe só porque não se consegue explicar é mais uma atitude dogmática que céptica. Qual é a diferença entre acreditar piamente numa coisa sem ter fundamentos e não acreditar numa coisa por não ter fundamentos? Negar à partida algo que não se compreende é uma atitude tão dogmática como aceitar incondicionalmente algo que não compreendemos. Agora sim, sou um céptico, não aceito verdades incondicionais, mas também não descarto possibilidades. Não digo “Deus existe!”, não digo “Deus não existe!”, digo apenas “Existirá deus?”.
sexta-feira, 30 de setembro de 2005
Zhen-Shan-Ren
É curioso andar toda a gente à procura da fórmula da felicidade quando esta foi já descoberta há tantos séculos e é tão desconcertantemente simples. É curioso como é possível procurar tanto tempo uma coisa que está bem diante dos nossos olhos. Zhen-Shan-Ren disse o iluminado, e hoje, passados mais de dois milénios de evolução estamos cada vez mais longe… ou talvez não. Disse ainda que, mesmo não parecendo, esta é a natureza do Homem. Se é ou não, não sei; mas se não é devia ser! Zhen significa algo como Verdade ou Honestidade, Shan será algo como Compaixão ou Benevolência e Ren algo como Tolerância ou Auto-controlo. Para quê complicar? Está aqui tudo! Três palavras apenas são suficientes para escrever a fórmula que permitiria que toda a humanidade vivesse em harmonia. Honestidade, benevolência e tolerância, parece tão fácil que até se torna cómico, mas não se enganem, basta tentarem não falhar nos três pontos durante um dia para se compreender a dificuldade, dificuldade esta provocada pelos nossos instintos mais básicos, mas achavam que podia ser fácil? Claro que não podia ser fácil! Mas é possível! É um desafio e acima de tudo é algo que se treina, que se interioriza, enquanto numa fase inicial temos que reagir à posteriori tentando anular e combater os sentimentos que nos afastam do caminho, depois de algum tempo esses sentimentos começam já a não emergir e sentimos que realmente passámos mais uma etapa no caminho a percorrer para nos tornarmos pessoas melhores, e quem sabe a primeira etapa para a iluminação, porque o nirvana está ao alcance de todos!
Zhen-Shan-Ren people!
Zhen-Shan-Ren people!
segunda-feira, 26 de setembro de 2005
Vómitos
Estas autárquicas dão-me vómitos! Cerca de 70 candidatos arguidos em processos crime??? Eu sei que eles já lá estavam, só que dantes não se sabia, mas é preciso não ter nenhuma vergonha na cara para, agora que se sabe, fingir que não aconteceu nada e recandidatar-se. E em vários dos casos ganhar!
Dá-me vómitos ouvir o povo dizer coisas do tipo “Se roubou foi por Felgueiras!” Mas esta gente anda doida??? Então mas afinal roubar é bom desde que se partilhe? Vómitos, vómitos!
Eu bem tento ver a coisa pelo lado positivo, pelo menos agora alguns corruptos começam a pagar pelos seus crimes, mas duvido que não fiquem convencidos que compensou, muito mais depois de verificarem que não deixam de ser eleitos por serem ladrões.
Eu sei que eles ainda não foram a julgamento e que podem até ser inocentes, mas pelo menos para aqueles casos mais mediáticos tenho sérias duvidas que isso aconteça. Senhor Valentim, tenha vergonha; Senhor Isaltino tire essa carinha de inocente e Dona Fátima, custa-me a compreender como uma pessoa que não tem o mínimo respeito pelas leis instituídas (que até podem nem ser as melhores, mas quem não consegue fugir para o Brasil tem que as cumprir) consegue ter legitimidade para se candidatar a uma câmara, e mais, ganhar! Vómitos, vómitos!!!
Dá-me vómitos ouvir o povo dizer coisas do tipo “Se roubou foi por Felgueiras!” Mas esta gente anda doida??? Então mas afinal roubar é bom desde que se partilhe? Vómitos, vómitos!
Eu bem tento ver a coisa pelo lado positivo, pelo menos agora alguns corruptos começam a pagar pelos seus crimes, mas duvido que não fiquem convencidos que compensou, muito mais depois de verificarem que não deixam de ser eleitos por serem ladrões.
Eu sei que eles ainda não foram a julgamento e que podem até ser inocentes, mas pelo menos para aqueles casos mais mediáticos tenho sérias duvidas que isso aconteça. Senhor Valentim, tenha vergonha; Senhor Isaltino tire essa carinha de inocente e Dona Fátima, custa-me a compreender como uma pessoa que não tem o mínimo respeito pelas leis instituídas (que até podem nem ser as melhores, mas quem não consegue fugir para o Brasil tem que as cumprir) consegue ter legitimidade para se candidatar a uma câmara, e mais, ganhar! Vómitos, vómitos!!!
terça-feira, 20 de setembro de 2005
Gosto.
Já todos nos encontrámos naquela incómoda situação, á beira de uma constipação, em que nos falta o paladar e tudo nos sabe ao mesmo, certo?
É comum referir-mo-nos a esse estado de sem sabor como, "... não tenho gosto.", ou "... não tenho gosto nenhum." Mas será que não se tem mesmo gosto, ou não se tem paladar? Já estou a imaginar como seria se realmente não tivessemos mesmo nenhum gosto, quando nos constipassemos. Já estou a imaginar, em pleno inverno, o pessoal com altas constipações a chegar ao trabalho, sim trabalho, pois hoje são poucos os que se podem gabar de têr emprego, com calças verde alface, casaco castanho, camisa azul choque, e sapatinho vermelho. Ha ha!! Que grande fartote que seria. "- Oh, Silva! Não se esqueça que amanhã temos reunião com o director.", E o bom do Silva constipava-se logo nesse dia, aparecendo no escritório com um fatinho lilás, camisinha verde e sapatinho amarelo biqueira larga. Ha ha!! Já imaginaram o que era o bom do Brad Pitt aparecer na entrega dos Oscares, com a sua nova namorada, uma hipie estravagante com meias ás riscas azuis e amarelas, sainha verde, camisinha castanha e cabelo violeta,( há quem vista assim. Será que estão sempre constipados? ), enquanto ele se apresentava de blazer amarelo, camisa violeta, a condizer com o cabelo da dita, lacinho vermelho, e sapatinho azul céu? Ha ha!! Esperemos que a falta de gosto se resuma apenas ao facto de não termos paladar. Ha ha!!
Agradecimentos á minha Princesa por ter sido ela a dár-me o mote desta tertúlia.
Beijos
É comum referir-mo-nos a esse estado de sem sabor como, "... não tenho gosto.", ou "... não tenho gosto nenhum." Mas será que não se tem mesmo gosto, ou não se tem paladar? Já estou a imaginar como seria se realmente não tivessemos mesmo nenhum gosto, quando nos constipassemos. Já estou a imaginar, em pleno inverno, o pessoal com altas constipações a chegar ao trabalho, sim trabalho, pois hoje são poucos os que se podem gabar de têr emprego, com calças verde alface, casaco castanho, camisa azul choque, e sapatinho vermelho. Ha ha!! Que grande fartote que seria. "- Oh, Silva! Não se esqueça que amanhã temos reunião com o director.", E o bom do Silva constipava-se logo nesse dia, aparecendo no escritório com um fatinho lilás, camisinha verde e sapatinho amarelo biqueira larga. Ha ha!! Já imaginaram o que era o bom do Brad Pitt aparecer na entrega dos Oscares, com a sua nova namorada, uma hipie estravagante com meias ás riscas azuis e amarelas, sainha verde, camisinha castanha e cabelo violeta,( há quem vista assim. Será que estão sempre constipados? ), enquanto ele se apresentava de blazer amarelo, camisa violeta, a condizer com o cabelo da dita, lacinho vermelho, e sapatinho azul céu? Ha ha!! Esperemos que a falta de gosto se resuma apenas ao facto de não termos paladar. Ha ha!!
Agradecimentos á minha Princesa por ter sido ela a dár-me o mote desta tertúlia.
Beijos
sexta-feira, 16 de setembro de 2005
É assim!
É assim, não admito ir na faixa da esquerda a 120 e ter um mânfio atrás de mim a mandar faroladas feito parvo! Então se eu vou à velocidade máxima permitida, o que é que ele quer? Se não pode ir mais depressa que aquilo porque é que me está a chatear?
É que, vendo bem as coisas, eu até lhe estou a fazer um favor, ainda se habilitava a apanhar uma multa de excesso de velocidade, eu evito isso e é assim que ele me agradece... Há gajos que deviam ser proibídos de tirar a carta!
É que, vendo bem as coisas, eu até lhe estou a fazer um favor, ainda se habilitava a apanhar uma multa de excesso de velocidade, eu evito isso e é assim que ele me agradece... Há gajos que deviam ser proibídos de tirar a carta!
quinta-feira, 15 de setembro de 2005
Amigos?
Entristece-me saber que possam pensar assim!
Ecurece-me o ser, a alma é-me arrancada do corpo, pela estranheza dos que me rodeiam. Por saber que aqueles que um dia considerei amigos, nada mais são do que estranhos, que nada sabem de mim.
Muitos há que me chamam de egoista, que só penso em mim, primeiro eu, sempre eu, e penso:
" Egoista eu? Como posso ser egoista se me encontro rodeado de estranhos?" Estranhos de quem nada sei, e que nada sabem de mim.
Entristece-me saber que possam pensar assim!
Ecurece-me o ser, a alma é-me arrancada do corpo, pela estranheza dos que me rodeiam. Por saber que aqueles que um dia considerei amigos, nada mais são do que estranhos, que nada sabem de mim.
Muitos há que me chamam de egoista, que só penso em mim, primeiro eu, sempre eu, e penso:
" Egoista eu? Como posso ser egoista se me encontro rodeado de estranhos?" Estranhos de quem nada sei, e que nada sabem de mim.
Entristece-me saber que possam pensar assim!
segunda-feira, 12 de setembro de 2005
Armando
Já todos tivemos a sensação de estarmos a ser observados, certo?Até aí nada de novo, não é nada de transcendental.
Todos os dias observa-mos e somos observados por centenas de pessoas, sem nos apercebermos.
Mas há alturas em que temos a nítida sensação de, não só de estarmos a ser observados, como também de que não estamos sozinhos.
Armando é uma pessoa normal, como qualquer pessoa normal. Gosta de ler, ir ao cinema, de estar com os amigos. Enfim, faz coisas normais de pessoas normais. No entanto, Armando, tem uma particularidade, que embora não o afastando de ser uma pessoa normal, dá-lhe uma certa individualidade. Armando tem uma predilecção quase mórbida pelo sobrenatural, pelo terror, pelo suspense, com a particularidade de realmente acreditar que não andamos sozinhos neste mundo.
Armando é casado. E embora não exista nenhuma discrepância de conjugação de horários, com a mulher, dias há, em que essas discrepâncias acontecem.
Foi o caso de um dia destes, em que a esposa ficou de fazer um horário que implicaria entrar ao serviço ás 8:30. Como tal teria de se levantar ás 6:30, para cumprir tal exigência.
O horário de Armando, bastante mais flexível, permite-lhe levantar-se apenas ás 8:00, de modo que quando as esposa se levantou Armando continuou deitado na cama, embora já não estivesse completamente adormecido. Armando apercebia-se, muito ao longe, de todos os os passos da mulher.
O estremecer do colchão quando esta se levantou, os passos até à porta do quarto, o abrir da e fechar da porta, o caminhar até à cozinha, o acender do esquentador, o abrir o roupeiro do corredor, o caminhar de volta para a casa de banho. Armando, lá muito ao longe, conseguia ver todo percurso realizado pela esposa.
Antes de saírem de casa, Armando e a mulher têm por hábito despedirem-se um do outro com um beijo, quer o outro esteja a dormir ou não, e esse dia não foi excepção. Armando, mais uma vez ouviu a porta do quarto abrir-se, e o aproximar da mulher da cama. Sentiu a pressão no colchão quando esta pousou o joelho sobre o mesmo de modo a poder-se esticar e beijar Armando. Armando, sentiu o aproximar da esposa seguido do calor dos seus lábios no rosto.
Exprimiu um breve sorriso de satisfação, e mais uma vez sentiu-a afastar-se e fechar a porta do quarto. Ouviu as chaves a rodarem na fechadura da porta da rua, e o fechar da mesma.
Armando, moveu-se, virou-se de barriga para cima, esticou os braços, e assim ficou esperando a sua hora de levantar.
Aos poucos Armando começou a sentir aquele entorpecer que sentimos adormecemos, e deixou-se levar pelo mesmo. Afinal ainda faltava uma meia hora para se levantar.
Lá longe ouvia os passos da esposa pela casa na sua azáfama matinal. Ouvia-a na cozinha, o caminhar para a casa de banho, o abrir do roupeiro do corredor. Armando lá muito ao longe apercebia-se de todos os movimentos da esposa. Todos os movimentos da esposa? Como, se esta já tinha saído? Armando fez um esforço e conseguiu sair do torpor em que se encontrava, embora tivesse a estranha sensação de não se puder mover e tão pouco abrir os olhos. Deixou-se estar quieto e aprofundou os sentidos. Continuava a sentir a presença da esposa em casa, mas tal não podia ser, pois esta já tinha saído. Ter-se ia esquecido de algo? Armando fez um esforço enorme para tentar perceber o que se estava a passar, mas sem êxito. Continuava a não se conseguir mover, nem abrir os olhos. Quando tentou chamar pela mulher, nada saiu da sua boca. Nem o mais pequeno som. De repente sentiu que a porta do quarto se abria. Armando ficou um pouco apreensivo, mas estranhamente mantinha-se calmo, embora o seu coração tivesse disparado violentamente. Armando sentiu uma aproximação da cama, sentiu a pressão no colchão, sentiu um aproximar de si, e mesmo antes de sentir o calor do beijo, que não podia ser da sua esposa, Armando, num esforço imenso, conseguiu que um som gutural sai-se da sua boca, simultaneamente que esticava os braços no sentido de evitar o contacto com o que quer ali se encontrasse.
A sensação da presença desapareceu, Armando manteve-se imóvel por alguns segundos até que abriu os olhos. Lentamente virou a cabeça para os dois lados, pois a cama encontrava-se a meio do quarto, mas nada viu de invulgar. A porta estava fechada, e o quarto encontrava-se sob a penumbra habitual da manhã. Lentamente, Armando, levantou-se, abriu as cortinas, levantou os estores, e imediatamente o quarto foi invadido por uma luz imensa. O dia estava limpo, e o sol brilhava com força. Armando deixou-se ficar ali alguns segundos, sentindo o calor do sol no rosto.
Alguns dias mais tarde, Armando, deitado na cama, depois de a esposa ter sido, apercebeu-se que o percurso matinal do seu vizinho, era em tudo idêntico ao da sua esposa. Sorriu.
Satisfeito por ter encontrado uma explicação, Armando, virou-se de barriga para cima, esticou os braços e assim ficou esperando a sua hora de levantar.
Todos os dias observa-mos e somos observados por centenas de pessoas, sem nos apercebermos.
Mas há alturas em que temos a nítida sensação de, não só de estarmos a ser observados, como também de que não estamos sozinhos.
Armando é uma pessoa normal, como qualquer pessoa normal. Gosta de ler, ir ao cinema, de estar com os amigos. Enfim, faz coisas normais de pessoas normais. No entanto, Armando, tem uma particularidade, que embora não o afastando de ser uma pessoa normal, dá-lhe uma certa individualidade. Armando tem uma predilecção quase mórbida pelo sobrenatural, pelo terror, pelo suspense, com a particularidade de realmente acreditar que não andamos sozinhos neste mundo.
Armando é casado. E embora não exista nenhuma discrepância de conjugação de horários, com a mulher, dias há, em que essas discrepâncias acontecem.
Foi o caso de um dia destes, em que a esposa ficou de fazer um horário que implicaria entrar ao serviço ás 8:30. Como tal teria de se levantar ás 6:30, para cumprir tal exigência.
O horário de Armando, bastante mais flexível, permite-lhe levantar-se apenas ás 8:00, de modo que quando as esposa se levantou Armando continuou deitado na cama, embora já não estivesse completamente adormecido. Armando apercebia-se, muito ao longe, de todos os os passos da mulher.
O estremecer do colchão quando esta se levantou, os passos até à porta do quarto, o abrir da e fechar da porta, o caminhar até à cozinha, o acender do esquentador, o abrir o roupeiro do corredor, o caminhar de volta para a casa de banho. Armando, lá muito ao longe, conseguia ver todo percurso realizado pela esposa.
Antes de saírem de casa, Armando e a mulher têm por hábito despedirem-se um do outro com um beijo, quer o outro esteja a dormir ou não, e esse dia não foi excepção. Armando, mais uma vez ouviu a porta do quarto abrir-se, e o aproximar da mulher da cama. Sentiu a pressão no colchão quando esta pousou o joelho sobre o mesmo de modo a poder-se esticar e beijar Armando. Armando, sentiu o aproximar da esposa seguido do calor dos seus lábios no rosto.
Exprimiu um breve sorriso de satisfação, e mais uma vez sentiu-a afastar-se e fechar a porta do quarto. Ouviu as chaves a rodarem na fechadura da porta da rua, e o fechar da mesma.
Armando, moveu-se, virou-se de barriga para cima, esticou os braços, e assim ficou esperando a sua hora de levantar.
Aos poucos Armando começou a sentir aquele entorpecer que sentimos adormecemos, e deixou-se levar pelo mesmo. Afinal ainda faltava uma meia hora para se levantar.
Lá longe ouvia os passos da esposa pela casa na sua azáfama matinal. Ouvia-a na cozinha, o caminhar para a casa de banho, o abrir do roupeiro do corredor. Armando lá muito ao longe apercebia-se de todos os movimentos da esposa. Todos os movimentos da esposa? Como, se esta já tinha saído? Armando fez um esforço e conseguiu sair do torpor em que se encontrava, embora tivesse a estranha sensação de não se puder mover e tão pouco abrir os olhos. Deixou-se estar quieto e aprofundou os sentidos. Continuava a sentir a presença da esposa em casa, mas tal não podia ser, pois esta já tinha saído. Ter-se ia esquecido de algo? Armando fez um esforço enorme para tentar perceber o que se estava a passar, mas sem êxito. Continuava a não se conseguir mover, nem abrir os olhos. Quando tentou chamar pela mulher, nada saiu da sua boca. Nem o mais pequeno som. De repente sentiu que a porta do quarto se abria. Armando ficou um pouco apreensivo, mas estranhamente mantinha-se calmo, embora o seu coração tivesse disparado violentamente. Armando sentiu uma aproximação da cama, sentiu a pressão no colchão, sentiu um aproximar de si, e mesmo antes de sentir o calor do beijo, que não podia ser da sua esposa, Armando, num esforço imenso, conseguiu que um som gutural sai-se da sua boca, simultaneamente que esticava os braços no sentido de evitar o contacto com o que quer ali se encontrasse.
A sensação da presença desapareceu, Armando manteve-se imóvel por alguns segundos até que abriu os olhos. Lentamente virou a cabeça para os dois lados, pois a cama encontrava-se a meio do quarto, mas nada viu de invulgar. A porta estava fechada, e o quarto encontrava-se sob a penumbra habitual da manhã. Lentamente, Armando, levantou-se, abriu as cortinas, levantou os estores, e imediatamente o quarto foi invadido por uma luz imensa. O dia estava limpo, e o sol brilhava com força. Armando deixou-se ficar ali alguns segundos, sentindo o calor do sol no rosto.
Alguns dias mais tarde, Armando, deitado na cama, depois de a esposa ter sido, apercebeu-se que o percurso matinal do seu vizinho, era em tudo idêntico ao da sua esposa. Sorriu.
Satisfeito por ter encontrado uma explicação, Armando, virou-se de barriga para cima, esticou os braços e assim ficou esperando a sua hora de levantar.
terça-feira, 6 de setembro de 2005
A Pessoa
A pessoa sempre tinha sonhado ser actor, não o era, mas também nunca tinha feito nada por isso. Era daqueles sonhos que não existem para ser concretizados, mas sim para serem unicamente sonhados, e a pessoa estava satisfeita com isso, além do mais, era para si impensável submeter-se a castings e essas coisas. No entanto, um dia pensou que seria interessante concretizar um pouco do seu sonho, mas na vida real, ser um actor da vida real!
Entusiasmado com a ideia de ser outro, tinha apenas que criar a sua personagem e encarná-la. Assim que começou a pensar nisto decidiu logo que a personagem não iria partilhar a exagerada timidez da pessoa, seria audaz, não teria qualquer problema em falar alto em sítios cheios de gente. A pessoa divertia-se bastante fingindo-se de burro e achou que seria divertido embrutecer a personagem, teria no entanto que tentar não exagerar de forma a manter a credibilidade. Por outro lado, havia traços da sua personalidade que achou bem incluir também na personagem, como o seu sagaz sentido de humor, que tentaria que não parecesse inteligente e a sua simpatia e boa disposição que tentaria exacerbar ao máximo. Pensou também em criar gostos diferentes para a personagem, mas achou que seria complicado e custoso de suportar pelo que decidiu deixar a questão dos gostos pessoais em aberto e nos momentos chave decidiria se a personagem iria partilhar a opinião da pessoa ou se, pelo contrário, inventaria no momento uma opinião para a personagem. Pensou até que o que já tinha era suficiente para iniciar a representação e que poderia depois ir aprofundando a personagem com o tempo.
Fechou os olhos e treinou a metamorfose, o momento em que deixava de ser a pessoa e se tornava a personagem, e depois de interiorizar o que imaginava ser algo como uma nova máscara, saiu para beber um café e testar o seu projecto. Embora não tivesse alterado nada no seu aspecto físico, tinha conseguido interiorizar a personagem de tal forma que se sentia realmente diferente, tinha até a estranha sensação de que se se visse ao espelho conseguiria ver a personagem e não a pessoa, mas isto era obviamente absurdo. Entrou no café, pediu o respectivo, num volume que não deixou dúvidas que todos os presentes tinham ouvido e, pensando que a personagem não era de estar ali no seu canto calada e quieta, disparou um “Então e o nosso Benfica?” ao empregado e ficou muito satisfeito por verificar que não só tinha conseguido despoletar uma efusiva conversa sobre futebol, como conseguiu participar nela activamente, e, naturalmente, no tom de voz adequado ao tema. Saiu com um ar triunfante, tinha tido a prova que precisava, iria conseguir levar a sua ideia a cabo!
No dia seguinte a pessoa levantou-se, vestiu a sua personagem e, deveras bem disposto, foi trabalhar. Tinha consciência que dificilmente alguém iria estranhar sobremaneira a mudança, pois, embora já lá trabalhasse há vários meses, não se podia dizer que tivesse uma relação pessoal com alguém, nunca tinha passado da conversa de circunstância e nas situações em que a isso era obrigado; não é que fosse anti-social, simplesmente era uma pessoa que tinha reservas em dar-se a conhecer, além de que o repugnava manter conversas fúteis, em particular as que eram relacionadas com as condições climatéricas. Da mesma forma, embora parecesse que não tinha amigos, tinha-os, mas era sempre uma relação longínqua, um telefonema ou um jantar de vez em quando para manter o contacto e voltava à sua vida solitária. Assim, o máximo que poderia acontecer era as pessoas acharem-no mais comunicativo e seguro de si, mas não seria o suficiente para desconfiarem que a pessoa estava apenas a representar um papel.
Entrou no edifício cumprimentando as pessoas da recepção, mesmo não estando ninguém a olhar para ele, coisa que para a pessoa era suficiente para entrar despercebido, foi desejando bom-dia a toda a gente por quem passou e ao chegar ao seu lugar emitiu um vigoroso e afável cumprimento a todas as pessoas da sala. Reparou que houve quem fizesse uma expressão de estranheza, mas com o passar dos dias toda a gente passou a considerar normal o seu comportamento. Uma das coisas que o deixava orgulhoso dos seus dotes de actor era o facto de ter deixado de usar o telefone para falar com pessoas na mesma sala, passando a falar sem problemas com volume suficiente para ser ouvido do outro lado da sala, que não era pequena, coisa que só a personagem poderia fazer, já que a timidez da pessoa a sempre tinha impedido.
Com o tempo a personagem ganhou forma, adensou-se, e com o passar das semanas a pessoa começou a perceber que se sentia curiosamente confortável representando a sua personagem, era compreensível que a autoconfiança e a presença da personagem tivessem melhorado bastante a sua relação com os outros, mas a verdade é que o conforto que sentia ia muito além disso. Sentia-se menos vulnerável pelo facto de não se estar a expor, não estava a dar a conhecer o seu verdadeiro eu e assim não tinha nada a temer, as opiniões e críticas que eventualmente lhe fizessem seriam à personagem e não à pessoa e assim a pessoa estava completamente protegida dos julgamentos, muitas vezes sumários, que o ser humano tem tendência a fazer em relação aos outros. Era como se a pessoa estivesse invulnerável dentro de uma carapaça que era a personagem. Até o facto de ter decidido que a personagem seria pouco inteligente funcionou como uma óptima protecção, bastaram algumas imbecilidades bem colocadas para toda a gente passar a não esperar nem exigir dele nada de complexo e, depois de ter conseguido vencer o desconforto que sentia ao verificar que mais alguém ficou a pensar que a pessoa era um idiota, mesmo apesar de não gostar muito de aturar o paternalismo de alguns, passou a ser infinitamente mais fácil impressionar os outros. Bastava-lhe dizer ou compreender algo que fosse pouco mais que básico para que achassem que estava a fazer um óptimo trabalho!
A pessoa sentia-se realmente abismada em como o facto de estar a representar um néscio ter facilitado tanto a sua vida. Constatou que efectivamente a inteligência é inversamente proporcional à felicidade e teve mesmo momentos em que desejou ser realmente burro. Ponderava se a humanidade teria mesmo ganho alguma coisa com a evolução da inteligência humana, podíamos não ter o conforto da vida moderna, mas cada vez acreditava mais que seríamos todos muito mais felizes. No entanto, dado que não tencionava submeter-se a nenhuma intervenção cirúrgica de forma a diminuir a sua inteligência, que certamente algum cirurgião cerebral experimentalista aceitaria executar, nem tampouco introduzir, pelo nariz, um lápis de cera no crânio; afastava estes pensamentos dizendo para si próprio que já que tínhamos evoluído até aqui, ao ponto de sermos infelizes, não valeria a pena dar passos para trás, só nos restaria continuar a evoluir, tentar evoluir para além da infelicidade.
Os meses passaram e a personagem estava cada vez mais cravada na pessoa, já não requeria qualquer esforço representá-la, e a pessoa continuava confortavelmente acomodada na sua redoma impenetrável, como quem observa o mundo de fora e a cada momento que passava a personagem aproximava-se tanto do mundo como a pessoa se afastava, e para esta tudo estava bem. Mas um dia alguém telefonou, era um amigo, alguém quem considerava realmente um amigo, com quem tinha uma relação sem exigências que conseguia manter sem se sentir obrigado a nada, mas que como tal, tinha períodos de afastamento. Ficou contente com o telefonema e atendeu bem-disposto. Mas a alguns minutos da conversa o amigo achou a pessoa estranha, e embora não falassem há já bastante tempo, a relação entre os dois nunca se tinha alterado, aliás, o facto de, mesmo após longos períodos sem contacto a relação se manter inalterada era uma coisa que estimava muito na sua amizade com a pessoa, era uma coisa que lhe dava segurança, pois sabia que quando algum deles tomasse a iniciativa de dizer qualquer coisa ao outro, que iriam recomeçar de onde tinham parado e o tempo decorrido não os faria sentirem-se menos confortáveis um com o outro. Mas desta vez havia algo errado, a pessoa parecia-lhe realmente diferente, lembrou-se da altura em que andavam muito juntos e que se divertiam desmesuradamente com a pessoa a fazer-se de estúpida para os empregados dos cafés ou restaurantes, e era impressionante a resistência que eles tinham a achar que estavam a ser gozados, em pontos em que o amigo assistia já incrédulo, eles continuavam cheios de paciência, pensando sempre que a pessoa era realmente bastante limitada e, embora talvez se questionassem se não seria uma farsa, a verdade é que a coisa nunca correu mal. Mas a pessoa nunca tinha feito isso com o amigo, o amigo achava até que era um dos poucos felizardos que consegui conhecer realmente a pessoa, mas este telefonema fê-lo duvidar de tudo isto. Perguntou-lhe se estava mesmo tudo bem, se se sentia bem, que o achava diferente. A pessoa tinha já a boca aberta para responder que estava tudo óptimo quando se apercebeu que, sem que tivesse qualquer controle sobre isso e não o tendo decidido fazer, quem falava ao telefone com o seu amigo não era a pessoa, era a sua personagem, já tão intrincada em si que estava a ter sérias dificuldades em impedir que ela emergisse. Conseguiu responder que talvez não estivesse tudo bem, que lhe explicaria tudo mas não podia ser naquele momento, precisava de pensar e ligar-lhe-ia mais tarde. Desligou o telefone e encostou-se a reflectir sobre o que estava a acontecer. Não era preciso ser um génio para perceber, tinha encarnado a personagem de uma forma tão intensa e durante tanto tempo, durante o qual, como não tinha tido contactos pessoais, raramente foi a pessoa. Nunca pensou que tal podia acontecer, mas a verdade é que estava tão confortavelmente habituado a ser a personagem que se tinha esquecido de ser a pessoa! Uma sensação de pânico começou a apoderar-se dele à medida que tomava consciência de que já não tinha a certeza de se conhecer a si próprio. Estava literalmente a tornar-se a personagem e percebeu que já não conseguia ser naturalmente a pessoa outra vez, tinha já até dúvidas sobre se um traço de personalidade pertenceria à pessoa ou à personagem. Enquanto o pânico aumentava teve a certeza que, mesmo com toda a segurança que lhe oferecia, não queria tornar-se a personagem, não queria que a personagem se tornasse uma pessoa, a sua pessoa, queria ser a pessoa que era dantes. Aliás, se a personagem passasse a ser uma pessoa a segurança da carapaça desapareceria. Por uma fracção de segundo pensou que poderia criar uma nova personagem e continuar o ciclo, mas percebeu que se sentia vazio, sentia que tinha deixado de ser uma pessoa dentro da redoma de uma personagem para passar a ser apenas a redoma, uma casca vazia, e que a única maneira de anular o vazio que sentia era voltar a ser a pessoa, a pessoa que era na realidade. Com o pânico já algo controlado consegui pensar claramente e aceitou que dada a confusão de que sofria, seria muito difícil conseguir sozinho ser a pessoa outra vez. Cumprindo o prometido, telefonou ao amigo dizendo que gostava que se encontrassem porque preferia contar-lhe pessoalmente o que se passava e que achava que iria precisar da sua ajuda. O amigo, identificando medo na voz da pessoa propôs que jantassem juntos nesse dia e poderiam falar à vontade. A personagem acedeu e durante o jantar, num esforço para ser a pessoa contou ao amigo tudo desde o princípio. Pediu ao amigo para passar algum tempo com ele e o ajudasse a identificar os momentos e atitudes em que estava a ser a personagem e os em que estava a ser a pessoa, ao que o amigo acedeu.
Foi um trabalho árduo a princípio, mas com o amigo a servir de âncora à realidade, a pessoa começou a conseguir impor-se à personagem, de tal forma que começou de novo a ganhar coragem para, quando saíam, se divertir com o amigo, como outrora, a representar pequenos papeis, no entanto nunca deixou de se questionar se não teria algo da pessoa desaparecido para sempre. A verdade é que a pessoa sonhava em ser actor, era daqueles sonhos que não existem para ser concretizados, mas sim para serem unicamente sonhados.
Entusiasmado com a ideia de ser outro, tinha apenas que criar a sua personagem e encarná-la. Assim que começou a pensar nisto decidiu logo que a personagem não iria partilhar a exagerada timidez da pessoa, seria audaz, não teria qualquer problema em falar alto em sítios cheios de gente. A pessoa divertia-se bastante fingindo-se de burro e achou que seria divertido embrutecer a personagem, teria no entanto que tentar não exagerar de forma a manter a credibilidade. Por outro lado, havia traços da sua personalidade que achou bem incluir também na personagem, como o seu sagaz sentido de humor, que tentaria que não parecesse inteligente e a sua simpatia e boa disposição que tentaria exacerbar ao máximo. Pensou também em criar gostos diferentes para a personagem, mas achou que seria complicado e custoso de suportar pelo que decidiu deixar a questão dos gostos pessoais em aberto e nos momentos chave decidiria se a personagem iria partilhar a opinião da pessoa ou se, pelo contrário, inventaria no momento uma opinião para a personagem. Pensou até que o que já tinha era suficiente para iniciar a representação e que poderia depois ir aprofundando a personagem com o tempo.
Fechou os olhos e treinou a metamorfose, o momento em que deixava de ser a pessoa e se tornava a personagem, e depois de interiorizar o que imaginava ser algo como uma nova máscara, saiu para beber um café e testar o seu projecto. Embora não tivesse alterado nada no seu aspecto físico, tinha conseguido interiorizar a personagem de tal forma que se sentia realmente diferente, tinha até a estranha sensação de que se se visse ao espelho conseguiria ver a personagem e não a pessoa, mas isto era obviamente absurdo. Entrou no café, pediu o respectivo, num volume que não deixou dúvidas que todos os presentes tinham ouvido e, pensando que a personagem não era de estar ali no seu canto calada e quieta, disparou um “Então e o nosso Benfica?” ao empregado e ficou muito satisfeito por verificar que não só tinha conseguido despoletar uma efusiva conversa sobre futebol, como conseguiu participar nela activamente, e, naturalmente, no tom de voz adequado ao tema. Saiu com um ar triunfante, tinha tido a prova que precisava, iria conseguir levar a sua ideia a cabo!
No dia seguinte a pessoa levantou-se, vestiu a sua personagem e, deveras bem disposto, foi trabalhar. Tinha consciência que dificilmente alguém iria estranhar sobremaneira a mudança, pois, embora já lá trabalhasse há vários meses, não se podia dizer que tivesse uma relação pessoal com alguém, nunca tinha passado da conversa de circunstância e nas situações em que a isso era obrigado; não é que fosse anti-social, simplesmente era uma pessoa que tinha reservas em dar-se a conhecer, além de que o repugnava manter conversas fúteis, em particular as que eram relacionadas com as condições climatéricas. Da mesma forma, embora parecesse que não tinha amigos, tinha-os, mas era sempre uma relação longínqua, um telefonema ou um jantar de vez em quando para manter o contacto e voltava à sua vida solitária. Assim, o máximo que poderia acontecer era as pessoas acharem-no mais comunicativo e seguro de si, mas não seria o suficiente para desconfiarem que a pessoa estava apenas a representar um papel.
Entrou no edifício cumprimentando as pessoas da recepção, mesmo não estando ninguém a olhar para ele, coisa que para a pessoa era suficiente para entrar despercebido, foi desejando bom-dia a toda a gente por quem passou e ao chegar ao seu lugar emitiu um vigoroso e afável cumprimento a todas as pessoas da sala. Reparou que houve quem fizesse uma expressão de estranheza, mas com o passar dos dias toda a gente passou a considerar normal o seu comportamento. Uma das coisas que o deixava orgulhoso dos seus dotes de actor era o facto de ter deixado de usar o telefone para falar com pessoas na mesma sala, passando a falar sem problemas com volume suficiente para ser ouvido do outro lado da sala, que não era pequena, coisa que só a personagem poderia fazer, já que a timidez da pessoa a sempre tinha impedido.
Com o tempo a personagem ganhou forma, adensou-se, e com o passar das semanas a pessoa começou a perceber que se sentia curiosamente confortável representando a sua personagem, era compreensível que a autoconfiança e a presença da personagem tivessem melhorado bastante a sua relação com os outros, mas a verdade é que o conforto que sentia ia muito além disso. Sentia-se menos vulnerável pelo facto de não se estar a expor, não estava a dar a conhecer o seu verdadeiro eu e assim não tinha nada a temer, as opiniões e críticas que eventualmente lhe fizessem seriam à personagem e não à pessoa e assim a pessoa estava completamente protegida dos julgamentos, muitas vezes sumários, que o ser humano tem tendência a fazer em relação aos outros. Era como se a pessoa estivesse invulnerável dentro de uma carapaça que era a personagem. Até o facto de ter decidido que a personagem seria pouco inteligente funcionou como uma óptima protecção, bastaram algumas imbecilidades bem colocadas para toda a gente passar a não esperar nem exigir dele nada de complexo e, depois de ter conseguido vencer o desconforto que sentia ao verificar que mais alguém ficou a pensar que a pessoa era um idiota, mesmo apesar de não gostar muito de aturar o paternalismo de alguns, passou a ser infinitamente mais fácil impressionar os outros. Bastava-lhe dizer ou compreender algo que fosse pouco mais que básico para que achassem que estava a fazer um óptimo trabalho!
A pessoa sentia-se realmente abismada em como o facto de estar a representar um néscio ter facilitado tanto a sua vida. Constatou que efectivamente a inteligência é inversamente proporcional à felicidade e teve mesmo momentos em que desejou ser realmente burro. Ponderava se a humanidade teria mesmo ganho alguma coisa com a evolução da inteligência humana, podíamos não ter o conforto da vida moderna, mas cada vez acreditava mais que seríamos todos muito mais felizes. No entanto, dado que não tencionava submeter-se a nenhuma intervenção cirúrgica de forma a diminuir a sua inteligência, que certamente algum cirurgião cerebral experimentalista aceitaria executar, nem tampouco introduzir, pelo nariz, um lápis de cera no crânio; afastava estes pensamentos dizendo para si próprio que já que tínhamos evoluído até aqui, ao ponto de sermos infelizes, não valeria a pena dar passos para trás, só nos restaria continuar a evoluir, tentar evoluir para além da infelicidade.
Os meses passaram e a personagem estava cada vez mais cravada na pessoa, já não requeria qualquer esforço representá-la, e a pessoa continuava confortavelmente acomodada na sua redoma impenetrável, como quem observa o mundo de fora e a cada momento que passava a personagem aproximava-se tanto do mundo como a pessoa se afastava, e para esta tudo estava bem. Mas um dia alguém telefonou, era um amigo, alguém quem considerava realmente um amigo, com quem tinha uma relação sem exigências que conseguia manter sem se sentir obrigado a nada, mas que como tal, tinha períodos de afastamento. Ficou contente com o telefonema e atendeu bem-disposto. Mas a alguns minutos da conversa o amigo achou a pessoa estranha, e embora não falassem há já bastante tempo, a relação entre os dois nunca se tinha alterado, aliás, o facto de, mesmo após longos períodos sem contacto a relação se manter inalterada era uma coisa que estimava muito na sua amizade com a pessoa, era uma coisa que lhe dava segurança, pois sabia que quando algum deles tomasse a iniciativa de dizer qualquer coisa ao outro, que iriam recomeçar de onde tinham parado e o tempo decorrido não os faria sentirem-se menos confortáveis um com o outro. Mas desta vez havia algo errado, a pessoa parecia-lhe realmente diferente, lembrou-se da altura em que andavam muito juntos e que se divertiam desmesuradamente com a pessoa a fazer-se de estúpida para os empregados dos cafés ou restaurantes, e era impressionante a resistência que eles tinham a achar que estavam a ser gozados, em pontos em que o amigo assistia já incrédulo, eles continuavam cheios de paciência, pensando sempre que a pessoa era realmente bastante limitada e, embora talvez se questionassem se não seria uma farsa, a verdade é que a coisa nunca correu mal. Mas a pessoa nunca tinha feito isso com o amigo, o amigo achava até que era um dos poucos felizardos que consegui conhecer realmente a pessoa, mas este telefonema fê-lo duvidar de tudo isto. Perguntou-lhe se estava mesmo tudo bem, se se sentia bem, que o achava diferente. A pessoa tinha já a boca aberta para responder que estava tudo óptimo quando se apercebeu que, sem que tivesse qualquer controle sobre isso e não o tendo decidido fazer, quem falava ao telefone com o seu amigo não era a pessoa, era a sua personagem, já tão intrincada em si que estava a ter sérias dificuldades em impedir que ela emergisse. Conseguiu responder que talvez não estivesse tudo bem, que lhe explicaria tudo mas não podia ser naquele momento, precisava de pensar e ligar-lhe-ia mais tarde. Desligou o telefone e encostou-se a reflectir sobre o que estava a acontecer. Não era preciso ser um génio para perceber, tinha encarnado a personagem de uma forma tão intensa e durante tanto tempo, durante o qual, como não tinha tido contactos pessoais, raramente foi a pessoa. Nunca pensou que tal podia acontecer, mas a verdade é que estava tão confortavelmente habituado a ser a personagem que se tinha esquecido de ser a pessoa! Uma sensação de pânico começou a apoderar-se dele à medida que tomava consciência de que já não tinha a certeza de se conhecer a si próprio. Estava literalmente a tornar-se a personagem e percebeu que já não conseguia ser naturalmente a pessoa outra vez, tinha já até dúvidas sobre se um traço de personalidade pertenceria à pessoa ou à personagem. Enquanto o pânico aumentava teve a certeza que, mesmo com toda a segurança que lhe oferecia, não queria tornar-se a personagem, não queria que a personagem se tornasse uma pessoa, a sua pessoa, queria ser a pessoa que era dantes. Aliás, se a personagem passasse a ser uma pessoa a segurança da carapaça desapareceria. Por uma fracção de segundo pensou que poderia criar uma nova personagem e continuar o ciclo, mas percebeu que se sentia vazio, sentia que tinha deixado de ser uma pessoa dentro da redoma de uma personagem para passar a ser apenas a redoma, uma casca vazia, e que a única maneira de anular o vazio que sentia era voltar a ser a pessoa, a pessoa que era na realidade. Com o pânico já algo controlado consegui pensar claramente e aceitou que dada a confusão de que sofria, seria muito difícil conseguir sozinho ser a pessoa outra vez. Cumprindo o prometido, telefonou ao amigo dizendo que gostava que se encontrassem porque preferia contar-lhe pessoalmente o que se passava e que achava que iria precisar da sua ajuda. O amigo, identificando medo na voz da pessoa propôs que jantassem juntos nesse dia e poderiam falar à vontade. A personagem acedeu e durante o jantar, num esforço para ser a pessoa contou ao amigo tudo desde o princípio. Pediu ao amigo para passar algum tempo com ele e o ajudasse a identificar os momentos e atitudes em que estava a ser a personagem e os em que estava a ser a pessoa, ao que o amigo acedeu.
Foi um trabalho árduo a princípio, mas com o amigo a servir de âncora à realidade, a pessoa começou a conseguir impor-se à personagem, de tal forma que começou de novo a ganhar coragem para, quando saíam, se divertir com o amigo, como outrora, a representar pequenos papeis, no entanto nunca deixou de se questionar se não teria algo da pessoa desaparecido para sempre. A verdade é que a pessoa sonhava em ser actor, era daqueles sonhos que não existem para ser concretizados, mas sim para serem unicamente sonhados.
Ali estava eu deitado, num cenário de alva brancura, rodeado por vultos de branco vestidos, de volta de uma parafernália de aparelhos cheios de luzes e um constante bip, bip, como se de um ritmo cardíaco se tratasse.
Não me lembro de como aqui vim parar. A última recordação que tenho, foi de estar a passear no parque com as crianças, e sentir uma violenta dor no peito, seguida de escuridão. Quando acordei já aqui me encontrava. Suponho que sejam médicos ou enfermeiros, os vultos que me rodeiam. Parece que estou num hospital. Mas porquê?
Até então nunca tinha tido problemas de saúde. Sempre fui saudável, "...uma saúde de ferro." Diziam. E agora estou aqui sem preceber porquê, nem como.
Uma avalanche de imagens invade-me a cabeça. Vejo as crianças, o Miguel, e a Rute. Vejo a Sara, a mãe. São a minha família. A minha única família.
A maca onde me encontro começa-se a mover. A dor no peito intensificou-se e o bip, bip aumentou de ritmo.
Ao sair da sala em que me encontrava vejo que os miúdos, acompanhados da mãe, estão ali. O Miguel, o mais pequeno chora agarrado à mãe, que o tenta acalmar, embora também ela chore. A Rute aproxima-se, com lágrimas nos olhos, e passa-me a mão na cabeça, em quanto continuo o percursso não sei para onde. Em breve só ouço o choro do mais pequeno, que continuava agarrado à mãe a chorar.
Entro numa outra sala em tudo idêntica à primeira, não fossem os projectores de alta voltagem que me cegam a vista. Fecho os olhos. Fico quieto, apenas a ouvir . Ouço o barulho de passos, de metal , objectos a serem movidos de um lado para o outro. Alguém dá instruções, outro alguém as acata. Depois, só silêncio. Apenas o , bip, bip, se mantém a um ritmo acelerado. Ouço vozes. Ouço-as como se estivessem na sala ao lado, e não ali comigo. Sinto que algo me envolve o nariz e a boca. Instintivamente abano a cabeça no intuito de me livrar daquilo, mas imediatamente sinto uma pressão na cabeça que me impede o movimento, ao mesmo tempo que ouço falarem comigo. "Está tudo bem, calma". Sinto um a caricia na cabeça. Fico calmo, embora o coração pareça querer saltar-me do peito, e sinta os pulmões a arder. Mais uma vez ouço vozes. E fico finalmente a saber o que realmente se passou.
Fui atingido por uma bala. Parece que assaltaram o quiosque de revistas do parque, e o assaltante fugiu a pé pelo parque. Dizem que o tentei deter, e o assaltante deu-me um tiro à queima roupa. Parece que o apanharam, mas a mim parece-me mais que quem foi apanhado fui eu. " Não há nada a fazer." Ouço dizer. E mais uma vez sou invadido por uma montanha de imagens das crianças e da Sara, e desejo do fundo do meu ser , que a minha partida seja rápida, e que a Sara e os miúdos prossigam com as suas vidas sem receios. Recordarei para sempre, os momentos que passámos juntos. As férias, os longos passeios de fim de semana, as brincadeiras com as crianças, os serões com a Sara no sofá frente á televisão, as atribuladas manhãs com as crianças, com a Sara sempre a apressar os miúdos para a escola.
Ainda me lembro do dia em que os conheci. Era apenas um cachorro.
Não me lembro de como aqui vim parar. A última recordação que tenho, foi de estar a passear no parque com as crianças, e sentir uma violenta dor no peito, seguida de escuridão. Quando acordei já aqui me encontrava. Suponho que sejam médicos ou enfermeiros, os vultos que me rodeiam. Parece que estou num hospital. Mas porquê?
Até então nunca tinha tido problemas de saúde. Sempre fui saudável, "...uma saúde de ferro." Diziam. E agora estou aqui sem preceber porquê, nem como.
Uma avalanche de imagens invade-me a cabeça. Vejo as crianças, o Miguel, e a Rute. Vejo a Sara, a mãe. São a minha família. A minha única família.
A maca onde me encontro começa-se a mover. A dor no peito intensificou-se e o bip, bip aumentou de ritmo.
Ao sair da sala em que me encontrava vejo que os miúdos, acompanhados da mãe, estão ali. O Miguel, o mais pequeno chora agarrado à mãe, que o tenta acalmar, embora também ela chore. A Rute aproxima-se, com lágrimas nos olhos, e passa-me a mão na cabeça, em quanto continuo o percursso não sei para onde. Em breve só ouço o choro do mais pequeno, que continuava agarrado à mãe a chorar.
Entro numa outra sala em tudo idêntica à primeira, não fossem os projectores de alta voltagem que me cegam a vista. Fecho os olhos. Fico quieto, apenas a ouvir . Ouço o barulho de passos, de metal , objectos a serem movidos de um lado para o outro. Alguém dá instruções, outro alguém as acata. Depois, só silêncio. Apenas o , bip, bip, se mantém a um ritmo acelerado. Ouço vozes. Ouço-as como se estivessem na sala ao lado, e não ali comigo. Sinto que algo me envolve o nariz e a boca. Instintivamente abano a cabeça no intuito de me livrar daquilo, mas imediatamente sinto uma pressão na cabeça que me impede o movimento, ao mesmo tempo que ouço falarem comigo. "Está tudo bem, calma". Sinto um a caricia na cabeça. Fico calmo, embora o coração pareça querer saltar-me do peito, e sinta os pulmões a arder. Mais uma vez ouço vozes. E fico finalmente a saber o que realmente se passou.
Fui atingido por uma bala. Parece que assaltaram o quiosque de revistas do parque, e o assaltante fugiu a pé pelo parque. Dizem que o tentei deter, e o assaltante deu-me um tiro à queima roupa. Parece que o apanharam, mas a mim parece-me mais que quem foi apanhado fui eu. " Não há nada a fazer." Ouço dizer. E mais uma vez sou invadido por uma montanha de imagens das crianças e da Sara, e desejo do fundo do meu ser , que a minha partida seja rápida, e que a Sara e os miúdos prossigam com as suas vidas sem receios. Recordarei para sempre, os momentos que passámos juntos. As férias, os longos passeios de fim de semana, as brincadeiras com as crianças, os serões com a Sara no sofá frente á televisão, as atribuladas manhãs com as crianças, com a Sara sempre a apressar os miúdos para a escola.
Ainda me lembro do dia em que os conheci. Era apenas um cachorro.
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
"Você é teimoso!"
Chamaram-me teimoso… Mas afinal o que é ser teimoso? É bom ou é mau ser teimoso? Normalmente as pessoas chamam teimoso de forma depreciativa mas porque as outras não fazem o que elas querem, mas quem está a ser teimoso nessa situação? Quem faz o que quer ou quem quer que os outros façam o que quer? Ser teimoso é bom! Quer dizer que somos firmes nos nossos princípios e nas nossas convicções, quer dizer que pensamos, que não fazemos tudo o que nos mandam só porque nos mandaram! Sou teimoso, sim, mas conscientemente, orgulhosamente até!
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
Debaixo do grande cedro
A Gabriela era artista plástica, havia quem a achasse excêntrica, esquisita e até mesmo anormal, mas na realidade havia basicamente uma coisa que a distinguia da maioria das demais pessoas. Esta coisa era o seu imensurável ódio pelo conceito geral de posse material, e pelo dinheiro em particular. Já desde tenra idade tinha decidido nunca mais tocar em dinheiro. De facto, a Gabriela era artista plástica, mas era uma coisa difícil de provar, visto que quando terminava uma obra, apercebia-se que a partir desse momento a obra tinha deixado de ser meramente arte, tinha passado a ser um bem material, ainda por cima passível de ser comprado, vendido, avaliado. Claro que isso era uma coisa que só poderia eventualmente acontecer após a sua morte, mas a ideia afectava-a de tal forma que, apesar de poder ter trabalhado durante meses naquela peça, numa questão de minutos após ser concluída, a peça era completamente destruída! Desta forma, a única possibilidade existente de ver um trabalho da Gabriela era ir a casa da D. Felisberta, onde a Gabriela tinha um dia pintado um mural, conseguiu convencer-se que dado que não tinha mobilidade poderia considerar que a obra não existia materialmente, certamente ninguém iria arrancar uma parede e vendê-la, e foi uma forma de agradecer à vizinha todas as vezes que lhe levava comida. Dadas as suas convicções levava a vida mais simples que se pode imaginar, além de trabalhar nas suas esculturas feitas com materiais que trazia da rua, gastava o resto do seu tempo a ler livros emprestados e a fazer favores e tarefas domésticas às vizinhas como forma de pagar a comida que lhe davam, não que elas o exigissem, era a Gabriela que impunha esta retribuição que nem achava suficiente. Um dia, não sabemos bem se sentiu que já estava a abusar da bondade das vizinhas ou se simplesmente decidiu migrar, desapareceu. Na arrecadação onde vivia ficaram apenas os livros emprestados e os restos irreconhecíveis da sua última obra. É impossível saber ao certo, mas algo me faz acreditar que seguiu para Leste.
O Orlando era um rapaz normal, embora, naturalmente, não seja completamente verdade, pode até dizer-se que a sua vida não teve nada digno de nota até àquela manhã de Março em que se apercebeu do aparecimento de uma pequena verruga na testa. Sem poder adivinhar que aquela verruga era o início de uma mudança radical na sua vida, nem sequer lhe deu importância. Começou, no entanto a ficar alarmado quando na manhã seguinte, não só a verruga do dia anterior estava maior, como uma nova verruga tinha aparecido, desta vez por baixo do lábio inferior. Os meses seguintes foram divididos entre correrias de um médico para outro e o aparecimento ou crescimento das verrugas que cobriam já quase completamente o seu rosto.
Foram tempos terríveis para o Orlando, a ver a sua face desaparecer gradualmente dando lugar ao monstro que o atormentava do outro lado do espelho, mas o que ele não sabia é que pior ainda estava para vir. Depois de tentados todos os tratamentos e verificando que, apesar de tudo, a sua saúde estava óptima e o problema era puramente estético, o Orlando voltou para casa. Foi pior porque o apoio e a força que estava confiante que iria encontrar nos amigos não estava lá. Parecia que tinha mudado de identidade, as pessoas ficavam claramente pouco à vontade perto dele, os sentimentos pouco passavam de pena ou discriminação, nunca mais foi convidado para nada e, desiludido com o ser humano, aos poucos acabou por deixar de falar com os outros e passava os seus dias no café, a ler ou a escrevinhar qualquer coisa.
A gota de água foi quando, no café que frequentava há anos, já nem sabia quantos, no café onde se sentia tão à vontade como se estivesse em casa, onde tratava os empregados pelo nome e eles faziam o mesmo com ele, nesse café onde sentia que se podia refugiar dos olhares constantes, lhe pediram cordialmente para evitar lá ir porque afastava a clientela. Foi como uma estocada certeira no coração, boquiaberto a olhar para o dono do café com um ar incrédulo sentiu que não aguentaria mais, sentiu que o golpe tinha sido fatal, não conseguia compreender porque faziam isto, porque tinha a sua vida mudado tanto. Ele continuava a ser a mesma pessoa! Não compreendia como é que uma alteração física podia destruir completamente a sua vida, como é que as pessoas não conseguiam relacionar-se com ele da mesma forma que antes. Ainda com os olhos fixos no dono do café sentiu que ia irromper em lágrimas, mas reuniu todas as suas forças e saiu porta fora. Foi a última vez que o Orlando foi visto por aquelas bandas. Dizem as histórias passadas de boca em boca sobre o selvagem rapaz-verruga que lá morava, que um dia começou a cheirar o ar e assim, de nariz levantado como quem persegue um aroma, foi andando no sentido do sol poente e nunca mais foi visto, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo.
O Octávio era daqueles gajos que parece um íman de mulheres, sempre me impressionou o efeito que ele tinha nelas, era impressionante como mudavam assim que o viam, ficavam indefesas, incapazes de controlar os seus impulsos. Claro que havia as que pareciam imunes, mas a maioria delas ficava totalmente parva. É que, ainda por cima, além da sua a figura de Apolo, o Octávio era a boa-disposição personificada, isto fazia dele uma pessoa muito popular entre ambos os sexos, os amigos conseguiam passar horas a ouvi-lo contar histórias das figuras ridículas que as mulheres faziam para o tentar seduzir e normalmente acabavam cheios de dores na barriga e nas bochechas de tanto rir. Mas a verdade é que elas ficavam completamente fora de si e observar este comportamento era já um passatempo dos amigos do Octávio.
O engraçado é que o Octávio não era para aí virado, não me interpretem mal, ele gostava de mulheres, mas procurava algo diferente, provavelmente procurava uma mulher que não se prostrasse aos seus pés, que não perdesse a compostura, uma mulher que visse além do seu aspecto físico. Acreditando plenamente que a sua alma gémea existia, pensou que sendo o mundo tão grande, não poderia perder tempo, estava convicto que o sítio onde estava já tinha nada para lhe oferecer e, com a roupa que tinha no corpo e algum dinheiro no bolso, partiu. Decidiu apanhar o comboio que saísse primeiro quando chegasse à estação e assim fez. E foi assim que o destino o levou para Norte.
A Gisela era afinadora de pianos, provavelmente uma das melhores, nunca usou nada electrónico e ao fim de pouco mais de um ano abdicou completamente do diapasão e passou a afinar unicamente de ouvido. Nunca houve um cliente descontente e muitos deles acabaram por se tornar bons amigos, inclusivamente, podia dizer-se que eram os seus únicos amigos. No entanto, havia clientes mais desinteressados e que ainda nem tinham reparado que a Gisela era cega. O som era a sua vida, não só a sua profissão e os seus tempos livres, já que quando não estava a trabalhar estava a tocar ou ouvir música, mas era o som que a guiava escuridão adentro. Contudo, com o passar dos anos começou a sensação de necessidade de algo mais, algo maior, mais elevado, o Som! Um som tão sublime que uma nota apenas seria capaz de despoletar as mais latentes e majestosas emoções. Não sabia como poderia designar tal som, pelo que chamava-lhe apenas o Som. Ao princípio, quando idealizou que o Som poderia existir pensava que era só uma ideia maluca, mas agora sentia um vazio interior que acreditava poder ser unicamente preenchido pelo Som, e desta forma a sua existência teria que ser real, caso contrário seria como haver um puzzle com uma peça inexistente e isso não tinha sentido, teria que existir algures a peça que a completava.
Certo dia, tinha a Gisela acabado de afinar o fá da terceira oitava quando o cliente, pressionando insistente e repetidamente a respectiva tecla, garantia que tinha um exímio ouvido e constatava claramente que a afinação não estava perfeita. A Gisela, com a máxima calma, levantou-se, guardou as suas poucas ferramentas de trabalho, que não incluíam mais do que duas cunhas uma chave, na pequena bolsa para o efeito, colocou-a no bolso de trás das calças e saiu sem dizer uma palavra. Sem qualquer hesitação foi para casa, preparou uma mochila com alguma roupa e produtos de primeira necessidade e partiu para Sul.
Não sei onde era, mas certamente não havia civilização num raio de muitos quilómetros. Embora bela, a paisagem seria bastante banal não fosse a enorme árvore que se destacava de tudo o resto. Era um cedro, um grande cedro que, embora não fosse muito alto, tinha uma envergadura imponente. Duas pessoas de mãos dadas não conseguiam abraçá-lo e o diâmetro da circunferência formada pelas pontas dos seus ramos atingia vários metros, o seu peso fazia com que as pontas mais longínquas quase tocassem o chão, o que tornava quem estivesse debaixo da sua copa praticamente invisível e bastante abrigado das intempéries. A cerca de um quilómetro do cedro havia um riacho, do outro lado do qual estava uma mata povoada principalmente por pinheiros baixos.
Nesta paisagem, à primeira vista deserta, aparecem quatro pessoas. Quatro pessoas desconhecidas entre si, vindas de quatro direcções distintas, todas dirigindo-se na direcção do grande cedro. Quatro pessoas que, ainda sem o saberem estavam prestes a terminar a sua jornada. A maioria começa, com alguma estranheza, a algumas dezenas de metros a aperceber-se dos outros, mas a Gisela, avançando devagar mas confiante, já sabia há algum tempo que mais três pessoas caminhavam nas redondezas. Tinha até a noção, pelo que conseguia inferir através da variação da amplitude do som dos seus passos, que todos se dirigiam para um ponto comum, onde se encontrariam. Ao chegar à orla da copa do grande cedro foram abrandando, cumprimentando-se entre si com alguma desconfiança, excepto a Gisela, que emitiu um sonoro “Muito boa tarde a todos” e tacteando a ponta dos ramos gatinhou por baixo deles para se sentar encostada ao velho tronco desfrutando a sombra. Não sei se terá sido pela improbabilidade daquelas quatro pessoas desconhecidas se encontrarem naquela sítio recôndito, ou se terão eles sentido algo de inexplicável, mas a verdade é que nenhum deles conseguia fazer-se acreditar que estavam juntos por acaso. E no caso de estarem a conseguir, estava ali aquela rapariga com uma bengala de cego, sentada com um ar confiante, como se soubesse alguma coisa que os outros não sabiam. Não, nada daquilo podia ser obra do acaso!
Acabaram por se sentar todos debaixo da copa do grande cedro, e, embora o Octávio ainda estivesse nitidamente a tentar controlar o choque que a aparência do Orlando tinha provocado em si, a Gabriela olhava-o com uma expressão de fascínio e, passando as mãos pelo seu rosto, coisa que desde que a doença tinha começado ninguém ainda tinha feito sem usar luvas de borracha, exclamou calmamente:
- És tão diferente! Como é que te chamas?
O Orlando, ainda afectado pelo choque, há já bastante tempo que não sentia alguém tratá-lo com tanta naturalidade, respondeu trémulo.
– Orlando. E tu?
– Gabriela. E vocês?
Perguntou virando-se para os outros, que responderam com os seus nomes.
– Não sei se alguém acredita que nos encontrámos aqui por pura coincidência.
Continuou.
– Mas eu acho que viemos todos à procura de algo, e por alguma razão a nossa busca trouxe-nos aqui.
Terminou passando as costas da mão na face do Orlando, que sem tirar os olhos da Gabriela retorquiu:
– Eu só procurava alguém que me tratasse como uma pessoa, alguém que não deixasse a minha aparência fazer esquecer o facto de que por dentro sou um ser humano como os outros. E quer-me parecer que posso ter encontrado.
Terminou distendendo a boca no esgar que era o seu sorriso.
– Como é que conseguiste vir aqui ter sozinha? Perguntou o Octávio à Gisela.
– E de que é que vens à procura?
– Quando de é cego de nascença aprende-se a ver com os outros sentidos e, quando tudo falha a minha bengala não me deixa esbarrar nas coisas. Respondeu.
– E se vos disser do que venho à procura, vão achar que sou maluca.
– Só dizes se quiseres, naturalmente ninguém te vai obrigar, mas parece-me a melhor situação para partilhares a tua maluqueira, com o dia que estamos a ter hoje acho que está toda a gente com a mente aberta.
Respondeu a Gabriela em tom bem-disposto.
– Se querem mesmo saber, vim à procura de um som.
Continuou Gisela, e como se pudesse ver as expressões de interrogação nas faces dos seus companheiros, passou a tentar explicar.
– As pessoas que vêm têm o vício de pôr toda a confiança na visão. Ver é tudo, se não há algo que não conseguem ver, têm tendência para duvidar da sua existência. A audição também nos permite conhecer as coisas, sentir o mundo, e até mesmo construir imagens mentais dele. Não pensem na minha cegueira como um impedimento, mas como uma diferença, uma diferença que, como a tua Orlando, não nos torna menos humanos. E no meu caso, embora possa parecer incapacitante, a verdade é que me faz ter capacidades que vocês não têm, permite-me também ver as coisas e até algumas que vocês não vêm. Por exemplo…
Continuou adivinhando a pergunta que se materializava nas mentes dos outros.
– Há um riacho a cerca de um quilómetro nesta direcção, mais adiante há árvores, há um ninho com uma cria no topo desta árvore, e tu Octávio, tens 55 cêntimos no bolso! E sei isto tudo apenas pelo som. Toda a minha vida gira à volta do som e eu procuro um som em particular, um som que nunca ouvi antes mas que tenho a certeza que vou reconhecer!
Confirmando a precisão da informação sobre as moedas no seu bolso, o Octávio quebrou os segundos de silêncio que aconteceram depois da Gisela se calar.
– Espero sinceramente que o encontres!
E a Gisela sentiu a sinceridade nas suas palavras.
– E tu? Retorquiu.
– O que procuras tu?
– Eu só procuro o amor verdadeiro. Respondeu.
– Procuro, no fundo, algo não muito diferente do que o Orlando procura, procuro uma mulher que me ame pelo que sou e não pelo que eu aparento. De uma mulher que consiga dar mais importância à minha personalidade que ao meu físico. Olhando para a Gisela enquanto terminava a frase, pensou se não teria também já encontrado a pessoa que procurava, mas não partilhou este pensamento com os demais.
– Mas tu és todo bom, e tal, é?
Perguntou desinteressada a Gabriela perante o olhar incrédulo do Octávio.
– Bom… as mulheres têm uma forte tendência para achar que sim. Tu não achas?
– Para ser sincera não fazes bem o meu estilo. Sem querer ofender, acho-te demasiado banal
– Tudo bem! Respondeu o Octávio com um sorriso.
– Já é um começo!
Mas a verdade é que sentiu uma ponta de mágoa que foi afastada com sucesso pela carícia da Gisela, que passou a mão pela sua nuca parecendo que, como sempre, tinha a habilidade de sentir as emoções das pessoas mesmo sem conseguir ver as suas expressões faciais.
– Só faltas tu.
Disse o Octávio à Gabriela, tentando disfarçar o despeito que ainda perdurava.
– Eu lamento desapontá-los, mas a verdade é que eu, apesar de saber que vim à procura de algo, não sei o que é esse algo, só sei que sinto a sua falta na minha vida.
– Bom, o que é que fazemos agora? Perguntou o Orlando. – Já está a ficar de noite e a única coisa que eu tenho para comermos são estas maçãs que roubei num pomar lá atrás.
– Acho que vamos ter que passar a noite aqui, eu tenho aqui um pacote de bolachas e uma garrafa de água, dá para nos remediarmos até amanhã. Depois logo vemos o que fazemos. Respondeu a Gisela, colocando os seus mantimentos junto das cerca de dez maçãs. Todos concordaram e, após fazerem desaparecer os parcos mantimentos em amena conversa, vencidos pela exaustão da caminhada que todos tinham dado até ali, deixaram-se adormecer por lá, abrigados pela copa do grande cedro e ninguém se sentiu desabrigado ou desprotegido, aliás, sentiam-se mais em casa do que alguma vez já tinham sentido.
Na manhã seguinte, aos primeiros raios de sol, foram acordados pelos pássaros que num bando cada vez maior percorriam o céu matinal, formando figuras no ar como se de uma obra de arte viva se tratassem. A Gisela foi a primeira a sair de debaixo da copa do grande cedro e sentar-se a sentir o sol na cara movendo a cabeça no sentido do chilrear uníssono do bando que já somava milhares de indivíduos. Até onde ia a impressionante capacidade auditiva da Gisela, é impossível saber ao certo, mas podemos acreditar que ela conseguia, através do chilrear individual da cada pássaro formar uma imagem mental das formas que o bando ia tomando. Minutos depois estavam os quatro sentados lado a lado, de olhos fechados, sem ninguém dizer uma palavra, a sentir na face o calor do dia que começava. Passou certamente mais de meia hora até que o Octávio, provavelmente impelido pelo seu estômago, disse que precisavam de arranjar comida. Dado o insuficiente jantar do dia anterior, todos concordaram sem reservas e decidiram separar-se em dois grupos, um dos quais iria no sentido de onde o Orlando veio, onde era certo poderem pelo menos subtrair alguma fruta dos pomares espalhados, enquanto o outro iria no sentido do riacho para verificar se a água parecia potável, e tentar também explorar a mata em busca de alimento, onde certamente encontrariam, pelo menos, amoras e pinhões.
Não haveria naturalmente nenhum problema na definição dos grupos e a Gabriela tomou a iniciativa dizendo que ia com o Orlando aos pomares, e assim se separaram, cada casal com o seu destino.
Ao chegar ao riacho, a Gisela ajoelhou-se e debruçou-se cheirando a água. – Parece-me boa. Disse. – A mim também! Respondeu o Octávio já com os pés dentro de água. – E fresquinha! Ambos beberam e, depois de atravessarem o riacho, cuja água apenas lhes chegava à cintura na zona mais profunda, tomaram um débil pequeno-almoço de amoras da silva que pendia do outro lado. Avançaram pela mata e regressaram pouco mais de uma hora depois com a camisola do Octávio cheia com um sortido de amoras, medronhos, cerejas silvestres e pinhões. Ao regressarem ao riacho sentaram-se junto à água para descansar antes de voltarem ao grande cedro que, na situação em que estavam era o mesmo que voltar para casa. Sentaram-se ao lado um do outro, na margem do riacho à sombra de uma árvore que crescia quase na horizontal, invadidos pela tranquilidade do lugar. Depois de olhar para a Gisela durante algum tempo numa tentativa de discernir os seus sentimentos, colocou o braço à volta dos seus ombros, ao que ela respondeu aproximando-se dele e deitando a sua cabeça no seu peito. Foi aí que a sua vida mudou para sempre! Era o Som! Tinha a certeza que era! O batimento compassado do coração do Octávio percorria todo o seu corpo deixando uma sensação de plenitude. Não podia estar enganada, tinha encontrado o Som, a sua busca tinha terminado e sentia-se completa, feliz, mais feliz que nunca. Era aquele som que a preenchia, a peça que faltava no puzzle que era a sua vida. E ficaram ali, não sabem quanto tempo, sem dizer uma palavra, prolongando o momento em que se completaram.
Quando chegaram ao primeiro pomar, a Gabriela e o Orlando iam já de mão dada, o que para o Orlando era ainda uma sensação muito estranha.
Casualmente, quase como se estivesse a falar sozinho, disse:
– Acho que posso considerar que tive sorte. Viemos os quatro à procura de alguma coisa e parece que até agora fui o único a encontrá-la.
A Gabriela, virando-se de frente para ele e olhando bem fundo nos seus olhos e com tal intensidade que ambos deixaram escorrer uma lágrima, respondeu:
– Eu também já encontrei! E uniram-se num abraço que, por qualquer um deles, podia ter durado para sempre.
Não se sabe bem o que aconteceu depois, mas eu gosto de acreditar que eles ainda lá estão, a viver debaixo do grande cedro, e esse, esse está lá de certeza, e tem escrita no seu tronco e nos seus ramos a história de quatro pessoas que, fazendo dele a sua casa, encontraram o propósito das suas vidas. E consigo até imaginá-lo, daqui a muitos séculos, no centro de uma cidade cujos habitantes são fruto do mais puro amor.
O Orlando era um rapaz normal, embora, naturalmente, não seja completamente verdade, pode até dizer-se que a sua vida não teve nada digno de nota até àquela manhã de Março em que se apercebeu do aparecimento de uma pequena verruga na testa. Sem poder adivinhar que aquela verruga era o início de uma mudança radical na sua vida, nem sequer lhe deu importância. Começou, no entanto a ficar alarmado quando na manhã seguinte, não só a verruga do dia anterior estava maior, como uma nova verruga tinha aparecido, desta vez por baixo do lábio inferior. Os meses seguintes foram divididos entre correrias de um médico para outro e o aparecimento ou crescimento das verrugas que cobriam já quase completamente o seu rosto.
Foram tempos terríveis para o Orlando, a ver a sua face desaparecer gradualmente dando lugar ao monstro que o atormentava do outro lado do espelho, mas o que ele não sabia é que pior ainda estava para vir. Depois de tentados todos os tratamentos e verificando que, apesar de tudo, a sua saúde estava óptima e o problema era puramente estético, o Orlando voltou para casa. Foi pior porque o apoio e a força que estava confiante que iria encontrar nos amigos não estava lá. Parecia que tinha mudado de identidade, as pessoas ficavam claramente pouco à vontade perto dele, os sentimentos pouco passavam de pena ou discriminação, nunca mais foi convidado para nada e, desiludido com o ser humano, aos poucos acabou por deixar de falar com os outros e passava os seus dias no café, a ler ou a escrevinhar qualquer coisa.
A gota de água foi quando, no café que frequentava há anos, já nem sabia quantos, no café onde se sentia tão à vontade como se estivesse em casa, onde tratava os empregados pelo nome e eles faziam o mesmo com ele, nesse café onde sentia que se podia refugiar dos olhares constantes, lhe pediram cordialmente para evitar lá ir porque afastava a clientela. Foi como uma estocada certeira no coração, boquiaberto a olhar para o dono do café com um ar incrédulo sentiu que não aguentaria mais, sentiu que o golpe tinha sido fatal, não conseguia compreender porque faziam isto, porque tinha a sua vida mudado tanto. Ele continuava a ser a mesma pessoa! Não compreendia como é que uma alteração física podia destruir completamente a sua vida, como é que as pessoas não conseguiam relacionar-se com ele da mesma forma que antes. Ainda com os olhos fixos no dono do café sentiu que ia irromper em lágrimas, mas reuniu todas as suas forças e saiu porta fora. Foi a última vez que o Orlando foi visto por aquelas bandas. Dizem as histórias passadas de boca em boca sobre o selvagem rapaz-verruga que lá morava, que um dia começou a cheirar o ar e assim, de nariz levantado como quem persegue um aroma, foi andando no sentido do sol poente e nunca mais foi visto, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo.
O Octávio era daqueles gajos que parece um íman de mulheres, sempre me impressionou o efeito que ele tinha nelas, era impressionante como mudavam assim que o viam, ficavam indefesas, incapazes de controlar os seus impulsos. Claro que havia as que pareciam imunes, mas a maioria delas ficava totalmente parva. É que, ainda por cima, além da sua a figura de Apolo, o Octávio era a boa-disposição personificada, isto fazia dele uma pessoa muito popular entre ambos os sexos, os amigos conseguiam passar horas a ouvi-lo contar histórias das figuras ridículas que as mulheres faziam para o tentar seduzir e normalmente acabavam cheios de dores na barriga e nas bochechas de tanto rir. Mas a verdade é que elas ficavam completamente fora de si e observar este comportamento era já um passatempo dos amigos do Octávio.
O engraçado é que o Octávio não era para aí virado, não me interpretem mal, ele gostava de mulheres, mas procurava algo diferente, provavelmente procurava uma mulher que não se prostrasse aos seus pés, que não perdesse a compostura, uma mulher que visse além do seu aspecto físico. Acreditando plenamente que a sua alma gémea existia, pensou que sendo o mundo tão grande, não poderia perder tempo, estava convicto que o sítio onde estava já tinha nada para lhe oferecer e, com a roupa que tinha no corpo e algum dinheiro no bolso, partiu. Decidiu apanhar o comboio que saísse primeiro quando chegasse à estação e assim fez. E foi assim que o destino o levou para Norte.
A Gisela era afinadora de pianos, provavelmente uma das melhores, nunca usou nada electrónico e ao fim de pouco mais de um ano abdicou completamente do diapasão e passou a afinar unicamente de ouvido. Nunca houve um cliente descontente e muitos deles acabaram por se tornar bons amigos, inclusivamente, podia dizer-se que eram os seus únicos amigos. No entanto, havia clientes mais desinteressados e que ainda nem tinham reparado que a Gisela era cega. O som era a sua vida, não só a sua profissão e os seus tempos livres, já que quando não estava a trabalhar estava a tocar ou ouvir música, mas era o som que a guiava escuridão adentro. Contudo, com o passar dos anos começou a sensação de necessidade de algo mais, algo maior, mais elevado, o Som! Um som tão sublime que uma nota apenas seria capaz de despoletar as mais latentes e majestosas emoções. Não sabia como poderia designar tal som, pelo que chamava-lhe apenas o Som. Ao princípio, quando idealizou que o Som poderia existir pensava que era só uma ideia maluca, mas agora sentia um vazio interior que acreditava poder ser unicamente preenchido pelo Som, e desta forma a sua existência teria que ser real, caso contrário seria como haver um puzzle com uma peça inexistente e isso não tinha sentido, teria que existir algures a peça que a completava.
Certo dia, tinha a Gisela acabado de afinar o fá da terceira oitava quando o cliente, pressionando insistente e repetidamente a respectiva tecla, garantia que tinha um exímio ouvido e constatava claramente que a afinação não estava perfeita. A Gisela, com a máxima calma, levantou-se, guardou as suas poucas ferramentas de trabalho, que não incluíam mais do que duas cunhas uma chave, na pequena bolsa para o efeito, colocou-a no bolso de trás das calças e saiu sem dizer uma palavra. Sem qualquer hesitação foi para casa, preparou uma mochila com alguma roupa e produtos de primeira necessidade e partiu para Sul.
Não sei onde era, mas certamente não havia civilização num raio de muitos quilómetros. Embora bela, a paisagem seria bastante banal não fosse a enorme árvore que se destacava de tudo o resto. Era um cedro, um grande cedro que, embora não fosse muito alto, tinha uma envergadura imponente. Duas pessoas de mãos dadas não conseguiam abraçá-lo e o diâmetro da circunferência formada pelas pontas dos seus ramos atingia vários metros, o seu peso fazia com que as pontas mais longínquas quase tocassem o chão, o que tornava quem estivesse debaixo da sua copa praticamente invisível e bastante abrigado das intempéries. A cerca de um quilómetro do cedro havia um riacho, do outro lado do qual estava uma mata povoada principalmente por pinheiros baixos.
Nesta paisagem, à primeira vista deserta, aparecem quatro pessoas. Quatro pessoas desconhecidas entre si, vindas de quatro direcções distintas, todas dirigindo-se na direcção do grande cedro. Quatro pessoas que, ainda sem o saberem estavam prestes a terminar a sua jornada. A maioria começa, com alguma estranheza, a algumas dezenas de metros a aperceber-se dos outros, mas a Gisela, avançando devagar mas confiante, já sabia há algum tempo que mais três pessoas caminhavam nas redondezas. Tinha até a noção, pelo que conseguia inferir através da variação da amplitude do som dos seus passos, que todos se dirigiam para um ponto comum, onde se encontrariam. Ao chegar à orla da copa do grande cedro foram abrandando, cumprimentando-se entre si com alguma desconfiança, excepto a Gisela, que emitiu um sonoro “Muito boa tarde a todos” e tacteando a ponta dos ramos gatinhou por baixo deles para se sentar encostada ao velho tronco desfrutando a sombra. Não sei se terá sido pela improbabilidade daquelas quatro pessoas desconhecidas se encontrarem naquela sítio recôndito, ou se terão eles sentido algo de inexplicável, mas a verdade é que nenhum deles conseguia fazer-se acreditar que estavam juntos por acaso. E no caso de estarem a conseguir, estava ali aquela rapariga com uma bengala de cego, sentada com um ar confiante, como se soubesse alguma coisa que os outros não sabiam. Não, nada daquilo podia ser obra do acaso!
Acabaram por se sentar todos debaixo da copa do grande cedro, e, embora o Octávio ainda estivesse nitidamente a tentar controlar o choque que a aparência do Orlando tinha provocado em si, a Gabriela olhava-o com uma expressão de fascínio e, passando as mãos pelo seu rosto, coisa que desde que a doença tinha começado ninguém ainda tinha feito sem usar luvas de borracha, exclamou calmamente:
- És tão diferente! Como é que te chamas?
O Orlando, ainda afectado pelo choque, há já bastante tempo que não sentia alguém tratá-lo com tanta naturalidade, respondeu trémulo.
– Orlando. E tu?
– Gabriela. E vocês?
Perguntou virando-se para os outros, que responderam com os seus nomes.
– Não sei se alguém acredita que nos encontrámos aqui por pura coincidência.
Continuou.
– Mas eu acho que viemos todos à procura de algo, e por alguma razão a nossa busca trouxe-nos aqui.
Terminou passando as costas da mão na face do Orlando, que sem tirar os olhos da Gabriela retorquiu:
– Eu só procurava alguém que me tratasse como uma pessoa, alguém que não deixasse a minha aparência fazer esquecer o facto de que por dentro sou um ser humano como os outros. E quer-me parecer que posso ter encontrado.
Terminou distendendo a boca no esgar que era o seu sorriso.
– Como é que conseguiste vir aqui ter sozinha? Perguntou o Octávio à Gisela.
– E de que é que vens à procura?
– Quando de é cego de nascença aprende-se a ver com os outros sentidos e, quando tudo falha a minha bengala não me deixa esbarrar nas coisas. Respondeu.
– E se vos disser do que venho à procura, vão achar que sou maluca.
– Só dizes se quiseres, naturalmente ninguém te vai obrigar, mas parece-me a melhor situação para partilhares a tua maluqueira, com o dia que estamos a ter hoje acho que está toda a gente com a mente aberta.
Respondeu a Gabriela em tom bem-disposto.
– Se querem mesmo saber, vim à procura de um som.
Continuou Gisela, e como se pudesse ver as expressões de interrogação nas faces dos seus companheiros, passou a tentar explicar.
– As pessoas que vêm têm o vício de pôr toda a confiança na visão. Ver é tudo, se não há algo que não conseguem ver, têm tendência para duvidar da sua existência. A audição também nos permite conhecer as coisas, sentir o mundo, e até mesmo construir imagens mentais dele. Não pensem na minha cegueira como um impedimento, mas como uma diferença, uma diferença que, como a tua Orlando, não nos torna menos humanos. E no meu caso, embora possa parecer incapacitante, a verdade é que me faz ter capacidades que vocês não têm, permite-me também ver as coisas e até algumas que vocês não vêm. Por exemplo…
Continuou adivinhando a pergunta que se materializava nas mentes dos outros.
– Há um riacho a cerca de um quilómetro nesta direcção, mais adiante há árvores, há um ninho com uma cria no topo desta árvore, e tu Octávio, tens 55 cêntimos no bolso! E sei isto tudo apenas pelo som. Toda a minha vida gira à volta do som e eu procuro um som em particular, um som que nunca ouvi antes mas que tenho a certeza que vou reconhecer!
Confirmando a precisão da informação sobre as moedas no seu bolso, o Octávio quebrou os segundos de silêncio que aconteceram depois da Gisela se calar.
– Espero sinceramente que o encontres!
E a Gisela sentiu a sinceridade nas suas palavras.
– E tu? Retorquiu.
– O que procuras tu?
– Eu só procuro o amor verdadeiro. Respondeu.
– Procuro, no fundo, algo não muito diferente do que o Orlando procura, procuro uma mulher que me ame pelo que sou e não pelo que eu aparento. De uma mulher que consiga dar mais importância à minha personalidade que ao meu físico. Olhando para a Gisela enquanto terminava a frase, pensou se não teria também já encontrado a pessoa que procurava, mas não partilhou este pensamento com os demais.
– Mas tu és todo bom, e tal, é?
Perguntou desinteressada a Gabriela perante o olhar incrédulo do Octávio.
– Bom… as mulheres têm uma forte tendência para achar que sim. Tu não achas?
– Para ser sincera não fazes bem o meu estilo. Sem querer ofender, acho-te demasiado banal
– Tudo bem! Respondeu o Octávio com um sorriso.
– Já é um começo!
Mas a verdade é que sentiu uma ponta de mágoa que foi afastada com sucesso pela carícia da Gisela, que passou a mão pela sua nuca parecendo que, como sempre, tinha a habilidade de sentir as emoções das pessoas mesmo sem conseguir ver as suas expressões faciais.
– Só faltas tu.
Disse o Octávio à Gabriela, tentando disfarçar o despeito que ainda perdurava.
– Eu lamento desapontá-los, mas a verdade é que eu, apesar de saber que vim à procura de algo, não sei o que é esse algo, só sei que sinto a sua falta na minha vida.
– Bom, o que é que fazemos agora? Perguntou o Orlando. – Já está a ficar de noite e a única coisa que eu tenho para comermos são estas maçãs que roubei num pomar lá atrás.
– Acho que vamos ter que passar a noite aqui, eu tenho aqui um pacote de bolachas e uma garrafa de água, dá para nos remediarmos até amanhã. Depois logo vemos o que fazemos. Respondeu a Gisela, colocando os seus mantimentos junto das cerca de dez maçãs. Todos concordaram e, após fazerem desaparecer os parcos mantimentos em amena conversa, vencidos pela exaustão da caminhada que todos tinham dado até ali, deixaram-se adormecer por lá, abrigados pela copa do grande cedro e ninguém se sentiu desabrigado ou desprotegido, aliás, sentiam-se mais em casa do que alguma vez já tinham sentido.
Na manhã seguinte, aos primeiros raios de sol, foram acordados pelos pássaros que num bando cada vez maior percorriam o céu matinal, formando figuras no ar como se de uma obra de arte viva se tratassem. A Gisela foi a primeira a sair de debaixo da copa do grande cedro e sentar-se a sentir o sol na cara movendo a cabeça no sentido do chilrear uníssono do bando que já somava milhares de indivíduos. Até onde ia a impressionante capacidade auditiva da Gisela, é impossível saber ao certo, mas podemos acreditar que ela conseguia, através do chilrear individual da cada pássaro formar uma imagem mental das formas que o bando ia tomando. Minutos depois estavam os quatro sentados lado a lado, de olhos fechados, sem ninguém dizer uma palavra, a sentir na face o calor do dia que começava. Passou certamente mais de meia hora até que o Octávio, provavelmente impelido pelo seu estômago, disse que precisavam de arranjar comida. Dado o insuficiente jantar do dia anterior, todos concordaram sem reservas e decidiram separar-se em dois grupos, um dos quais iria no sentido de onde o Orlando veio, onde era certo poderem pelo menos subtrair alguma fruta dos pomares espalhados, enquanto o outro iria no sentido do riacho para verificar se a água parecia potável, e tentar também explorar a mata em busca de alimento, onde certamente encontrariam, pelo menos, amoras e pinhões.
Não haveria naturalmente nenhum problema na definição dos grupos e a Gabriela tomou a iniciativa dizendo que ia com o Orlando aos pomares, e assim se separaram, cada casal com o seu destino.
Ao chegar ao riacho, a Gisela ajoelhou-se e debruçou-se cheirando a água. – Parece-me boa. Disse. – A mim também! Respondeu o Octávio já com os pés dentro de água. – E fresquinha! Ambos beberam e, depois de atravessarem o riacho, cuja água apenas lhes chegava à cintura na zona mais profunda, tomaram um débil pequeno-almoço de amoras da silva que pendia do outro lado. Avançaram pela mata e regressaram pouco mais de uma hora depois com a camisola do Octávio cheia com um sortido de amoras, medronhos, cerejas silvestres e pinhões. Ao regressarem ao riacho sentaram-se junto à água para descansar antes de voltarem ao grande cedro que, na situação em que estavam era o mesmo que voltar para casa. Sentaram-se ao lado um do outro, na margem do riacho à sombra de uma árvore que crescia quase na horizontal, invadidos pela tranquilidade do lugar. Depois de olhar para a Gisela durante algum tempo numa tentativa de discernir os seus sentimentos, colocou o braço à volta dos seus ombros, ao que ela respondeu aproximando-se dele e deitando a sua cabeça no seu peito. Foi aí que a sua vida mudou para sempre! Era o Som! Tinha a certeza que era! O batimento compassado do coração do Octávio percorria todo o seu corpo deixando uma sensação de plenitude. Não podia estar enganada, tinha encontrado o Som, a sua busca tinha terminado e sentia-se completa, feliz, mais feliz que nunca. Era aquele som que a preenchia, a peça que faltava no puzzle que era a sua vida. E ficaram ali, não sabem quanto tempo, sem dizer uma palavra, prolongando o momento em que se completaram.
Quando chegaram ao primeiro pomar, a Gabriela e o Orlando iam já de mão dada, o que para o Orlando era ainda uma sensação muito estranha.
Casualmente, quase como se estivesse a falar sozinho, disse:
– Acho que posso considerar que tive sorte. Viemos os quatro à procura de alguma coisa e parece que até agora fui o único a encontrá-la.
A Gabriela, virando-se de frente para ele e olhando bem fundo nos seus olhos e com tal intensidade que ambos deixaram escorrer uma lágrima, respondeu:
– Eu também já encontrei! E uniram-se num abraço que, por qualquer um deles, podia ter durado para sempre.
Não se sabe bem o que aconteceu depois, mas eu gosto de acreditar que eles ainda lá estão, a viver debaixo do grande cedro, e esse, esse está lá de certeza, e tem escrita no seu tronco e nos seus ramos a história de quatro pessoas que, fazendo dele a sua casa, encontraram o propósito das suas vidas. E consigo até imaginá-lo, daqui a muitos séculos, no centro de uma cidade cujos habitantes são fruto do mais puro amor.
segunda-feira, 8 de agosto de 2005
poema para 8 de agosto
Quem diz que Amor é falso ou enganoso
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
Luís de Camões
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
Luís de Camões
terça-feira, 2 de agosto de 2005
Amanhã é segunda-feira!
O Pedro bebeu ontem um Caprisonne, eu hoje comi jaquinzinhos, ouvimos Yngwie Malmsteen, em cassete gravada de vinil (para mim aquele ruído e os picos característicos do velho LP são o som que remexer nos confins da memória faz, como se não fosse o ruído a trazer a memória, mas sim por ela provocado, não pela memória em si, mas pelo processo que a traz de volta), o Cavaco e o Soares andam aí outra vez, os Pop del’Arte, parece que também, o Roger Waters pondera voltar aos Pink Floyd, até já vi anunciado um concerto de Beach Boys (se calhar são só as cabeças, à Futurama) para este mês… eu acho é que o universo se começou a contrair e o tempo começou a andar para trás!
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Ela
Lá vem ela, linda como sempre, a mulher que eu amo, que qualquer partícula minha ama até à mais ínfima partícula dela. Com a sua regularidade precisa, lá vinha ela por entre as mesas da esplanada, acabando por sentar-se à mesa habitual, duas mesas à minha frente. Pede o seu garoto, encosta-se, abre o seu livro, sacode o cabelo de uma forma que me faz estremecer e começa a ler. É exactamente neste momento do dia que perco a noção do tempo, fico ali, como que suspenso fora do mundo, mundo onde só ela existe. Nesse momento ela é minha e eu sou o homem mais feliz do mundo. É por ela que me levanto de manhã, porque ela é o estereótipo da perfeição, a suavidade com que fala com o empregado, a subtileza com que se move, o seu andar leve, como se flutuasse. Como é que eu podia não amá-la assim, era impossível! Tudo era perfeito, sentia-me pleno e feliz, apaixonado por ela e por tudo! Embora o tempo não significasse nada, ela leu durante um pouco menos que uma hora, pagou e saiu, eu, naturalmente já tinha pago e saí uns metros atrás dela hipnotizado pelo movimento do seu corpo, sentia que existia uma força invisível que me puxava, que se quisesse parar as pernas não obedeceriam, mas eu não queria parar. Ela parou à porta de casa, entrou e eu segui para a minha,
Como normalmente, depois de jantar escrevi-lhe uma carta, e deitei-me cedo, para conseguir levantar-me a tempo de a ver sair. Pensei nela enquanto não adormeci deleitando-me com o facto de ela preencher completamente a minha vida.
Como sempre, levantei-me cedo, despachei-me e parei na esquina para o melhor momento da minha manhã, em que a via sair de casa e entrar no carro da colega que lhe dava boleia. Pronto, estava começado o dia da melhor maneira. Era sempre um momento fugaz, mas sem ele nem sequer concebia a ideia de fazer mais alguma coisa, acho que se ela não aparecesse eu ficava ali, eternamente parado na esquina.
À tarde, já estava eu na esplanada com a ansiedade normal à espera que ela chegasse, quando ela apareceu. Reparei que a única mesa vazia era exactamente à minha frente! Ultrapassei o repentino momento de pânico e consegui evitar fugir dali a correr, respirei fundo e disse para mim mesmo que o risco era mínimo, se nem era provável ela reparar em mim, muito menos seria ela tentar qualquer tipo de contacto; acalmei-me e desfrutei da proximidade quando ela se sentou. Quando o vento soprava conseguia sentir o seu perfume, inspirei-o como se fosse mais importante que o próprio ar, e era; era inebriante, tão inebriante que quando me apercebi ela estava a olhar directamente para mim! Numa fracção de segundo apoderou-se de mim um pavor incontrolável que não diminuiu quando me apercebi que ela sorria. Congratulei-me pelo meu hábito de pagar logo a despesa e desapareci dali num ápice. Ainda com o aroma dela nas narinas, dei-me ao trabalho de cheirar quase todos os perfumes de uma loja até encontrar o que ela usava, mas assim que o identifiquei compreendi que não era a mesma coisa, não era o mesmo aroma, era vazio, sem essência. Claro que não era o mesmo, faltava o cheiro dela aliado ao do perfume. Compreendendo que não me serviria para nada não comprei o perfume, e saí da loja deixando a empregada a praguejar qualquer coisa relacionada com umas pessoas que, segundo me pareceu, só lá iam para chatear. Jantei ali perto e fui para casa, onde me sentei a escrever-lhe uma carta, passadas cerca de duas horas pousei a caneta, dobrei as folhas, meti-as no envelope e fechei-o. Com a mesma solenidade de sempre, guardei a carta justo das outras, na gaveta da cómoda; pensei que brevemente ia ter que libertar outra gaveta para as cartas e deitei-me a pensar: Porque sorria ela? Não podia correr riscos destes! E se ela falasse comigo? Uma só frase podia deitar tudo a perder! Tenho que ser mais cuidadoso! Decidi que passaria a observá-la do banco do jardim ao lado da esplanada.
No dia seguinte, como em todos os outros, depois do meu momento matinal de plenitude, e do período do dia em que sinto não existir realmente, lá estava eu, desta vez sentado no banco do jardim, com um jornal para tapar a cara, quando ela chegou com a sua pontualidade quase mecânica que ainda me fazia amá-la mais, se é que tal era concebível. Reparei que não trazia o livro e desconfiei. Abri o jornal e fiquei a observá-la pelo canto descaído. Ela parecia descontraída, observando as pessoas à sua volta. Não estava muito satisfeito com a distância a que tinha que estar, mas era melhor jogar pelo seguro. No entanto, toda esta alegada segurança foi ruindo à medida que o empregado se aproximava de mim com uma cerveja na mão. – É da parte daquela senhora. Disse perante o meu olhar boquiaberto. – Se quiser, está convidado a sentar-se na mesa dela. Demorei alguns segundos a reagir e respondi que por educação iria aceitar a cerveja, mas que, por favor, dissesse à senhora que não podia conhecê-la. Observei o empregado a voltar, falar com ela e perante o meu espanto, enquanto eu pensava que ela iria sentir-se ferida no orgulho e nunca mais olhar para mim, eis que com um sorriso ela ergue o seu copo na minha direcção numa atitude tão pacífica que aparentava uma perfeita compreensão e respeito pela minha decisão. Fiquei abismado, esta mulher era única, verdadeiramente perfeita! Senti algo a percorrer o meu corpo partindo da zona do peito e espalhando-se em todas as direcções, de dentro para fora, quase temi explodir quando aquela sensação chegasse à pele, mas senti que irradiou de mim como uma onda de energia. Nunca mais fui o mesmo a partir desse momento, foi nesse momento que me apercebi da dimensão que o amor podia atingir. Abriu-me as perspectivas, nunca pensei que fosse possível amar alguém assim, mas era! Um sentimento avassalador que me fazia sentir que a qualquer momento deixaria de caber dentro de mim. Não consegui evitar as lágrimas que nem sabia se eram de alegria ou de tristeza, pensei que eram simplesmente lágrimas de amor e afastei-me com a sensação de que o chão estava mais macio que antes.
Cheguei a casa e comecei a escrever-lhe outra carta. Um ronco do estômago fez-me reparar na pilha de páginas que já tinha escrito, a pilha de páginas fez-me aperceber que já deviam ter passado várias horas, informação que o relógio confirmou, tinham já passado mais de quatro horas. Admoestei-me porque devia estar já a dormir, se de manhã não me conseguisse levantar a tempo de a ver nunca me conseguiria perdoar. Naturalmente que mesmo que quisesse, nunca conseguiria deixar-me dormir demais, e à hora precisa vi-a sair. Como sempre já tinha a sua boleia à espera, mas quando o carro arrancou ela pôs o braço de fora e acenou. Acenou para quem? Não parecia ter sido para ninguém que estivesse ali, ninguém respondeu. Fiquei apreensivo, as coisas não estavam a correr como eu tinha previsto, ela não devia tentar aproximar-se de mim, ela nem devia saber que eu existo! Pensei que devia desaparecer por algum tempo mas sabia que nunca conseguiria, e ao fim da tarde lá estava eu outra vez, sentado no banco do jardim a tentar controlar o pânico que o atraso dela, que já ia em mais de dois minutos, me estava a provocar. Ao olhar nervosamente para o relógio uma outra vez senti o aroma. Completamente petrificado, ali fiquei a sentir o seu perfume, o perfume da mulher que eu idolatrava, paralisado por um tempo que tanto pode ter sido uma fracção de segundo como uma hora, ao fim do qual, consegui virar lentamente o pescoço para o lado de onde vinha o aroma e lá estava ela, sorriso aberto e sincero, linda como só ela podia ser, a proximidade permitiu-me adivinhar a textura da sua pele que acariciei mentalmente. Não sei quanto tempo passou até ela falar, mas por mim podia ter sido a eternidade, se ela não tivesse falado, teria ficado ali para sempre, e para sempre seria feliz. Mas ela quebrou o silêncio com um: “Então? Por aqui outra vez?”. A suavidade da sua voz fazia parecer que todo o ruído à volta deixava de existir, sentia que quando ela falava, todos os outros sons se calavam em sinal de respeito. Abri a boca para responder, mas as palavras não saíram. Tentei de novo. Nada. Ela, não perdendo o sorriso, disse: – Não é preciso dizeres nada, podemos só desfrutar da companhia e da paz deste fim de tarde. Seria este momento real? Não seria mais uma das minhas fantasias? Parecia tudo estranhamente perfeito, ela ali ao meu lado, sem necessidade de palavras. Parecia até que me compreendia! Deixei-me ficar e o tempo ficou suspenso até ao momento em que ela se levantou e, com a sua natural simpatia se despediu com um inquietante “Então, até amanhã!”. A muito custo consegui produzir um pequeno aceno com a cabeça, e fiquei a vê-la a afastar-se tentando digerir o momento. Uma parte de mim queria dizer-lhe o que sentia, queria abraçá-la, beijá-la, passar com ela o resto da vida. Queria que ela passasse a fazer parte da minha vida, não apenas nos efémeros momentos em que a conseguia observar, mas sempre, queria que ela estivesse sempre comigo. Mas, à medida que o meu estado de euforia se foi atenuando, conseguiu fazer prevalecer a razão. Porquê correr o risco de estragar algo tão belo? Porquê destruir um amor tão puro? Sim, porque eu tinha consciência que ela era real, teria defeitos, nunca conseguiria cumprir as expectativas de perfeição que eu lhe tinha inculcado. E porquê submeter-me a isso? Ela já era minha, perfeita como eu a desejava e era essa pessoa que eu amava com todas as minhas forças. Eu amava a sua essência, não amava o que ela se poderia vir a revelar. Não, não podia deixar isso acontecer, não podia deixá-la aproximar-se. Mas a verdade é que depois daquela tarde nunca mais me iria conseguir satisfazer ao observá-la ao longe. O que fazer? Continuei no banco do jardim à procura de uma solução, e já a luz do dia esmorecia quando tive uma ideia, uma solução para ela passar a fazer parte da minha vida sem correr o risco de estragar este sentimento perfeito. Estremeci perante a radicalidade da solução, mas era a única, tinha que ser assim, não a queria perder! Além do mais, apesar de eu me ter proibido de pensar nisso, a possibilidade de ela conhecer alguém era real, e só a ideia dessa possibilidade fez-me perceber porque me impunha a proibição, sentia que o meu sangue fervia. Tinha mesmo que ser assim! Levantei-me, fui até à casa dela, toquei, à tradicional pergunta respondi que era a pessoa com quem ela tinha estado no banco do jardim. Ela abriu, convidou-me a entrar e quase me fez desistir do meu plano, mas disse mais uma vez a mim próprio que era a única solução e com isto, quando ela se virou de costas, com um golpe seco senti o seu pescoço partir, senti o seu corpo desmoronar-se. Peguei nela, deitei-a na cama, despi-a, despi-me, pousei a roupa onde não se sujasse e, inserindo a mão por baixo do esterno, retirei-lhe o coração e comi-o, ainda quente. Lavei-me, vesti-me, peguei na roupa dela e saí. Agora posso dizer que ela faz parte de mim, está sempre comigo e eu amo-a mais que nunca. Quando quero senti-la basta-me cheirar a sua roupa e sinto o seu coração a bater dentro do meu peito. Ela é minha para sempre e eu sou para sempre dela.
Como normalmente, depois de jantar escrevi-lhe uma carta, e deitei-me cedo, para conseguir levantar-me a tempo de a ver sair. Pensei nela enquanto não adormeci deleitando-me com o facto de ela preencher completamente a minha vida.
Como sempre, levantei-me cedo, despachei-me e parei na esquina para o melhor momento da minha manhã, em que a via sair de casa e entrar no carro da colega que lhe dava boleia. Pronto, estava começado o dia da melhor maneira. Era sempre um momento fugaz, mas sem ele nem sequer concebia a ideia de fazer mais alguma coisa, acho que se ela não aparecesse eu ficava ali, eternamente parado na esquina.
À tarde, já estava eu na esplanada com a ansiedade normal à espera que ela chegasse, quando ela apareceu. Reparei que a única mesa vazia era exactamente à minha frente! Ultrapassei o repentino momento de pânico e consegui evitar fugir dali a correr, respirei fundo e disse para mim mesmo que o risco era mínimo, se nem era provável ela reparar em mim, muito menos seria ela tentar qualquer tipo de contacto; acalmei-me e desfrutei da proximidade quando ela se sentou. Quando o vento soprava conseguia sentir o seu perfume, inspirei-o como se fosse mais importante que o próprio ar, e era; era inebriante, tão inebriante que quando me apercebi ela estava a olhar directamente para mim! Numa fracção de segundo apoderou-se de mim um pavor incontrolável que não diminuiu quando me apercebi que ela sorria. Congratulei-me pelo meu hábito de pagar logo a despesa e desapareci dali num ápice. Ainda com o aroma dela nas narinas, dei-me ao trabalho de cheirar quase todos os perfumes de uma loja até encontrar o que ela usava, mas assim que o identifiquei compreendi que não era a mesma coisa, não era o mesmo aroma, era vazio, sem essência. Claro que não era o mesmo, faltava o cheiro dela aliado ao do perfume. Compreendendo que não me serviria para nada não comprei o perfume, e saí da loja deixando a empregada a praguejar qualquer coisa relacionada com umas pessoas que, segundo me pareceu, só lá iam para chatear. Jantei ali perto e fui para casa, onde me sentei a escrever-lhe uma carta, passadas cerca de duas horas pousei a caneta, dobrei as folhas, meti-as no envelope e fechei-o. Com a mesma solenidade de sempre, guardei a carta justo das outras, na gaveta da cómoda; pensei que brevemente ia ter que libertar outra gaveta para as cartas e deitei-me a pensar: Porque sorria ela? Não podia correr riscos destes! E se ela falasse comigo? Uma só frase podia deitar tudo a perder! Tenho que ser mais cuidadoso! Decidi que passaria a observá-la do banco do jardim ao lado da esplanada.
No dia seguinte, como em todos os outros, depois do meu momento matinal de plenitude, e do período do dia em que sinto não existir realmente, lá estava eu, desta vez sentado no banco do jardim, com um jornal para tapar a cara, quando ela chegou com a sua pontualidade quase mecânica que ainda me fazia amá-la mais, se é que tal era concebível. Reparei que não trazia o livro e desconfiei. Abri o jornal e fiquei a observá-la pelo canto descaído. Ela parecia descontraída, observando as pessoas à sua volta. Não estava muito satisfeito com a distância a que tinha que estar, mas era melhor jogar pelo seguro. No entanto, toda esta alegada segurança foi ruindo à medida que o empregado se aproximava de mim com uma cerveja na mão. – É da parte daquela senhora. Disse perante o meu olhar boquiaberto. – Se quiser, está convidado a sentar-se na mesa dela. Demorei alguns segundos a reagir e respondi que por educação iria aceitar a cerveja, mas que, por favor, dissesse à senhora que não podia conhecê-la. Observei o empregado a voltar, falar com ela e perante o meu espanto, enquanto eu pensava que ela iria sentir-se ferida no orgulho e nunca mais olhar para mim, eis que com um sorriso ela ergue o seu copo na minha direcção numa atitude tão pacífica que aparentava uma perfeita compreensão e respeito pela minha decisão. Fiquei abismado, esta mulher era única, verdadeiramente perfeita! Senti algo a percorrer o meu corpo partindo da zona do peito e espalhando-se em todas as direcções, de dentro para fora, quase temi explodir quando aquela sensação chegasse à pele, mas senti que irradiou de mim como uma onda de energia. Nunca mais fui o mesmo a partir desse momento, foi nesse momento que me apercebi da dimensão que o amor podia atingir. Abriu-me as perspectivas, nunca pensei que fosse possível amar alguém assim, mas era! Um sentimento avassalador que me fazia sentir que a qualquer momento deixaria de caber dentro de mim. Não consegui evitar as lágrimas que nem sabia se eram de alegria ou de tristeza, pensei que eram simplesmente lágrimas de amor e afastei-me com a sensação de que o chão estava mais macio que antes.
Cheguei a casa e comecei a escrever-lhe outra carta. Um ronco do estômago fez-me reparar na pilha de páginas que já tinha escrito, a pilha de páginas fez-me aperceber que já deviam ter passado várias horas, informação que o relógio confirmou, tinham já passado mais de quatro horas. Admoestei-me porque devia estar já a dormir, se de manhã não me conseguisse levantar a tempo de a ver nunca me conseguiria perdoar. Naturalmente que mesmo que quisesse, nunca conseguiria deixar-me dormir demais, e à hora precisa vi-a sair. Como sempre já tinha a sua boleia à espera, mas quando o carro arrancou ela pôs o braço de fora e acenou. Acenou para quem? Não parecia ter sido para ninguém que estivesse ali, ninguém respondeu. Fiquei apreensivo, as coisas não estavam a correr como eu tinha previsto, ela não devia tentar aproximar-se de mim, ela nem devia saber que eu existo! Pensei que devia desaparecer por algum tempo mas sabia que nunca conseguiria, e ao fim da tarde lá estava eu outra vez, sentado no banco do jardim a tentar controlar o pânico que o atraso dela, que já ia em mais de dois minutos, me estava a provocar. Ao olhar nervosamente para o relógio uma outra vez senti o aroma. Completamente petrificado, ali fiquei a sentir o seu perfume, o perfume da mulher que eu idolatrava, paralisado por um tempo que tanto pode ter sido uma fracção de segundo como uma hora, ao fim do qual, consegui virar lentamente o pescoço para o lado de onde vinha o aroma e lá estava ela, sorriso aberto e sincero, linda como só ela podia ser, a proximidade permitiu-me adivinhar a textura da sua pele que acariciei mentalmente. Não sei quanto tempo passou até ela falar, mas por mim podia ter sido a eternidade, se ela não tivesse falado, teria ficado ali para sempre, e para sempre seria feliz. Mas ela quebrou o silêncio com um: “Então? Por aqui outra vez?”. A suavidade da sua voz fazia parecer que todo o ruído à volta deixava de existir, sentia que quando ela falava, todos os outros sons se calavam em sinal de respeito. Abri a boca para responder, mas as palavras não saíram. Tentei de novo. Nada. Ela, não perdendo o sorriso, disse: – Não é preciso dizeres nada, podemos só desfrutar da companhia e da paz deste fim de tarde. Seria este momento real? Não seria mais uma das minhas fantasias? Parecia tudo estranhamente perfeito, ela ali ao meu lado, sem necessidade de palavras. Parecia até que me compreendia! Deixei-me ficar e o tempo ficou suspenso até ao momento em que ela se levantou e, com a sua natural simpatia se despediu com um inquietante “Então, até amanhã!”. A muito custo consegui produzir um pequeno aceno com a cabeça, e fiquei a vê-la a afastar-se tentando digerir o momento. Uma parte de mim queria dizer-lhe o que sentia, queria abraçá-la, beijá-la, passar com ela o resto da vida. Queria que ela passasse a fazer parte da minha vida, não apenas nos efémeros momentos em que a conseguia observar, mas sempre, queria que ela estivesse sempre comigo. Mas, à medida que o meu estado de euforia se foi atenuando, conseguiu fazer prevalecer a razão. Porquê correr o risco de estragar algo tão belo? Porquê destruir um amor tão puro? Sim, porque eu tinha consciência que ela era real, teria defeitos, nunca conseguiria cumprir as expectativas de perfeição que eu lhe tinha inculcado. E porquê submeter-me a isso? Ela já era minha, perfeita como eu a desejava e era essa pessoa que eu amava com todas as minhas forças. Eu amava a sua essência, não amava o que ela se poderia vir a revelar. Não, não podia deixar isso acontecer, não podia deixá-la aproximar-se. Mas a verdade é que depois daquela tarde nunca mais me iria conseguir satisfazer ao observá-la ao longe. O que fazer? Continuei no banco do jardim à procura de uma solução, e já a luz do dia esmorecia quando tive uma ideia, uma solução para ela passar a fazer parte da minha vida sem correr o risco de estragar este sentimento perfeito. Estremeci perante a radicalidade da solução, mas era a única, tinha que ser assim, não a queria perder! Além do mais, apesar de eu me ter proibido de pensar nisso, a possibilidade de ela conhecer alguém era real, e só a ideia dessa possibilidade fez-me perceber porque me impunha a proibição, sentia que o meu sangue fervia. Tinha mesmo que ser assim! Levantei-me, fui até à casa dela, toquei, à tradicional pergunta respondi que era a pessoa com quem ela tinha estado no banco do jardim. Ela abriu, convidou-me a entrar e quase me fez desistir do meu plano, mas disse mais uma vez a mim próprio que era a única solução e com isto, quando ela se virou de costas, com um golpe seco senti o seu pescoço partir, senti o seu corpo desmoronar-se. Peguei nela, deitei-a na cama, despi-a, despi-me, pousei a roupa onde não se sujasse e, inserindo a mão por baixo do esterno, retirei-lhe o coração e comi-o, ainda quente. Lavei-me, vesti-me, peguei na roupa dela e saí. Agora posso dizer que ela faz parte de mim, está sempre comigo e eu amo-a mais que nunca. Quando quero senti-la basta-me cheirar a sua roupa e sinto o seu coração a bater dentro do meu peito. Ela é minha para sempre e eu sou para sempre dela.
terça-feira, 28 de junho de 2005
Um desejo?
Ontem vi uma estrela cadente e pedi um desejo. Pensando que acabaria com a guerra no mundo, desejei que toda a gente começasse a respeitar as opiniões, os credos e as filosofias dos outros. Logo me apercebi que, embora possa trazer mais paz à Irlanda e outros sítios, até talvez consiga ajudar (ou não) a resolver os problemas entre os israelitas e os palestinianos, foi um desejo desactualizado. Desactualizado porque a humanidade conseguiu descer ainda mais baixo. Desactualizado porque o esforço de uns no sentido de acabar com os conflitos ideológicos deu espaço para que a ganância de outros iniciasse novos conflitos, conflitos com razões muito mais mesquinhas, conflitos gerados não pelo antagonismo de crenças, mas pelo total desrespeito. Já lá vai o tempo em que até no infame acto de acabar com uma vida existia um sentido de honra. Agora matamos unicamente pelo vil metal, pelo vil combustível fóssil e achamos que evoluímos.
Nota mental: Na próxima estrela cadente pedir para toda a gente respeitar a propriedade alheia.
Nota mental: Na próxima estrela cadente pedir para toda a gente respeitar a propriedade alheia.
terça-feira, 21 de junho de 2005
A voz
A voz gritava. Tão alto gritava que me fez olhar em volta para ver se mais alguém estaria a ouvir, mas não, toda a gente agia como se nada estivesse a acontecer, mas a verdade é que a voz gritava. Era um lamento de profunda angústia, pleno de solidão que me provocou um arrepio na espinha e me fez eriçar os pelos dos braços. Demorei alguns instantes a perceber que a voz que gritava vinha de dentro de mim. No instante em que me apercebi disto os gritos esmoreceram, como se fosse esse o seu objectivo, o de me fazer perceber que dentro de mim habitava uma entidade quase alheia. - Quem és? Pensei. E imediatamente soube. Era a voz que existe dentro de mim e que me conhece até ao mais ínfimo pormenor. Comecei por sentir-me vulnerável, aquela voz conhecia-me como nem eu próprio conhecia, senti-me frágil, exposto. Mas de seguida o sentimento transformou-se em culpa. A voz tinha sempre estado dentro de mim, abandonada e emudecida. Mas ela conseguiu libertar-se da minha indiferença e isso é que era o importante, ia poder aproveitar tudo o que ela tinha para me dar e nunca mais a iria ignorar. Senti um misto de vitória e derrota. Sabia que a voz me iria dizer coisas que eu não ia gostar de ouvir, sabia que ia discordar das opiniões da voz, no entanto, sabia que era ela que ia ter razão, sempre. Acima de tudo sabia que ela me ia ajudar a tornar-me, a cada dia, uma pessoa melhor; porque eu não me conheço, mas a voz sim, até ao mais ínfimo pormenor.
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